38
Jennie ainda estava deitada comigo. Percebi que ela assistia algo no meu celular.
Sorri em ver que ela prestava atenção em um vídeo de como dar banho num bebê recém-nascido.
Espera.
Meu celular?
Puta merda!
Ainda bem que não tem nada nesse celular... As mensagens com a Rosé.
Não. Eu não posso estragar o que eu e Jennie estamos começando a ter.
Abracei-a mais forte e fiz carinho em sua barriga. Inalei o cheiro dos seus fios negros e vi seus pêlos arrepiarem.
— Lisa, me solta — ela pediu com a voz baixa.
— Por quê?
— Eu tô mandando você me soltar — soltei ela e encarei a garota levantar do sofá, saindo de perto de mim. — Vai tomar um banho e tomar o seu café. Precisamos conversar e você precisa estar bem acordada pra isso — ela disse e se sentou em sua cadeira, preparando-se para sair dali.
Eu estranhei e fiquei com bastante medo, porém obedeci ela e fiz o que a mesma havia mandado.
***
Depois de um tempo, eu finalmente terminei de fazer tudo o que ela tinha mandado eu fazer. Jennie estava me encarando de longe, acho que vi ela chorar enquanto me encarava tomando o meu café.
Eu não tenho certeza se ela realmente chorou, até porque, eu sou cega.
Fui até onde ela estava, e me sentei no sofá da varanda, observando a garota em minha frente, me encarar com dor em seu olhar.
— O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa? — perguntei com um semblante preocupado. Jennie não está com uma cara boa, receio que fiz algo muito errado.
— Não seja tão ingênua, Lalisa — ela riu sarcásticamente, me deixando ainda mais confusa. — O que você tá escondendo de mim?
— Nada.
— Eu tô te dando a chance de falar o que você tá escondendo de mim, Lalisa — ela disse um pouco mais alto do que o normal.
— Eu já disse. Não estou escondendo nada de você.
— Que porra é essa no seu celular? — ela me entregou o aparelho que estava escondido no fundo do meu guarda-roupa. — "A Jennie não pode saber, é pro bem dela, Lali" — ela disse com uma voz mais fina, imitando o que a Somi havia me mandado.
Encarei-a com lágrimas em meus olhos. Não quero brigar, mas a expressão dela diz que vai acontecer o contrário.
— Vai chorar? — ela cruzou os braços. — Eu que devia chorar, não você — sua voz possuía uma entonação de choro, indicando que tinha lágrimas sendo impedidas de aparecem em seus olhos. — VOCÊS TÃO ESCONDENDO UM MONTE DE COISAS DE MIM, POR CAUSA DAS PORCARIAS DOS MEUS PROBLEMAS, LALISA — me controlei para não gritar com ela.
— Jennie, não se agite, por favor. Vai fazer mal...
— PARA, PORRA! — ela começou a chorar e deixar que tudo o que estava guardado, pulasse para fora de sí. — TODO MUNDO TEM PROBLEMA. EU TENHO PROBLEMA, VOCÊ TEM PROBLEMA, O KOOKIE TEM PROBLEMA E NEM ME FALOU. VOCÊS ACHAM QUE SÓ EU PRECISO DE ATENÇÃO, MAS NÃO. LISA, O SEU SEMBLANTE TRANSMITE DOR TODO O DIA. VOCÊ MUDOU MUITO DESDE QUE NOS CONHECEMOS. VOCÊ REALMENTE ACHA QUE SÓ EU TENHO PROBLEMAS E QUE PRECISO DE ATENÇÃO?
— Jennie...
— OLHA PRA VOCÊ — encarei meu corpo que estava cheio de hematomas. — COMO VOCÊ FEZ ISSO? TÁ SE MACHUCANDO PRA CONTROLAR AS SUAS DORES?
— Eu voltei a dançar pra aliviar a minha dor.
— Viu?! — ela se acalmou e voltou a falar no tom normal, porém com a voz um pouco alta ainda. — Você tá sofrendo — baixei minha cabeça, pois não queria chorar em sua frente. Ela se aproximou de mim e segurou a minha mão. — Olha pra mim. Lisa, olha pra mim — encarei ela nos olhos. — Promete que não vai mais esconder nada de mim? — assenti. — Eu quero que você conte comigo pra tudo. Eu tô aqui pra você, igual você sempre tá aqui pra mim. Eu sou o seu abraço confortante, lembra? Somos o abraço confortante uma da outra. Eu quero ter você do meu lado, Lili. Não vamos brigar por coisa besta. Não esconda mais nada de mim porque, eu não escondo nada de você.
— Jennie... Desculpa por não te contar. Eu juro que não foi porque eu quis. Me obrigaram a esconder isso de você — comecei a chorar. Jennie vendo o meu estado, sentou ao meu lado e começou a afagar minhas costas.
— Lisa, não chora que, se você chorar, eu vou chorar também — ela disse enquanto segurava o choro. Comecei a rir e olhei para ela. Seu rosto estava avermelhado, seus olhos tinham lágrimas, fazendo com que ambos brilhassem. — Eu sou muito emotiva, porra — ela passou seus dois indicadores em cada lado do seu rosto, para limpar as lágrimas que passavam por lá.
— Obrigada por me fazer rir... Tudo o que eu queria agora, era fugir pra longe e deixar tudo e todos pra trás — ela me encarou indignada. — Menos você...
— Por que menos eu?
— Por que você é a minha Mandu. Eu amo a minha Mandu.
— Para de inventar tantos apelidos pra mim, porra. Eu me perco — ela disse e eu ri.
— Acho que o meu TDAH tá passando pra você — arregalei os olhos após a minha fala.
— Você tem TDAH? — assenti enquanto piscava lentamente. — Só confirmou o que eu já sabia.
— Já sabia?
— Cara, você muda de assunto muito rápido e se distrai também.
— Eu?
— Sim.
— Nunca percebi.
— Mas eu sim.
— Ou, eu te falei quando eu faço aniversário?
— Acho que não. Por quê?
— Porque eu quero presentes — sorri igual a uma criança quando consegue o que quer.
— Você é rica.
— E daí? O dinheiro não compra tudo, sabia?
— Você poderia ter comprado meu corpo por uma noite, mas não fez isso porque é lerda e burra.
— Errado. Eu não fiz isso porque eu te respeito. Seria errado se eu me interessasse primeiro no seu corpo.
— Seria?
— Sim. Seria muito errado — seus olhos lacrimejaram novamente. — O que foi que eu fiz dessa vez? — perguntei preocupada e coçando a minha nuca, tentando me lembrar de algum ato meu que possa ter deixado a garota desconfortável.
Ela riu e eu franzi o cenho, tentando entender a razão pela qual ela estava rindo.
— Para de ser besta — um leve tapa em meu ombro foi deixado pela a mais velha. — Eu tô chorando de emoção, sua tonta.
— Por quê?
— Porque eu acho que finalmente encontrei alguém que gosta da Jennie Kim, e não da Ruby Jane.
— Eu gosto das duas — dei de ombros e ela riu. Que bom que ela entendeu o porquê de eu ter dito isso.
— Idiota!
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Eles não vão terminar tão cedo aquele muro, né? — ela perguntou, quebrando o silêncio.
— Provavelmente não.
— Compensava mais comprar um muro pronto.
— Dá pra comprar muro pronto? — encarei ela com o cenho franzido e ela deu de ombros.
— Não.
— Seria legal se pudesse.
— Quem seria louco o suficiente pra comprar um muro pronto? — ela me encarou.
— Ãn... Eu!? — ela riu. — Não entendi a graça.
— Você é muito ingênua, Lisa.
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