SEGUNDO CAPÍTULO
Eu não sei exatamente que horas o relógio marcava quando acordei com Niall falando ao telefone, mas o dia estava claro. O cheiro de café invadiu as minhas narinas como se alguém tivesse me dado um tapa na cara, então presumi que ainda fosse cedo. Enterrei meu rosto no travesseiro e suspirei.
— Louis, você está acordado?
— Não — resmunguei.
Senti algo bater contra as minhas costas, e pela maciez, deduzi ser o travesseiro de Niall.
— Levante, bonitão. Temos uma proposta de trabalho.
— Nós poderíamos cogitar ter folga de vez em quando, não é? — Talvez, fosse a preguiça falando por mim, mas a ideia não me pareceu má.
— Você está me zoando? — Niall riu. — Se quiser continuar dormindo em paz, é melhor me ajudar a manter o nosso ganha-pão.
Muito a contragosto, apoiei-me penosamente sobre meus braços para sentar na cama. O vento frio atingiu meu peito nu e eu estremeci, e espreguicei-me ao coçar meus olhos. O quarto estava à meia-luz pela cortina estar fechada e minha visão sensível agradeceu por isso. Não notei quando Niall chegou perto, sentando-se na cama e sorrindo para mim, feliz e alegre como sempre. Ele estendeu as seis cartelas de meus remédios — dois anticoncepcionais e quatro suplementos para minha anemia — e também um copo d’água.
— Quem propôs o trabalho? E quanto vale? — Indaguei enquanto separava os comprimidos. Joguei-os em minha boca e os engoli de uma só vez.
— Um conhecido meu de Mullingar — Niall fez uma careta pelo meu jeito de tomar os remédios. — Ele se chama Bartley O’Neill. Tem a ver com cocaína, pelo visto, e ele disse algo sobre cinco mil libras.
Eu assobiei em surpresa e passei as mãos pelo rosto, depois de colocar o copo, agora vazio, sobre a mesinha ao lado da cama. Era bastante dinheiro, sem dúvidas. Poderíamos colocar uma boa quantia na poupança que tínhamos — o plano era nos mudar de Londres — e o resto nos manteria por algumas semanas tranquilamente. Haveria somente os gastos para contratar dois peões para averiguar a situação com a Contenção e então seria possível ficarmos tranquilos.
— Compensa? Ele disse a quantidade?
— Cerca de dois quilos e meio.
Acenei, concordando. Valia a pena.
— Certo, diga que aceitamos, então.
— Bartley pediu para que o procurássemos caso resolvêssemos pegar o bico. Ele está num hotel na zona sul. Disse que temos três dias para pensar sobre.
— Bom, ele te deu o endereço, não é? — Niall assentiu. — Vamos lá, então. Quanto antes acabarmos com isso, melhor.
Saltei da cama para esticar e estralar todo o meu corpo. Era uma habilidade que me acompanhava desde que eu entrara para o acampamento de treinamento para Impuros, pois nós conseguíamos alinhar nossos ossos sem nos transformarmos. Era satisfatório e bom para manter o corpo preparado caso precisássemos virarmos lobos inesperadamente.
Fui ao banheiro, fiz minhas necessidades e higiene matinal para então selecionar uma roupa. Estaríamos lidando com um traficante, portanto optei por peças discretas e que eu pudesse usar para esconder uma arma.
— Esse tal de Bartley deve ser rico, não é? Ele está em que hotel da zona sul?
— Egerton House.
— Caralho — ri em descrença. — Eu com certeza vou levar a Glock.
Niall sorriu e disse que iria pegar as chaves da picape. No canto do quarto tínhamos uma cômoda que usávamos para guardar documentos e alguns artigos pessoais, mas a última gaveta tinha um fundo falso bloqueado por digital, e era ali que guardávamos nossas armas e munições. Tínhamos três pistolas Glock G25 e um rifle Winchester. Apesar de antigo e até mesmo rústico, gostávamos de mantê-lo porque alguns trabalhos exigiam que fôssemos para áreas isoladas e de mata alta; a força do disparo do rifle era apropriado para abater um alfa Impuro grande.
— De onde você conhece esse tal de Bartley?
— Não me lembro muito bem. Acho que estudamos juntos em Mullingar, mas algumas vezes eu passei cios com ele.
Você passou alguns cios com alguém chamado Bartley? Porra, irlandês…
Assim que eu entrei no quarto para me trocar, Niall já não estava lá e eu pude ouvir a movimentação na cozinha. Coloquei as roupas e fui tomar café da manhã. Niall estava virado de costas, assim eu consegui notar que em cima da pia havia metade de uma beterraba, metade de uma cenoura e algumas folhas do que parecia ser couve. Ele jogou tudo no liquidificador velho que tínhamos e bateu aquela mistureba com água.
Niall despejou aquele líquido escuro num copo e trouxe à minha frente, colocou as mãos na cintura e esperou. O encarei com certo receio.
— O que é isto?
— Pesquisei na internet o que poderia ajudar a tratar sua anemia. Era para ser laranjas no lugar de couve, mas estavam muito caras e o site disse que tudo bem fazer essa troca.
— Niall, é marrom.
— É, e sua medula não trabalha como deveria — ele retrucou, sério.
Era difícil vê-lo daquele jeito. Comumente, só as risadas, piadas e palhaçadas vinham por parte do irlandês. Niall era como um ponto de luz que nunca apagava. Ou quase. Ele sempre foi bastante protetor e, depois que perdemos nossas famílias, essa atenção foi dobrada. Eu sabia que, pelo menos em alguma parte, aquilo era uma espécie de trauma pelo que aconteceu quando éramos crianças.
— Desculpe.
O loiro soriu e se inclinou para bagunçar meus cabelos. Peguei o copo e, apesar da péssima aparência que aquele suco tinha, eu bebi em uma só golada. Se a morte tivesse sabor, seria aquele. Mas, Niall soltou uma risada alta e gostosa, então a sensação ruim desapareceu.
— Certo, acabe de comer e vamos logo até o hotel. Estarei lá embaixo no carro.
Acenei com a cabeça e peguei um pouco dos ovos mexidos e das torradas que estavam sobre a mesa; comi enquanto eu checava as notícias que passavam na televisão. O Reino Unido estava praticamente fora de conflitos, mas alguns países ainda serviam como mediadores de negociações de paz. A Coroa Britânica estava ajudando a França, e as estatísticas apontavam para um bom desempenho nas intermediações. O nome da pessoa que cuidava das negociações de paz não foi revelado, mas aparentemente era muito bom em seu trabalho.
Depois que terminei de comer, lavei a louça e escovei meus dentes antes de descer até a garagem do prédio. Niall estava mexendo em seu celular dentro do carro mas, assim que entrei, ele deixou o aparelho de lado e deu partida.
Enquanto íamos até o hotel, notei uma movimentação da Contenção em algumas ruas. Eles faziam checagens e patrulhas todos os dias, mas aquela semana estava tendo mais muvuca que o comum. Talvez precisássemos de três peões para averiguar a situação para que não fôssemos surpreendidos durante a entrega da droga. Seria péssimo sermos pegos numa patrulha com dois quilos de cocaína.
— Chegamos.
Observei a fachada do hotel antes de saltar do carro. Era um prédio relativamente simples, mas em 2020 eles tinham fechado as portas para uma reforma e, agora, o Hotel Egerton House ocupava nada menos que um quarteirão inteiro. Os quartos eram constantemente visitados por personalidades muitíssimo influentes nacional e internacionalmente, como Meryl Streep, Maggie Smith, Elton John, David Beckham e Eric Clapton.
Por causa disso, as diárias iam de mil libras nos aposentos mais simples até cinco mil libras nos mais pomposos. Basicamente, teríamos que traficar cerca de dezessete quilos e meio de cocaína para pagarmos cinco dias naquele lugar.
Niall assobiou, levando minha atenção para ele. O loiro estava na entrada do hotel, com um olhar questionador como se dissesse “você vem ou não?”. Revirei meus olhos e caminhei até seu lado para que entrássemos naquele lugar enorme. Assim que passamos pela porta, o perfume suave da riqueza me atingiu.
Era como lavanda, rosas e um cheiro férrico no fundo, quase imperceptível. O saguão estava pouco movimentado, havia três hóspedes novos colocando as malas nos carregadores e fazendo check-in. Niall observava tudo com olhos curiosos enquanto andávamos até o balcão e, quando chegamos, um recepcionista de nome Andy Williams — a minúscula plaqueta dourada em seu uniforme estava tão excepcionalmente polida que seria impossível eu não vê-la — veio nos orientar.
— Olá, bem-vindos ao Hotel Egerton House! — seus dentes brilhantes e artificialmente brancos foram expostos num sorriso. — Desejam pegar um quarto?
— Mais ou menos isso — cocei o pescoço. Eu não estava acostumado àquele tipo de lugar, sempre era bastante desconfortável. — Nós meio que…
— São Impuros — ele disse num rosnado.
— Perdão?
— Sua marca — Andy sorriu desdenhosamente, empinando o nariz. — O quê? Vocês vieram correr atrás de emprego?
Franzi o cenho. Já era a segunda vez que nos destratavam naquela semana, e eu não estava com saco para um beta arrogante que nem Andy Williams. Além de que, o ato de rosnar era a maior prova de repugnância que algum lobisomem poderia dar a um Impuro. Respirei fundo.
— Escuta, meu bem — eu sorri de canto de boca. — Eu não tenho tempo para essa merda, entende? Eu preciso ir à uma reunião bem importante e se você puder, por favor, fazer a porra do seu trabalho e checar se meu chefe está aí, eu ia ficar muito agradecido.
Andy Williams encarou-me, boquiaberto. Gente da parte chique da cidade nunca ouviu um palavrão? Que pena. O beta tossiu como se para limpar a garganta e estralou os dedos.
— Qual o nome do seu chefe?
— Bartley O’Neil.
Ele mexeu algo rapidamente em seu computador, provavelmente procurando por aquele nome no sistema e em seguida fez um telefonema. Andy Williams não estava com medo, só que, de certa forma, seu rosto estava baqueado: eu o tinha deixado possesso. A sua aura era fraca por ser um beta, mas ela estava agitada e era como se ele quisesse atacar. Óbvio, eram conclusões bem mais profundas e que talvez nem Andy notasse que estava acontecendo.
Lobos Impuros tinham sentidos e instintos bem mais primitivos, e a nossa percepção também era dez vezes mais apurada do que a de um lobisomem. Eu conseguia sentir, por assim dizer, as emoções de Andy. E eu apostaria tudo que, se eu abrisse a boca para pedir mais alguma coisa, ele socaria a minha cara.
Gente rica tem um ego muito frágil.
— Ele está no quarto 401 — o beta disse sem nenhum pingo de ânimo.
— Obrigado, Andy — sorri enquanto cuspia escárnio ao pronunciar seu nome.
Niall me empurrou de leve pelo ombro e fomos até o elevador. Era nítido que o loiro estava prendendo a risada, e ele apertou o botão inúmeras vezes numa tentativa inútil de fazer o elevador descer mais rápido. Assim que as pessoas saíram e nós entramos, foi questão das portas se fecharem para Niall começar a rir.
— Cara, ele estava puto — ele disse tentando se conter.
Eu dei uma risada e balancei a cabeça.
— Ninguém rosna para mim — olhei para os números acima da porta. Depois da reforma em 2020, o Hotel Egerton House tinha dez andares. A luz que mostrava em qual pavimento estávamos apontava o número quatro.
— É, você diz isso porque ainda não tem um alfa — ele zombou enquanto ajeitava seus cabelos que já mostravam sua cor original.
Olhei para Niall e mordi o lábio inferior. Ele estava certo, em partes. Todos os lobisomens e lobos, alfas e ômegas, nasciam predestinados a passar a eternidade com um parceiro, uma verdadeira alma gêmea. Era difícil, mas até mesmo betas podiam nascer assim.
Sua alma gêmea era alguém que cuidaria de você e que seria cuidado por você. Não queria dizer, porém, que seria algo como amor à primeira vista: a maioria das pessoas tinham essa sorte, enquanto outras precisavam de tempo para se conhecerem melhor. Não existia a possibilidade das almas gêmeas não se amarem, todavia. Talvez, levasse anos, outros relacionamentos poderiam surgir e os os companheiros predestinados até mesmo seriam capazes de amar essas outras pessoas, mas em algum momento da vida, as almas se encontrariam e se conectariam para toda a eternidade.
Particularmente, eu não tinha certeza se encontraria alguém para me amar. Eu já estava com 34 anos e tinha saído com alguns alfas — comuns e Impuros —, mas nunca experimentara algo especial de verdade. Eu não dependia de alguém para viver ou sobreviver, por isso, não fazia tanta diferença eu não ter encontrado minha alma gêmea. Ainda assim, fosse por instinto ou realmente desejo, uma parte de mim se encontrava vazia.
Desvencilhei-me de meus pensamentos quando Niall pegou minha mão. Encarei nossos dedos entrelaçados e sorri. Estudos feitos tinham comprovado que podia acontecer de sua alma gêmea ser algum amigo, bichinho de estimação ou alguém de sua família. Às vezes, eu achava que Niall era minha alma gêmea, mesmo que nunca realmente tenha acontecido uma conexão entre nossas almas.
— Está pensando demais de novo — ele sussurrou ao que me puxou para um abraço.
Descansei meu rosto em seu pescoço e fechei os olhos.
Acho que tudo bem se eu não tiver mais ninguém além de você.
O elevador abriu e um sininho irritante tocou. Separei-me do ômega irlandês para sairmos. O corredor era bem iluminado com arandelas modernas mas com um toque de antiguidade, o carpete horroroso parecia ser do século passado e havia quadros com fotografias de grandes personalidades que se hospedaram nos respectivos quartos. Era a representação perfeita da cafonice.
Andamos em silêncio até que encontramos o quarto 401. Niall estendeu a mão para bater na porta, mas coloquei meu braço para impedi-lo. Farejei o ar por um instante. Dois alfas comuns, dois betas e três alfas Impuros. Esfreguei meu nariz e passei as mãos pelo meu rosto para tirar aqueles cheiros.
Fiz um sinal com a cabeça para Niall. Enquanto ele batia na porta, juntei as pernas e as friccionei. A arma estava escondida dentro de minha calça, onde eles não conseguiriam senti-la se me revistassem. Não era nada confortável ter uma pistola no meio das pernas, mas era melhor do que sermos pegos duvidando de um narcotraficante.
A porta abriu minimamente e o cheiro de um dos alfas Impuros chegou até mim.
— Quem são vocês? — A voz grossa e carregada de sotaque indagou.
— Niall Horan e Louis Tomlinson — meu amigo respondeu.
O alfa abriu totalmente a porta e nos deu espaço para passar. Ele tinha a pele escura como a noite e muito alto e musculoso, a impressão que suas tatuagens tribais davam era de que ele iria partir para cima de nós se respirássemos errado.
O quarto era enorme, e assim que entramos, pudemos ver a sala de estar. Tinha dois sofás pequenos e um grande, três poltronas e uma mesa de centro extensa e com alguns doces e sanduíches e chá. Os alfas estavam por todo apartamento, mas três — contando com aquele que abriu a porta — estavam de pé como se para proteger um beta que se encontrava sentado atrás da mesinha.
Ele nos observou sem expressar nada e tomou um gole de chá — havia algo alcóolico ali também, pelo que senti —, mas foi uma questão de segundo para um sorriso irônico e superior aparecer. Aparentemente, aquele era o tal Bartley.
— Eu estou tão feliz de vocês terem aceitado meu serviço — ele veio em nossa direção com os braços abertos, abraçando nós dois ao mesmo tempo.
— Há quanto tempo, Bartley — Niall disse, meio sem jeito.
— É, nem me diga. Você é o Louis, certo? — Ele se virou para mim e me olhou de cima a baixo. Confirmei. — OK. Sentem-se e comam alguma coisa, se quiserem. Vieram mais cedo do que o esperado.
Dava para sentir os olhares daqueles lobisomens — seguranças? Capangas? Eu achava que eles eram uma espécie de esquadrão multitarefa — às minhas costas, mas me sentei num dos sofás ao lado de Niall. Bartley retomou sua xícara e terminou sua bebida.
Niall pegou um pedaço de uma banoffee que estava disposta e eu me contentei em pegar um pouco de café.
— Bom, acredito que Niall tenha te explicado a premissa de tudo — Bartley entregou a xícara para um dos brutamontes enquanto falava e cruzou as pernas. — Basicamente, tenho um cliente muito querido na cidade e ele precisa de, mais ou menos, dois quilos e meio do meu produto. Quero que vocês entreguem a mercadoria para ele amanhã, não importando o horário, contanto que seja de dia.
Ele nos olhou com as sobrancelhas perfeitas arqueadas e juntou as pontas dos dedos. Você quer saber se entendemos simples instruções, seu babaquinha pomposo?, pensei, mas controlei minha aura para que ela não se agitasse muito. Atrás de mim, senti um odor de feromônios fraco, mas perceptível. Tentei ignorar aquilo.
Aquela situação estava me aborrecendo bastante. Eu sempre odiei pessoas gananciosas, só que pessoas metidas tinham um lugar especial nesse quesito.
— Vamos pegar a encomenda onde e quando? E também precisamos saber sobre onde entregar e para quem. Suponho que seu cliente não porá as mãos na droga bruta — Niall disse pegando dois sanduíches de atum. — E seria bom termos pelo menos uma noção de quem ele é.
— Meu cliente se chama Bogdan Chopin e é um conhecido bastante querido por mim. Ele não pôde vir pessoalmente, vocês encontrarão o correspondente inglês dele.
Bartley estalou os dedos duas vezes e abriu a mão como se pedisse algo. Um dos alfas que estava postado ao seu lado saiu por uma porta e não tardou em voltar com um papel grande enrolado, entregando o objeto diretamente para o chefe. O beta abriu aquilo que se revelou ser um mapa de Londres. Ele pegou um pequeno estojo de seu bolso e tirou dele duas percevejos vermelhas e quatro azuis.
— Nessa madrugada, meus homens se encarregarão de deixar a encomenda na doca de Millwall — ele espetou o primeiro percevejo vermelho sobre a localização no mapa. — E então, amanhã vocês pegam os pacotes e terão de ir até o Winter Wonderland, no Parque Hyde — Bartley colocou o outro percevejo vermelho no papel. — Não se preocupem, todos os brinquedos estarão fechados, é perfeito para ninguém os ver.
— Teremos de ficar atentos ao horário dos guardas no parque — falei.
— Não será preciso. Nós já demos um jeito nisso — Bartley sorriu ao me olhar. Por eu estar inclinado para ver o mapa, aquela aproximação me incomodou. — De qualquer modo, nós mapeamos também os principais pontos em que a Contenção talvez esteja amanhã — ele colocou os quatro percevejos azuis sobre duas esquinas e duas vielas ao longo do trajeto.
Observei o mapa num geral. Era bastante distante de Barking, mas havia bastantes atalhos que poderíamos tomar sem passar pelas marcações em azul. Bocejei e cocei a nuca.
— Certo. E essa brincadeira nos renderia quanto? — Perguntei apenas para confirmar o valor que Niall me dissera no dia anterior. Bartley sorriu.
— Sabe, Louis, gosto de você — o beta acenou com a cabeça e fez um movimento com as mãos como se exibisse um fato invisível. — É, gosto mesmo. Quer dizer, entendo que você é um Impuro e tenha o dom de se transformar em um lobo, mas, ainda assim, você veio até mim, um narcotraficante com um time muito eficiente de seguranças, e trouxe uma arma!
Naquela hora, senti minha espinha gelar. Como ele percebera a arma eu não sabia, mas definitivamente tinha me pegado de surpresa. Ajeitei minha postura e pigarreei. Bartley soltou uma gargalhada alta, debochada.
— Não se preocupe. Imagino que a vida de vocês como párias da sociedade seja uma merda, é justificável querer se defender e defender seu amigo.
Por mais que eu quisesse retrucar, não havia motivo. Afinal, éramos apenas párias, escória, como Bartley dissera. Ele estava certo.
— Falando de valores, eu gostaria de ter a menor dor de cabeça possível com a Contenção. Que tal cinco mil libras pela entrega da mercadoria e mais quatro mil se vocês cuidarem deles por mim?
Niall, que tomava chá — ele era um buraco sem fundo —, engasgou-se e teve que soltar pequenas tosses para voltar a respirar bem. Eu estava surpreso, como o irlandês, uma vez que aquele acréscimo era bem generoso.
— Claro, isso não é problema — eu disse. Me recostei ao encosto do sofá e ajeitei minha jaqueta jeans. O cheiro dos feromônios ficaram mais fortes e eu comecei a ficar inquieto.
Bartley me olhou estranho, sorrindo maliciosamente.
— Você é um rapaz muito bonito, Louis. Você topa fazer uma última coisa para eu aumentar esse valor?
Por algum motivo, meus ossos estalaram. Algo dentro de mim dizia para sairmos logo daquele hotel, e eu sentia como se precisasse me transformar para me proteger. Niall tinha parado de comer e se aproximou de mim no sofá.
— Meus meninos gostaram de você, e acho que o valor de mais nove mil dólares viria a calhar para vocês, não é?
Não pude conter um rosnado e, em milésimos de segundo, um dos alfas passou o braço pelo meu pescoço. Ouvir de um beta, alguém que não podia ao menos se reproduzir, que eu poderia vender o meu corpo para entreter os seus subordinados? Não. Eu estava por um triz de socá-lo até ver sangue.
Bartley soltou ar pelo nariz, um riso infeliz. Ele repousou suas costas e eu segurava o braço do alfa que estava me sufocando — minha visão estava ficando um pouco turva e ouvi Niall suplicar para que Bartley ordenasse que me deixasse ir —, e vendo que ele não soltaria, cravei minhas unhas em sua pele e as aumentei para que atingissem a carne. O alfa rosnou e Bartley assobiou. Na mesma hora o aperto se desfez e eu puxei ar.
— Desculpe por isso — o beta forçou um sorriso. A falsidade de suas palavras escorreu por seus lábios. — Bom, acredito que tudo tenha ficado claro. Não enviaremos nada por meios eletrônicos porque a Interpol tem nos buscado há alguns anos, e seria arriscado.
Encarei-o por alguns segundos antes de me levantar. Comecei a andar até a saída e ouvi Niall agradecendo pela oportunidade e se apressando para me acompanhar. Eu abri a porta para deixar o loiro sair primeiro e logo em seguida saí dali também. Niall me olhou e abriu a boca como se fosse falar algo, mas suspirou e deixou para lá.
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Chegamos em casa no final da tarde porque tínhamos passado em algumas feiras nas periferias próximas para acharmos coisas mais baratas, e também corremos um pouco num parque. Eu estava na sala de estar assistindo America’s Next Top Model e estava só de cueca e deitado no sofá. O vento que batia na minha pele, ainda um pouco molhada pelo banho, me causava calafrios gostosos.
— Louis, seu cabelo está molhado — ouvi Niall dizer.
— E daí?
— Está encharcando o sofá. Pode mofar o tecido.
— Meh, relaxa. Eu tenho noventa por cento de certeza que isso não vai acontecer, confia em mim — eu ri e bocejei.
Niall ficou na minha frente, tampando a minha visão da televisão. Antes que eu protestasse, uma toalha molhada atingiu meu rosto. Sobressaltei pelo susto e tirei aquilo para olhar para Niall.
— Horan! — Esbravejei. — O que foi isso?!
— Os outros dez por cento — ele sorriu e deu de ombros. — Agora, presta atenção aqui.
Revirei os olhos e desliguei a televisão. Niall tirou de trás do rack a velha lousa branca que tínhamos para repassar planos mais elaborados como aquele. Ele escreveu PONTO DE PARTIDA e colocou nosso bairro embaixo, PEGAR A ENCOMENDA e colocou as docas de Millwall e, então, escreveu ENTREGAR seguido de Winter Wonderland.
— Nós sabemos onde evitar passar, sabemos de atalhos e precisamos arranjar pelo menos dois caras para averiguar a situação com a Contenção.
— Que tal o Roger e a Lina? — Sugeri.
Niall pareceu ponderar por um instante. Geralmente, mandávamos aqueles dois para trabalhos mais simples, porém Roger e Lina eram bastante eficientes e também estavam numa situação complicada. O dinheiro viria a calhar para eles. Bocejei e cocei meus olhos. Meu corpo parecia pesado e eu estava muito cansado, além de que minha nuca parecia pegar fogo.
— Você não comeu direito hoje, não é? Está pálido.
O ômega veio até mim para levantar meu rosto; ele suspirou ao me analisar. Inclinei minha cabeça para apoiá-la em sua mão, recebendo um carinho em meus cabelos e bochechas.
— Vou comer algo daqui a pouco. Precisamos terminar isso antes.
O loiro me deu um tapinha de leve na cabeça e me mandou seu melhor olhar de ameaça. É, eu definitivamente comeria naquele momento, sem demora. Levantei meio cambaleante e Niall assobiou, dizendo em seguida “belas nádegas, Tomlinson. São elas que pagam suas contas?” e me limitei a dar o dedo do meio.
Na cozinha, fiz o automático movimento de abrir a geladeira sem ao menos saber o que queria comer.
— Ainda temos ovos, Niall? — Gritei a pergunta enquanto fuçava nas prateleiras.
— Eu estou com os meus aqui. Você está com os seus? — Niall gargalhou da própria piada.
— Mais uma dessas e eu morro de fome aqui mesmo, Horan, e volto para puxar seu pé à noite.
Fiquei esperando alguns segundos, mas nada mais veio. Sorri vitorioso e continuei a procurar os ovos. Acabei achando alguns tomates, um queijo parmesão pela metade e algumas fatias de presunto de Parma, presente de Jimmy na semana anterior. Resolvi, então, fazer tomates recheados pois seria mais rápido e mais gostoso.
Levou apenas alguns minutos para que ficasse pronto e eu me sentasse à mesa para comer e, quando eu estava terminando, Niall disse que iria colocar as coisas dentro da picape. Por “coisas” ele queria dizer armas, munição, lonas inodoras e também as bombas de fumaça: o de sempre para aquele tipo de bico. Eu disse que tudo bem, e que ligaria para confirmar Lina e Roger.
Lavei a louça que eu havia sujado e conferi o pote que guardávamos dentro de um peixe congelado, no freezer. De acordo com Niall, aquele seria o lugar mais inimaginável para se procurar um cofre, caso nossa casa fosse invadida. Estava certo, por mais estranho que fosse. Dessarte, contei rapidamente nossas economias e anotei mentalmente o aumento de mil libras que eu tinha conseguido com um trabalho pequeno na semana anterior.
Tínhamos aquele pote para economizar o restante que não utilizávamos dos pagamentos porque, desde que começamos a trabalhar com entregas, criamos a meta de conseguir sair de Londres. Não sabíamos ao certo para onde, mas apenas para fora. Uma vez tínhamos falado sobre arranjar algo num prédio abandonado nos arredores de Watford, onde não precisássemos nos preocupar com a fama que tínhamos criado em Londres.
Fechei a boca do peixe e fui até nosso quarto; sentei-me na cama e tirei meu celular do carregador para poder discar o número dos irmãos Smith. Um dos luxos que concordamos em nos conceder era o de termos um celular para cada, pois seria mais fácil nos comunicarmos quando estivéssemos muito longe para ouvir o uivo um do outro.
— Roger Smith aqui. O que cê quer?
— É Louis. De Barking.
Ouvi um farfalhar e uma interferência que fez eu afastar o celular de minha orelha. Minha audição era muito sensível a celulares e eletrônicos no geral, então era bastante comum eu e Niall discutirmos por aumentar ou não o volume da tevê, silenciar ou não o micro-ondas e etc. Roger logo voltou.
— Tomlinson! Oi. Como cê tá, cara?
— Estou bem, gringo — sorri com o sotaque texano que ele tinha. — Preciso que você faça um trabalho para mim. Duas mil libras e quinhentas, o que me diz?
— Porra, cê pode apostar o seu couro que eu faço essa merda, Tomtom. O que é, hein?
— Preciso que você me confirme, com certeza, que não há patrulhas da Contenção acontecendo amanhã ao redor da região das docas de Millwall até o Parque Hyde.
Ouvi um assobio impressionado.
— Tá certo, Louis. Pode deixar que a gente ajeita tudim procê. Amanhã a gente se encontra lá no Hyde, então. Aí, cê me paga.
— Obrigado, Roger. Mande lembranças para Lina.
Desliguei e aproveitei para arrumar o quarto; organizei as gavetas, dobrei algumas roupas espalhadas. Enquanto eu dobrava as cobertas, comecei a sentir uma dor estranha no peito e na nuca, minha visão escureceu e minha boca secou. Apoiei meu corpo sobre a cama, fechei os olhos com força, esperando para ver se aquele mal-estar passaria. Foi questão de um minuto ou dois em que ouvi a voz de Niall.
— Louis? Cara, o que aconteceu?
Logo, eu estava sendo levantado por ele e gritei de dor ao que senti os músculos do meu abdômen se contraindo e relaxando várias vezes, uma sensação péssima e aguda. Niall deitou-me na cama e perguntou onde estava doendo, e sinalizei sobre a barriga. Ele montou sobre meu colo, dizendo para eu não dobrar o corpo, e começou a pressionar de leve suas mãos onde eu mostrei.
Aos poucos, as mãos de Niall foram esquentando o local e a dor foi sumindo. Devia ter levado, mais ou menos, trinta minutos, pois, quando eu espiei o relógio digital em cima da mesinha de cabeceira, os números verde-fluorescentes indicavam ser 23h30. Meus olhos estavam pesados quando Niall saiu de cima de mim.
— Melhor? — Ele se jogou ao meu lado na cama, e apoiou sua cabeça sobre a mão, deitado de lado. Confirmei com a cabeça. — Ótimo. O que aconteceu?
— Eu não sei. Eu só estava arrumando as coisas e meu corpo começou a doer — falei enquanto me esticava para apagar a luz.
Nós ficamos alguns segundos no escuro e no silêncio, só com a luz da lua entrando pela janela e o barulho das ruas de Barking. Eu senti a respiração de Niall um pouco agitada batendo em meu ombro, mas ele tomou um profundo e então ficou tudo calmo.
— Sabe, Lou, tem uma lenda sobre almas gêmeas.
Ajeitei-me na cama para ficar de frente para Niall. Estendi uma mão até que encontrasse seu rosto e a levei até sua cabeça para ficar brincando com seu cabelo.
— De onde veio isso?
— Minha avó dizia que almas gêmeas recebem uma espécie de sinal de que vão se encontrar num futuro próximo. Já ouviu falar de borboletas no estômago?
— Sim — senti o peso da cabeça de Niall ficar mais pesado e meu sono ia lentamente embora.
— Ela dizia que, quando ela conheceu vovô, era mais como se uma manada de búfalos pisoteando o estômago dela — ele riu baixinho. — Disse que foi a pior dor que ela já sentiu, mas que pareceu não ter acontecido depois de conhecer vovô.
— E você acha que foi o que aconteceu comigo?
Não obtive uma resposta. A respiração de Niall estava pesada e ritmada, e isso me causou um sorriso de puro afeto e fraternidade. Eu sempre soube que o irlandês se preocupava comigo arranjando alguém para toda a vida. Ômegas e alfas tinham a tendência de entrarem num estado sério de depressão caso não achassem sua alma gêmea, pois fazia parte de seus instintos. Nos lobos, isso era intensificado devido ao nosso erro genético.
Com cuidado, tirei minha mão debaixo da cabeça de Niall e encarei a silhueta de seu rosto iluminada pela luz esmaecida da lua. Levantei-me um pouco na cama mas, antes de sair completamente, dei um beijo na ponta de seu nariz. Fui até a janela e fechei somente as cortinas brancas; elas eram mais transparentes e permitiam que uma luminosidade branda entrasse.
Fechei a porta do quarto e fui até a sala, onde havia uma grande janela que dava para a rua. Peguei meu maço de cigarros, meu isqueiro e abri a janela para sentar-me no parapeito. Saquei um cigarro e o levei à boca antes de acendê-lo. Traguei uma vez, sentindo a fumaça coçar de forma quente minha garganta e pulmões, e logo fechei os olhos.
O vento frio atingiu meu rosto juntamente com a chuva leve que caía do céu cinzento e escuro de Londres, aquela sensação das gotas geladas me acertando fez eu me lembrar de uma noite, após termos sido despachados de uma casa de uma família Impura. Talvez, fosse setembro, porque eu me lembrava de estarmos próximos ao aniversário de Niall.
Estávamos sentados no meio-fio, eu tinha só dezoito anos e o irlandês dezesseis, chovia torrencialmente e o outono estava sendo mais frio do que o normal. Niall tremia do meu lado enquanto eu tentava aquecê-lo com a minha jaqueta, ainda que o melhor fosse eu esquentá-lo com minha forma animal; porém, era arriscado demais me transformar no meio da rua. O táxi que havíamos pedido chegaria dali a alguns minutos, então tínhamos que esperar um pouco mais até que conseguíssemos ir ao bosque.
Durante a espera, algumas tropas da Contenção Britânica passavam marchando próximas de nós. Era 2009, então a situação entre a Polônia e o Reino Unido era bastante delicada; uma tropa passara do nosso lado e um soldado em particular batera o pé numa poça de lama e acabara sujando Niall.
— Ei! Toma cuidado, cara — eu protestara. Eu estava furioso por tudo que estava acontecendo conosco, não conseguira segurar minha braveza ao falar.
Os soldados voltaram-se para nós — talvez, tivesse uns cinco ou seis deles ali — e riram. Pelo uniforme, eles eram apenas patrulheiros, mas eram os que mais destratavam Impuros por ficarem mais tempo tendo que lidar com as periferias.
— O que disse, docinho? — O soldado que tinha jogado lama em Niall dissera. Ele era um alfa. — Acho que não o ouvi muito bem.
Niall colocara a mão sobre minha perna e pedira, num sussurro, para que eu deixasse aquilo de lado. Infelizmente, meus instintos estavam falando mais alto devido à minha raiva.
— Eu disse — me levantara e entrara na frente do irlandês. — Para tomar cuidado. Está com problema nas orelhas?
— Orelhas? — O alfa parecera confuso e todos eles riram. — Você é um lobo, então? Olha, eu não tenho paciência para você, e eu acho melhor você abaixar a sua bola.
Eu fechara minhas mãos em punho e mostrara os dentes, meus ossos estalaram e eu sentira minha coluna se esticar um pouco. Os soldados ficaram sérios.
— Quem você pensa que é para jogar lama no meu amigo e nem mesmo se desculpar, seu filho da puta?
— Como é? — Ele arqueara a sobrancelha e apertara o fuzil um pouco mais próximo do corpo. — Se eu quiser, posso te arrastá-lo para uma sarjeta e apontar uma arma para a sua cabeça e estourar seus miolos; será mais fácil do que você pensa.
— Sanchez — um outro soldado puxara-o para trás pelo ombro. — Vamos embora. Só precisamos fazer o patrulhamento.
— É, soldado Rice, eu sei. E encontramos um problema aqui. Mas não se preocupe, não vou matá-lo.
Alfas sempre foram muito suscetíveis a facilmente terem o ego ferido por causa dos instintos. Ele viera em minha direção e, depois disso, não conseguia me lembrar de muita coisa; eu apanhara bastante, mas me controlara o suficiente para não me transformar e não deixara que ninguém tocasse em Niall.
Despertei daquela memória ao ouvir a buzina alta de uma moto que tentava passar em meio às pessoas na rua, bem debaixo da nossa janela. Olhei para aqueles corpos andando como formigas lá embaixo e apaguei a guimba no corrimão da escada de emergência. Voltei para dentro de casa, deixei a janela aberta e me deitei no sofá.
Não vivíamos em um mundo justo. Talvez, nunca acontecesse. Era cada um por si mesmo dentro de uma família, mas eu ficaria feliz em pelo menos achar um escape daquilo tudo, uma válvula de salvação.
Em poucos minutos, eu adormeci num sono sem sonhos.
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Olá! Eu sei que alguns de vocês podem estar chateados pela falta de interação entre Louis e Harry, porém esses primeiros momentos são muito importantes para a história. Tenham paciência!
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Até o próximo, AMO VOCÊS.
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