Capítulo 2

Na tarde do dia seguinte, Pete já se encontrava preparado para sua viagem, com todos seus pertences mais importantes em sua bolsa e a cela em seu cavalo, Towser, já amarrada e pronta para ser montada. Além disso, carregava consigo uma boa quantidade de dinheiro.

Depois de um breve descanso após o almoço, a família se encontrava reunida em frente à grande casa, todos prontos para se despedirem do jovem rapaz. Abraçou seus irmãos, sussurrando agradecimentos para ambos por ajudarem em sua fuga da busca por uma esposa. Em seguida, abaixou-se ao lado da mãe, a dando um beijo no rosto. Não pensou que isso fosse ocorrer, mas se pegou limpando uma lágrima teimosa que escorregou de seus olhos ao montar em seu cavalo. Disfarçou... Ou pelo menos tentou.

Então, com um último aceno grandioso, cutucou o cavalo com suas botas e este começou a correr pela rua.

-- Ele não vai para Rye, não é mesmo? -- A viscondessa perguntou, ainda sorrindo e acenando para o filho que ainda se encontrava a vista. Mike e Johnny sentem o corpo gelar e, de olhos arregalados, se entreolham.

-- O-oi? C-claro que vai... -- Mike respondeu de pronto. Maggie balançou a cabeça, tendo um ataque de riso.

-- Eu sei que ele não vai pra Rye... Rye fica para o outro lado... -- Explicou, passando os dedos nos olhos para limpar as lágrimas causadas pelo riso.

-- Vai ver ele... -- Johnny tentou ajudar o irmão mas teve sua fala cortada pela mãe.

-- Meninos, parem... Eu sei que ele não vai para Rye... Michael, seja sincero comigo, você realmente confiaria suas finanças a ele? -- A mais velha perguntou, sugestiva, se lembrando de como o filho do meio sofria para fazer suas tarefas de aritmética na infância.

-- Bem... Não... Mas... A senhora não vai fazer nada? -- Mike perguntou, estreitando os olhos, desconfiado, com medo da resposta. Lady McGonagall balançou a cabeça negativamente.

-- Deixe-o ir... Ele terá muito tempo ainda para arranjar uma esposa... E, quando fizer isso, será mais difícil fazer estas viagens... -- A velha respondeu com um sorrisinho sagaz nos lábios finos, se virando para entrar novamente em casa, deixando os dois filhos para trás se entreolhando de forma chocada.

A alguns quarteirões de distância dali, Pete sentia a brisa nos cabelos e o coração acelerado enquanto cavalgava rapidamente em meio às ruas cheias de carruagens, transeuntes e mais cavalos. Não via a hora de sair de Londres! Estava mais que empolgado para que sua viagem começasse de fato...

Havia passado a noite acordado planejando o que faria durante o percurso... Cavalgaria durante o dia e pararia em estalagens durante a noite para se alimentar e dormir. Nada poderia dar errado! Em cinco ou seis dias, estaria galopando pelas lindas paisagens das terras altas escocesas...

E, de fato, tudo corria bem! O ar primaveril era agradável e quente o suficiente para se viajar a cavalo. No caminho, se deparava com ótimas estalagens, com camas confortáveis e ótima comida. E assim, três dias decorreram sem problema algum...

Na tarde do quarto dia de sua jornada, após um belo de um almoço numa taberna da vila em que se encontrava, Pete decidiu amarrar seu cavalo sob as árvores de um vasto bosque que se encontrava na beirada da estrada. Estava calor e, após comer tudo o que comeu, o rapaz se encontrava sonolento. Apeou de Towser, esticou as pernas, pegou seu caderno, sua pena e o frasco de tinta e se sentou embaixo da refrescante sombra de um imenso lariço, recostando-se em seu robusto tronco. Abriu o caderno em uma página vazia e começou a escrever seu relato diário de como a viagem estava sendo.

É claro que, com quase meio quilo de cordeiro assado no estômago, Pete não conseguiu manter-se acordado por muito tempo. Despertou momentos depois, com um relincho de seu cavalo. Quanto tempo havia se passado? Ele não fazia nem ideia... Demorou, inclusive, um instante para se lembrar de onde estava. Olhou para baixo e viu o caderno caído ao seu lado, tal como a pena... E o frasco de tinta que, ao ser atingido pelo caderno, raciocinou o rapaz, quando este escorregou de seu colo, tombou e espalhou o líquido preto pela grama e, ao se dar conta, havia manchado uma boa parte da lateral de sua calça.

-- Que ótimo! -- Praguejou, pegando suas coisas e se levantando, irritado. A tinta já havia secado. Viu o cavalo pastando mais adiante e foi até ele. Estranhou. -- Ué, rapaz... Eu não o havia amarrado na árvore?

E só então, enquanto passava a mão pela crina castanha do animal, é que ele se deu conta...

-- Espere... Onde está minha bolsa? -- Perguntou num tom um tanto quanto estridente de surpresa e susto, procurando por sua bolsa de couro que havia prendido na sela de Towser. Ela não se encontrava em lugar nenhum, nem caída pelo gramado. Havia utilizado esta pela última vez na taverna onde almoçou, e, então, voltando ao seu cavalo, a havia amarrado na montaria tão firme quanto todas as outras vezes... Então, mais irritado do que nunca, Pete deu um tapão na própria testa. -- Mas é claro! Eu fui roubado!

De fato, o jovem havia sido roubado... Enquanto dormia profundamente, outro homem a cavalo passou e, ao ver que ninguém tomava conta daquele animal que se encontrava amarrado, foi fuçar para ver o que encontrava e se deparou com uma bolsa lotada de dinheiro amarrada à sela. Conseguiu garantir esta para si mas, quando foi tentar roubar o cavalo, este fez muito barulho e acordou seu dono... Então, temendo ser pego, o homem montou rapidamente em seu próprio cavalo e fugiu, levando consigo os pertences do outro.

E agora Pete não tinha um tostão sequer... Nem roupas... Nem comida... Nem nada! Além, é claro, de seu caderno e sua pena. Nem contava mais com o frasco vazio de tinta que, em seu acesso de raiva, ele atirou contra uma grande árvore. O objeto de vidro estilhaçou-se inteiro.

O que faria agora? Não tinha um tostão sequer e se encontrava a quatro dias de casa, num local totalmente estranho, onde não conhecia nada nem ninguém. Sua mente ainda se encontrava enevoada por conta da raiva, então não conseguia sequer pensar direito. Montou em Towser e o instigou a andar com um pouco mais de força do que gostaria. Percebeu que o Sol já estava para se por, um vento um pouco mais gélido já se chocava contra sua face e...

Por Deus, aquilo que ouviu foi um trovão? Ergueu os olhos para o horizonte e viu que nuvens cinzentas se formavam à distância...

-- Só me faltava essa... Maldição! -- Blasfemou, galopando totalmente sem rumo. Então, num lampejo de sensatez, se lembrou da taverna onde havia almoçado, não muito longe de onde se encontrava, então, girando as rédeas de Towser, fez o animal dar meia volta e o instigou a seguir em frente rumo à antiga casa onde achou que poderia encontrar abrigo e, lá, conseguindo pensar melhor, decidiria o que fazer.

Alguns minutos depois, o rapaz amarrava seu cavalo junto com alguns outros em frente à taverna. Sentia frio, afinal, a hora que adormeceu estava calor, portanto seu casaco se encontrava em sua bolsa... Que agora devia estar aquecendo os braços de outro maldito homem! Estremeceu, sentindo-se extremamente impotente quando irrompeu pela porta de madeira da estalagem, o cheiro de carne cozida invadindo suas narinas e o calor de uma lareira que havia sido acesa o aquecendo levemente.

Caminhou a passos vacilantes até o balcão, onde a dona da estalagem, uma senhora bem mais velha e com um ar maternal, se encontrava, servindo vinho a um cliente, sorrindo e conversando animadamente. Sua expressão mudou drasticamente quando seus olhos se recaíram sobre o rapaz que agora sentava-se em sua frente, tremendo de frio.

-- O senhor por aqui novamente? Achei que estava indo para a Escócia! E o que aconteceu com sua aparência? -- Ela perguntou, espantada, afinal, o homem descabelado e desesperado sentado à sua frente não se parecia nada com o jovem rapaz educado e enérgico que havia estado ali não haviam nem cinco horas.

-- E eu estava... -- Respondeu Pete enquanto a senhora o servia um copo de conhaque. Pensou em dizer que não tinha nenhum tostão, mas a perspectiva de uma bebida o aquecendo venceu sua sensatez e ele bebeu tudo num gole só antes de continuar. -- Mas fui roubado...

-- Oh, querido! -- A mulher levou as mãos à boca, horrorizada e preocupada. -- E te machucaram?

-- Não, não... Eu estou bem... Só levaram tudo que eu tinha... -- O rapaz passou as mãos de forma desesperada pelos cabelos. -- Agora não sei o que fazer... Não tenho mais dinheiro ou roupas... Estou a quilômetros de distância de casa... Por que é que tive esta ideia idiota mesmo? Já passei por temporadas antes, uma a mais não me mataria... Quem sabe eu até não encontrasse uma esposa? Mas não, eu tive que ter inventado de ir para a Escócia... Se Benedict não tivesse dito nada... A culpa é dele! Ele sempre me faz ter ideias idiotas! Agora aqui estou, perdido no meio do...

-- Credo, rapaz, acalme-se! -- Sra. Cornwell, a dona da estalagem, o cortou, já ficando nervosa com as reclamações dele. -- Reclamar não vai adiantar nada! Respire fundo e vamos pensar em alguma solução... Mas antes, tome um pouco da sopa de batatas que acabei de fazer, vai aquecê-lo...

-- Mas eu não tenho dinheiro...

-- Eu sei, eu sei... Mas é só sopa de batatas! Não é como se eu estivesse te servindo o mais fino foie gras francês! Batata é o que não falta neste país que chamamos de lar! -- A mulher sorri de forma gentil, enchendo uma cumbuca com a sopa em questão, fumegante de tão quente, entregando-a ao jovem que não pôde deixar de sorrir diante da cortesia.

-- Sabe que prefiro mil vezes uma boa sopa de batatas do que qualquer foie gras... -- Respondeu, lembrando-se da vez que experimentou o tal patê de fígado de ganso num dos bailes que frequentou... Foi uma vida para engolir o que estava em sua boca e, discretamente, jogou o resto dentro dum enorme vaso de planta.

Depois de comer e se esquentar perto do fogo, pensou em suas possibilidades, um tanto quanto escassas... Sra. Cornwell, apesar da pena que estava sentindo do rapaz e de ter-lhe oferecido comida e bebida, disse que não poderia deixá-lo dormir por lá, afinal, seu marido possuía uma lei muito restrita em não deixar que ninguém dormisse por lá sem pagar... Porém, com muita bondade, Margaret (como Sra. Cornwell havia insistido que Pete a chamasse) disse que poderia pagar um mensageiro para levar algum bilhete ou carta do rapaz para sua família, pedindo-os ajuda...

Poderia pedir para que lhe encontrassem no meio do caminho, ou, talvez, tentaria encontrar algum lugar para ficar pelos próximos dias e os esperaria por ali... Soltou um grunhido de irritação ao lembrar-se de seus planos frustrados. Esteve tão perto de conhecer as terras altas escocesas! Tão pertinho! Mas, agora, por conta de um bastardo que provavelmente deveria estar se esbaldando com suas moedas, teria que voltar para casa mais cedo e...

Espere aí... Estava tão perto! Provavelmente mais perto do que de Londres!

-- Sra. Corn... -- Começou Pete, virando-se pra mulher que limpava uma mesa próximo a onde ele se encontrava sentado, lançando-o um olhar de reprovação. -- Margaret... Quanto tempo ainda levaria para eu chegar na Escócia?

-- A cavalo? -- A senhora ponderou por um instante, tocando o próprio queixo enquanto isso. -- Uns dois dias... Se for um cavalo veloz, até um...

-- Ótimo! -- O rapaz exclamou, decidido, se levantando. -- Pode me emprestar tinta? Preciso escrever um bilhete aos meus irmãos...

Com curiosidade, Margaret concordou com a cabeça, sumindo por uma porta ao lado do balcão, retornando com um frasco quase cheio de tinta, entregando-o a Pete, que tirou seu caderno e sua pena dos bolsos e começou a redigir seu bilhete:

Queridos irmãos,
Antes de mais nada, peço que não se exasperem e, pelo amor de Deus, não contem nada à mãe (nem que blasfemei em carta). Preciso da ajuda de vocês. Vocês têm que vir urgentemente me encontrar na Escócia... Não sei bem onde, mas posso garantir que não fui longe, posso apenas garantir que estou à espera de vocês nas terras altas escocesas. Eu estou bem. Na verdade, mais ou menos, mas isso não vem ao caso, apenas venham o quanto antes, por favor!
Agradeço desde já, vocês são incríveis!
Com amor, Pete.

Então, arrancando o papel do caderno e o dobrando, Peter o entregou à Margaret.

-- Pode pedir que o mensageiro o entregue para mim? Neste endereço aqui... -- Começou a anotar o endereço da casa da mãe, onde também vivia, mas, pensando melhor, rabiscou o que havia escrito e colocou do lado o endereço da casa de solteiro de Mike.

-- Claro, querido, mas, o que você vai fazer? -- A mulher perguntou, preocupada, pegando o bilhete nas mãos, tentada a abri-lo e ler seu conteúdo, mas segurou-se. Seus olhos seguiam Pete que havia se levantado e se espreguiçado em frente ao fogo uma vez mais, batendo as mãos na frente no corpo antes de se virar para ela com um sorriso.

-- Não se preocupe comigo, ficarei bem, posso te garantir! -- Ele a tranquilizou, então, sem se importar com convenções sociais e se sentindo extremamente grato por toda a ajuda que a senhora prestou a ele, depositou um beijo no rosto rechonchudo dela, que sorriu, corada, dando um tapinha no ombro dele.

-- Você é um jovem realmente encantador, Peter! Te desejo toda a sorte do mundo e, por favor, escreva para avisar que está bem... Ah, e apareça mais vezes! -- A mulher o seguiu até a porta do estabelecimento. Já estava bem escuro do lado de fora, o som dos grilos preenchendo a noite.

-- Irei, pode ter certeza disso! -- Então, com mais uma despedida breve, desamarrou Towser, subiu em sua cela e voltou a galopar em direção à fronteira da Inglaterra com a Escócia.

Logo estaria lá, então, sua viagem não teria sido em vão! Afinal, aquele era seu objetivo, certo? Chegar à Escócia? Não havia planejado as circunstâncias e ser assaltado com certeza não estava em seus planos... Mas não ia desistir de atingir sua meta!

Estava animado com este pensamento, a noite estava agradável, havia se alimentado, Sra. Cornwell o havia arranjado uma manta que havia jogado sobre os ombros, portanto também não estava mais com tanto frio...

Mas o destino estava de brincadeira com sua cara, claro... Após um pouco mais de uma hora cavalgando noite à dentro, sentiu algumas gotas caindo em seu rosto e se lembrou do som distante e abafado de um trovão que ouviu antes mesmo de voltar à taverna...

Não demorou muito para que Pete se encontrasse totalmente encharcado, a manta não adiantando de nada, tremendo de frio sobre seu cavalo, o instigando a correr ainda mais rápido sempre em frente, rumo à Escócia.

Passou a noite inteira acordado, não parando para descansar um minuto sequer. Estava no topo de uma colina quando viu o Sol despontar no horizonte, colorindo o céu de laranja e cor de rosa. A chuva já havia cessado. Apesar de exausto e congelado, não pôde evitar de ficar emocionado com a beleza da cena... Além disso, a chegada do Sol o dava certa esperança, de que finalmente voltaria a sentir seus braços, naquele momento dormentes de tanto frio.

Galopou por mais algumas horas... Towser já parecia cansado e havia diminuído o ritmo. Pete sentia fome e dores fortes no corpo inteiro, além de ter começado a espirrar. Resistiu até o último momento, então, quando não aguentou mais, aproveitou que o Sol estava um tanto quanto forte e parou seu cavalo em um bosque, permitindo-se dormir um pouco, afinal, se apagasse, não sentiria fome...

Já havia passado fome antes, na infância, antes de ser adotado. Não se lembrava muito bem da sensação mas sabia que não era nada boa... Sua avó maluca gostava de deixá-lo sem comida para castigá-lo... Estremeceu ao lembrar da velha maligna e sentiu uma súbita raiva, mas, estava tão exausto que, sem ao menos perceber, caiu no sono, pensando o quanto era grato por McGonagall tê-lo adotado.

Despertou um tempo depois, sem saber ao certo quanto tempo havia adormecido. Olhou para o céu e constatou que já havia passado do meio dia. Estava totalmente perdido, sem saber onde se encontrava... Havia tempos desde a última sinalização que encontrara pelo caminho... Na verdade, havia tempos que não se deparava com nada pelo caminho, nem pessoas, nem estabelecimentos, nem sequer animais...

Ainda sentia as dores no corpo e seu nariz não parava de escorrer, seguido de crises de tosses. É claro que havia pego um resfriado! Porém, depois de ter dormido sob o Sol, não sentia frio... Pelo menos isso! Voltou a montar em Towser, que também havia descansado e encontrava-se novamente disposto a galopar a toda velocidade pelas estradas tortas e irregulares.

Mas, mais uma vez, o universo parecia querer brigar com Pete... A chuva não tardou a voltar a cair, trazendo consigo novamente o frio. Mas o rapaz seguia em frente! Afinal, estava tão perto, já podia sentir...

Na verdade, era a única coisa que podia sentir, pois já havia há muito tempo perdido seus sentidos. Entregado ao frio, à fome e ao terrível resfriado, mesmo que permeado por força de vontade, Pete passou por uma forte onda de delírio antes de, perigosamente, perder a consciência ainda montado em seu cavalo que corria a toda velocidade...

E, como uma pesada gota de chuva, ele caiu no meio do caminho...

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