The fall
"'Se uma pessoa cai no meio de um número', disse Boss, ' você aponta para ela como se fizesse parte dele e o termina. Ninguém quer ver você fracassar. Qualquer um pode fracassar. Eles pagam dinheiro para nos ver fazer coisas que eles não conseguem. '"
Genevieve Valentine
Dezesseis de outubro de 1888, terça-feira. (manhã). Londres (Trafalgar Square). Inglaterra.
A apresentação de ontem foi extasiante, o pouco público me deixou encantada, eles gritavam e riam, principalmente as crianças. E não pude conter minha felicidade, Jared estava explodindo também, seu sorriso era radiante. Afinal, ele não é uma ave que merece ficar encarcerada em uma casa negra, como eu e Cain, ele merece os palcos, é onde ele se sente vivo de verdade.
Saio saltitando enquanto cantarolo algo que estou inventando quando sou puxada para trás de uma cortina, penso em gritar, mas meu sequestrador se mostra a luz, mas ainda não respiro aliviada.
- Cain, o que você quer? – Disparo. – Eu estava indo dormir e...
- Sua tola de cabeça vazia. – Pisco atordoada. – Como pode pensar em dormir depois do que ouvimos?
- Está com medo? Peça para Jared cantar para você e...
- Não, mula... – Seus olhos faíscam. – Você não notou nenhuma semelhança daquela lenda, com o país das Maravilhas?
Semelhança? Agora que paro para pensar, havia algo sobre reflexos e o lado insano preso em outro mundo... Wonderland! Como não percebi isso antes?
- Sim... – Sussurro. – Tem muita semelhança.
- Chame o seu Gato.
- O que? Como você quer que eu faça isso?
- Não sei. – Ele dá de ombros. – Apenas faça.
Sustento seu olhar sem oscilar.
- O que pensa que eu sou? – Sussurro. – Apenas mais uma de suas marionetes? Farei o que me convenha.
- Está dizendo que fará o que mandei? – Ele ergue as sobrancelhas.
- Estou dizendo que falarei com Chess quando precisar. E esse não é o momento. Desculpe-me e boa noite.
- Lilith... – Ele sussurra semicerrando os olhos.
- Ora meu caro qual o motivo da raiva? Estou aguardando até agora correndo o risco de perder o Jaken apenas por suas exigências, dessa vez sou eu que vou escolher o que quero!
- Ah claro. – Ele ri entretido. – Todos querem ir para Wonderland salvar Jaken, só porque a dama quer.
- Não é isso, mas eu teria ido sozinha se você...
Ele tapa minha boca e me empurra contra a lona gelada do circo. Arregalo meus olhos, mas ele sorri docemente e diz:
- Boa noite minha bela dama. – E me solta sorrindo depois se afasta.
- Ca... – Engulo em seco, não posso gritar seu nome aqui. – Eu...
Calo-me quando seu olhar gelado recai sobre mim. O que eu fiz de errado? Eu só queria saber...
O que foi que eu fiz afinal?
Ele caminha, mas depois estanca e recua um passo. Encaro-o curiosa, Cain me olha assustado e empalidece. Escuto um estralo. Algo se quebrou. Corro para seu lado, e estanco.
O garotinho mais novo do circo está enrolado no tecido verde esmeralda que Jared se balançou durante a tarde. Um truque! Sorrio, mas lentamente meu sorriso se desfaz. Seus olhos estão sem foco e sua boca se abre em um ângulo estranho enquanto o tecido se enrola em seu pescoço fino...
- É... É um truque, não é? – Indago para Cain.
- A-acho que não... – Cain arregala seus olhos. – Ele se enforcou...
Ikki e Ambar aparecem do outro lado da lona conversando, os olhares de ambos se viram para Seva enforcado assim que nos veem encarando-os. Abraço Cain e fecho os olhos, deixando minhas lágrimas escorrerem enquanto o grito do loiro invade a noite.
XXX
Ficamos na tenda dormitório, Cain, Bankotsu e Jared estão mais quietos que o normal. Os integrantes do circo chegaram um após o outro, todos estancaram diante da cena, a criança com roupas coloridas, olhos opacos e sangue escorrendo pela boca. Não era um truque.
Engulo em seco e sussurro:
- Não foi obra da Wonderland... Foi?
- Acho difícil. – Bankotsu se inclina para frente. – Acho que ele estava treinando e... E escorregou.
- Ninguém que tem experiência se enforca daquela forma no tecido acrobático. – Jared empalidece. – Ou ele quis aquilo, ou o forçaram.
- Perdemos nossa chance. – Todos encaram Cain. – Após isso com certeza vão fechar o circo. Vamos ter que voltar sem nenhuma...
- Meninos. – Cain se cala e olha para trás. – Er...
Ikki entra, seus olhos estão vermelhos e ele não tem nenhum resquício de maquilagem no rosto, ele se parece com um anjo sem asas. Encaro-o e tento sorrir. Bankotsu se levanta e o abraça.
- Sinto muito. – Ele sussurra.
- Obrigado... – Ikki o abraça. – Meninos... – Ele afasta Bankotsu. – Amanhã o show continuará.
- Como...? – Sussurro. – Mas e o luto e o...
- O show não pode parar. – O loiro se vira e sai.
Engulo em seco. Cain sorri friamente, no fim o plano dele não irá por água abaixo. Droga... Que raiva!
Levanto-me e corro atrás do loiro. Ele não está muito longe, abraço-o e ele estanca.
- Little Lady. – Ele afaga meus cabelos. – Obrigado.
- Eu perdi meus pais... – Sussurro o agarrando mais forte. – Mamãe e papai foram esquartejados e mortos, eu era muito pequena...
- Pelos deuses! – Ele se abaixa e me encara. – Você conhece a lenda da noite?
Nego, ele caminha de costas e se senta em um caixote, me assusto quando ele me puxa pelos braços e me senta em seu colo. Faço menção de sair, mas ele apenas me abraça.
- No hinduísmo, diz-se que os deuses criaram a noite após o primeiro humano, Yama, morrer. A noite foi uma forma de apaziguar a dor da gêmea que perdera o irmão. A cada noite, um dia terminaria, e o tempo, que antes era imutável, começaria a seguir seu curso, e levaria sua dor embora. Mas eles estavam errados, a dor fica...
Sinto-o fungar, e logo ele está chorando de novo.
- Yama era meu irmão gêmeo. Ele morreu de peste negra assim que chegamos aqui. Fugimos de desgraças na nossa terra natal para enfrentarmos mais do que sonhamos. Meu irmão morreu... Eu só tinha ele viemos sem nada para cá, imigrando clandestinamente, ele adoeceu, eu não falava sua língua, eu não tinha dinheiro, não tinha ajuda, ele morreu em meus braços e eu, não pude fazer nada. Absolutamente nada, apenas vê-lo agonizar até encontrar a paz. Eu o amava, e eu o perdi.
Ele se curva chorando sem parar. Pisco sentindo as lágrimas escorrerem, pobrezinho. Eu não sabia que... Eu sei o que é perder um familiar querido, mas de formas bizarras e anormais, mas uma doença, que poderia ser tratada, e não foi isso é cruel...
- Ikki... – Tento falar algo, mas minhas palavras somem.
- Eu perdi meu irmão mais velho, e agora o mais novo também... E agora? O que eu vou fazer...?
- Eu também perdi um irmão, ele morreu ao nascer. Minha família tem um grande histórico de mortes trágicas, e... E nós somos os últimos. – Cain aparece pelo caminho que viemos, seu cabelo está caído sobre o olho direito e ele nos encara assustado. – Nossa família ruiu, e para nós só sobrou à rua.
Cain está diferente, ele ainda está maquilado, mas se eu me lembro bem, ele não estava assim antes. Aperto os olhos, ele sorri e inclina sua cabeça. Seus lábios se movem, e entendo o que ele disse: "Lilith".
- Eu não ouvi... – Ikki se inclina e me solta. – Jey?
- Desculpe-me... – Cain ri, e sua risada sai dengosa. – Eu estou louco.
Então vejo. Ele afasta a franja do olho direito, e ele é verde. Esse não é o Cain, meu Deus...
Esse é o Abel.
XXX
Meu coração dispara, esse é o Abel! Meu irmão Abel!!! Ele volta a jogar o cabelo sobre o olho verde e encara Ikki.
- Sinto muito... – Ele se vira e corre na direção em que veio.
Não devo segui-lo, mas quando terei outra chance? Eu arco com as consequências, e Cain saberá que eu também faço coisas por ele. Desço do colo de Ikki e disparo atrás dele, o loiro ainda está confuso e volta a chorar, acho que ele não vai se importar se eu for morta por meu irmão.
Vejo-o virar em meio a caixas empilhadas, viro também, e derrapo em frente a um labirinto de caixas e outros lixos abandonados. Abel aparece a certa distancia de mim e saltita até parar de frente para mim sorrindo ao me encarar.
- Abel... – Seu sorriso se alarga. – É você?
Ele consente ainda me encarando.
- O que você quer aqui?! – Cerro os punhos e o encaro irritada.
Ele faz bico e ergue as sobrancelhas em uma expressão de dor, depois pousa um dedo sobre os lábios e faz: "shhhhh" e volta a correr.
Corro atrás dele e viro a curva de lixo na qual ele estava. Estanco, se eu continuar vou me perder, as caixas empilhadas desembocam na floresta, que há essa hora está mais escura que o normal, pode ser uma armadilha. Respiro ofegante, o que eu faço?
Minha visão escurece e sinto mãos geladas envolverem meus olhos.
- Adivinha quem é?
Faço a única coisa que me provém, grito, mas ele tapa minha boca e me vira em sua direção.
- Não, não mocinha má! – Recuo.
- O que você quer? – Disparo tremendo.
- Ora Lilith... – Um sorriso alucinado surge em seus lábios. – Soube que vocês estavam aqui e vim vê-los, não está feliz?
- Você é da Wonderland!!!
- Ora... – Ele faz bico. – Pensei que você seria mais legal que o Cain.
- Me diga de uma vez por todas que eu não...
- Vai fazer o que, minha irmãzinha? – Ele gargalha e meu sangue gela.
- Bell... – Ele estanca e recuo mais. – O que você quer comigo?
- Eu só queria vê-la. – Ele sorri. – Lilith... Por favor, venha comigo?
Ele estende sua mão e sorri.
- Ir com você? – Gargalho. – Você pensa que eu sou louca?
- Sim, é. – Ele inclina sua cabeça. – Eu não sou o Cain, posso tratá-la muito melhor que ele. Eu tenho um segredo.
Ele faz uma concha com as duas mãos e depois as abre, e uma mariposa voa de seus dedos. Ele ri, e deixo um sorriso escapar.
- Sorria. – Ele enfia os dedos na boca e depois tira um lenço de lá. – Sou seu servo, milady. – Ele faz uma mesura e me oferece o lenço.
Estendo as mãos e ele segura as minhas entre as suas, um calafrio percorre meu corpo. E quando ele separa nossas mãos há um envelope colorido entre elas.
- É um convite. – Ele afaga meu rosto. – Venha me ver, lady.
- Bell. – Ele sorri. – Obrigada.
- Eu a salvarei milady, pois esse circo... – Ele sorri e fico com medo dele. – Oh... Esse circo irá incendiar sua felicidade!
Um relâmpago ilumina o céu e ofusca minha visão, e quando tudo volta ao normal estou sozinha.
- Bell...? – Ouço as batidas de meu coração. – Abel? Apareça!
Viro-me e outro relâmpago clareia o céu, uma silhueta se forma, mas não o identifico, tudo que vejo é uma sombra negra e berro recuando mais.
- Lilith?! – Minha visão volta e o ruivo me encara assustado. – O que você está fazendo aqui? Está tudo bem?
- Jared... – Suspiro e corro o abraçando.
- O que foi...? – Ele indaga assustado.
- Jared... Você sabe onde o Cain está?
XXX
- Jeremy. Eu... Eu preciso conversar. – Cain me encara e depois consente. – Er... Isso.
Estendo a mão, provavelmente o convite está todo amassado, eu não o abri, apenas fechei meus dedos ao redor dele como se fosse à peça mais preciosa de um quebra cabeça, e eu não posso perdê-la. Abro minha mão tremula, mas assim que a estendo um lenço aparece.
- Um lenço...? – Seus olhos se fixam nos meus. – O que quer dizer com isso?
- Não era um lenço! – Guincho. – Era um convite... Cain. – Ele aperta os olhos. – Abel estava aqui, eu me encontrei com ele, ele me deu isso!
- Abel? – Bankotsu se senta na cama e me encara. – O que você está dizendo? Isso é verdade?
- Claro que não. – Cain suspira. – Lilith, você já viu muitas mortes, não fique traumatizada com essa. Abel não está aqui, isso não é um convite, é um lenço.
- NÃO! – Aperto as mãos em punho. – Por que você não acredita em mim?! Bell estava aqui, eu falei com ele, eu...
- Lilith. – Encaro Bankotsu. – Eu estou em contato com a casa Nonsense, escute-me querida... Não há nenhum sinal de Bell por aqui. Não precisa ficar tão assustada, você deve ter visto alguém e...
- POR QUE NINGUÉM ACREDITA EM MIM?!
- Eu acredito. – Viro-me e o ruivo sorri. – Eu sei que o Bell está por perto. – Ele encolhe os ombros. – Eu posso sentir...
- Vocês estão loucos. – Cain se vira e deita de costas.
- Não fique com medo, meu bem. – Bankotsu sorri. – Eu estou aqui.
- Vocês são um bando de idiotas!
Saio da tenda e caminho sem olhar para trás. Droga. Por que eles não estão acreditando em mim? E como podem ficar tão impassíveis diante de uma morte? Caminho, decidida, até os caixotes onde Ikki estava, mas quando chego lá não o encontro mais.
- Ikki...? – Sussurro. Nada.
Escalo os caixotes e me sento no mais alto. Droga. Tento segurar, mas um soluço escapa de meus lábios e as lágrimas voltam a escorrer, droga, enfio a mão no bolso do casaco em busca do lenço, ao menos nisso ele vai ser útil, mas o que retiro do bolso é um convite todo amassado. Bobinho...
Seco as lágrimas e abro o convite.
"Respeitável lady, hoje, eu convido-a a participar de um espetáculo do qual a senhorita jamais se esquecerá, venha ver o circo da madrugada. Os dejetos da sua sociedade, somos o vazio e o sofrimento, venham nos ver. Oh nos aplauda, somos feitos para isso, para diverti-la, para fazê-la rir. Por isso, minha amada, aguardo ansioso sua presença."
Com amor, do seu irmão, Abel.
- Circo da madrugada...? – Sussurro. – Abel?
Fico em pé, o caixote oscila, prendo a respiração e olho para baixo, será um tombo e tanto. Dou um passo e salto no outro caixote.
Escuto uma risada, sorrio. Posso estar louca, posso ter pirado de vez, pode ser meu fim, mas isso é engraçado. Salto no outro caixote, e um deles cai. Dou risada quando a madeira se estatela no chão abaixo.
- Senhoras e senhores... – Sussurro rodopiando. – Meninos e meninas...
Salto novamente e escorrego, meu sangue gela. Sinto meu pé deslizar e encaro as estrelas do céu, mas antes que eu caia alguém puxa minha mão.
- Isso foi perigoso.
Estabilizo-me e sorrio. Abel sorri timidamente e solta minha mão. Ele encolhe os ombros e se agacha em cima das caixas.
- Quer ir comigo? – Ele indaga afastando os cabelos dos olhos, e posso vê-los nitidamente.
- E Cain?
- O que tem ele? – Ele abraça os ombros.
- Por que você está aqui? – Digo ríspida.
- Te importa? – Ele vira o rosto. – Afinal, somos completos estranhos, minha cara.
- Somos irmãos. – Sento-me ao seu lado e dou risada. – O que é você?
- Como assim? – Ele me encara sorrindo.
- Sabe? Você aparece do nada, parece mágica. Você é mesmo humano?
- Eu sou louco. – Ele me estende uma rosa branca.
- Os loucos são os melhores.
Ele se levanta e salta de caixa em caixa. Encaro-o e aplaudo quando ele chega ao topo. Bell sorri e se curva em uma reverência.
- Lhe dou uma noite. – Ele estende as mãos e borboletas voam. – Minha amada... Amanhã estarei aqui te esperando. – Ele se vira de costas e ri. – Eu te amo Lilith.
Abel se vira de costas e salta. Prendo a respiração e corro até as caixas, mas não há corpo estatelado lá embaixo, não há nada. Encaro a rosa em minhas mãos e ela está seca.
Afinal... O que é ele...?
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Finalmente Bellzinho :3 demorou mas agora ele não vai sumir do nada. Agora sim essa história vai começar a andar, desculpe-me pela lerdeza para tudo acontecer ^~^' mas vamos ver no que isso vai dar, afinal somos todos loucos por aqui, e eu amo vocês!!
Beijos da Fox >3<
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