EPÍLOGO
Uma imagem de como seria a mansão Styles e a campina aí na mídia pra vocês :)
இ
10 de agosto de 2030
Londres, Reino Unido.
— Pa-parem de ser chatos! Eu também que-que-quero brincar!
Desviei minha atenção de Harry para Lux, que tentava alcançar seus irmãos que corriam sobre as quatro patas pelo quintal.
Após cinco anos, aquelas crianças tinham deixado para trás a personalidade calma e paciente para tornarem-se mini furacões em forma humana que se divertiam revirando cada cômodo da casa. As previsões médicas também tinham sofrido uma reviravolta porque, ao invés de Lux ter se tornado Impura, ela era uma criança mestiça, diferentemente de Theo, Diana e Olivia, que desenvolveram completamente seus lobos.
Tínhamos feito vários exames e testes quando notamos que os três estavam adotando hábitos iguais aos meus. Consultamos Gigi e Francis, mas não chegamos a nenhuma resposta concreta — eles disseram que, enquanto aquela mudança inesperada não fizesse mal aos filhotes, estaria tudo bem. Quando Francis perguntou se daríamos autorização ao hospital para usar os filhotes como forma de aprimorar os estudos acerca dos quais ele comentara conosco durante minha gravidez, nós decidimos que seria uma boa ideia. Além de colaborar com a ciência, indiretamente estaríamos ajudando outros pais que passavam por situações parecidas.
O único aspecto ruim que aparecera com o decorrer dos anos havia sido a gagueira de Lux. Sempre que a pequena alfa sentia emoções muito fortes, como nervosismo, ansiedade ou alegria, sua fala era comprometida e, muitas das vezes, ela só piorava por frustrar-se ao não conseguir expressar-se da maneira que gostaria. Contudo, Gigi conhecia uma maravilhosa fonoaudióloga que aceitou tratar Lux, e que também acabou se tornando uma grande amiga para nossa filha.
— É a sua vez, papai — Harry resmungou; estávamos flutuando em uma enorme boia no meio da piscina. — Eu já cuidei dos monstrinhos ontem, o dia todo. É minha folga, ancião.
Indignado, dei um tapa em seu peito, o fazendo rir.
— Idiota, eu tenho apenas quarenta anos — bufei ao esticar meu braço para alcançar a borda e sair.
— Claro, mas eu ainda estarei na casa dos trinta por mais alguns anos, certo? — Harry balançou suas sobrancelhas sob os óculos escuros.
Ele ficava lindo daquela forma, largado sobre a boia e com a pele levemente bronzeada, mas eu não admitiria que ele me chamasse de velho, então dei um beliscão em um de seus mamilos assim que saí da piscina.
— AI, LOUIS! — Harry reclamou ao esfregar o peito, mas deu risada mesmo assim. — Eu ainda vou continuar te zoando.
Revirei os olhos, porém não pude impedir de sorrir por saber que era verdade. De toda forma, eu precisava capturar quatro animaizinhos que estavam correndo pelo quintal; logo, fui atrás deles. Para ser mais rápido, tirei meu calção de banho e me transformei. A primeira que alcancei foi Lux, e ela pareceu bem animada ao montar nas minhas costas.
Theo, Diana e Olivia pareceram encarar aquilo como uma brincadeira, pois aumentaram o passo para me despistar, tendo a audácia de, ainda, buscar por pequenos lugares nos quais eu não conseguia entrar, o que serviu como esconderijos. Porra, e é difícil para mim, que sou um lobo, como foi para Harry ontem?, pensei, com uma vontade grande de rir do meu alfa.
Com bastante esforço e quase levando um tombo por correr na grama molhada, consegui encurralar os três filhotes restantes, entretanto, precisava impor certo respeito para deixar claro de que aquilo era uma bronca, e não uma brincadeira. À vista disso, rosnei com um tom autoritário, fazendo os três se encolherem. Abaixei minha fronte para que Lux descesse, e apesar de ela ter ficado um pouco assustada, permaneceu próxima de minhas patas.
Lentamente, voltei para minha forma humana, mantendo um olhar bravo. Diana, Theo e Olivia me imitaram, sentando-se na grama com rostinhos murchos. Por eu estar deitado de barriga para baixo, fiquei na altura certa para falar com eles.
— Quantas vezes vou ter que falar para não deixarem sua irmã de lado? — Entoei. — Sempre que fazem isso, apenas me mostram que não estão sendo bons com ela.
Era duro brigar com eles quando seus olhinhos brilhantes mostravam-se tão arrependidos, porém eu precisava manter-me firme. Os três abaixaram a cabeça num sinal de submissão.
— Des… — Theo começou, porém o cortei.
— Olhe para mim enquanto fala, Theodor.
O pequeno ômega engoliu em seco e, por ser uma mini cópia de Harry, senti como se estivesse dando uma bronca em meu alfa quando criança. Seus olhos verdes subiram até mim, com algumas poucas lágrimas se acumulando. Apesar de ser bastante extrovertido, Theo também era muito sensível e tendia a ter as emoções à flor da pele. Não era difícil vê-lo chorar com filmes, ou se algum animalzinho ferido aparecia em nosso quintal.
— Desculpe, papai. Por não ter sido um bom irmão para Lux.
— Obrigado, ômega — sorri, mas apontei com a cabeça para a alfa ao meu lado. — Sua irmã também precisa ouvir isso.
O pequeno abriu os braços e deu dois passos para mais perto da irmã, que o abraçou sem pensar duas vezes.
— Desculpe por ter sido um irmão chato, Luxy — ele disse soluçando um pouco. — Eu não queria ter magoado você.
— Tudo bem, Theo — ela respondeu, apertando mais o irmão. — Obrigada por ser sincero.
Depois disso, Diana e Olivia também se desculparam com a irmã, agora combinando de refazer o pega-pega deles. Cada irmão se revezaria para ficar na forma humana junto a Lux, e dois lobos correriam deles. Antes, mandei que colocassem suas roupas de volta, e com os calções e biquínis, eles voltaram a brincar.
Vendo que meu trabalho estava feito, um suspiro escapou-me à boca enquanto eu voltava para a piscina. Peguei meu calção de banho que estava jogado no ladrilho da varanda e, depois de limpar os pedacinhos de grama grudados em meu corpo, entrei calmamente na água para subir em Harry mais uma vez.
— Ugh — ele resmungou. — Você está frio, e me molhou.
— Cale a boca — dei risada.
Nós ficamos alguns minutos em silêncio, apenas ouvindo as crianças brincando no quintal. Meryl estava viajando com seu filho nos Estados Unidos, minhas irmãs estavam trabalhando enquanto Doris e Ernest passavam um tempo na casa de minha mãe; Anne e Gemma tinham viajado a Paris por conta da nova coleção de roupas de Michael, o namorado da ômega, e Niall e os meninos estavam ocupados nos últimos meses com os preparos de seu casamento.
Portanto, éramos só nós seis na mansão naquele dia, o que estava sendo muito mais calmo do que o esperado. No meio do verão, a mansão costumava ficar bem vazia, mas não era algo ruim. Harry e eu tínhamos mais tempo para ficar com as crianças, já que as férias escolares as deixavam livres por aqueles meses, e podíamos passear mais.
Após o primeiro ano das crianças, minha anemia piorara consideravelmente pelo esforço que eu fazia e todas as coisas pelas quais eu tinha passado. Entretanto, agora, as condições permitiram-me ter um tratamento em hospitais mais sérios e mais bem preparados, o que me ajudou a estabilizar os níveis de vitamina em meu sangue e, assim, pude começar a aproveitar muito mais o verão ao lado de minha família.
— As aulas deles voltam daqui duas semanas, não é? — Harry disse.
— Sim, mais duas semanas com esses pestinhas que nunca descarregam a bateria.
— Huuum — ele suspirou alto. — Que tal viajarmos um pouco? Não fomos a lugar nenhum fora de Londres.
Cruzei minhas mãos sobre seu peito e apoiei meu queixo nelas, observando seus olhos sob os óculos escuros, encarando-me de volta.
— Para onde?
— Pensei em irmos até Cornualha. É bonito, tenho uma casa por lá grande o bastante e poderíamos chamar Niall e os meninos para tirá-los da rotina estressante de planejar o casamento.
Inclinei minha cabeça, pensando. Os três realmente estavam bastante nervosos uma vez que o grande dia aconteceria no próximo mês, e tudo que eles faziam era revisar várias vezes as mesmas coisas apenas para garantir que tudo desse certo. Já tínhamos tentado convencê-los de darem uma pausa naquilo, entretanto se recusaram.
Agora, porém, seria possível usar a desculpa de que as crianças queriam passar alguns dias com seus tios — aqueles quatro pestinhas sabiam se fingir de tristes muito bem para fazer Niall, Liam e Zayn de trouxas.
— Eu topo — respondi, por fim.
Harry levou sua mão aos meus cabelos e começou a fazer um carinho lento ali, puxando meus fios cuidadosamente, às vezes. Fechei os olhos para aproveitar, sentindo alguma leseira por estarmos flutuando na água, além do calor do sol fazendo nossas peles arderem de um modo gostoso.
— É louco como minha vida mudou nesses seis anos desde que te conheci, sabia? — Ele murmurou. Abri uma de minhas pálpebras para vê-lo. — Acredito que nunca vou conseguir agradecer o suficiente por Deus ter posto você aqui, comigo.
Com um espreguiçar aleatório, subi meu corpo para que eu pudesse beijar seus lábios, curtindo nossa bolha particular. Sorrindo, apreciei o afago que eu recebia.
— OS PAPAIS TÃO SE BE-BE-BEIJANDO! — Lux gritou ao longe.
Afastei-me um pouco de Harry, tendo poucos segundos para procurar pelos filhotes antes de vê-los correr em direção à piscina, pulando na água.
A partir dali, as coisas escalaram rápido.
Todos os quatro começaram uma guerrinha de água, mas Harry quis meter-se no para fazer graça e, então, os filhotes decidiram que o novo objetivo era afundar o pai alfa. Por Lux ter asma, começou a ficar complicado para ela continuar nadando atrás de Harry, então a peguei e botei-a de cavalinho em meus ombros, servindo de veículo para que ela não ficasse fora da brincadeira. Entretanto, em algum momento ela engoliu água, o que fez com que eu precisasse sentá-la na borda da piscina e ajudá-la a recuperar o fôlego. Ali, eu decidi que já estava bom de brincadeira, então falei num tom alto de ômega:
— OK, chega! Vamos nos limpar e começar a arrumar as malas, amanhã vamos viajar! — Na minha cabeça, aquilo bastaria para que os quatro se acalmassem e obedecessem.
Ideia idiota, claro, pois a euforia das quatro crianças acentuou-se.
Até mesmo Lux, que por um triz não teve uma crise de asma, voltou para dentro da piscina a fim de pular em mim e em Harry junto dos irmãos, comemorando.
Nós fomos feitos de bobos por algum tempo, tentando pegar cada um dos quatro, indo de um lado para o outro; contudo, assim que enfim dominamos a situação, pusemos ordem ao chamar a atenção deles, pedindo seriamente para que colaborassem.
Com certo esforço extra, conseguimos levá-los até o banheiro de nosso quarto para que todos tomássemos banho. Como sempre, Harry pegou Theo e Diana, como a boa dupla inseparável que ambos formavam, enquanto Olivia e Lux vieram comigo; por pura insistência dos filhotes, deixamos que eles ficassem com roupas mais leves só até depois do almoço, porque faríamos uma visita a alguém antes de irmos para Cornualha.
O cansaço estava presente em todos nós, o que proporcionou uma refeição calma e agradável na varanda, sentindo a suave brisa morna do verão. Após estarmos satisfeitos, subimos até o quarto das crianças para colocá-los em uma nova roupagem.
— Nós vamos ver Ethan quanto estivermos prontos, OK? — Avisei enquanto terminava de pôr o vestido de Lux. Diana estava pendurada sobre meu ombro, com sua calcinha da Moranguinho, observando meus movimentos e esperando sua vez.
— Vamos levar alguma coisa? — A ômega perguntou.
— Sim, o de sempre — falei ao colocar Lux no chão e passar Diana para o trocador. — Azul ou verde? — Perguntei, acerca de sua camisa. Ela odiava vestidos.
— Amarelo.
— Amarelo será, então — resmunguei com ironia, ao abrir a gaveta e pegar um shorts branco e uma camisa estilo ciganinha amarelo-clara.
— Papai — Theo cutucou minha perna, já vestido. — Posso levar meu dinossauro novo para o vovô Ethan ver?
— Claro, amor — sorri. — Vovô Ethan vai amar, tenho certeza.
Apesar de o ômega não ter realmente algum parentesco com Harry, deixávamos que as crianças o chamassem daquela forma. Elas sabiam quem Desmond havia sido, porém não existia nenhum tipo de ligação afetiva; a convivência com Ethan, porém, tinha cumprido o papel de criar algum laço entre eles.
Estando prontos, descemos até a varanda dos fundos e, após retirar minha roupa, transformei-me em meu lobo. Abaixei meu tronco para que Harry colocasse as crianças em minhas costas, podendo subir ele mesmo depois. Não esquecemos nada?, indaguei mentalmente para meu alfa.
— Crianças, OK. Marido, OK. Troca de roupa para que você não fique pelado, OK — Harry assentiu. — É, acho que temos tudo.
Revirei os olhos, mas eu teria rido se estivesse em forma humana. De toda forma, comecei a andar em direção às árvores, enfim adentrando o bosque que cercava a campina.
No caminho, ouvi Diana recitar o novo poema que tinha aprendido nas aulas de Literatura, Harry e Olivia cantando uma musiquinha infantil sobre formigas que marchavam e, para fechar com chave de ouro, Theo ensinou uma rápida brincadeira onde ele dava uma característica de algo que ele via, e os outros tinham de adivinhar o objeto. Tudo aquilo serviu de distração para que o tempo de caminhada passasse despercebido a mim, que parei ao chegarmos na entrada da maior clareira do terreno.
Ela tinha sido descoberta por mim em um de meus exercícios matinais e, desde então, íamos àquele canto para apreciar a vida selvagem que agraciava o cenário com sua presença ao decorrer do dia.
Mais uma vez, deitei sobre as quatro patas para que Harry pudesse descer junto das crianças, e logo depois me transformei, pegando as roupas que meu alfa me estendeu. Vesti-me rapidamente, chamando Olivia, Diana, Theo e Lux para que ficassem perto de nós. Aquela era uma área que não tínhamos explorado tanto dentro do terreno Styles, mas o escolhemos para Ethan já que o ômega adorava passar seu tempo ali.
— Se comportem, tudo bem? — Harry pediu, em voz baixa e séria. — Nada de falar alto, também.
— Sim, papai — os quatro concordaram, quase num cochicho coletivo.
Chegamos sem pressa à estrutura de mármore no meio da campina, embaixo da única árvore que tinha crescido ali: um enorme salgueiro chorão, que espalhava uma sombra circular em quase toda a área.
“Não deverá haver escuridão, nem deslumbramento, mas uma mesma luz; nenhum ruído, nem silêncio, mas uma mesma música.”¹
Descanse em paz, Ethan McCoy
Amado amigo, pai e esposo.
Harry fez o sinal da cruz antes de se ajoelhar ao lado do túmulo e cruzar as mãos sobre os joelhos e começar a rezar em sussurros, ao mesmo passo que eu, por não acreditar cem por cento em algum Deus, apenas prestei momentos de silêncio e pedi para que as crianças também rezassem. Os quatro eram muito ligados ao catolicismo, assim como Harry, por isso gostavam de contar o que tinham feito e aprendido sempre que íamos visitar Ethan, através de suas orações, como numa conversa.
Enquanto eles prestavam suas preces, cuidei de limpar o túmulo e livrá-lo das ervas daninhas, além de tirar as flores mortas que pusemos na última vez que fomos até lá; no lugar, coloquei as rosas frescas, colhidas próximo ao poço da mansão — levávamos somente as flores que Ethan costumava cuidar e que, agora, tínhamos adotado como nossas. O ômega amava aquelas plantas como se fossem suas filhas, então nos recusamos a simplesmente deixá-las morrer.
Ethan falecera dois anos após o nascimento dos filhotes, aos 91 anos, quando seus pulmões foram acometidos por uma bactéria desconhecida, facilitando que seu corpo sofresse com uma pneumonia. Mesmo acamado e fragilizado, ele nos recebia com muito amor e alegria toda vez que íamos vê-lo no hospital, e quando não levávamos Diana, Olivia, Theo e Lux, o ômega nos dava uma bronca, dizendo que ele queria ver “seus pequenos lobinhos”.
A morte de Ethan fez Harry ensimesmar-se, o que foi completamente compreensível, já que o lobo idoso era uma das partes mais importantes ligadas a seu pai. Foram incontáveis vezes em que, durante a madrugada, eu permanecera acordado para dar colo ao meu alfa, que chorava até cair no sono, como uma criança. A relação que Harry e Ethan tinham era, de fato, quase paternal.
O luto também fora um processo doloroso para mim, contudo conseguimos passar por ele da melhor maneira que pudemos.
Depois de acabar de limpar o túmulo, as crianças vieram até mim perguntando se podiam explorar a campina um pouco. Eu disse que tudo bem, mas que não poderiam entrar no meio das árvores, tampouco se afastarem demais. Os quatro foram, então tive meu momento de conversa com Ethan, falando mentalmente sobre como as coisas estavam, sobre a viagem que faríamos e também sobre como ele fazia falta em nossa família.
Notei o olhar de Harry sobre mim, e quando me virei, suas bochechas vermelhas com rastros finos denunciaram que ele havia chorado, ainda que com um sorriso no rosto. Estendi minha mão para ele, nos aproximando, e ficamos abraçados observando o túmulo de Ethan. Meu alfa suspirou alto, e ele esfregou sua palma em meu braço.
— Ele e meu pai finalmente estão num lugar justo, sua fortaleza sem ódio que eles tanto queriam construir juntos — Harry falou com a voz falhada.
— Com certeza estão, amor — olhei para cima, dando um beijo em seus lábios salgados.
Ficamos mais algum tempo ali, absorvendo todo aquele momento, e quando Harry se acalmou o suficiente, chamamos as crianças para voltarmos à mansão, deixando mais uma vez o túmulo de Ethan para trás a fim de deixá-lo descansar.
Em casa, demos o lanche das crianças enquanto elas assistiam a um desenho na televisão, e arrumamos a casa para facilitar as coisas para Carla e Cameron, um casal de alfas Impuros que contratamos para ajudar com a limpeza. Em algum momento, os filhotes pegaram no sono sem a necessidade de uma historinha de ninar, e ajeitamos todos eles nos montantes de edredons e almofadas que ficavam na sala para as sonecas da tarde.
Aproveitamos a calmaria para arrumarmos as malas para as duas semanas que passaríamos em Cornualha. Seriam férias muito boas, as crianças amavam a praia, assim como eu e, segundo um site que eu acessaria mais tarde naquele dia, um restaurante à beira-mar que traria alguns músicos locais para shows ao vivo, o que seria uma experiência bastante agradável.
Tendo tudo pronto, Harry foi preparar algum chá para nós enquanto eu ligava para Liam.
— Oi, Louis — ele disse ao atender. — Tudo bem?
— Sim, e com vocês, Li?
— Mesma história de sempre — ele riu. — Estamos ansiosos pelo casamento.
— Entendo... — Resmunguei. — Sobre isso, eu sei que já propus isso antes, mas vocês não acham...
— Quer que peguemos leve? — Ele cortou. — Olha, Louis, nós…
— Quero que viajem conosco.
— O quê?
— Harry tem aquela casa em Cornualha, e vamos para lá amanhã. Vocês estão tão estressados sendo que já têm tudo pronto para a cerimônia e todo resto, então queríamos que vocês fossem conosco.
Liam ficou quieto por alguns segundos, talvez ponderando sobre a ideia.
— Eu não sei. Niall está tão focado nisso.
Decidi, então, usar minha cartada especial:
— Por favor, Liam — falei com a voz manhosa. — As crianças estão morrendo de saudade dos tios favoritos delas.
Mais uma vez, silêncio.
— Elas disseram isso mesmo? — Liam indagou com desconfiança, mas pude sentir a alegria em sua voz. Ele era um tio muito babão.
— Com todas as palavras — mantive meu tom, apenas até que desse certo. — Além do mais, vocês não saem conosco há um tempo.
— É... — ele concordou. — Acho que você está certo. Bom, OK, vou convencer aqueles dois a irem também. Amanhã de manhã estaremos aí.
— Ótimo! — Comemorei. — Nos vemos, então. Amo vocês.
Encerrei a chamada antes que o alfa mudasse de ideia, e logo desci as escadas para contar a Harry sobre meu sucesso. Ele ainda estava meio abalado com a visita ao túmulo de Ethan, porém deu risada ao ouvir sobre como usei a carta de “as crianças estão com saudade, venham aqui”.
Não gostávamos da casa vazia, uma vez que nos acostumamos a ter montes de pessoas para os eventos do trabalho de Harry, além de nossas reuniões familiares. Portanto, era comum minhas irmãs aparecem por lá dizendo que apenas queriam ver seus sobrinhos, ou que Meryl e Sally — que tinha ficado noiva de Ashley — também fossem nos visitar.
— Não tem nenhuma reunião marcada para essas duas semanas, certo? — Harry perguntou ao pôr uma tigela com morangos, uvas e aveia em minha frente.
Apesar de minha pena de prisão domiciliar ter acabado, eu ainda era responsável pelas atividades de trabalho do alfa mais novo, apenas para que eu me sentisse útil naquele sentido. Contudo, havia algumas semanas em eu matutava uma ideia em minha cabeça, e aquela pergunta me pareceu a brecha ideal para contar.
— Não, remarquei todas — afirmei. Pigarreei alto após comer um morango, jogando uma uva para lá e para cá dentro da tigela com o garfo. — Hum, amor? Hazza?
O alfa virou para mim com uma sobrancelha arqueada, desligando a chaleira para trazê-la ao balcão.
— O que aconteceu? — Ele quis saber. — Sempre que usa esse tom, quer me contar algo.
Sorri pequeno com o fato dele me conhecer tão bem, mas voltei a encarar minhas frutas.
— Semana retrasada, eu fui ao mercado com Theo e enquanto voltávamos ao estacionamento, vi um panfleto de uma instituição chamada Crooked Paws.
— Patinhas tortas? — Repetiu. — O que é essa instituição?
— Eles resgatam Impuros que vivem em situação precária, e oferecem voluntariamente os artifícios para tomar um rumo certo na vida, como aulas complementares, criação de currículos e recomendações em comércios. No panfleto dizia que há vagas para auxiliares.
Harry observou-me por um tempo, parecendo processar a ideia. Logo, o alfa sorriu e me serviu uma caneca de chá.
— Eu sei que você quer sua liberdade financeira, e durante esses anos nenhuma oportunidade surgiu. Agora, você tem essa, então saiba que meu apoio é todo seu, OK? Quero que se sinta bem.
O sorriso que surgiu em meu rosto fez minhas bochechas doerem. Não tardei em levantar-me para abraçá-lo, apertando seu tronco com toda força que consegui reunir.
— Obrigado, alfa — agradeci. — De verdade.
— Não precisa disso, Lou — ele respondeu, retribuindo o abraço. — Se você estiver feliz, então eu também estou.
இ
No dia seguinte, Harry e eu acordamos as crianças um pouco mais cedo do que elas estavam acostumadas, pois assim poderíamos dar-lhes o café da manhã a tempo de de fazerem digestão até que pegássemos estrada. Isso seria bom para evitarmos vômitos indesejados no carro novo — “família maior, coisas maiores”, Anne dissera quando nos presenteou com aquela Mercedes Vito Tourer.
Por mais que tivesse sido um presente excepcionalmente caro, era inegável que tinha sido muito útil por ter vários bancos e um porta-malas bem generoso para todas as mochilas e bolsas, os brinquedos e também para levarmos as cadeirinhas quando íamos buscá-los na escolinha ou na casa de minha mãe.
Colocamos as malas no carro quando Niall mandou-me uma mensagem, afirmando que eles tinham entrado na estrada de terra que levava à campina, e em pouco tempo as crianças reuniram energia o bastante para pular em cima do irlandês e os outros dois tios, que alegremente entraram naquela folia. Iríamos em dois carros, e as crianças ficaram um pouco desapontadas ao descobrirem que seus tios não iriam junto conosco.
— Não tem espaço, meu bem — expliquei enquanto prendia Olivia em sua cadeirinha.
— Papai — Theo chamou. — Posso ir com eles?
Suspendi as sobrancelhas. Aquela era a primeira vez que algum dos quatro pedia para viajar em outro carro, sem Harry ou sem mim, e eu sabia que Theo era o mais apegado a Liam, Niall e Zayn. Porém, ainda assim era uma surpresa vendo-o encorajado a viajar sem nós pela primeira vez.
— Não sei, amor… Eu vou perguntar para seus tios — olhei para as três meninas, esperando que alguma pedisse por aquilo também. — Mais alguém?
— Não, eu quero ir com os papais — Diana disse com seus olhos verdes piscando para mim enquanto ela tentava colocar sua tiara vermelha em seus cabelos. Me estiquei um pouco para ajudá-la. — Não! Eu consigo, papai — ela reclamou.
— Começa assim — resmunguei, birrento. — Primeiro querem viajar em carros diferentes e colocar as próprias tiaras, daqui a pouco estarão cozinhando sozinhos e, depois, vão embora sem nem lembrar dos pais.
Harry, que passava por ali carregando um cooler com os lanches das crianças, parou e deu uma gargalhada alta.
— Acho que você está nervoso demais, Lou — ele zombou. — Eles ainda têm só cinco anos.
— É, diga o que quiser, mas depois não venha chorar para mim quando começarem a namorar.
Na mesma hora, Harry fechou a cara.
— Eles não vão namorar.
Revirei os olhos, deixando o alfa para trás para procurar pelos outros. Acabei encontrando Zayn fechando o porta-malas do carro deles, e quando viu eu me aproximar, abriu um sorriso cansado.
— Obrigado por ter nos chamado para essa viagem — ele disse. — Niall e Liam estavam ficando loucos com o casamento, e acho que vai ser bom sairmos dessa onda de estresse.
— Eu e Harry queríamos vê-los bem, ainda mais que a cerimônia será mês que vem — sorri de volta, esperando verdadeiramente que aquelas pequenas férias os tirassem das tensões. — Bom, Theo perguntou se ele pode ir com vocês. Já separamos o lanche dele, então se ele puder ir, colocamos a cadeirinha.
— Claro que ele pode vir com a gente — Zayn sorriu ainda maior. — Que bom que ele começou a demonstrar mais independência, não é?
— Isso porque você ainda não é pai — murmurei, porém era verdade que eu não dava tanta importância àquilo; afinal de contas, eu mesmo havia começado a me virar sozinho desde criança. — Bom, vou buscá-lo.
Como um bom pai ciumento, perguntei mais algumas se Theo tinha certeza absoluta de que ele queria viajar com seus tios, porém vendo que o pequeno ômega estava irredutível sobre sua decisão, terminei de colocar a cadeirinha no banco dos meninos. Com algum esforço por parte de Harry para irmos logo sem que eu fizesse mais birra, finalmente começamos a dirigir.
A viagem até Cornualha foi calma, repleta de músicas infantis, remédios para enjoo e uma parada para comermos à sombra de alguma árvore que encontramos numa baía de emergência da estrada. Niall provocou-me, falando o quanto eles e Theo estavam tendo diversão juntos, e o quanto o pequeno ômega preferia os tios a mim ou Harry.
Reagindo de acordo com a maturidade de um homem de 40 anos, joguei o restante de água de minha garrafinha sobre o irlandês.
Todos os filhotes estavam dormindo quando chegamos na casa de praia de Harry. Era um lugar enorme, como esperado, e assim que acordamos as crianças, elas ficaram tão animadas que sequer percebia-se que tinham dormido por mais de três horas. Existiam três suítes principais, e como nossos filhos dormiam sozinhos, foi o bastante para acomodar a família. Harry e eu pegamos a que ficava ao lado do quarto das crianças, então a babá eletrônica teria um bom sinal com o monitor.
Ainda usávamos aquele aparelho porque, como Lux tinha os pulmões fracos pela asma, ela acordava algumas vezes durante a madrugada com engasgos e muco acumulado nas vias aéreas, o que podia se agravar a um ponto bem sério. Os outros três filhotes não se importavam com aquilo, Olivia até mesmo dizia que era como se eu e Harry estivéssemos mais perto deles durante a noite e, por isso, eles dormiam melhor.
Depois de nos instalarmos nos aposentos, decidimos descansar um pouco antes de aproveitarmos a praia — que era, praticamente, o quintal da casa — e para passearmos pela cidade. Foi bom lembrar da época em que minha mãe, Lottie, Fizzy e eu nos hospedávamos na casa de nosso tio, indo pescar à noite com as armadilhas de siri. Fizzy era a única que pegava os crustáceos na mão, porque Lottie e eu éramos muito medrosos e bobos para aquilo.
Tendo concluído o processo de revirar cada canto da casa para farejar e marcar os cômodos com os próprios cheiros, as crianças não demoraram a cochilar, e nós, os cinco adultos, nos largamos na sala de estar para assistir a um jogo de futebol do Doncaster Rovers contra o Oxford United. Só eu e Niall éramos realmente fãs de futebol, porém Harry, Liam e Zayn pareciam bastante interessados, perguntando coisas e tirando dúvidas para ficarem por dentro do assunto.
No fim, os Rovers saíram campeões e caçoei dizendo que, pelo time vir de Doncaster, obviamente eles eram bons.
— Vocês querem jantar em algum lugar fora ou pedir comida? — Liam perguntou enquanto ele e Zayn lavavam as tigelas que usamos para comer amendoins e mini pretzels.
Estávamos sentados na ilha da cozinha, conversando sobre assuntos diversos, além de lambiscar os lanchinhos que compramos.
— Acho que seria legal sair e passear — comentei. — Niall nunca veio para cá, então…
— Não mesmo? — Harry perguntou, olhando para o ômega loiro. A convivência deles era de melhores amigos, quase, após tantas turbulências no começo.
— Não, minha mãe não ganhava tão bem para podermos vir e ainda nos hospedarmos em algum lugar — o irlandês explicou.
— Vamos naquele restaurante grego, então — Liam sugeriu. — A comida é ótima e tem uma vista bonita para o mar. Acho que é onde tem um show ao vivo, também, como Louis tinha dito.
— Milos? — Perguntei.
— Acho que é este o nome, mesmo.
— Eu estou dentro — falei.
Os outros concordaram em irmos àquele restaurante, e como era próximo das sete da noite, subimos para nos arrumar. Theo, Olivia, Diana e Lux ficaram animados por conhecer uma nova cidade, ficando só um pouco tristes quando eu os avisei que não poderiam se transformar em lobos em público; de toda forma, continuaram elétricos e quase não nos deixaram vesti-los.
Causamos certa surpresa ao entrarmos no restaurante por sermos uma família grande, entretanto os funcionários que ficaram responsáveis por nossa mesa foram bastante receptivos e, mesmo que não falassem diretamente comigo, não demonstraram repulsa. Tive para mim que ainda naquela situação, só me trataram bem porque Harry, Liam e Zayn estavam conosco, mas não pensei muito naquilo.
O jantar foi um ótimo jeito de iniciarmos nossas férias em Cornualha, porque o restante dos dias foram repletos de momentos muito divertidos na praia, no centro da cidade e até mesmo dentro de casa. Pelo tanto que as crianças brincaram com os tios, com certeza Liam, Niall e Zayn pensariam duas vezes antes de quererem nos visitar dentro de algum tempo.
Combinamos em descansar o último dia inteiro, porque durante a viagem de volta para Londres não estaríamos tão cansados. Então, no penúltimo dia, fomos a umas das praias mais escondidas da cidade, podendo dividir uma extensa faixa de areia com mais duas ou três famílias que também conheciam aquele local, apenas.
Eu estava ajeitando o terceiro guarda-sol na areia, Liam e Zayn tinham saído para comprar algumas coisas para comermos e bebermos, e Niall estava brincando com as crianças num buraco que eles cavaram na areia, próximo ao mar, que enchia conforme as ondas os alcançavam.
Harry tinha deitado numa das cangas a fim de pegar um pouco de sol, e quando terminei, sentei-me ao seu lado. Sua mão, que antes estava sob de sua cabeça, foi para a base de minhas costas, começando um carinho suave ali. Segurei meus joelhos com os braços, sentindo meus pelos arrepiarem pelo contato.
— Olivia — chamei, e assim que a filhote ouviu, veio correndo até mim. — Você e seus irmãos passaram o protetor?
— Sim, papai — ela balançou a cabeça. — Papai Harry passou pra gente.
Sorri com a forma fofa que ela falava o nome do alfa — “Réui” —, permitindo que ela voltasse a brincar. Eles estavam se divertindo bastante, o que me fez ter certeza de que a volta às aulas seria mais tranquila, após eles relaxarem naqueles dias. Tínhamos achado uma escola próxima à campina que aceitava crianças Impuras e mestiças, e apesar de eles terem salas especiais separadas, os funcionários eram ótimos.
— Se você pensar demais com a testa assim, vai ficar com rugas — Harry cantarolou antes de me puxar para que meu corpo deitasse sobre o seu.
— Alfa bobo — sorri, dando-lhe um selinho. — Só estava pensando nas aulas deles.
— Primeiro ano no Estágio Chave² — Harry murmurou. — Eles vão ficar feliz em conhecer amiguinhos novos.
— Vão — concordei ao repousar minha bochecha em sua clavícula, sentindo a pele dele arder contra a minha. — Você passou protetor solar também, certo?
— Não preciso disso.
— Você vai se queimar, Harry — alertei num tom brincalhão.
— Eu sou inqueimável — ele retrucou, o que me fez soltar uma risada alta. Senti o peito de Harry vibrar conforme ele mesmo ria.
— Essa palavra nem existe, seu bocó.
— Bom, agora existe. Eu acabei de inventar.
Distribuí beijos leves por seu peito, pescoço e rosto, aproveitando as carícias leves que seus dedos faziam em minhas costas. Depois de alguns minutos, Liam e Zayn chegaram com os lanches e bebidas, portanto nos reunimos debaixo dos guarda-sóis para comer.
Foi um dia muito bom. Em algum momento, todos fomos para a água e as crianças ficaram muito animadas ao poderem ir para a parte mais funda do mar conosco, passando de colo em colo, praticando o nado à curta distância entre nós. Fizemos castelos de areia enormes para, depois, correr até eles e os destruir — Lux amou segurar na mão de Niall para que eles fizessem isso juntos, e não foi nada surpreendente quando notamos que eles eram os mais sujos.
Só fomos embora quando o sol começou a se pôr, e como eu avisara, Harry estava inteiramente queimado. O alfa tinha pegado um pouco de bronzeado nas tardes de piscina da mansão, porém não o bastante para que ele se livrasse de ficar bastante vermelho e não pudesse ser encostado. Niall também se queimou, entretanto, pela má vontade que ele passou o protetor em si, então várias marcas brancas apareceram aleatoriamente pela sua pele.
— Você é estúpido — falei enquanto ria e cutucava as partes que ardiam. O irlandês só conseguia me xingar. — Por que não pediu ajuda?
— Porque eu tenho 37 anos! — Ele exclamou ao correr pela sala, tentando escapar de mim. — Louis! Eu vou te matar, porra!
— Não fale palavrões — Liam avisou, assistindo a cena sem fazer questão de ajudar o ômega. — Temos crianças em casa.
— Se você tem 37 anos, por que não sabe passar protetor solar no próprio corpo? — Zombei.
Continuamos brincando por pouco tempo a mais, pois estávamos todos cansados. Por pura preguiça de sair da casa, achamos melhor pedir algumas pizzas para assistirmos a um filme lançado naquele ano — que, segundo Liam, "era obrigatório ser visto por todas as pessoas existentes" — e, depois escovarmos os dentes das crianças e colocá-las em seus pijamas, também fomos dormir.
Harry arrastou-me para tomarmos banho juntos, e de tão cansado que eu me sentia, deixei o alfa lavar meus cabelos e meu corpo. Por saber que ele aguentava tranquilamente o peso de meu corpo, deixei-me amolecer contra seu tronco para aproveitar a sensação de suas mãos vagando por meu peito, pernas e costas. Além disso, Harry disse que me vestiria, então não reclamei em retribuir lavando seu corpo, como ele fez comigo.
Deitados na cama, o alfa preferiu ficar apenas com sua cueca boxer, alegando que toda sua pele ardia a qualquer movimento que ele fizesse. Por isso, peguei uma loção de babosa que tínhamos comprado em uma farmácia para caso as crianças se queimassem, e apesar de eu considerar Harry um bebezão, espalhei o gel em seu corpo com uma massagem firme.
— Obrigado, Lou — ele disse depois de gemer de prazer ao que massageei um lugar específico de suas costas. — Isso é sensacional.
— Que bom, amor — sorri. Provocando-o, friccionei minha pélvis sobre suas nádegas. As costas de Harry se tensionaram. — É uma pena que você esteja tão dolorido, poderíamos aproveitar essa noite já que as crianças estão tão cansadas.
— Louis — ele disse em um tom de aviso. Eu conseguia sentir melhor seus feromônios saindo.
— Hum? — Murmurei inocentemente, dessa vez friccionando meu membro onde senti que era o meio de seus glúteos. — O que foi, amor?
— Ah — ele rosnou. — Foda-se.
De supetão, mal notei os movimentos de Harry até que ele me colocou deitado no colchão, debaixo de seu corpo. Suas pupilas estavam dilatadas, por puro desejo. Para instigá-lo um pouco mais, soltei mais feromônios sexuais e mantive meus olhos inocentes.
— Seu corpo está doendo, não está, Hazza?
Eu sabia que, depois de um lobo selar sua alma com a de outro, não era mais possível que se manipulassem para transar, mesmo com os feromônios normais, então se Harry estava me respondendo, era um sinal de que ele realmente queria aquilo. O cio era a única ocasião onde éramos influenciados pelos instintos.
Ele colocou sua mão sobre minha boca, me impedindo de falar. Eu quis rir da ingenuidade do alfa em supor que aquilo me faria ficar quieto. Mexendo os lábios, consegui abrir a boca o suficiente para tomar o polegar de Harry em minha boca, o chupando lenta e sugestivamente. Seus olhos acompanharam meus movimentos, e sua boca entreabriu devagar.
Se eu não conhecesse meu alfa o bastante, teria ficado assustado ao observar seus caninos crescendo, prontos para rasgar minha pele em uma nova marca temporária, as pupilas pretas dominarem o verde de seus olhos e, ainda por cima, assumir uma postura tensa devido à excitação. Eu conseguia sentir o cheiro de seu pênis ficar mais viril, querendo enfiar seu nó em mim.
— Você brinca demais com o perigo, Louis.
Dei um sorriso ladino, deixando para lá a falsa inocência. Segurei sutilmente o pulso de Harry para tirar por um momento seus dedos da minha boca.
— Talvez, eu goste. Talvez, eu ame — levantei um pouco meu tronco para ficar apenas a alguns centímetros de seu rosto. — Posso dar uma resposta certa depois que me fizer gozar, que tal?
Com um rosnado, Harry juntou nossos lábios com uma urgência contagiante.
— Não se arrependa — ele falou com um timbre grave, me fazendo arrepiar.
Não fazer barulho naquela noite foi uma tarefa muito difícil, principalmente quando Harry tomou o desafio pessoal de me fazer alcançar o ápice por cinco vezes.
இ
Uma semana após a volta às aulas das crianças, eu finalmente tomei coragem para ir até o prédio da instituição Crooked Paws. Harry tinha ficado em casa para suas reuniões depois de levar as crianças para a escola, então pude ter a manhã para organizar a casa e espairecer sobre aquilo. Seria o primeiro emprego realmente honesto que eu teria em toda a minha vida, então acredito que fosse normal estar ansioso.
O salário anunciado no panfleto era razoável, bom o bastante para que eu parasse de depender de Harry para comprar minhas próprias coisas, mas o que realmente me interessava era sobre as coisas que eu teria de fazer. Não tinham especificado nada além de que era necessário o candidato ser Impuro, então, assim que chegou o horário que eles começariam a receber os interessados na vaga, me despedi de Harry e saí de casa.
A Crooked Paws ficava num bairro periférico de Londres, entretanto o prédio era muito bem cuidado e relativamente grande, ocupando quase o quarteirão inteiro. Uma placa grande na entrada dizia
“INSTITUIÇÃO CROOKED PAWS – Cuidando de patinhas tortas desde 1980”. Senti um arrepio passar pela minha coluna, de uma forma boa, e não tardei a empurrar a porta de vidro para entrar.
Ali dentro, vários odores vieram até mim. Havia muitas crianças, era inegável, mas também senti o cheiro de lobos idosos, suprimentos hospitalares e de mofo, provavelmente pela idade do edifício e pela falta de manutenção adequada, porém não era incômodo — seria necessário forçar seu olfato para ter uma noção daquelas infiltrações.
— Olá? — Um alfa disse, chamando minha atenção. Ele estava na recepção. — Como posso ajudá-lo?
Sorrindo minimamente, aproximei-me do balcão e coloquei o panfleto que eu tinha pegado no mercado sobre a superfície de madeira arranhada. Ele tinha uma aparência excêntrica, parecendo jovem demais para ter todos os cabelos de seu corpo brancos, mas supus que ele deveria vir de uma linhagem de lobos do ártico.
— Vim por causa do anúncio que colocaram, em busca de um auxiliar.
Ele checou o papel antes de voltar seus olhos para mim. O alfa parecia meio receoso quanto a mim, um pouco hostil, até.
— Perdão, mas especificamos que precisamos de alguém Impuro.
— Eu sou um — puxei a gola da camiseta, que cobria parcialmente o “I” em meu pescoço.
— Oh — ele suspendeu as sobrancelhas. — Perdão, é que você cheira como um lobisomem.
— É o cheiro do meu alfa — expliquei. — Fui marcado, por isso…
As sobrancelhas grossas e brancas dele se arquearam, assim como seus olhos cinzentos tornaram-se maiores. Era uma reação comum de quando eu, um Impuro, contava para algum desconhecido que estava ligado a um lobisomem comum.
— Isso é uma surpresa — ele riu, envergonhado, depois de se recompor. — Desculpe por isso.
— Tudo bem, não é problema — aumentei meu sorriso. — Bom, sobre a vaga.
— Ah, claro! — O alfa assentiu rapidamente. — Primeiro, qual o seu nome?
— Louis William Tomlinson.
— Prazer em conhecê-lo, Louis. Me chamo Esdras Campbell — o alfa estendeu sua mão, que eu prontamente apertei. — Vamos fazer um tour pelo prédio, e então posso te explicar como o trabalho funciona.
— Claro — concordei, apreciando o fato que Esdras parecia ser um alfa legal e bastante decente.
Ele me guiou pelos numerosos quartos e cômodos que eles usavam na Crooked Paws, tendo várias enfermarias, duas cozinhas, algumas salas de jogos e salas de estar e mais de quarenta quartos. Esdras explicou-me que, pelo grande número de lobos que viviam nas ruas londrinas, a iniciativa da Instituição surgiu quando os pais dele decidiram dar um rumo para aqueles lobos.
Até os 18 anos, as crianças e adolescentes tinham assistência completa para que acessassem o ensino básico e técnico, sendo profissionalizados e obtendo a chance de entrar no mercado de trabalho. Além disso, os idosos podiam ficar na Instituição pelo tanto que quisessem, sendo assistidos por uma equipe de enfermeiros voluntários.
— O seu trabalho seria, basicamente, lidar com as crianças — Esdras comentou enquanto subíamos para o terceiro andar. — Elas não são muitas, porém temos mais idosos e adolescentes, e somente algumas vivem com a família.
— Como assim? — Eu quis saber.
— Acredito que apenas quatro das quinze crianças têm os pais e avós aqui — o alfa virou para mim. — O restante foi abandonado à nossa porta, ou simplesmente nós resgatamos das ruas em nossas buscas.
— Ah — foi a única coisa que consegui dizer.
Esdras tentou sorrir de um modo reconfortante, mas era visível que aquele assunto também o deixava mal. Como se para deixar aquilo para lá, o alfa voltou a andar, me fazendo acompanhá-lo.
— Enfim, você os ajudará com as tarefas mais simples que os professores passarem, mas não os deixe te fazerem de bobo, eles podem fingir que não entenderam algo simplesmente para não terem o trabalho de fazer — alertou, e eu quis rir por lembrar dos meus filhotes. — Além disso, fazer companhia e brincar são coisas fundamentais. Eles sabem organizar as próprias coisas, mas os mais novos precisam de auxílio para as atividades básicas, como escovar os dentes, tomar banho e trocar de roupas.
— Eles são bem agitados? — Perguntei ao chegarmos na porta do primeiro quarto.
Estranhamente, um pressentimento nostálgico me atingiu, como se eu estivesse prestes a rever alguém após muito tempo. Estralei os dedos das mãos, tentando aliviar aquilo.
— São personalidades diferentes, claro, um sempre é mais agitado que outro, porém não dão trabalho nenhum e são muito educados — Esdras deu de ombros. — O seu grupo é o dos ômegas, OK? São dois auxiliares por grupo, e escolhemos combinar os gêneros para que não ocorra acidentes infelizes caso algum deles entre no cio.
— Entendo — assenti.
— Bom, vamos conhecer seu grupo, então — ele sorriu.
Ao abrir a porta, o cheiro de vários pequenos ômegas chegou até nós e, no mínimo, dezesseis pares de olhos viraram para nós ao mesmo tempo. A sensação foi como puxar um longo fôlego, porque filhotes Impuros se guiavam muito pelas primeiras impressões, e caso não gostassem de mim, seria um caminho árduo para fazê-los mudar de ideia.
Entretanto, para minha surpresa, as auras deles expressaram curiosidade e animação, então uma pequena multidão se formou à nossa volta.
— Tio Esdras! — O coro de vozes cumprimentou em uníssono. — Quem é? Quem é?
É possível que eu tenha ficado com uma expressão estúpida encarando o quão carinhoso e infantil Esdras tornou-se ao ajoelhar no chão para dar atenção às crianças. Elas subiram nele como quem escala uma montanha, se pendurando em seus ombros e uma menininha conseguiu pendurar-se em seus cabelos. O alfa estava tentando contê-las, mas para isso precisou tirá-las de cima de si e levantar rápido.
— Prestem atenção, tudo bem? — Esdras pediu, e as cabecinhas anuíram em concordância. Ele olhou para mim, simpático. — Este é Louis, ele estará conosco a partir de agora, mas somente se vocês se comportarem e forem legais, entenderam?
Mais uma vez, todas concordaram com um aceno.
— Quero que se apresentem, dizendo seu nome e o que mais gostam de fazer. Assim, podem conversar um pouco com Louis e se conhecerão mais um pouco. Formem uma fila, vamos lá.
Como formiguinhas organizadas, as crianças montaram uma fila indiana na frente de um pufe amarelo no qual Esdras pediu para que eu sentasse, e então começaram a seguir as instruções do alfa. Conheci desde meninas que gostavam de jogar futebol até meninos que tinham um apreço realmente bonito pela arte, além de crianças que gostavam de tudo e nada ao mesmo tempo.
Eles eram bastante afetuosos e, conforme a fila diminuía, todos voltavam às suas atividades anteriores, ainda mantendo o volume da voz baixo para que não atrapalhassem a conversa que eu tinha com aqueles que ainda estavam indo até mim.
Foi aí que o último da fila chegou, acanhado e desconfiado.
Ele era um pequeno ômega, com olhos gatunos azuis e cabelos louro-escuros, e uma carranca séria demais para sua idade, demonstrando claramente uma barreira difícil de ser quebrada. Aquilo me fez adorá-lo.
— Oi, qual o seu nome? — Eu indaguei, com um sorriso sem mostrar os dentes.
— Não quero dizer — respondeu de forma ríspida, cruzando os bracinhos roliços em frente ao peito.
Recuei um pouco, surpreso, mas não me deixei abalar.
— Certo — mantive o sorriso, me inclinando minimamente para frente. — Então, pode me dizer quantos anos você tem, ao menos?
Daquela vez, ele pareceu surpreso, descruzando os braços lentamente com os olhos um pouco arregalados. O pequeno ômega olhou para o chão, parecendo pensar se eu era digno para saber sua idade.
— Três — murmurou, embolando sua própria língua.
— Nossa, de verdade? — Falei, atuando estar espantado. — Você é tão grande para sua idade! Quer adivinhar quantos anos eu tenho?
Aos poucos, eu conseguia romper aquela fortaleza que o pequeno lobo tinha ao seu redor, principalmente ao demonstrar que ele parecia algo maior do que sua casta sugeria.
— Uh-hum — ele concordou com a cabeça, em seguida parecendo pensar um pouco. — Tio Esdras tem vinte, e você não parece ser mais velho… Vinte e um?
Sorri maior ainda, negando com a cabeça.
— Mais uma chance?
— Vinte e cinco! — Afirmou, estufando o peito como um passarinho. — Não pode ser mais, eu só sei contar até isso.
— Você está sendo bonzinho comigo — dei risada. — Eu tenho quarenta anos.
— Quarenta! — Ele exclamou, chegando tão perto que precisou apoiar as mãozinhas em meus joelhos.
Quando uma criança Impura tocava em você pela primeira vez, consequentemente te dando seu cheiro, era um sinal sincero de confiança.
— É, quarenta anos — anui. — Você quer aprender a contar até quarenta.
— Como?
— Posso te ensinar — sugeri, logo em seguida suspendendo as sobrancelhas e mudando meu tom para algo mais sugestivo. — Porém, só vou ensinar se você me disser qual é seu nome. E o que mais gosta de fazer.
O pequeno ômega se afastou, parecendo me analisar uma última vez antes de decidir se eu realmente valia sua confiança total. Por fim, segurando seus dedinhos uns nos outros, ele me respondeu:
— Meu nome é Ethan. Gosto de construir e consertar coisas.
Como um reencontro com um velho amigo, pensei, lembrando do pressentimento anterior enquanto as lágrimas pinicavam meus olhos e meu sorriso tremia um pouco. Ele tem três anos.
— Olá, Ethan. É bom encontrar você.
FIM
இ
¹: Trecho de Nosso Último Despertar, de John Donne (1571 - 1631), Decano da Catedral de Saint Paul.
²: o Key Stage 1, da Inglaterra, corresponde aos dois primeiros anos do Ensino Fundamental I aqui do Brasil.
AVISO: leiam o capítulo de agradecimentos, tem algumas coisas que são muito importantes lá.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top