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"Tudo o que conhecemos e compreendemos se originam de nossas percepções."

Leonardo Da Vinci.

XXX

 Onze de setembro de 1888, terça-feira(manhã) "...?" Inglaterra.

Conto tudo o que aconteceu a Emmeline, ela sorri em alguns momentos, em outros permanece séria, mas ouve tudo bem calada. Quando termino, ela diz:

- Bom, desculpe-me, mas eu acho que o conde é muito reservado e não conseguir se abrir com alguém da própria família é algo triste. Mas a senhorita também é muito quieta! Tentem se comunicar mais! E bom a Chevonne e o Bankotsu serão bons pais para os dois, só que a senhorita terá de conviver com uma "madrasta boneca" também.

- Eu sei, sobre as duas coisas... Mas eu não consigo me dar bem com o Cain, ele é muito calculista e sério. Eu não gosto disso... E bom, eu gosto da Doll. Ela devia ser uma pessoa legal quando era viva, já que se parecia comigo! – Me gabo sorrindo.

- Ela era estranha... Não estava feliz nunca, eu acho que as opiniões de que a senhorita se parecer com ela é totalmente sem fundamento.

Como? A Datsuki não era assim tão legal quanto eu imagino? Queria ver como ela era antes. Quem sabe eu consiga? Já que aqui tudo é possível, mas há algo que eu quero perguntar a ela.

- Emmeline... A sua irmã... Como ela é...? Você se dá bem com ela?

- Rebecka? Bom, ela é bem animada e consegue fazer de tudo! Mas também é arrogante e odeia sujeira! Não somos de uma família tão influente quanto os senhores que aqui moram, mas temos uma vida boa. E esse sempre foi o motivo dela não gostar muito de mim...

- Como assim...? Como uma pessoa pode não gostar de você?

- Hu, obrigada, mas ela não aceita que eu tenha fugido de meu noivo para servir de empregada para um barão orgulhoso e falso, ela sempre briga comigo... Dizendo que eu merecia mais. Mas eu o amava...

- Você fugiu de seu noivo pelo Jaken? – Termino a frase com um gritinho digno de Chevonne. Tenho que parar de andar com ela.

- Meu noivo não gostava de mim! Era um casamento arranjado... E acima de tudo ele está feliz com a Rebecka...

- O que...? Seu noivo era o Scorpio...? Como ele pode se casar com sua irmã? Isso não é contra as regras?

- Não... Não sei... Mas eles sempre se amaram, quando eu saí de casa foi à deixa para os dois se unirem. Eu não vou mais a meu lar, mas os dois sempre me ajudam quando eu preciso... E eu prefiro assim...

Ela terminou desviando o olhar, o que é amar...? É assim tão estranho. Eu as vejo sofrendo tanto por seus amados enquanto eles nem se importam. Por que isso...? Acho melhor deixá-la a sós.

- Emmeline, eu vou me retirar agora... Obrigado pela conversa. E você poderia me explicar o porquê dessa casa ser tão nonsense?

- Hu... Bom, obrigada pela conversa também. E a Raposa quis assim, mas eu garanto que logo a senhorita descobrirá o porquê disso.

- Obrigada então... – Digo sorrindo ao fechar a porta.

A Raposa... Quem é essa? E quem ela pensa que é? Bom, eu acho que ela deve dar medo. Se ela é a chefona daqui, e que comanda todos, até o Marcel! Realmente deve ser uma pessoa assustadora! Epa!

XXX

Onde estou...? Sai andando sem perceber de novo e agora me perdi! Aí nem desenhei o mapa que disse que faria! Opa! Estou perto da escada...! A escada leva a meu quarto... Acho que vou tentar né? Subo cautelosamente e sem fazer barulho. E se eu encontrar a Meredianna no caminho? Eu acho que tenho medo dela, ou mesmo o Valete? Não sei o que faria ao reencontrá-lo... Quando chego a seu topo me deparo com o corredor sombrio, mas ele havia desaparecido!

Essa é à hora! Vou ver aonde esse maldito corredor dá! Bom me parece um corredor comum, mas é bem mais extenso do que aparenta. Vou até a metade onde há quatro caminhos diferentes, visto de cima o corredor deve ter a forma de uma cruz...

É estranho! E no centro, perto das ramificações do corredor, há quatro gárgulas dispostas nas respectivas entradas de cada corredor. O que é isso? Gárgulas dentro de casa? Que arquitetura bizarra...

Aproximo-me delas, hn são tão estranhas! Uma é bem pequena e engraçada, tem um chifre só no centro da testa e esse é feito de safira, ou outra pedra azul, assim como seus olhos e garras. Duas tem os olhos vermelhos, rubi no mínimo, e possuem dois chifres. "Devem ser irmãs!" penso sorrindo. E a terceira é horrenda! Com um rosto de serpente deformado e o corpo magrelo e possui três chifres...

- Credo! E ainda usaram esmeraldas para ornamentar esse bicho feio... – Sussurro, para mim mesma.

 - Bicho feio é você!

Grito com o susto ao ver a gárgula falando! O que é isso? Assim que termino de gritar a gárgula do chifre azul ralha com a outra:

- Doccione! Não assuste a criança!

- Não venha me oprimir, Gurgulio! Seu moleque!

- Doccione e Gurgulio são um par e tanto não, Wasserspeier?  

- Não! Meu irmão! Doccione é minha musa! Não vês isso Ausguss? Ó não escutais o som do meu amor?

- Que raios está acontecendo aqui? – Grito desesperada.

- Criança tu não deves andar por aqui, se a Raposa despertar. Irritada ficará!

- Raposa...? A Fox está aqui? – Indago a gargulazinha de chifre azul.

- Aqui e lá, a Raposa está em qualquer lugar. – A de chifre verde responde Doccione eu presumo, ou a feia...

- Ela é astuta e sempre muda de lugar! Não sabemos onde ela pode estar! – Um dos irmãos cantarola.

- Tá, me explica uma coisa? A Fox está ou não aqui? E onde nós estamos? Por que tudo aqui é tão confuso?

 - A Raposa pode estar, ou pode não estar. Ela não para em nenhum lugar, pois tem medo do que tem lá!

- O que tem lá...? – Pergunto receosa.

- Lá tem o espelho, que reflete o coelho.

- Lá tem o medo, que lhe agarra o dedo.

- Lá tem o sofrimento, que lhe traz o lamento.

- Lá tem a dor, que lhe impõe o pudor!

- "Lá" é o país das Maravilhas? – Estou ficando assustada.

- Lá é onde nós não queremos estar! – Todas guincham.

Estou com mais medo ainda, acho que agora eu respeito um pouco mais essa tal de Fox, já que ela faz isso para proteger a Nonsense... Mas onde estamos? Eles não me explicam nada! Só ficam rimando e rimando! Uf eu não gosto disso!

- Então me respondam a segunda pergunta? Onde nós estamos?

- Já dissemos! Aqui e lá! Estamos em qualquer lugar! Pense, entenda nos surpreenda! Aqui e lá!O que isso pode significar? – As quatro finalizam juntas.

- "Aqui e lá"...? "Aqui" é aonde? E "lá" é o que? Onde estamos...? Bem me deixa pensar...? – Isso é uma charada estranha, e complicada pra caramba! – "Aqui"... É o hoje...? E "lá"... É o amanhã?

    - Parabéns! E vamos lá! A charada você está quase a decifrar!

- Bom, "aqui e lá"... "Hoje e amanhã"... Estamos em qualquer lugar? Estamos...? Ah! A casa muda de lugar! É por isso que está sempre tudo confuso e bagunçado? Ela "viaja" ou quase isso?

- Parabéns! A charada pôde decifrar! Aqui e lá! A casa não para em nenhum lugar! Mudando e mudando, deixando todos aqui com a cabeça girando! Onde vamos parar? Não podemos comparar daqui dentro ninguém sai, pois lá fora tudo se esvai!

- Tá, tá! Parem de rimar! Eu entendi ninguém sai porque a casa fica mudando de lugar... Mas e aqui? Como todos fazem para encontrá-la?

No momento em que os quatro iam me responder uma voz infantil e aguda disse de um dos quartos:

- Gargulazinhas! Com quem estão falando?

- Oh NÃO! A raposa acordou! –Elas guincharam.

XXX

Rapidamente elas me pegam no colo e me jogam de qualquer jeito dentro de um quarto. Ora o que é isso? Vou dar uma boa bronca neles agora! Abro a porta com violência, mas o corredor em que eu estava não existe mais...! Estou em frente à sala em algum lugar...! A mesma em que a Doll está! Como é que eu vim parar aqui...?

Malditas gárgulas! Vou matar cada uma delas depois... Depois que eu achá-las. Assim que me conformo onde estou à porta da frente se abre, e Bankotsu surge, provavelmente foi atraído pelo barulho que eu fiz. Ele está bem descabelado e com olheiras enormes, não havia reparado nesse detalhe, mas o que ele está fazendo?

- Oi! Papai! – Digo docemente, já que ele parece estar em outro lugar.

- Hã...? Ah! Lilith! O que está fazendo aqui? E se lembra do nosso combinado?

- Lembro, mas fiz de propósito mesmo. Bom, eu vim parar aqui por causa de quatro gárgulas que me jogaram em lugar nenhum e depois eu acabei saindo aqui!

- Gárgulas? Uau! Parabéns eu demorei um mês para encontrar aquele corredor, elas são uma piada não é? A senhorita viu a Chefa?

- Não as achei uma piada, elas são chatas! E não vi a "chefa" também, mas posso perguntar se a voz dela é fina e melosa?

- Um pouco... É estranha... Por quê?

 - Eu apenas a escutei gritar: "Gargulazinhas!" Posso ver o que o senhor está fazendo?

 Ele ri e consente, desobstruindo o caminho para que eu passe, assim que entro sinto o peculiar calafrio ao encarar tantas bonecas juntas, mas novamente há uma que se destaca das demais.

 - Venha... Vamos fazer um teste? Gire a corda... Veja se ela reage. – Ele diz suavemente me guiando até ela.

Na primeira vez em que fui forçada a girar aquela chave eu estava quase morrendo, por causa do medo da boneca, mas hoje não sinto mais medo. Após "conhecê-la" melhor sinto até certa apreensão em revê-la. E poder conversar mais uma vez...

Giro a corda suavemente até o seu "click" já conhecido, depois vem à música... Da primeira vez foi tão assustador, agora parece estar demorando demais para acabar.   

 - Bom dia! Meu amor! – Bankotsu diz docemente.

Porém ele não obtém resposta, os olhos vermelhos novamente estão longe, vidrados em nada, ela está piscando, mas não responde.

- O que foi...? Você não consegue responder...?

- Não é um bom dia... – Ela diz com uma voz vaga. – Meu mestre.   

  Ele lhe lançou um sorriso triste, e consentiu.

- Hã... Oi! Oi senhorita Doll! Lembra-se de mim? – Digo me aproximando.

- Não... Quem é você?

 - A memória dela é, basicamente, apagada quando ela é "desligada". Por isso ela só se lembra de mim e do Jaken... Desculpe...

- Ah... Tudo bem, mas olha meu nome é Lilith!

Ela vira seu rosto e me olha sem emoção, sei que será difícil obter respostas que me agradem, mas eu quero ser amiga dela...

- Doll, você está suja e mal vestida! – Bankotsu ralha com ela. – Por que não deixa à senhorita cuidar de você?

 - Estou lhe desagradando mestre? Se isso lhe incomoda, por favor... Faça-me lhe agradar.

- Você nunca me desagradaria, apenas estou apontando pequenos detalhes que não estão te deixando aceitável. Embora para mim você seja perfeita...

- Desculpe... – Acho que essas não são as respostas que ele que ouvir, mas... Bem feito! Ele faz o mesmo com a Chevonne!

- Então... A senhorita aceita que eu cuide da suas roupas...?

Ela consente, e eu me levanto, para sair daquela sala horrível, logo ela me acompanha, enquanto anda escuto leves estalidos, deve ser a porcelana, mas antes de sair Bankotsu diz:

- Lady! Por favor, não deixe a Chevonne ver a Doll... Eu não quero que ela se magoe mais.

- Bom, já que o senhor não quer magoar a maman eu posso fazer isso.

   - Por favor... Eu não aguentaria mais uma mulher falando francês ao meu lado... Pare com isso!

Dou risada enquanto me afasto... Uo ou... Como vou chegar lá em cima? No meu "quarto"? Eu não conseguia andar por aqui antes, e agora que sei que a casa muda de lugar, eu me sinto mais desconfortável ainda. Mas aquela presença que deveria ser aterrorizadora me acalma de tal modo que sigo em frente a passos firmes. Logo chego à sala de estar, ninguém, ufa...

Subo as escadas e sou acompanhada de perto, espero não cruzar o corredor, não agora. A dona daquela voz não me parece conveniente hoje. E para minha sorte, não cruzo o corredor, chego a meu quarto e entro com a Doll.

- O que a senhorita está fazendo com a senhorita Doll?

Sou tomada por um susto tremendo, depois reconheço a voz, me viro e vejo Cain sentado na cama com um livro aberto. Como fui tola, quem mais estaria aqui?

- O papai me mandou cuidar dela. – Digo com uma voz infantil.

Ele resmunga algo e volta seus olhos para o livro em mãos.

- Que livro é esse Cain? – Indago.

- Alice no país das maravilhas. Estou re-lendo porque quero ver alguns detalhes que me sejam importantes.

- Por quê? O livro não te dará respostas sobre a Wonderland.

- Deixa-me! O que eu busco não cabe a senhorita saber!

Agora é a minha vez de resmungar, mas não vou discutir com ele hoje, puxo a Doll delicadamente e a sento na cama do lado oposto de Cain, esse por sua vez se vira de costas. Hunf. Pego uma escova de cabelos antiga jogada no criado-mudo e escovo seus cabelos delicadamente. De que material será feito? São tão suaves e reais.

Ela não diz nada, e eu só sei que ela está "acordada" pelos frequentes cliques que a corda produz ao girar.

- Senhorita Lilith, me diga, o que o senhor Bankotsu fez para a Senhorita Doll acordar?

- Eu não sei, quando o encontrei ele estava todo descabelado.

- Sei... Entendo, Little Lady, onde a senhorita esteve esse tempo todo?

- Em um corredor, conversando com gárgulas.

Não me viro para olhá-lo, mas sinto a cama se mexer quando ele olha para mim, dou risada e conto a ele tudo o que presenciei hoje, sem olhar para trás já que estava concentrada em minha tarefa. Assim que termino de contar ele diz:

- Agora faz sentido o senhor Marcel ter me dito que a nossa única exceção era não sair da casa... Mas a Fox...?

- Já disse que não a vi, mas a voz é horrível. Pronto o seu cabelo está lindo senhorita Doll!

Ela passa os dedos por entre os fios, não sei se ela sente algo, ou só está fazendo por educação, depois consente e fica imóvel novamente. Quando vou me levantar para procurar um vestido que lhe caiba a porta se abre e quem eu não podia ver está lá... Chevonne.

Ela olha assustada para Doll e logo depois desvia o olhar... Aí não...

- Maman, o que foi...? – Digo docemente.

- Poupée – Se bem me lembro isso é "boneca". – Marcel... Où est o chat...? Digo, Marcel quer saber se os senhores viram o Sir. Cheshire. 

- Não senhorita Chevonne. – Cain diz prontamente e volta a olhar o livro.

- Bonne... Je... Eu... Sair... – Ela diz saindo do quarto.

- O que foi? Por que ela fugiu? – Doll nos indaga.

- Ela está "ferida" senhorita Doll.

- Ferida...? Assim como eu...?

- Como assim? – Dessa vez Cain a indaga.

- Meu coração... Não bate... E eu me sinto estranha... Vazia... Ela se sente assim também? Como se não houvesse nada aqui dentro?

Ela diz pousando suas mãos sobre o peito e nos olha pedindo uma resposta, mas eu não sei respondê-la, eu nunca morri, muito menos amei alguém, essa resposta que ela espera não cabe a eu responder, muito menos ao meu irmão.

- Não a dor que ela sente é diferente Doll. Bom, desculpe a interromper Lady, mas preciso levar a Doll comigo, agora. – Bankotsu diz na porta.

- Sim, adeus senhorita Doll.

- Adeus Lilith, obrigada por me arrumar. – Ela diz acompanhando Bankotsu. Agora ela sabe meu nome.

 Os dois saem do quarto e nos deixam a sós, o que será que o motivou a vir buscá-la? Resmungo novamente para mim mesma, e me sento do lado oposto de Cain, e agora o que vou fazer?

- Mostre-me...? Mostra-me o corredor Little Lady?

- Eu posso tentar, mas o Bankotsu disse que é difícil chegar lá, e eu não sei como eu consegui fazer tal feito.

- Tudo bem, se ele mostrou-se a senhorita por que não faria isso a mim?

- Não sei bom o senhor que conversa com o Marcel deveria saber o porquê disso!

- Eu só converso com ele quando necessário! – Ele disse rispidamente.

- Falso... – Sussurro, mas sei que ele pode me ouvir.

- Hipócrita é a senhorita, que trata à senhorita Chevonne tão bem, mas assim que tem oportunidade a troca pela senhorita Doll.

- Ora eu não sou... Eu sou...? – Pergunto triste.

- Um pouco, mas vamos, mostre-me o corredor da raposa.

Consinto e saiu do quarto, ao descer pelas escadas fico pensando no que ele disse, eu sou falsa...? Mas eu não odeio a Chevonne, nem a Doll, eu quero ter a amizade das duas, mesmo que elas não se gostem, mas eu gosto das duas. E bem, eu acho que a Doll não tem nada contra a Chevonne, mas essa se sente tão desconfortável na presença da outra que...

- Lilith! Estamos na sala de estar! E eu não vi nenhum corredor!

- O que...? – Assim que saio dos meus pensamentos noto que realmente estamos na sala de estar...

Viro-me para a escada e subo-a novamente, ao chegar a seu topo digo docemente:

- Ausguss...? Wasserspeier...? Doccione...? Gurgulio...?

Não obtenho resposta, e tudo o que vejo é a escada vazia, então digo sorrindo a Cain:

- Acho que eles não quiseram se mostrar ao senhor, Conde.

 - Pois bem! Apenas perdi meu tempo aqui com a senhorita, bom, vou subir, pois diferente da senhorita eu tenho coisas a fazer! – Dizendo isso ele subiu a escada batendo o pé...

Realmente... O que será que eu vou fazer...? Estou tão entediada!

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