Aberrant Tour
"– Mas como é possível afastar-se de alguma coisa e ainda assim retornar a ela?
– Fácil. – Disse o gato. – Pense em alguém dando a volta em um mundo. Você começa afastando-se de alguma coisa e termina voltando a ela.
– Mundo pequeno. – Disse Coraline.
– É grande o bastante para ela. – Disse o gato. – Teias de aranha só precisam ser grandes o bastante para apanhar moscas."
Neil Gaiman.
Cinco de outubro de 1888, sexta–feira. (manhã/tarde). Mountain Grove Cemetery, Bridgeport.
Bato meu pé ritmamente no chão, Chess me disse que essa tarde nós sairíamos, mas mesmo assim estou nervoso. Seu plano não foi aprovado, mas também não foi descartado. A Raposa disse para sermos cautelosos. Deu-nos uma missão, nada muito grande, um diálogo apenas. Por hoje iremos apenas conversar com o rei do Freak show... Phineas Taylor Barnum, saber como e quando ele adquiriu o garoto com olhos de duas cores. Estou nervoso, mas a uma pessoa mais nervosa do que eu...
- Preciso mesmo ir? – O ruivo me fita, aflito.
- Deve. – Digo irredutível.
- Mas mestre Cain eu tenho tanto medo...
- Por quê? O que te assusta tanto aberração? – Indago me sentando ao seu lado.
- Ele... – Suas mãos apertam o short novo. – Ele foi um dos nobres que fizeram aquilo comigo... – Noto os nós de seus dedos brancos e suas mãos tremerem. – Ele me dá medo... Ele...
- Cain? – Lilith surge à porta. – Bankotsu e Emmeline estão nos esperando. – Seu olhar recai sobre Jared. – O que foi?
- Nada... – Ele alisa seus cabelos ruivos os jogando para trás. – Não foi nada little lady.
- Até você?! – Ela bufa.
- Por que Emmeline? – Indago.
- Chevonne não está bem, e ela quer que a Emmeline vá. Sei lá por que. E Chess não irá conosco, não "fisicamente".
- Entendo. – Levanto-me da cama e coloco minha cartola e minha capa negra sobre os ombros. – Vamos Jared, ex-aberração.
XXX
A porta se abre lentamente e o ar frio me atinge. Ainda não entendi como essa casa funciona, mas sei que não estou mais em meu lugar. Estou longe, muito longe de casa... Piso receoso na grama úmida e caminho. Sinto passos hesitantes em meu encalço, estendo meus braços e deixo o ar gelado balançar meus cabelos, estou livre daquela casa maluca... Uma risada límpida preenche minhas costas.
- Uau! Onde estamos? – Lilith indaga.
- Bridgeport. – Bankotsu diz se juntando ao nosso pequeno grupo. – P.T Barnum mora em um lugar peculiar.
Ele para ao meu lado e sorri, nunca gostei desse olho verde dele, resmungo e caminho me afastando dele, Emmeline surge logo atrás fechando a porta da casa da qual saímos.
- Estás muito elegante hoje, senhorita Emmeline. – Jared diz lhe estendendo um braço. – Deixe-me acompanhá-la?
- Claro. – Ela ri e lhe afaga as mechas ruivas. – Creio que seja melhor assim. – Seu olhar azul escuro mira Bankotsu.
- Não me importo. – Ele dá de ombros. – Chevonne não pode vir, mas eu podia muito bem vir sozinho. Mas agradeço à senhorita, Emmeline.
- Sou eu quem está lisonjeada, sou uma mera empregada...
- Chega disso, não? – Lilith dispara. – Vamos?
Agradeço imensamente por ela ter feito isso. Caminho sem rumo, tudo bem, é só seguir em frente e esperar que eles venham, não quero andar no encalço deles.
Fungo, o ar gelado não é tão agradável assim, provavelmente pegarei um resfriado. Continuo em frente olhando a vista, poucas pessoas, poucas lojas, pouca vida, isso é bom, adoro vistas deploráveis assim, são como eu, horríveis. Escorrego sem querer no musgo e sou apoiado por Bankotsu. Encaro-o irritado.
- Cuidado. – Ele sussurra a minha orelha. – Podes cair pequeno lorde.
- Se cair, eu me reergo. – Limpo o pó de meu short e sigo em frente triunfante. – Obrigado.
XXX
Bankotsu toca a campainha e esperamos apreensivos, viro-me e noto Jared apertar a saia de Emmeline, ele está completamente apavorado. Encaro o nada atrás de nós, Lilith disse que Chess viria, mas ainda não o notei. Fito um ponto especifico, mas nada, nem sei se ele veio realmente. Suspiro e escuto a porta abrir.
- OH! Os garotos que queriam me visitar!
Encaro o senhor baixinho e rechonchudo me encarar. Ele não parece um senhor que explora criaturas defeituosas, não mesmo...
- Sim, estamos muito felizes que o senhor nos recebeu.
Bankotsu estende sua mão e ele a aperta com vigor, eles são quase do mesmo tamanho... Menores que eu! E só tenho 13 anos!!!
- Entrem! Entrem! – Ele dá passagem e entramos. – Minha mulher não está hoje, mas entrem.
- Oh que lugar agradável.
Viro-me intrigado e noto Cheshire cruzar a soleira elegantemente, P.T o encara e diz:
- Que bela fantasia! Gostaria muito de providenciar uma dessas para meus freaks! – Ele ri e dá um lindo tapa nas costas de Chess que sorri. – Um belo sorriso também!
- Eu sei... – Ele se curva e segue.
Cruzo a porta e seus olhos me fitam com um brilho alucinado, ele aperta minha mão e pousa a outra em minhas costas, definitivamente, ele é estranho. Depois que sigo Jared entra...
- Oh meu jovem, que belos cabelos ruivos. Creio que já nos vimos antes?
Jared o encara e arregala seus olhos verdes, não sei o que fazer... Bankotsu então se adianta e passa os braços pelos ombros de Jared e o puxa dizendo:
- Creio que não, Jared não sai muito, tem a saúde debilitada.
Caminho a passos firmes em direção ao escritório dele, definitivamente, eu possuo um pouco mais de ódio dele do que das outras pessoas.
XXX
Sento-me na cadeira em sua frente e cruzo minhas pernas, seu olhar brilha. Que nojo...
- Então... O que os nobres senhores querem tratar comigo? Álias, qual seu nome pequeno...?
- Cain. – Seu susto me delicia. – Cain Maurêveilles.
- Ah... Maurêveilles. Foi um grande choque a perda de Oscar, grande homem. Perdi um grande amigo... – Ele sorri. – Tinha notado certa semelhança, mas minha suspeita foi confirmada ao ouvir seu nome. E a garotinha deve ser Lilith, sempre quis conhecê-los!
Sorrio e encaro Lilith, ela está mais pálida que o normal e Jared também, eles estão sentados em um sofá, bem apertados, com Emmeline, enquanto Bankotsu e eu estamos sentados em frente a ele. E Chess circulando pela casa.
- Bem, bem do que íamos tratar mesmo?
- Uma contratação...
- OH?! Querem trabalhar para mim? – Ele sorri. – Então olhos roxos e... O menor homem de Londres...? E...
- Não! Mas é quase isso... – Bankotsu sorri e desliza uma mão por sua coxa. Ele está mais estranho do que o normal... – Queremos uma informação sobre um contratado.
- Ah claro. – Seu sorriso some. – Mas geralmente não conheço meus contratados, isso pode dificultar, não?
- Um garoto. – Disparo. – 13 anos, olhos de duas cores!
- Olhos de duas cores...?! – Ele lambe seus lábios.
- Exatamente. – Chess abre a porta sorrindo. – Ele também possuía certa semelhança com o pequeno conde?
- Demais. – Ele me fita. – Se não me engano... Bell?!
- Isso. – Ergo-me e ele me encara. – Quando o senhor o contratou?!
- Isso eu não sei... – Sinto meu chão ruir. – Não de cabeça! Mas é só procurar seu contrato...
Ele se levanta rebolando e abre uma gaveta com muitos papéis, sento-me novamente e encaro Bankotsu, ele ergue suas sobrancelhas em uma expressão triste, por quê?
- ACHEI! – Ele se senta e lê o contrato. – Alberti Astolf! 13 anos, olhos de duas cores, roxo e verde. Dança também... Nome artístico Bell. Mas se me permite, por que a curiosidade?
- Ah veja bem, temos um médico na família, e ele queria muito estudar os olhos desse garoto. – Bankotsu se apoia na mesa. – E também somos contra isso que o senhor faz...
- Ah, pois bem. Podemos tratar...?
- Claro. – Bankotsu se afasta. – Pagarei quanto o senhor desejar, para saber sua localização e tê-lo comigo...
- Sim... Sim... – Suas mãos deslizam pela gaveta e a abre repentinamente, depois ele busca algo, porém para abruptamente. – Castrato...! – Seus olhos fitam Jared. – Nome: desconhecido, idade: desconhecida. Sabia que te conhecia!
Jared recua e vejo seus olhos lacrimejarem. Tsc...
- Mas... – Ele olha do papel para Jared. – Você não tinha morrido no incêndio, pequenino?
- Não, eu o tirei de lá. – Ele me encara assustado. – Mas se quiser eu pago quanto o senhor estipular por ele.
- Ah... O conde gosta de minha aberração?
- Eu gosto do Jared... Ele é um servo muito eficiente.
Ele gargalha e se sacode assustadoramente, recuo, mas Bankotsu segura meu pulso e me indica para manter a calma.
- Pois bem, não cobrarei então, se o senhor gosta tanto assim dele. Ainda mais, esse aí nunca me deu lucros suficientes... Enfim, admita-o como um presente.
Presente? Como pode tratar uma pessoa como objeto?! Isso é asqueroso, até para mim. Minha vontade é cuspir em seu chão e me retirar, mas ainda preciso de mais informações.
- Agradeço. – Levanto-me. – Senhor Bankotsu podes tratar com o senhor Phineas sem mim?
- Perfeitamente. – Ele diz sereno.
- Senhor Bankotsu se permitir, também vamos nos retirar. – Emmeline se levanta e puxa Jared pela mão e Lilith a acompanha.
- Bem isso é uma deixa. Boa noite. – Chess sai sorrateiramente.
Bankotsu me lança o olhar sofrível novamente e depois sorri estranhamente para o outro, e antes de fechar a porta vejo-os se inclinarem para conversar melhor...
XXX
- Estou com medo... – Jared se sacode enquanto as lágrimas escorrem fervorosamente. – Quero ir embora, por favor?
Emmeline o abraça e tenta acalmá-lo, ele puxa sua saia e continua com seu choro interminável. Já estou cansado disso. Quando vou repreendê-lo Lilith dispara:
- Soube que P.T possuía uma sereia, queria muito vê-la!
- Eu já conheci uma sereia... – Chess sorri. – Queria vê-la novamente.
- Sereia...? – Jared funga. – Era só um macaco costurado em um peixe, não era nada bonito. Senhorita Lilith.
- A que eu conhecia tinha cabelos verde-azulados. Seu nome era Shara, era linda, linda! Mas tinha uma personalidade...
- E como a conheceu? – Lilith indaga.
- Viajando... – Ele dá de ombros. – Garanto que era muito melhor que a loba. – Ele me lança uma piscadela e some.
Crápula. Espero que meu rosto não esteja corado, levanto-me do sofá e caminho em círculos, estou cansando de esperar.
- O que ele está fazendo para demorar tanto?! – Explodo.
- Conversando... – Arrepio-me com o ar gelado. – Conde impaciente.
- Aonde foi parar o pequeno... – Não. Não vou repetir essa frase ridícula. – Desculpe-me.
- Vamos. – Ele puxa meu braço com uma força absurda e abre a porta. – Senhor Cheshire, venha.
- Mas onde está o senhor P.T...? – Indago tentando me desvencilhar.
- Está dormindo. – Ele se vira e cospe no chão, ora eu que queria fazer isso! – Não me pergunte mais nada ou lhe jogo em alguma sarjeta na França! Já consegui o que queria e isso basta.
- Tudo bem... – O que será que houve para ele perder a cabeça?
XXX
Estranhamente assim que cruzamos a porta saímos na casa Nonsense, sem ter que caminhar nem nada. Bankotsu, ainda irritado e calado, subiu as escadas e se trancou em algum lugar. Uma Emmeline tristonha deixou um Jared depressivo conosco na sala e foi "trabalhar", e Chess sumiu como sempre.
- Não gostei desse passeio. – Lilith diz indignada. – Foi horrível.
- C–c–c–concordo little lady. – Jared diz fungando.
- Para mim tanto faz, quanto tanto fez. – Dou de ombros. – Ao menos descobrimos o nome falso de Abel e...
- Cain... – Lilith me encara receosa. – E se ele não for o Abel...?
- COMO NÃO?! Lilith, eu o vi. Ele era eu! Jared me confundiu com ele, a senhorita quer prova maior?
- Não sei... – Ela encolhe seus ombros. – Se eu pudesse vê-lo confiaria nessa afirmação, mas... Perdoe-me Cain.
- Tudo bem, eu também só acredito no que meus olhos veem.
Ao menos nisso somos parecidos, na desconfiança, na falsidade e no mau gênio. Sorrio e me viro em direção às escadas.
- Aonde o senhor vai? – Jared ganiu.
- Vou procurar o Bankotsu, preciso ver as informações que ele obteve.
XXX
Subo as escadas e rumo para sala de Marcel, pois com certeza eles estarão lá. Ao me aproximar escuto o som de vozes agitadas e bato na porta, e espero.
- Pois não? – Um sorriso me atende.
- Quero entrar, preciso ver o que os senhores conseguiram.
- Não podes passar. – Chess diz fechando a porta. Mas coloco meu pé o impedindo. – Ora, ora.
- Abel é meu irmão, tenho esse direito!
Ele aparece por completo e me encara, vira-se e cochicha algo com alguém atrás dele, logo depois me dá passagem, entro na sala e vejo Matthew e Marcel observando os papéis que Bankotsu trouxe, enquanto esse dorme em um sofá mais ao canto, que estranho vê-lo dormindo tão tranquilo.
- O que quer conde metido? – Marcel dispara.
- Ver o que estão vendo. – Aproximo-me e eles não me repelem, puxo uma cadeira e me ajoelho sobre ela observando a mesa.
Encaro os papéis a mesa, registros, papeladas, anotações, gravuras, fotos... Fotos! Encaro uma foto que está solta próxima a minha mão, e vejo, praticamente, meu reflexo. Como a foto é preta e branca não dá para notar os olhos, então somos idênticos graças a isso. Não... Seus cabelos são mais escorridos e maiores. Viro-me em direção ao espelho e me encaro alinhando minhas mechas e estou vendo Abel.
- Isso é engraçado não? – Viro-me para Matthew. – Como vocês são parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes.
- Como assim? Não entendi aonde quer chegar...
- Não? Então veja isso. – Matthew me passa algumas fotos e papéis.
Noto uma coisa comum em todas as fotos. Ele está sorrindo. Sorrindo, acenando, feliz... Viro-me novamente para o espelho e sorrio, mas mesmo assim não temos o mesmo sorriso. E depois me volto para os papéis, ah, são recortes de jornal. E neles dizem: Garoto genial. Aberração gentil... Suas apresentações são as mais esperadas...
- Carisma. É isso que os difere. – Marcel diz irredutível.
- O senhor do senhor Cheshire também! – Digo irritado.
- Hunf muito esperto, não? Mas veja só: "Alberti Astolf" esteve esse tempo todo aqui... Em East End. Vivendo em um orfanato em Stepney.
- O que...? – Encaro sua ficha.
Orfanato... O nome está apagado! Treze anos, nasceu em 1875, dia: não sabe. Foi abandonado por uma deficiência com a cor dos olhos. Garoto inteligente, dedicado e muito feliz.
- Como... Como assim...? – Digo pasmado. – Esse tempo todo ele esteve ali! Tão próximo, mas ao mesmo tempo tão... Tão distante! Não é possível! Isso é falso, com certeza! A Wonderland deve ter forjado isso!
- Isso nós iremos averiguar. – Marcel diz puxando os papéis de minhas mãos. – Agora saía! Vá! Já viu o que queria, xô!
- O mundo é pequeno conde... – Chess diz sorrindo. – Quem sabe o que ele nos reserva?
Sorrio e ele revira seus olhos, e me lança uma piscadela. Espero que ele tente mesmo convencer aos outros de nosso plano. Desço da cadeira e sigo em direção a porta, cruzo-a e estranhamente saio em meu quarto... E vejo Lilith sentada me encarando.
- O que houve? – Disparo.
- Você sabe!
- Sei do quê?
- O porquê de o Jared ter se desesperar tanto...
Resmungo e me sento em minha cama, eu sei isso é verdade, mas não entendo, nem sei dizer o que ele tem... Suspiro.
- Lilith eu sei, mas não posso lhe contar. É... – Como é mesmo a palavra? – É segredo...!
- Hn, tudo bem. Mas e então? Falou com Bankotsu?
- Com ele não, ele estava dormindo, mas descobri alguma coisa.
- O que...? – Seus olhos azuis brilham em minha direção.
- Abel estava esse tempo todo aqui em East End. Vivendo em um orfanato em Stepney, e nós nunca soubemos de nada...
- Também, papai nos escondeu esse fato nossa visa inteira!
Papai... Hu, ele era amigo do P.T, agora sei que ele nunca prestou primeiro matou minha mãe, e era chefe da Nonsense, matou Abel pelo simples desejo de poder e bem...? Por que não? Afastou-me de tudo por tantos anos que fiquei assim, dessa forma.
- Cain...? – Lilith me encara tristonha.
- Não foi nada, bem, cansei. Vou dormir boa noite... – Viro-me e escuto-a respirar pesadamente. – Prometo... Que trarei Jaken de volta, e que irei acertar nossas contas com o papai, e com Abel, você pode esperar?
Ela ri e me viro para encará-la.
- Espero, mas faça o mesmo conde impaciente.
- Hu. Durma. Pequena Lady.
Deito-me e ela faz o mesmo, com o tempo tenho certeza de que ela dormiu...
- E depois a matarei... – Sussurro.
Porque, afinal, eu sou Cain.
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