Over the hills


"(...) Só não sinto mais prazer em nada. A melancolia me tomou a alegria de viver. E até mesmo a mais bela paisagem tornou-se algo fétido e amaldiçoado aos meus olhos."

Shakespeare.

Treze de outubro de 1888, sábado. (manhã). (...?) Inglaterra.

Estou preso no completo escuro, a única coisa que sinto são suas garras e algo frio sobre minhas mãos... Eu... Alguém... Ajude-me?

- CAIIIIIIIIIN!!!

Sinto meus joelhos se chocarem com o chão. O crânio rola lentamente e bate nos pés de minha opressora. Encaro-a enquanto arfo.

Lilith está parada na porta extremamente vermelha e descabelada. Ela veio correndo para brigar comigo... Agora ela olha de Yue para mim confusa. Engulo em seco, não me sinto bem, o que ela ia fazer comigo? Ergo-me precariamente do chão recolhendo o crânio e sorrio tentando não desmaiar.

- Você me paga... – Sussurro rindo.

Ela sorri e depois passa rapidamente pela porta, assim que ela sai volto a me ajoelhar no chão. Droga o que está acontecendo comigo?

- Cain o que ela estava fazendo...? Cain... Você está bem?

- Pareço estar bem? – Sibilo.

- Bem... Não. Quer ajuda?

- Não me toque... – Consigo me sentar apoiado no sofá.

- Você não quer que eu...

- Cale a boca. – Rosno. – Fique quieta, pelo amor de Deus!

Ela me encara assustada, tsc. Estou tonto, não consigo respirar... Espero um pouco enquanto arfo até que tudo se acalme dentro de meu corpo, aquela loba está tramando algo.

- Você...?

- Estou bem... – Sussurro. – Foi apenas um susto... Obrigado.

Ela consente sem entender, levanto-me e cruzo a porta, andar sempre foi tão difícil assim? O chão parece se distorcer aos meus pés... Droga. Tropeço e caio me apoiando em Lilith.

- Eu vou chamar o Scorpio ele vai saber o que fazer.

- Você não vai chamar ninguém... Eu estou ótimo...

- O que você disse? – Vejo uma mão parar sobre o batente da porta. – Que está ótimo? Pois não me parece.

- Ah! – Lilith arqueja. – Scorpio você é um anjo!

- Eu apenas estava passando e ouvi meu nome. – Sinto um puxão e o chão me falta. – Vamos ver... O que você andou fazendo? Usando ópio por acaso?

- Ópio? Não! – Minha cabeça começa a latejar. – Estou tonto.

- Hn... – Ele me puxa mais para perto e fareja minha roupa. – Não é ópio.

- Scorpio! – Lilith reclama. – A Yue estava com o Cain e...

- Yue? – Ele me encara e vejo profundas olheiras. – Aquela Loba estava brincando com você? – Consinto. – Ah Cain, não se meta com ela.

Ele me solta, mas permanece segurando meus ombros. Olhando-o bem ele se parece com o Christopher. Os olhos cinzentos, os cabelos claros.

- Por quê? – Limito-me a sibilar.

- Ela é uma loba em um galinheiro.

- Mas se é assim. – Lilith sussurra. – Por que ela ainda está aqui?

- Ora minha cara. – Ele afaga seus cabelos. – É bom deixar as rainhas unidas, não acha Copas?

- Rainhas...? – Minha mente clareia lentamente.

- Claro conde, as três rainhas de Wonderland, a Branca, a Vermelha e Copas. – Ele me solta. – É por isso que a Vermelha ainda está aqui.

- Yue é a... Rainha Vermelha? – Indago.

- Perfeitamente meu caro.

XXX

- Rainha Vermelha... Mas pensei que só houvesse Copas!!!

Esbravejo e Lilith recua choramingando, não consigo me conformar, droga. Desde que subi estou gritando ao nada, por que eles nunca me disseram? Por que se limitam a me prender como um animal em uma gaiola? Um burro que obedece enquanto mostra seus truques bobos e frágeis, eles estão me subestimando, pois eu não vou abaixar minha cabeça e deixar que me acariciem.

- Você mais do que ninguém devia saber disso!

- Não jogue a culpa em mim. – Lilith se defende.

- Calada, você nunca percebeu alguma coisa nela?!

- Que ela sempre quis você! – Ela grita.

- NÃO É ISSO! – Droga... – Você não entende?! Você não percebe?! Seu animalzinho estúpido, eles estão apenas nos usando!

- Animal?! Ora, seu moleque intragável, animal é você!

- O Gato sempre soube de tudo, ele só quer brincar conosco.

- Vá falar com ele, sabe que os dois estão te esperando.

- Não me imponha ordens. – Sibilo. – Quem pensa que é?!

- Sou sua soberana!

- Claro. – Dou risada. – Minha rainha... Eu sou Cain! Você não percebe?! Eu sou só eu ninguém mais!

- VOCÊ É MEU JAGUADARTE!

Recuo. O que deu nela? Vejo um brilho alucinado cruzar seu olhar e depois sumir repentinamente. Ela me encara a ponto de chorar e tenta falar algo, mas se cala e chora.

- O que você disse? – Sussurro.

- Desculpe... Você é o Cain...

- Não... Você me chamou de Jaguadarte, Yue fez o mesmo...

- Eu... Ela o quer roubar de mim...

- Ela quer...?

Claro que quer! Se ela é uma Rainha vai querer seu guarda-costas, então além da disputa com Alice ainda temos rainhas me procurando, mas se essa aqui é Copas e a outra Vermelha...

- Lilith... – Sussurro. – Se Copas é do baralho, vermelha é o que?

- Xadrez, eu acho... – Ela funga.

- Então deve haver uma Branca, não acha?

- É... – Ela pensa. – É! E quem será a branca?!

- Você tem algum palpite? – Sussurro.

- Se eu sou Copas, Yue a vermelha...? Bem somos bem distintas, e não é Chevonne. Então...

- Fox ou Emmeline? – Indago.

- Pode ser alguém de fora. Você não acha que a Fox é a Alice?

- Sim, mas... Emmeline?! – Digo com desdém. – A empregada?!

- Não julgue um livro pela capa, se um moleque franzino como você é um dragão...

- E se uma burra como você é Rainha. – Rebato. – Bem, precisamos investigar, mas por hora, vou falar com Dianna.

- Bem, "vamos"? Não é?

- Não. – Encaro-a cansado. – Fale com o Marcel, por favor, preciso ir para casa, de preferência amanhã à tarde.

- "Casa"... – Ela abaixa o olhar. – Com casa você quer dizer a mansão em Londres?

- Sim. – Sorrio. – Não vou aquele lugar desde que fui para o internato, e bem, Christopher queria ir a minha casa um dia, nada mais justo que sepultá-lo lá.

- Tudo bem. – Ela sorri. – Será justo e vai ser bom passar em casa.

- Bem, vou ao encontro de Dianna, até mais tarde.

Ela não me responde cruzo a porta e a bato.

XXX

Destranco a porta que presumo ser de seu quarto, nunca o visitei. Mas como essa casa é, e como aquele Gato é, provavelmente, de um jeito ou de outro, irei ao seu encontro.

- Bon après-midi! – Sou saudado e recebido por uma cortina de fumaça.

- Não seja irônico. – Bato a porta a minhas costas. – Meredianna?

Encaro-a sentada em um divã vermelho embaralhando cartas de tarô freneticamente. Ela nem ao menos levanta o olhar, ou nota minha presença, Chess roça em seus cachos e ela estanca me encarando.

- Filho de Deus! – Ela sorri largamente. – Há quanto tempo!

- Exijo minhas explicações. – Espero que minha voz não falhe.

- Imponha-as. – Cheshire diz lentamente.

- O que aconteceu com você após o incidente com o Christopher?

Ela me encara confusa e volta a embaralhar as cartas, Chess abaixa as orelhas e me encara cansado, depois se posiciona sobre os ombros dela e sussurra lentamente:

- Ela foi torturada por ter participado da execução, o intuito era fazê-la se esquecer do pedido do senhor Piaff. Após sessões de tortura ela perdeu a razão e a deportaram para um sanatório afastado da civilização, mas, após as torturas, ela desenvolveu um "dom", passou a fazer previsões do futuro dentro do sanatório, e por incrível que pareça, elas se concretizavam. Logo Oscar soube de todo incidente e a trouxe para a Nonsense, devido ao seu poder.

- Meu pai...? – Sussurro. – Mas como ele soube de tudo e... Ele sabia sobre o Christopher?

- Ele tinha seus segredos. – Ele sorri. – Mas não sabia que o senhor tinha presenciado a morte do garoto. E antes que pergunte, eu obtive todas essas informações de dentro da mente de Dianna.

- Tudo bem... – Sussurro. – Dianna. Você tem o dom de ver o futuro, você tem algo para mim?

- Tenho... – Ela me encara com olhos frios. Bem diferente da Meredianna comum, e muito longe da Dianna.

- Pode me dar agora? – Tento lentamente.

- Não.

- Não? – Escuto-me indignado. – Como não?

- Por hora o que eu tenho ficará guardado. – Ela levanta as cartas e as solta no chão. – Mas Ele lhe dará algo.

- "Ele"? Ele quem...? Christopher? – Arrisco.

- Ora Filho de Deus. – Um sorriso surge em seus lábios.

- Como...? – Indago assustado.

- Através de seu amigo. – Ela para de falar e subitamente desmaia.

- Ora acho que acabou o tempo. – Chess comenta levantando seu rosto. – Meredianna?

- Hã...? Sim... Mar-g-g-Gatinho!

Ela puxa suas orelhas e ele ronrona, bem, acho que ela voltou a sua insanidade comum, viro-me para sair, mas escuto o som de passos apressados e me viro para trás.

- Tome! – Ela me estende um boneco todo costurado. – Esse é para a menina, você já tem o seu!

- O meu...? – Encaro Chess. – Do que ela está falando?

Ele dá de ombros e sorri entretido, o que isso significa?

- Vá! Vá! Chispa! – Ela faz menção de me tocar, mas uma mão surge e a empurra delicadamente.

- Sem contatos físicos. – Chess diz surgindo entre nós. – Bem Conde, tenha uma boa noite. – Ele coloca o boneco esfarrapado em minhas mãos e as fecha.

- Mas por que isso? – Indago exasperado.

- Vocês foram boas crianças. E precisam se preparar, pois o circo vem aí. – Ele assopra em minha direção e vejo muitos brilhos.

- O circo...? – Tusso graças à fumaça.

- Bem, do seu ponto de vista pode ser...

- Gato... – Chamo em meio à fumaça que se intensifica. – Eu não entendo. Espere.

- Não precisa entender... Meu caro Conde.

- CHESHIRE! – Grito quando me estatelo no chão.

Bato a cabeça e encaro o teto. O circo... Mas que circo? Minha mente se ilumina. Arregalo meus olhos e sussurro:

- Ah... Bell...

XXX

Rolo na cama e encaro os dois objetos dispostos lado a lado. Um boneco esfarrapado e costurado de uma forma bem precária e o crânio vazio e frio.

- Será que Lilith tinha um amigo que morreu costurado? – Sussurro.

- Creio eu que não.

Viro-me e encaro Christopher, droga, acho que o ópio me causaria menos loucura, sorrio e volto a encarar os objetos, é um sonho.

- Vai me ignorar?

- O que você quer alma penada?

- Hn, você estava menos ríspido antes.

- O que você vai me dar?

- Não. É segredo, só quando você me enterrar.

- Mas eu... Você quer ser enterrado em minha casa?

- Sua casa não é aqui?

- Não. – Digo secamente. – Eu não tenho um lugar definitivo, mas aquela casa é minha, você não quer ficar lá? Pode assombrá-la. – Ele resmunga e depois cantarola. – Só o Jared pode cantar.

Sento-me e o encaro. Ele sorri e sua imagem oscila se tornando novamente uma criança.

- Logo eu vou sumir, não quer se despedir?

- Já me despedi, há três anos!

- Hn... – Ele volta a sua imagem "atual". – Quer me beijar? Você beijou a caveira.

- Eu estava louco! – Espero não estar corado. – Pare de ser idiota!

- Et Il a dit, pas puni parce septuple qui vous attaquer, Caïn...

- E Ele disse... – Sussurro. – Punirei sete vezes aquele que o atacar, Caim.

- Oui. – Ele engatinha e pulo na cama, seus braços atravessam meu peito, isso é horrível, e é gelado. – Queria te abraçar... – Ele sussurra. – Cain, eu digo: punirei todo e qualquer ser que o ataque Cain.

- Como...?

- Isso é segredo. – Ele "beija" meu rosto.

- Isso é horrível!!! – Grito me virando para bater nele, mas o atravesso e guincho.

- Cain...? – Encaro Lilith e Jared na porta e coro. – O que houve?

- Christopher... – Sussurro incomodado.

- Boa noite, senhor Piaff. – Lilith se senta sorrindo e Jared encara tudo curioso ao seu lado.

- Boa noite. – Ele ri quando me viro e encaro-o. – Ainda estou aqui.

- Ele disse: "Boa noite." – Digo. – Desapareça.

- Ah não, não. Sempre quis falar com ela!

- Então apareça para ela e vá irritá-la! – Grito.

- Não posso, e ei! Não é assim: "vai lá e fala oi" eu só posso me comunicar com você, idiota!

- Idiota é você! – Encaro Lilith. – Viu o que você fez? Agora ele não some!

- "Ele" quem? – Jared sorri para mim.

- O amigo fantasma dele. – Lilith responde sorrindo. – Ele é seu concorrente, cuidado viu.

- Sim eu sou, mas, infelizmente, ele tem a vantagem de estar vivo.

- Ela não te escuta retardado. – Rebato.

- Hn... – Ele choraminga ao meu lado. – Diga que eu gosto dela, é uma moça adorável e que se pudesse me casaria com ela!

- Ele disse que você é adorável e que gosta de você, se estivesse vivo até seria louco de casar com você. – Digo a Lilith.

- Obrigada. Você tem pensamentos lindos, queria ser sua amiga.

- E eu?! – Jared sorri e encara Lilith esperançoso.

- Odeio-te. Seu bastardo fingido. – Encaro Christopher assustado.

- O que...? – Ele me encara irritado. – Por que você disse isso?

- Disse o que? – Jared tilinta, mas não o encaro.

- Eu disse que o odeio. E também que irei te proteger de tudo e todos, e dentre todos, ele é o primeiro.

- Mas... Jared é meu amigo!

- He. – Ele ri desdenhoso. – Claro.

- Christopher... – Não posso insultá-lo com Jared aqui.

- Ele rouba "meu" nome! Rouba você! O que você quer que eu pense dele? Você era só meu Cain...

Ele afaga meu rosto e me arrepio, droga de fantasma, recuo e desço da cama, ele me encara tristonho. Sento-me ao lado de Jared e digo:

- Cante... Tom piper's son.

- Tudo bem. – Ele sorri e começa a cantar.

- Isso não me afeta. – Ele fica sério e começa a sumir. – Au revoir.

- E então?

- Ele disse que adorou. – Digo sem encará-lo. – E que você é ótimo.

Ele ri animado. Encaro-o, ele não vai estranhar que eu o encare assim, mas, por que Christopher disse aquilo? "Bastardo fingido" você... Também está me enganando?

- O que houve...? – Ele indaga inclinando a cabeça.

- Sobre as colinas é um ótimo lugar, não? – Sussurro sorrindo.




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