DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO

      Quem sabe, eu pudesse definir o fato de Harry estar mais próximo a mim como sendo algo divertido, no mínimo. Ainda havia dias ruins, onde o alfa não era tão comunicativo, mas desde o princípio ele fez questão de avisar que, quando fosse assim, ele tentaria ficar longe de mim para não me chatear. Ordinariamente, esses dias vinham depois de uma noite turbulenta e, apesar de não termos mais precisado ir para o hospital, foram várias as vezes em que eu dormi na poltrona ao lado da cama de Harry para que ele pudesse ficar calmo e voltar a pegar no sono. Os pesadelos não eram raros, além de tudo.

      Era inequívoco que alguns deslizes surgissem e tivéssemos algumas discussões, porém, toda vez que isso acontecia, Harry buscava redimir-se de alguma forma. Na maioria das vezes, ele puxava-me até a cozinha para que cozinhasse algo, e para mim era mais do que o suficiente. Era o jeito dele demonstrar arrependimento e pedir desculpas, e eu não podia reclamar de receber mimos doces e deliciosos.

    Houvera um dia, porém, em que Zayn me vira chorar por causa de uma altercação idiota, e eu acabara contando sobre o que tinha acontecido na noite da festa que o alfa de olhos verdes dera, quando nós quase transamos. Malik ficara possesso e fora atrás de Harry, o xingando aos berros, e eu imaginara que era ótimo não termos vizinhos naquele momento.

      Harry estava numa reunião, mas saíra dela apenas para ver o que estava acontecendo. Os dois alfas acabaram brigando — socos, porradaria, coisa e tal. Virilidade pura de um subgênero tão dominador. Não tinha mais ninguém na mansão além de mim, então o resultado de eu ter apartado aquela confusão fora um soco muito bem recebido de Harry, no maxilar, que teria acertado em Zayn.

      O resto daquele dia resumira-se em inúmeros pedidos de perdão vindos do lobisomem cacheado, e eu segurando um saco de ervilhas congeladas no rosto, para desinchar o hematoma, enquanto dava um sermão nos alfas que não ousaram nem levantar a cabeça. Pareciam cãezinhos arrependidos.

      Em compensação, os dias bons eram realmente bons. Nós passeávamos pelo terreno da campina e conversávamos bastante, a cada dia eu podia aprender um pouco mais sobre como lidar com Harry. Ele era bastante reservado quanto ao seu passado, porém mostrou-se receptivo quando o assunto era sua mãe e sua irmã, sempre com sorrisos lindos ao contar sobre as coisas que faziam quando eram mais novos. Uma vez, enquanto estávamos subindo uma colina pequena da campina, Harry ficara sem ar na metade do caminho, e decidimos parar ali mesmo. Eu me sentara na terra áspera sem ligar realmente para as minhas roupas de academia e a cara que o alfa fizera ao me olhar daquele jeito fora impagável.

      — Não seja tímido, Harry, não tem ninguém além de mim para vê-lo sujar sua calça.

      Dizer aquilo funcionara, porque o mais novo apenas aconchegara-se ao meu lado e passara seus braços ao redor do meu corpo para proteger-me do vento frio que balançava as gramíneas ali em cima. Era uma vista linda, boa parte da campina era abrangida dali e nós estávamos bastante confortáveis. Apesar de eu falar poucas coisas sobre a minha própria família, Harry sempre se demonstrava bastante interessado e respeitava o meu espaço sobre não estender muito aquele assunto.

      Era bom estar perto do alfa naqueles dias.

      Sem embargo, alguma coisa aconteceu em um final de semana em que Harry estava excepcionalmente aborrecido. Despertei-o depois de preparar o café da manhã, comemos juntos e, ao sair do escritório para a sessão de fisioterapia, um vinco tinha se formado entre suas sobrancelhas, e não sumiu até a parte da tarde. Não conversamos, como eu esperava, e mesmo com as respostas curtas e grossas, eu não poderia me importar menos. 

      Eu não tinha muito o que fazer depois de ajudar Harry com as coisas do trabalho, e quando eu estava saindo da biblioteca, fingi não vê-lo entrar no quarto cheio de tralhas do terceiro andar e trancar-se lá por horas a fio. A fim de distrair minha mente, eu li alguns livros curtos durante a manhã e agradeci internamente quando Meryl, Ethan e Sally voltaram dos seus dias de folga. Recebi todos eles muito feliz e fomos até a casa em que ficavam no terreno para que pudéssemos conversar. Meryl fez algum chá e contou sobre como tinha sido bom rever seu filho e seu marido.

      Ethan também comentou sobre rever Ophelia e seus sete filhos, e comemoramos quando ele contou sobre um dos caçulas ter conseguido um emprego. Era muito difícil que Impuros conseguissem trabalhar justamente, e o fato de seu filho ter conseguido era simplesmente incrível. Em determinado momento daquela conversa, Sally colocou a mão em meu ombro e pediu para que eu a acompanhasse até a cozinha.

      — Eu queria me desculpar por aquilo que eu disse, no outro dia — ela começou quando sentamos na mesa depois de ela nos servir chá. — Foi uma coisa estúpida e sinceramente eu me detestei por esses dias por ter saído da casa sem pedir desculpas.

      — Posso ser sincero, Sal? — A alfa assentiu. — Naquele momento, não ia adiantar de nada você pedir desculpas. Agora, porém, eu entendo que você se arrependeu, e te perdoo.

      A mulher sorriu para mim, mas ainda parecia um pouco conturbada.

      — Ashley ainda está brava comigo. Eu não escondo nada dela e, bem, eu já devia esperar que isso acontecesse. Mas, eu realmente amo aquela garota e não quero deixá-la ir.

      — Eu gostaria de saber como ajudar. O que eu posso falar é que você precisa achar os meios certos de demonstrar isso — aconselhei. — Não acho que vá ser uma coisa rápida, e nem dá para saber se ela te perdoará, só que você precisa tentar, Sally.

      — Sim, eu sei — ela balançou a cabeça e suspirou pesadamente quando fechou seus olhos. — Obrigada, Louis.

      Depois disso, eu precisei voltar para a mansão para arrumar o escritório por Harry ter soado a campainha. Quando eu cheguei, o alfa estava trancafiado em seu quarto, e achei melhor não incomodá-lo, indo fazer o almoço antes de dar um jeito na bagunça do trabalho dele — Meryl ainda estava bastante cansada, e pedi para que ela tirasse aquele último dia para repor suas energias. Com tudo pronto, chamei Harry para comer e apesar do silêncio, foi uma boa companhia. Sally responsabilizou-se por lavar a louça, o que me deu brecha para que eu pudesse finalmente arrumar o escritório.

      Não havia tanta papelada, mas Harry tinha usado alguns arquivos que eram guardados nas estantes por ordem cronológica e reorganizar tudo aquilo foi um trabalho considerável. Quando eu estava guardando o último documento, ouvi a porta ser aberta e meu nariz alcançou o cheiro de Harry; seus passos ressoavam pelo chão e me perguntei se ele estaria procurando por mim — eu não sabia o quão grande aquele cômodo era até que precisei ir para o fim dele para achar as pastas certas.

      — Estou aqui, Harry — falei alto. — Em 1945, Alemanha.

      Os pés desengonçados dele andaram até mim e eu o olhei depois de encaixar o último papel na pasta. Harry vestia uma blusa preta de mangas compridas e calças de moletom da mesma cor, e seus pés estavam dentro de um par de pantufas cinza-escuro. Seria fofo se os olhos do alfa não parecessem tão vazios e sua postura séria demais, com os braços para trás.

      — Não é uma boa época, nem um bom lugar — ele murmurou.

      Eu demorei um pouco para entender que ele tinha feito uma graça, mas o sorriso que se alastrou pelos meus lábios por isso não foi menos significante. Neguei com a minha cabeça e suspirei.

      — Do que precisa, Harry?

      — Nós vamos sair — ele disse simples, mas sem expressar emoção alguma.

      — Como assim? — Respondi, sentindo-me incomodado pela maneira insossa que ele dizia aquilo. — Sair para onde?

      — Vamos ao cinema, assistir àquele filme novo com o Sylvester Stallone.

      — Rambo V? — Falei, confuso, e o alfa assentiu. — Você ao menos sabe se eu gosto desse tipo de filme, Harry?

      Ele deu de ombros, sua indiferença realmente começava a irritar-me.

      — Acho que vai ser um bom passeio. Algum problema?

      — Hã, sim? — Fiz meu tom soar como se fosse óbvio, e bufei. — Primeiro, não há consideração nenhuma vinda de você quando se trata de eu também gostar dos seus planos. E, segundo, se quer que eu saia com você, me peça, não me convoque como sempre faz. Eu não sou um dos soldados em quem você costumava mandar, Harry.

      Quiçá, minhas palavras tenham soado duras demais, porque no mesmo instante, a aura do alfa se amuou e a primeira expressão que tomou seu rosto foi de desconforto. Ele sussurrou um pedido de desculpas antes de dar meia volta e sair de lá, o que me fez suspirar em cansaço e desejar mentalmente que aquilo não significasse um possível regresso nas coisas. 

      Quando saí do escritório, chequei em meu celular o que eu precisaria fazer, e vi que Zayn tinha passado alguns exercícios para Harry naquela tarde. Por isso, desci até o quarto do alfa e quando chamei por seu nome, não obtive respostas; bati na porta antes de entrar, não encontrando-o em canto algum. Por fim, agucei meu olfato e comecei a seguir seu aroma.

      Em meio ao cheiro das flores, encontrei Harry sentado nos velhos balanços que ficavam afastados da mansão, depois do barracão do jardim. O sol se abriu entre as nuvens densas e um calor suave banhou a campina, fazendo-me sorrir com a ironia de ver os raios iluminando lindamente o corpo relaxado do alfa, grande demais para o brinquedo. Andei sem fazer barulho e observei-o mais atentamente, notando suas pálpebras fechadas e a cabeça apoiada sobre uma das mãos que seguravam as correntes enferrujadas.

      Aproximei-me mais e notei sua respiração ritmada, como se ele estivesse quase dormindo, e levei meus dedos para seus cachos. Seus lábios cresceram em um sorriso pequeno e calmo que por pouco não causou-me um bocejo. Era como se aquele astral parado e morno irradiasse por minhas veias, trazendo-me uma sensação confortável por estar ali.

      — Seu cheiro é o melhor, Louis — ele disse com sua voz grave e lenta.

      — Isso são efeitos dos remédios que te dei depois do almoço? — Brinquei, o que causou uma risada anasalada nele.

      — Não, apenas a verdade e a nostalgia de estar aqui de novo, depois de tantos anos.

      — Aqui? — Repeti, enleado.

      — Neste balanço — ele batucou os dedos na corrente. — Sente-se.

      Fiz sua vontade, e ficamos alguns segundos em silêncio, comigo apreciando o quão brilhante e bonito Harry parecia daquela forma. Ele não tinha aberto seus olhos em momento nenhum, mas de algum jeito, eu sabia que eles deviam estar iluminados como sempre ficavam nos dias bons. Além disso, eu tive a sensação de que aquele momento era mais delicado, sensível, e que seus orbes poderiam estar exuberantes.

      As árvores ao nosso redor farfalharam com a lufada de vento quente que atravessou a campina, e eu suspirei. Era literalmente como se o tempo tivesse parado, ou que se desse muito devagar. Não era uma reclamação, no entanto, porque a sensação de ter Harry tão perto e podermos ter momentos mais íntimos sempre seria incrível. O alfa suspirou, nostálgico, e deu um impulso mínimo com os pés no chão para fazer o balanço se mover um pouco; apesar de ter uma aparência velha e meio deteriorada, o brinquedo foi razoavelmente silencioso.

      — Quando eu ainda era novo, meus pais se divorciaram pouco depois de comprar esta casa. Ethan já era um amigo nosso, também, então os dois puseram a mão na massa para reformar tudo, uma vez que o dinheiro não era um problema para minha família. Desmond, meu pai, sempre esteve presente na minha vida e na de Gemma.

      Desmond Styles. Então é isso o que significa as abreviações na foto de Ethan com o outro homem, pensei enquanto sentia minha boca secar. Harry estava se abrindo sobre seu passado, o passado com sua família, e eu notava o quão frágil aquilo era. Mesmo que eu só estivesse ouvindo e não tivesse realmente pedido para que o alfa me contasse, senti necessidade de ser cuidadoso como se estivesse andando sobre um campo minado. Qualquer passo em falso poderia causar uma explosão com danos irreversíveis.

      Por isso, encarei meus pés, que mal alcançavam o sulco formado na terra após os anos de uso do balanço. Fiquei surpreso porque, àquela altura do campeonato, o vento e a chuva teriam dado um jeito de preenchê-lo. Olhei de esgueio para o lado de Harry apenas para constatar que seus pés tocavam perfeitamente o chão e ainda assim seus joelhos ficavam meio dobrados, mesmo com outro sulco estando presente também. Como uma criancinha, invejei-o por ser mais alto.

      — Lembro que foi num ano em que a Coroa ainda tinha bastante conflitos com outros países, e nas férias de verão Des veio para Londres passá-las aqui — Harry finalmente abriu os olhos ao contar-me aquilo, sorrindo pequeno. Mas seu rosto se tornou caído, triste, ao que voltou a falar:

      “Ele aproveitou para construir este balanço para Gemma e eu, e passávamos horas a fio brincando juntos enquanto minha mãe e Meryl preparavam lanches e coisas assim. Desmond não conseguiu ficar o tempo que tinha planejado, porém, porque houveram bombardeios na cidade vizinha e ele precisou voltar. No começo parecia algo simples, ele telefonava todas as tardes para contar sobre seu dia no trabalho... Minha irmã e eu amávamos suas histórias de combate.

      “Mas, houve um dia que, mesmo sendo verão, o dia amanheceu escuro. Pedi para que Meryl deixasse o telefone conosco do lado de fora, e minha irmã ficou no lugar do meu pai para empurrar-me no balanço. Geralmente, Des chegava pelas duas da tarde e só ia embora quando anoitecia, isso quando não decidia ficar para o jantar. Anne nunca se importou, tinham uma boa amizade apesar do casamento não ter dado certo.

      “Desmond não apareceu, contudo. O relógio já tinha marcado cinco horas quando o comboio apareceu entre as árvores, e oito soldados desceram acompanhados de um tenente. Ele perguntou por minha mãe, mas ela já estava lá fora antes que fôssemos buscá-la. E, naquele momento em que eu vi a nota de condolência sendo entregue para Anne, eu apenas soube que meu pai tinha morrido. Meu pai não voltaria para casa, eu soube que ele nunca mais poderia me empurrar neste balanço.”

      O clima estava tenso quando Harry parou de falar, mas era suportável. Era uma lembrança ruim, péssima, porém o alfa parecia encará-la de modo pacato, quase mórbido. Eu não soube o que fazer com as mãos porque, agora, elas pareciam queimar por simplesmente estarem tocando as correntes do balanço, um brinquedo que parecera-me banal e insignificante, no começo, mas que adquiriu uma importância quase que gritante. Apenas cruzei meus dedos sobre o colo e engoli a saliva de minha boca.

      — Sinto muito, Harry — falei sincero, observando o quão perdido num transe ele parecia estar.

      — Está tudo bem — o alfa disse e sorriu sem mostrar os dentes, após balançar a cabeça. — São as lembranças boas que eu tento carregar sempre, é passado.

      Assenti, mas ainda assim havia uma dúvida atormentando minha mente com todo aquele assunto sobre guerra e o Exército da Coroa.

      — Foi por causa do seu pai que você decidiu se alistar tão novo? — Perguntei cautelosamente, observando suas feições. — Lembro que Liam me contou sobre como conheceram Zayn e tudo mais, e também sobre… Bom, você sabe, o incidente — limpei a garganta ruidosamente, como se pudesse tirar aquela onda desconfortável.

      Harry tornou-se sério, e suas feições mudaram para algo duro e desgostoso.

      — Por que quer saber?

      — Porque somos almas gêmeas, Harry, precisamos construir confiança um no outro a partir de algum ponto se quisermos fazer isso dar certo — respondi simplesmente antes de repuxar meus lábios, num sorriso leve. — E porque eu apartei, sozinho, uma briga entre alfas, e ainda fui socado pelo meu.

      O sorriso que o cacheado abriu me fez suspirar, e foi-me constatado que Harry jamais ficaria feio.

      — O quê? — Indaguei.

      — Me teve como seu — ele disse devagar e ainda com seus dentes brancos e perfeitos à mostra.

      No mesmo segundo, eu senti minhas bochechas pegarem fogo e meu coração enlouquecer; entretanto, não havia mais escapatória para o que eu começara a sentir pelo alfa de olhos verdes de alguns meses até então.

      — Certo, mas mantenha em segredo, Zayn não pode saber que estou o traindo — brinquei.

      Harry gargalhou jogando a cabeça para trás, e aquele som jamais poderia ser substituído por algo melhor. Era uma das minhas coisas favoritas de ouvir e seria fácil ficar admirando o jeito esquisito que o alfa o fazia, por horas. Aos poucos, ele se recompôs e respirou fundo, encarando um ponto invisível à sua frente. Não fiz questão de desviar meus olhos dele.

      — É, acho que em boa parte eu só me alistei antes da hora por causa do meu pai — Harry voltou com um sorriso menor, apesar de seus olhos terem vacilado. — Quando aquilo aconteceu, era para eu estar sozinho naquele barco — ele revelou, fazendo-me engatar um pouco a respiração.

      — Como assim? — Mesmo que tivesse acontecido há anos, o pensamento do alfa indo solenemente à espera da quase morte me deu calafrios.

      — Na época, eu era Marechal, como você já sabe. Não tinha ninguém superior a mim senão o próprio Parlamento, e eu já tinha conhecimento sobre aquele navio polonês em nossas águas. Os Marechais escocês e irlandês montaram um plano comigo para averiguarmos os interesses inimigos, mas ninguém mais deveria saber.

      Harry parecia relaxado ao contar aquilo, e — ao que me pareceu — inconscientemente beliscava seu joelho. Naquela parte de seu corpo, havia uma cicatriz grande, lembrava-me de tê-la visto nas vezes que eu tinha ajudado Harry a se vestir; podia ter sido consequência das várias cirurgias pelas quais ele passara. Também me vi encantado pela forma com que Harry falava sobre o seu passado no Exército. Ele era mais novo que eu, mas ainda assim suas vivências eram tão profundas quanto as minhas.

      — Algum deles abriu a boca, ou alguém estava nos escutando atrás da porta, porque no dia seguinte Liam apareceu em nosso quarto berrando para todos ouvirem o quão estúpido e inconsequente eu estava sendo — Harry riu de leve, e eu imitei-o. — Não tinha mais como fugir dele, então selecionamos os homens em quem mais confiávamos e o resto você já ouviu.

      — Os outros marechais não se aborreceram por terem levado mais soldados?

      — Não, na verdade. Não eram responsabilidades deles, a Coroa declarava-se autossuficiente nesse quesito, apesar de o Parlamento abranger todo o Reino Unido. Ainda que eu remoa não ter adotado mais pulso firme e negado aos pedidos de Liam para que ele me acompanhasse, nenhum dos nossos se feriu além de mim. Foi um puta milagre.

      Passamos alguns segundos daquela forma casual, como se o assunto não fosse uma parte obscura do passado de Harry. O sol começava a se pôr e eu imaginei que seria próximo das cinco horas, então eu me coloquei de pé — disfarçando um cambaleio por ter precisado pular para alcançar o chão — e parei na frente do alfa, vendo seus olhos me analisarem devagar. Estendi uma mão aberta, e ele aproximou-se até colar sua bochecha ali. Minha outra mão foi para seus cachos, onde eu iniciei um carinho lento.

      Num ímpeto de coragem, eu selei nossos lábios demoradamente e suspirei em deleite quando os dedos longos do alfa alcançaram as laterais das minhas pernas. Afastei-nos sem pressa, com medo de estourar aquela bolha na qual estávamos imersos.

      — E aquele cinema que você comentou mais cedo? A que horas começa?

      — Nós não precisamos ir se você não quiser, Louis — Harry disse ao arquear as sobrancelhas. Dispensei sua preocupação ao estalar a língua no céu da boca.

      — Apenas trocamos o filme, OK? — Pisquei para ele.

      — Hum, certo — o alfa sorriu grandiosamente, segurando meu pulso com delicadeza enquanto uma de suas mãos ainda permaneciam em minha perna. — Dê-me mais um beijo?

      Eu sorri abertamente, e balancei a cabeça antes de me afastar, falando alto, olhando-o por cima do ombro:

      — Terá que merecer, Styles.

      Eu podia sentir o olhar de Harry sobre mim quando eu já estava quase na mansão, e ouvi ele gritar:

      — Nem mesmo um beijinho para seu pobre soldado ferido, Tomlinson?!

      Harry Styles era um grande idiota, mas também era o alfa que eu estava aprendendo a amar. E acredito que, por causa dessas duas coisas importantes, eu mordi meu lábio inferior enquanto entrava na mansão porque meu sorriso era grande demais, e minhas bochechas doíam de tanta felicidade.

      Enquanto eu estava tomando banho para ir ao cinema com Harry — tínhamos decidido assistir uma exibição especial de Grease em comemoração aos 47 anos da produção —, fiquei pensando no quanto o alfa precisara amadurecer depois de participar tão proximamente da guerra. No final, não éramos tão diferentes assim.

      Eu saí do banho quente — praticamente fervente, porque minha anemia não me permitia banhos diferentes daquilo durante a noite — e enrolei uma toalha ao redor da cintura e usei outra para secar meus cabelos enquanto voltava para o quarto. Porém, assim que eu cruzei a porta, o cheiro de Harry invadiu minhas narinas e eu ergui meu rosto apenas para vê-lo deitado sobre minha cama, com três dos meus porta-retratos com ele.

      — O que você está fazendo, Harry? — Arfei e involuntariamente apertei mais a toalha em meu corpo.

      — Vendo suas fotos — ele disse, simples.

      — Está bem, vou reformular — suspirei antes de falar pausadamente: — O que você está fazendo aqui, no meu quarto, na minha cama?

      O cacheado sorriu para mim de uma maneira ladina e largou as fotos sobre a cabeceira, onde estavam originalmente.

      — Eu já estava pronto, então decidi que seria ótimo vê-lo de toalha.

      Franzi o cenho ao reparar melhor no corpo de Harry. Ele vestia uma camisa rosa-bebê de mangas compridas e botões, junto com uma calça branca de cintura alta e suspensórios da mesma cor. Havia botões pretos falsos na parte da frente da calça, de enfeite. O alfa também tinha calçado sapatos sociais de bico fino e que tinham um pouco de salto, e eu não pude conter o pensamento do quão lindo ele estava em todas as ocasiões.

      Apenas bufei ao abrir meu armário e me vi verdadeiramente confuso sobre o que vestir, então belisquei a ponta de meu polegar com os dentes. Uma parte de mim, meu ômega, desejava estar tão bonito quanto Harry, apenas para tentar fazer jus a ele, e a outra queria mandar tudo à merda e pegar o conjunto de moletom mais aconchegantes que eu tivesse.

      — Pegue algo que você se sinta confortável usando, Louis — ouvi Harry dizer, percebendo meu nervosismo.

      — Não vai estar frio lá? É uma sala de cinema — falei abafado pelo meu dedo.

      — Não se preocupe se for sobre sua anemia, vamos a uma sala climatizada.

      Agradeci por estar de costas, assim o alfa não pôde ver o sorriso singelo que eu abri ao vê-lo cuidar das minhas necessidades. Acabei pegando algumas peças que eu achei que ficariam boas e voltei para o banheiro, ouvindo Harry protestar “isso é injusto, Louis! Deixe-me vê-lo”. Mas, claro que ele não veio até mim, o alfa manteve o respeito. Depois de ter me trocado, eu encarei meu reflexo no espelho ansiosamente. Nunca tinha me sentido tão inseguro sobre como eu estava para um encontro como naquele momento.

      Porque ninguém nunca te convidou para um encontro, seu idiota, pensei comigo mesmo. Apertei o botão da digital do iPhone e grunhi quando olhei que teríamos que sair naquele momento para chegar a tempo. Por isso, chequei uma última vez se estava bom o bastante.

      Eu tinha optado por vestir uma espécie de cropped de moletom sem mangas, num tom de vermelho escuro que eu adorei. Além disso, uma bermuda preta de moletom e um par de tênis sneakers da mesma cor nos pés. Olhando-me no espelho, gostei do resultado.

      Quando voltei para o quarto, não encontrei Harry na cama, supondo que ele estaria do lado de fora; como pensei, o alfa estava encostado na parede do corredor, mexendo distraidamente em seus próprios dedos. Eu não tinha certeza do porquê, mas queria saber a opinião dele. A atenção de seus olhos caiu sobre mim e suas sobrancelhas arquearam-se, sua boca se abriu um pouco; por dentro, um orgulho vaidoso por causar aquela reação em Harry nasceu, mas guardei aquilo para mim.

      Ele desencostou-se da parede e andou até mim cuidadosamente, como se tivesse receio, e sua mão alcançou meus cabelos. No mesmo instante, eu reclinei sobre seu toque e suspirei pesadamente, sentindo meus olhos se fecharem um pouco. Harry soltou alguns feromônios¹ para me confortar ao que ele apoiou sua outra mão na base da minha coluna. Nossos peitos se encontraram e senti meu corpo gelar e meus olhos arregalaram quando o alfa encaixou seu rosto na curva de meu pescoço, seu nariz repousando bem em cima da cicatriz em formato de “I” e, consequentemente, em cima da minha glândula aromática².

      A mão que antes estava em minha cabeça tinha ido de encontro à outra; eu demorei um pouco até que percebi que aquela era a primeira vez que Harry me dava um abraço. Sentindo-me trêmulo, cruzei meus braços ao redor do pescoço do alfa, e eu não resisti a cheirá-lo sobre sua glândula também. Por um momento, me perguntei como seria ter seu nó³ em meu corpo caso decidíssemos selar nossas almas de vez com uma mordida bem ali, e isso me fez estremecer e liberar alguma excitação.

      Harry notou, porque torceu seu pescoço num ângulo um pouco estranho até que conseguisse apoiar seu nariz em meu pomo de Adão, e aquela nova posição fez eu me afastar de sua glândula e eu rosnei baixinho. Meu corpo estava quente e o ômega dentro de mim queria o cacheado próximo.

      — Não faça isso, ômega — sua voz soou arrastada, e seus lábios deram um beijo casto sobre minha pele. Apesar de soar gentil, era uma repreensão. — Não está agindo por si.

      Me forcei a pensar mais racionalmente e aumentei minimamente a distância entre nós, ainda o abraçando, mas não precisei ficar na ponta dos pés. Harry tinha abaixado para adequar sua altura à minha, o que me preocupou sobre sua coluna.

      Ele tinha razão, eu não estava totalmente em sã consciência e aquilo poderia ser ruim se tomássemos alguma decisão precipitada. O alfa se afastou mais um pouco apenas para que pudéssemos nos olhar, e eu tive certeza que poderia cair aos seus pés se Harry não parasse de me encarar daquela forma, com as pupilas dilatadas ocupando boa parte do espaço verde de seus olhos, os cabelos caindo sobre seu rosto de uma forma quase selvagem. 

      — Desculpe — falei num sopro. — Podemos ir?

      — Claro — ele sorriu.

      Acredito que aquele dia tenha sido para surpreender-me pois, pela primeira vez, os dedos cheios de anéis seguraram os meus de forma delicada, e quando entramos no carro, Harry apenas soltou minha mão para que eu pudesse dirigir, porém manteve-se segurando minha perna. Era mágico e fodidamente inebriante ter o alfa tão perto, aquilo dava-me uma vibração gostosa na barriga. Estávamos entrando na estradinha de terra batida quando Harry me pediu para colocar músicas, e eu entreguei meu celular para ele quase que automaticamente.

      — I’ve been tryna call, I’ve been on my own for long enough. Maybe you can show me how to love, maybe.

      Arregalei meus olhos e os desviei momentaneamente quando ouvi a voz de Harry soar pelo interior do Rolls-Royce, não podendo evitar minha surpresa ao notar o quão suave ela podia ser quando o alfa cantava. Ele parecia tímido, mesmo que não tivesse sido baixo, e eu apenas sorri. Harry estava à vontade o bastante para cantar perto de mim, e isso era incrível.

      — I’m going through withdrawals. You don’t even have to do too much, you can turn me on with just a touch, baby — completei, fingindo não ver o sorrisinho no canto dos lábios de Harry.

      Eu não sabia que nossas vozes poderiam soar tão boas juntas como quando o refrão chegou, nós mandamos ver juntos. Eu me inclinei um pouco mais para o seu lado, cutucando sua costela, e o alfa deu risada me afastando sem realmente fazer força. Um lampejo de quando Niall e eu costumávamos cantar juntos daquela forma veio-me à cabeça, mas não foi ruim, apenas nostálgico. Talvez eu soubesse, agora, como Harry sentia-se sobre as boas memórias com seu pai; ao menos, um pouco.

      I said, ooh, I’m blinded by the lights. No, I can’t sleep until I feel your touch. I said, ooh, I’m blinded by the lights, oh I’m drowning in the night. Oh, when I’m like this, you’re the one I trust.

      A mão de Harry voltou para minha perna, agora um pouco mais acima do que antes, e seguimos o restante do trajeto quietos, mas o clima estava tão leve e bom que eu simplesmente não fiz esforço para conter o sorriso que se desenhava em meus lábios. Mentalmente, eu desejei que nunca esquecesse daquele momento, e achei difícil sequer existir aquela possibilidade.











      Nós já tínhamos os ingressos, então bastou fazermos os pedidos de pipoca e refrigerante e um suco para o alfa, porque ele simplesmente dizia que “essas porcarias gaseificadas são um veneno do caralho, deveriam ser proibidas” — e obviamente eu também peguei algumas balas apenas para provocá-lo mais —, nas máquinas de autoatendimento e irmos para a fila retirar tudo.

      Estávamos prestes a ser atendidos, esperando apenas um grupo de adolescentes acabar de pegar suas coisas, quando o celular de Harry tocou. Ele entregou-me a nota fiscal e pediu para que eu ficasse ali, uma vez que não parecia ser uma emergência. Antes de ir para um lugar mais silencioso, o alfa estalou um beijo em minha bochecha, gozando da maneira que fiquei corado pela demonstração de afeto pública. 

      Dobrei um pouco o papel amarelado que tinha nossos pedidos entre os dedos, observando que as garotas que estavam na frente pareciam animadas com algum filme romântico cheios de galãs sem camisa e triângulos amorosos intensos. Os caras do grupo pareciam meio aborrecidos com a ideia, e eu dei risada disfarçadamente, porque um deles aparentava ser namorado de uma garota loira com bronzeado artificial, que estava tão animada com o filme que simplesmente dava pulinhos e puxava uma mecha do cabelo dele.

      Ainda bem que esse cropped tem capuz, pensei ao observá-los com um leve sorriso. A marca do “I” em meu pescoço estava bem escondida, mais o fato de eu estar disfarçando meu cheiro natural, então eu aparentava ser um ômega comum aos olhos de quem não me conhecia. Em horas como aquela eu agradecia ter sido treinado para esconder minha verdadeira identidade, pois eu tinha certeza de que, se eu não o fizesse, estar sem Harry ali seria um pesadelo.

      — Caixa liberado — ouvi um atendente dizer, e então segui até ele. Era um alfa, aparentemente entediado com sua noite de trabalho, porém estremeci ao ver um brilho diferente passar por seus olhos quando parei no balcão. — Em que posso ajudá-lo, senhor?

      — Apenas quero retirar os pedidos — entreguei a notinha e tentei ignorar o fato de seus dedos terem demorado mais do que o necessário sobre os meus.

      — Claro, espere aqui, anjo.

      No que ele se virou, eu torci meu nariz enquanto vistoriava os arredores, desejando que Harry fosse mais rápido ao falar no telefone. O grupo de adolescentes passou por mim e a pulseira de uma das garotas, uma beta, enroscou em minha roupa e ela foi segurada com um tranco fraco, voltando-se para mim com os olhos confusos antes de entender e levar sua outra mão às minhas costas para nos soltar.

      — Perdão — ela sorriu sem graça, seus amigos parando mais à frente para esperá-la.

      Era uma menina muito bonita, com a pele bronzeada pelo sol, diferente da amiga loira, olhos azuis e o cabelo castanho-claro que estava lindamente solto sobre seus ombros. No máximo, ela parecia ter cerca de vinte anos.

      — Tudo bem, não foi culpa sua — falei suave e sorri quando ela se soltou e alcançou os amigos.

      — Quem era aquele cara? Vocês se parecem um pouco — ouvi um dos meninos comentar quando eu voltei minha atenção ao caixa.

      — Nah, é coisa da sua cabeça — ela riu. — Vamos logo, quero ver Thimotée Chalamet sem camisa.

      Balancei a cabeça, invejando um pouco eles por serem tão jovens e tão despreocupados. Para o meu aniversário de vinte anos, Niall e eu tínhamos decidido fazer um bolo igual ao de A Bela Adormecida, uma vez que Aurora era a princesa favorita do irlandês, e quando vimos que a estrutura da massa estava desmoronando, resolvemos comer tudo sozinhos, ainda que não tivesse sido nossa obra culinária mais bonita. O resultado foi que ficamos tão empanturrados de doce que, no dia seguinte, a dor de cabeça que nos acometeu poderia ser comparada a uma ressaca.

      — Aqui, querido, eu só não vou ter o sabor de suco que você… — o atendente parou de falar repentinamente ao que colocou dois baldes de pipoca e um copo de refrigerante em minha frente, me encarando por alguns segundos. — O que é isso no seu pescoço?

      Na mesma hora meu peito gelou e minha mão foi automaticamente para cima da marca “I”. Ajeitei meu cropped, que eu sequer notei ter descido quando a pulseira da garota ficou presa, e balancei a cabeça.

      — Não tem problema, pode me trocar por maçã-verde — eu disse, nervoso, contornando o assunto.

      — Era uma marca Impura? — Ele pareceu indignado. — Meu Deus, o que você está fazendo aqui? 

      — Cara, só me dê as minhas coisas, por favor? — eu apoiei o peso do meu corpo sobre uma perna e franzi o cenho.

      — Como tem dinheiro para pagar isto? Cacete, e que desperdício você ser algo assim — o tom de desdenho em sua voz me fez morder o interior da bochecha e segurar as lágrimas.

      Eu não sabia o porquê de eu estar tão emotivo, mas suspirei quando mãos fortes rodearam minha cintura.

      — Eu sinceramente acredito que seu chefe ficaria descontente em saber que um funcionário dele está sendo tão desrespeitoso com um cliente — a voz de Harry retumbou atrás de mim, tão grave que fez meus joelhos fraquejarem em alívio.

      O atendente ficou pálido e arregalou os olhos.

      — Me desculpe, senhor Styles, eu não sabia que…

      — Não é para mim que você deve desculpas — Harry o cortou duramente, e perguntei-me como o outro sabia seu nome.

      Muito contrariado, aparentemente, o funcionário desceu seus olhos para mim e torceu a boca em desgosto.

      — Desculpe-me, senhor.

      Concordei com a cabeça, encostando-me em Harry mais um pouco, e o cacheado apanhou os baldes de pipoca e o suco que o atendente tinha colocado no balcão. Peguei o refrigerante e os doces, notando que o alfa de olhos verdes tomou cuidado ao se afastar de mim, uma vez que eu tinha apoiado certo peso em si, mas seu braço permaneceu colado em mim até o caminho para a sala onde assistiríamos o filme.

      Lá dentro, notei que o espaço parecia um pouco menor do que o normal, dando um ar de maior exclusividade, o clima ali dentro era agradável e não tão frio. Procuramos nossos assentos, e depois de encaixar os baldes de pipoca nos compartimentos das poltronas, Harry inclinou-se para mim até encostar seus lábios em minha orelha, o que causou múltiplos arrepios pelo meu corpo.

      — Sinto muito por aquilo, Louis. Eu não devia ter saído de perto de você — falou baixo.

      — Está tudo bem — levei minha mão até seu pescoço, colocando meu braço num ângulo estranho contra a poltrona. — Como ele sabia o seu nome?

      — Eu sou dono daqui — ele respondeu-me, simples, ao se aproximar mais do carinho que eu fazia. — Um sócio, na verdade, mas o verdadeiro proprietário é irresponsável o bastante para que eu precise cuidar da maioria das coisas.

      Virei meu corpo para que eu conseguisse encará-lo, e ignorei o muxoxo ranzinza de Harry por eu ter afastado minha mão. Como conseguia ser tão bonito mesmo sob pouca luz? Era encantadoramente irritante.

      — Você nunca vai parar de me surpreender?

      O mais novo apenas sorriu e, depois, as poucas luzes que ainda permaneciam acesas foram apagadas e as propagandas antes do filme começar se fizeram presentes na telona; Harry olhou para frente. As cores distintas refletiam em sua tez, então eu apreciei sua boniteza mais um pouco antes de me voltar para as cenas animadas do trailer de algum filme de desenho animado.

      A bem da verdade, foi difícil me concentrar no filme porque, enquanto Betty Rizzo cantava There Are Worse Thing I Could Do, Harry aproveitou para roubar-me beijos e provocar-me com seus dedos em meu pescoço. Ainda assim, eu não poderia reclamar daquilo, porque era realmente bom sentir o toque do alfa, porém pedi para que focássemos no filme — o que ele obedeceu, muito rabugento.

      E claro que eu fiquei repetindo elogios para Danny Zuko apenas para rever várias vezes a expressão ciumenta de Harry.

      Depois que o filme tinha terminado, nós passamos em uma sorveteria e pedimos dois milkshakes de morango, porque o alfa disse que “sabia ser um galã muito melhor que John Travolta”.

      — Não é muito difícil — eu falei depois de sugar mais um pouco da bebida doce pelo canudinho de papel. — Danny é aclamado só por ser bonito, mas na realidade ele é um babaca. Mas você é bonito e um cara legal.

      — Eu fui babaca com você — o alfa apontou, olhando de modo descarado para a minha boca. — Várias vezes.

      — Sim, você foi, mas por algum motivo que eu ainda não sei. E, a julgar pelas coisas que você expressa, não deve ser algo bobo como Danny, que só não tratava a própria namorada bem porque “precisava” manter a pose de machão — eu disse fazendo aspas com os dedos. Harry ainda encarava meus lábios, mesmo que demonstrasse estar prestando atenção nas coisas que eu dizia. — Se quer tanto me beijar, Styles, apenas o faça.

      Era uma brincadeira, mas eu deveria saber que o alfa curvar-se-ia por cima da mesa para alcançar-me num beijo. Senti minhas bochechas arderem ao que sua língua pressionou-se contra meus dentes, e acabei por ceder. Entretanto, quando tive noção de que as coisas estavam se intensificando e que ainda estávamos em público, afastei-me de Harry com um selinho.

      Ele ofereceu-me um sorriso satisfeito, e felizmente começamos a conversar sobre outro assunto. A sensação era que eu estava nas nuvens. A noite estava sendo ótima, nada poderia estragá-la, portanto, quando ficamos confortavelmente em silêncio no carro, durante a volta à mansão, não me incomodei. Algumas músicas tocaram enquanto Harry vasculhava a biblioteca de meu celular, o clima leve entre nós fazendo-me querer gravar aquelas memórias para sempre.

      Quando era a vez de Good Old-Fashioned Lover Boy, um apito de notificação interrompeu momentaneamente a voz de Freddie Mercury, e estranhei ao notar que a aura de Harry ficou tensa.

      — O que foi? — Indaguei, sem amover minha atenção do caminho.

      — É um lembrete do seu calendário, está falando que seu cio chega daqui a algumas semanas.

      Minha respiração engatou, contudo consegui retomar o controle com um suspiro. Então, é por isso que eu ando emotivo, constei. Pelo retrovisor, notei que Harry tinha seus olhos em mim. Vai ser um problema ignorar esse assunto. Eu poderia tomar supressores, ainda que eu não tivesse plena certeza de que os remédios funcionariam na presença daquele que era minha alma gêmea. O alfa mais novo me ajudaria? A ideia pareceu-me absurda, uma vez que nossa relação começava a tornar-se boa havia pouquíssimo tempo.

      — Eu posso te ajudar, se estiver tudo bem.

      — Eu posso me transformar quando isso chegar. 

      Falamos ao mesmo tempo, e senti minha coluna enrijar contra o encosto do banco.

      — O quê? — Sua voz ecoou certo incômodo.

      — Costuma ser mais fácil controlar a dor quando eu me transformo — expliquei devagar. — Você não precisa fazer isso, Harry.

      — E se eu quiser, Tomlinson?

      E ali estava, mais uma vez, seu tom magoado tratando-me pelo sobrenome. Era um aviso claro de que eu estava cruzando alguma linha imaginária que delimitava algum terreno desconhecido, ainda, em sua mente; destarte, fui diligente ao escolher minhas próximas palavras:

      — Que tal se nós falarmos sobre isso depois? Pode ser? Estamos cansados e essa noite tem sido incrível, Harry. Além do mais, falta um bocado ainda para acontecer.

      Ao que tudo indicou, fiz um bom trabalho em acalmar seus ânimos pois, com a aura mais branda, os cachos do alfa balançaram conforme ele acenou em concórdia, mas eu podia sentir meu coração bater em meus ouvidos e o nó em minha garganta dificultar minha respiração minimamente.

     Mais cedo, enquanto nos abraçávamos, a ideia de passar meu cio com Harry tinha cruzado meus pensamentos tão rápido que, sem atinar, acabei esquecendo-me daquela possibilidade. Era axiomático, agora, que aquela decisão não poderia ser adiada por muito mais tempo, tendo em vista que seria egoísmo deixar minha própria alma gêmea para escanteio em algo tão importante.

      Chegamos à mansão por volta da meia-noite. Estacionei o carro na garagem e ajudei Harry a descer, posto que sua coluna tinha sofrido um pouco com o esforço daquele dia e, agora, causava dores ao cacheado. Fiz uma nota mental para que conversasse com Zayn sobre aquilo no dia seguinte. Acompanhei o mais novo até seu quarto, deixando com que se arrumasse sozinho; aproveitei tal brecha para fazer o mesmo, em meus próprios aposentos, antes de voltar ao alfa. De pijamas, encontrei Harry sentado em sua cama apenas de cueca, mostrando estar com bastante dor.

      — Você quer algum analgésico? — Perguntei, ajudando-o a vestir sua camiseta. — Vou ligar o aquecedor, assim você pode dormir desse jeito.

— Não, ajude-me a colocar uma calça — ele pediu. — Mas aceito o remédio.

      Assenti e fui até o banheiro para pegar um comprimido da cartela de Tylenol, logo em seguida o entregando para Harry junto de uma garrafinha de água que ele guardava em seu frigobar. Ele engoliu o remédio para me devolver a garrafa depois, e então eu procurei alguma calça confortável para que ele dormisse.

      — Por que não quer que eu ligue o aquecedor? — Eu quis saber, ao que estava agachado na frente do alfa, passando seus pés pelo buraco da roupa.

      — Porque quero que durma comigo hoje, e acho que não seria muito confortável para você caso eu ficasse só de cueca.

      Minha cabeça levantou tão rápido que minha visão ficou esbranquiçada por alguns segundos. Desconfortável apenas para mim, então?, mas logo afastei o pensamento quando entendi o que Harry realmente tinha dito. Terminei de vesti-lo e coloquei-o deitado, ainda meio atônito.

      — Quer que eu durma com você? Na sua cama? — Repeti, como um tonto, percebendo os batimentos acelerados de meu coração.

      — Se você concordar, é claro — Harry pareceu meio desconcertado ao dizer aquilo.

      Sorri ao que eu fui fechar a cortina, minhas pernas tremendo de leve e minha cabeça girando, e então voltei para a lateral da cama antes de levantar as cobertas grossas e cutucar a costela do alfa.

      — Vá para o lado, então, seu espaçoso.

      A aura de Harry se animou e expandiu ao que ele rastejava seu corpo para dar-me lugar. Eu deitei ali e, ainda meio nervoso, senti-me enrijecer quando o braço tatuado do alfa contornou meu peito, mas logo relaxei. Era estranha a sensação de estar deitado na cama de Harry, mesmo que já tenha acontecido quando Bartley me drogara ou da primeira vez que ele tinha me pedido para esperar ali até que dormisse.

      — Boa noite, Louis — ouvi ele murmurar já perdido na sonolência.

      — Boa noite, Harry — suspirei sentindo o cheiro dele me embargar aos poucos num sono calmo.

      Em algum momento da madrugada, eu acordei momentaneamente e percebi que eu abraçava as costas musculosas do alfa, numa conchinha. Confortável, foi o que eu pensei quando voltei a adormecer.

¹feromônios não são apenas sexuais, também podendo ser usados para demarcar locais e para servirem como meio de comunicação entre indivíduos de uma mesma espécie;

²a glândula aromática é por onde o cheiro (que caracteriza sua posição na hierarquia) dos lobos sai, e também é por onde os feromônios são liberados. Além disso, é o local onde a mordida para selar as almas é dada;

³como eu posso explicar o nó... Sabe quando os caninos fazem sexo, e precisam ficar um tempo juntos porque eles meio que se “grudam”? Isso é porque a base do pênis do macho incha, fazendo a fêmea ficar presa por tempo suficiente para ser fecundada. No caso da fanfic, isso acontece com ambos os sexos e só os alfas possuem o nó.

Eu me sinto derretida de amor, e olha que fui eu quem escrevi ;p

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Beijos, até o próximo e eu amo vocês.

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