5. It started with a call

Notas iniciais:

Gente eu tô escrevendo pelo computador pq tô sem celular então neah não sei se ficou bom - e eu queria ter escrito mais, confesso mas não deu.

Espero que gostem mesmo assim. Fiquei em dúvida se consegui atingir um ritmo certo, porque minha playlist ficava alternando entre Barões da pisadinha, Pablo Vittar, Arctic Monkeys e Abba. Então tinha horas que eu digitava cantando e dançando e outras que eu ficava a ponto de chorar.

Mas de qualquer forma, aproveitem 💞


[💘]

- Oi. - Uma engolida em seco. Uma descrença sobre a ação que estava prestes a realizar se tornando parcialmente nublada a medida que sua agonia crescia cada vez mais em seu peito. Sentimento este que parecia criar raízes nos seus pulmões, tornando sua respiração pesarosa. - Aqui é o Príncipe e eu sei que você disse que ia ficar ocupado durante a tarde mas... Eu precisava muito falar com alguém.

- A chamada está um pouco ruim... - O Garoto de Ouro respondeu, se sentando em sua cama com os olhos arregalados em surpresa, não estava esperando por isso. - Mas tá tudo bem! Ainda tá cedo e nossa, é uma ligação sua! Eu não achei que isso fosse acontecer assim, de repente. Não que isso me incomode, é claro, muito pelo contrário, eu tô feliz de saber como é a sua voz mesmo que meio chiada e... - Uma pausa, ele respirou fundo. - Você tá bem?

Draco Malfoy não tinha decido tomar uma atitude tão imprudente, não, ele simplesmente tomou uma decisão em meio o entorpecimento que o pânico e a tristeza causavam em sua mente. Momentos desesperados trazem a tona medidas ainda mais desesperadas e ligar para o cara que tinha conhecido a um mês atrás definitivamente não se encaixava nas suas ações coditianas.

Mas era que ele precisava mesmo de um ombro amigo, para a infelicidade do seu orgulho. E não poderia contar com ninguém do seu grupo de amigos, afinal, todos se conheciam entre si e não tinham uma boa fama em guardar segredos ou serem bons ouvintes. A última coisa que ele precisava também era ver o rosto de Pansy. Em contrapartida, o Garoto de Ouro fazia Draco se sentir tão confortável, suas conversas eram tão fluídas...

Uma tentativa. Ele queria acreditar que funcionaria.

E funcionou.

- Não. Eu não estou. E eu liguei para você porque você disse que nós somos amigos... Acho... Ah, isso soa tão piegas. Mas acredito que você é a única pessoa com quem possa conversar, agora. Não que eu esteja tentando te rebaixar ou coisa parecida. Só preciso de distância dos meus amigos. Não posso contar com eles já que brigamos... A tipo, uma hora atrás. - Ele fungou um pouco, ainda encolhido contra a porta de seu próprio quarto. - Você se importa? Porque eu entendo se não quiser, mesmo. Na verdade, eu odeio desabafar e não sou a pessoa mais compreensiva e amigável do mundo. Seria hipócrita te obrigar a ficar ou me chatear com você se não quiser.

- A única coisa que me importa, nesse instante, é se você vai ficar bem. Eu me importo com você, nós somos sim amigos! Eu te disse, não preciso da sua identidade para te conhecer. Não depois de tanta coisa. Por favor, conversa comigo. - Harry piscou, um pouco atordoado. - E mesmo se não fossemos amigos, seria cruel deixar alguém precisando de ajuda sozinho.

- Você é... Você é muito adorável, sabia? - Ele sorriu um pouquinho em meio as lágrimas. - Eu não mereço você.

- A não ser que você tenha cometido um crime e dependendo da razão que você tenha cometido, você me merece sim. Eu sou como uma sanguessuga, tem que me aguentar.

- Eu compactuei com séculos de crimes que mal consigo imaginar só com a minha existência. A minha família é muito, muito, muito complicada. - Draco quase deu um sorrisinho em meio ao seu estado deplorável, usando um tom irônico e divertido, disse em seguida: - Sim, infelizmente, vou ter que aguentar você por agora.

- Você sabe como eu entendo bem de famílias complicadas, já te disse que passei por umas doideiras nessa minha vida. Então, tá tudo bem, você pode se abrir pra mim. Até mesmos seus segredos mais sujos estão seguros!

- Antes que eu me abra para você, por favor, me promete que eu não vou me arrepender disso. Me promete que se você não quiser mais ficar do meu lado vai me dizer no mesmo instante. Eu não quero perder a sua amizade e tô com tanto medo de que você vá embora depois que souber das coisas ruins sobre minha vida. Que você faça alguma coisa...

- Eu não vou. Eu prometo pra você. Respira fundo, Príncipe. Eu não vou embora. Eu sou leal aos meus amigos e sempre vou ser. Óbvio que não sou alguém estúpido. Se você fez algo muito ruim, não vou te defender. Mas eu estou disposto a ouvir o seu lado.

- É, okay, lá vai... - Draco respirou fundo, reunindo todos os seus cacos para que tivesse forças e conseguisse falar alguma coisa. As palavras de Parkinson surgindo em sua mente e se assemelhando a facas afiadas atravessando o seu peito. Você é um Malfoy e você sempre será um. Ele teve que engolir o choro. - ...Sabia que quando eu era criança, só consegui assistir televisão uma vez, quando tinha doze anos? Não porque eu não tinha dinheiro, mas sim porque meus pais não queriam que, nas palavras deles, eu me alienasse. Eu inclusive só consegui assistir tevê nesse dia, porque eu fui na casa de um sócio deles e a filha do casal estava assistindo um filme com um amigo dela e eu sem querer confundi o quarto com o banheiro. Ou seja, um acidente.

- Eu acredito em você. Você... Sabe que sim. - Harry piscou, um pouco chocado. Ele se lembrou levemente de seu passado envolvendo sua infância problemática com seus tios ainda mais problemáticos, porém, fingiu que aquilo nunca tinha surgido em sua mente. Sua prioridade era outra. - Seus pais são hiper protetores ou coisa do tipo?

- Não. Ou não até onde eu sei. Eles nunca foram em um psicólogo para ter um diagnóstico. Talvez sim, quem sabe. Eles... Lembra quando eu mandei mensagem e disse que a minha mãe me amava por quem eu era e meu pai por quem eu poderia ser? Então, manter um filho ignorante por muito tempo demanda alguns... Esforços. Não estamos mais no século dezenove para a infelicidade do meu pai.

- Acho que você vai ter que me dar mais detalhes, não estou entendo direito. Ignorante, como?

- Meu pai queria que eu fosse como ele, assim como ele foi como todos os outros da nossa família antes dele. A minha família é um símbolo de conservadorismo, tradição e requinte. Eu fui ensinado em casa, não tinha acesso a internet, televisão ou jornais. A primeira vez que pisei em uma escola foi com onze anos, mas era um colégio particular e muito caro. As outras crianças eram tão soberbas quanto eu. Tudo que eu sabia vinha dos meus pais. Eu perguntava, obviamente, o porquê de eu não ter acesso a essas coisas que as outras crianças tinham, que aparecia nos meus livros... Minha mãe era quem passava mais tempo comigo e ela nunca me deixava sair de casa. Hoje, acredito que seja porque ela tinha medo que meu pai fizesse algo. E era sempre a mesma resposta quando eu perguntava o porquê de não ter internet e tudo mais: Há coisas ruins ali, você tem que confiar em nós, na sua família. Você não precisa disso. - Houve uma pausa, um está chocado e o outro tem um vazio no olhar. - Era a única vez que ela me negava alguma coisa. Meu pai era tão intolerante, agressivo em certos momentos, preconceituoso ao extremo mas... Ele nunca tinha sido mau comigo. Mesmo que o que ele tenho feito seja uma forma de manipulação, minha infância inteira foi recheada de amor e sorrisos. Eu só descobri quem ele realmente era quando cheguei na adolescência e meus pais perceberam que não tinha como me manter mais dentro dessa bolha.

- Mas, você não tinha amigos? Outras crianças que podiam ficar e conversar com você? É quase como se você tivesse sido mantido em uma prisão. Uma prisão de alta classe mas ainda sim uma, e eu sei bem como ficar preso é horrível.

- Eu tinha dois amigos... Só que eles eram bem mais amigos entre si do que meus. Eram legais comigo, mas os dois não eram tão espertos. Sabe aquelas crianças que comem areia? Pois é. Eu fui conhecer meus dois melhores amigos de verdade com catorze anos, no primeiro ano de Hogwarts. Já tinha visto eles em alguns eventos da alta sociedade Londrina... - Draco suspirou. - Me senti no século passado falando assim, mas tudo bem. Eles eram o menino e a menina de quando eu falei do incidente com a tevê. Inclusive, depois desse incidente, nunca mais fui para nenhuma casa de sócio algum... Eu era tão bobo. Eu nem questionava tudo aquilo que estava acontecendo comigo.

- Você era só uma criança. Não tinha como entender as coisas. - Potter estava completamente abismado e preocupado. Ele entendia bem o que isolamento podia fazer com a cabeça de uma criança. Preocupação escorria de seus poros.

- Eu defendia meu pai até o último fio de cabelo dele. Eu me metia em brigas toda vez que alguém dizia que meu sobrenome pertencia a monstros. Eu odiava o noticiário e parei por opção de assistir a tevê só para não ter que ouvir o nosso nome em escândalos. Me forcei ao máximo tentar ser o garoto mimado e maldoso que esperavam de mim. A cópia do pai. Eu sempre fui um provocador nato e meio mimado, confesso, não era tão difícil manter a personalidade de um estúpido, orgulhoso e arrogante. - Uma outra pausa, Draco fecha suas pálpebras com força. - Era mais uma noite comum, eu estava descobrindo aos poucos minha sexualidade e me afastando das tradições, nesse momento. Então, eu ia muito a bares gays. Claro, tudo escondido ao máximo. Era óbvio que seria um problema se descobrissem, meu pai fazia questão de que eu soubesse o tempo inteiro sobre o futuro que ele tinha reservado para mim. Todo o tempo. Me casar, ter um herdeiro, assumir o legado dele. - Draco voltou a chorar, respirando fundo. - Uma parte estúpida de mim acreditou que com o tempo ele me aceitaria mas não. Porque ele era a pessoa ruim que todos falavam. Quando eu voltei para casa naquela noite, tinha esquecido da maquiagem no meu rosto. Ele já estava desconfiado de mim e aquilo foi o seu estompim. Meu pai pegou o celular que a minha amiga tinha me dado pra gente se falar as escondidas e quebrou na minha frente. Eu não te criei para isso. E a minha mãe estava chorando em um canto da sala, porque aquilo era tudo que ela queria evitar. Que nós brigassemos.

- Príncipe, respira, calma, tá tudo bem. Você não precisa descrever o que acontec...

- Ele me deu um soco. Um soco no rosto. Ele me chamou das piores coisas e me humilhou, me deixando trancado no quarto. Você é a maior decepção que eu poderia ter. Tudo que eu tinha feito até então era tentar orgulhar esse homem que dizia me amar tanto. Que me fazia sentir amado. Tudo, Garoto, você consegue me entender? As pessoas hoje me odeiam e com razão. Eu fui criado para ser alguém ruim achando que estava certo e provavelmente nunca teria ido contra isso se não fosse aquela noite. As poucas pessoas do meu lado me ajudaram a entender o que estava acontecendo mas eu continuo sendo essa pessoa ruim. Eu sempre vou ser ela. Está no meu nome, está na minha família, está em tudo. Eu fiz a minha mãe chorar. - Mais um silêncio, Malfoy tentava recobrar o ar. - Como se não bastasse, meu pai tá na cadeia, nesse exato instante. Porque ele é um merda e eu não sou flor que se cheire, admito que uma trapaça ou outra de vez enquando nunca foi um problema pra mim, sendo completamente honesto com você. Mas o que ele fez não dá para levar em conta. Não, Garoto, a minha vida agora é um inferno e eu quero odia-lo tanto. Quero odiar o estado em que ele deixou a minha mãe, o que ele me deixou... Só que eu não consigo. Porque toda vez que eu tento, me vem as lembranças boas dele. Das vezes em que ele sentou para me ouvir tocar piano e me ensinou francês. As lembranças de quando ele era um bom pai, mesmo que uma péssima pessoa. Os segredos que nós compartilhamos. As caretas que ele fazia quando era pequeno. Eu era seu garotinho. Eu perdi tudo.

- Eu sinto muito, príncipe. Eu... - Harry se sentia a pessoa mais inútil do mundo. - Não sei nem o que dizer. Como assim o estado em que ele deixou sua mãe? Tem algo que eu possa fazer pra te ajudar?

- Não sinta pena de mim. Eu não preciso de pena. Não preciso me sentir mais fraco do que já me sinto. Ele sempre odiou pessoas fracas. - Draco abriu os olhos lentamente, a visão completamente borrada pelas lágrimas. - Nem ao menos se preocupe, porque eu não sou digno de nenhuma preocupação. Você saberia disso se soubesse meu nome. Acho que... Acho que é por isso que nunca nem ao menos toquei no assunto de revelar minha identidade para você. Eu sou um covarde. Você vai me odiar. E eu nem ao menos vou poder te culpar.

- Você não é um covarde. Príncipe, a única pessoa que pode dizer quem você é, é você mesmo. Mesmo que tudo diga e monstre o contrário, o que importa é o que você acredita. Como você lida com as coisas, as suas ações... - Harry agora estava um pouco encolhido na cama, encarando seus pés. - Você faz o seu próprio destino e você toma suas próprias decisões. Quando você se sentir confortável pra me dizer quem é, vou julgar você pelo que você mostrou ser pra mim. Não pela sua família ou qualquer coisa do tipo. As pessoas também falam coisas cruéis a respeito de mim, às vezes. Ou sobre expectativas que nunca vou alcançar. Sei como é desgastante.

- Eu sinto como se todo tempo tivesse a voz do meu pai cochichando no meu ouvido. E... Sobre minha mãe... Isso é muito, muito, muito delicado. Acho que já disse coisas demais para uma tarde.

- Provavelmente porque você nunca teve outros exemplos além dele, como você mesmo disse, não havia nada do mundo exterior ao seu redor. Ele foi o seu modelo, sua única influência. - Harry piscou. - Como eles faziam quando você saia de casa...?

- Eu não podia nunca sair de perto deles, principalmente quando criança. Aprendi a burlar todos os sistemas de segurança da minha casa para poder sair no meio da noite com meus amigos quando fiz quinze anos. E você sabe que nós temos bastante dinheiro, nunca precisei sair muito de casa até o sexto ano, quando tive que frequentar o colégio. E mesmo assim, era do colégio para casa e de casa para o colégio. - Draco deu uma risadinha sem graça. - Adivinha como eu tentei me aproximar das outras crianças.

- Hmmm, não sei, tentou subornar elas? - Harry sentiu o ar ao seu redor se aliviar um pouco e agradeceu por isso, todavia, suas palavras ainda soavam um pouco apreensivas. Tudo que saia do outro lado do telefone era tão tenso, tão pesado. Ele sabia que o outro menino estivera chorando mesmo que sua voz saísse tão chiada. Algo dentro de seu peito se apertava - preocupação.

- Todas as outras crianças nascidas em berço de ouro já andavam do meu lado por influência dos pais e isso meio que me fazia sentir ainda mais superior. Era como uma comprovação de tudo o que meu pai dizia. Então, eu simplesmente falava para as crianças que eu criava afinidade, que elas deveriam largar os amigos medíocres delas, porque agora eu tinha chegado e iria dar a elas o privilégio de andar comigo.

- ...Eu tenho certeza de que iria te odiar tanto se tivesse te conhecido. Nossa, mas tanto. Desculpa, Príncipe, você é um amigo muito legal e mesmo que eu entenda o porquê disso tudo, simplesmente não dá pra dizer que "Ah, tudo bem". Você era uma vítima mas também era um agressor. - Potter estava fazendo uma careta, ele lembrou das pessoas fazendo bullying com seus amigos e com si mesmo. Não era algo leve. Não, isso deixava cicatrizes.

- Eu sei disso. Eu tô tentando mudar essas coisas... Será mesmo que a gente já não se conhecia?

- Eu acho difícil. Tinha tantos problemas na minha casa... Se é que eu podia chamar aquele lugar de casa. Eu só fiz dois amigos quando era criança e eles me acompanham até hoje. São os mesmos de todas as minhas aventuras, como quando salvamos os cachorros e demos pra ONG do faz tudo de Hogwarts e nosso amigo, o Hagrid. Foi mesmo só no ensino médio que eu consegui conhecer pessoas novas.

- Somos meio parecidos nesse quesito, então. Embora você faça jus ao apelido Garoto De Ouro. - Draco começou a brincar com os fios soltos de sua calça jeans de cintura alta. - Aí, hoje eu resolvi brigar com meus únicos amigos que estão aqui. Porque minha amiga me lembrou de quem... De quem eu deveria ser. - Ele puxou o fio solto com força, o fazendo se soltar da costura. - Eu odeio os seus tios e toda sua antiga casa. Você nunca me diz o que eles fizeram com você, mas já os odeio com todas as minhas forças. Mesmo que eu fosse um grande babaca quando mais novo... E talvez, até o ano passado, se fossemos amigos, já teria usado de toda minha influência para dar um fim trágico a eles. Ou tornar a vida deles um inferno, o que viesse primeiro.

- Meus tios tinham raiva dos meus pais e descontavam em mim. Porque eles também eram como o seu pai, uns preconceituosos de merda. Eu dormia no armário debaixo das escadas, usava as roupas largas e velhas do filho deles, fazia os trabalhos domésticos e sempre que tinha alguma visita eu era obrigado a me esconder. Eles se envergonhavam de mim. Me odiavam, até. - Harry olhou para as estrelas grudadas no seu teto. - Mas isso não importa mais. passou.

- Você sabe como eu era uma criança má e sabe das minhas histórias. Vou deixar sua imaginação voar sobre o que eu poderia ter feito em dois minutos na casa do seus tios. - O garoto de cabelo rebelde não conseguiu segurar seu sorriso. Harry era alguém que tentava ao máximo não se submeter aos prazeres da violência, mas de vez enquando, quando suas memórias mais turbulentas o acertavam em cheio, se encher de raiva era praticamente inevitável. Imaginou Príncipe sendo obrigado a passar pano pela casa e teve de se controlar para não explodir em risadas. O cabo do esfregão com certeza terminaria se tornando um novo tipo de arma.

- Acho que você é o adorável aqui e não eu, Príncipe. Tentando me defender, desse jeito. Mas, sério, não importa mesmo. Eu estou na casa dos meus padrinhos, não passo mais fome ou frio. Eu sou amado. Eu consegui deixar meu passado ir. Demorou um pouco e envolveu umas idas a uns psicólogos. Só que no final deu tudo certo, então, é isso.

- Você acha que eu... - A voz de Draco Malfoy tremeu. - Conseguiria fazer o mesmo? Mesmo você sabendo que eu era um grande babaca, que meu pai é um criminoso, que todos me odeiam...

- O que eu disse sobre você poder escolher quem você é, não foram palavras minhas, foram palavras da minha melhor amiga. E ela é a garota mais inteligente que eu conheço. Eu segui o conselho dela e bem, eventualmente funcionou pra mim. - Harry suspirou. - Uma infância cheia de abusos é difícil de se contornar, entretanto, eu não estava sozinho. Eu tinha minha família. Você pode não esquecer a noite em que seu pai... Fez o que ele fez. Mas você pode aprender a conviver com isso, você não está sozinho.

- Você é muito forte, faz parecer tão simples. Talvez as coisas funcionem de uma forma um pouco diferente para mim. Eu não quero ser uma espécie de vilão. Mas eu não também não preciso do amor incondicional das pessoas. Só quero ser eu mesmo. - Draco piscou, finalmente se erguendo do chão. - E eu mesmo não é uma pessoa muito certinha. Você sabe. Eu de verdade é como eu sou com você.

- Eu entendo você. Eu de verdade também é como eu sou com você. - Harry deu um sorrisinho. - Podemos ser sempre nós mesmos juntos. Não precisamos ser perfeitos, nem imperfeitos ou qualquer outra coisa. E se você me acha forte, você também é tanto quanto eu.

- Isso soa perfeito. - Draco se jogou na sua cama, deitado de lado e encolhendo o corpo, as lágrimas secando no seu rosto. Escolhendo o pensamento de que ainda lhe restava alguma força dentro de si, ao contrário do que Lucius Malfoy lhe dira tantas vezes. - Obrigado por ouvir um pouco do meu drama.

- Muito cedo pra dizer que isso me fez sentir especial?

- O que? Eu agradecendo ou me abrindo para você?

- Ambos.

- Hm... Não. Acho que estamos fazendo tudo no tempo certo. Tem permissão para se sentir especial, Garoto de Ouro. O quanto quiser.

Nenhum deles podia ver, mas a sombra de um sorriso bobo e involuntário surgia nos seus rostos. Harry sentindo como se tivesse finalmente conseguido entrar na densa camada de sentimentos que o Príncipe possuia e se enchendo de sentimentos ainda mais densos como resposta. Talvez pudesse condensar todos eles em uma única frase; Eu quero te abraçar. Já Draco, sentia-se como se tivesse sido despido e enrolado por um cobertor quente durante um dia chuvoso. De fato, abraçado.

- Ah, Príncipe, sobre a sua briga com seus amigos, acho que você deveria tentar dar uma chance pra eles se explicarem. Meu melhor amigo vive falando coisa errada quando tá de cabeça quente, aí a gente deixa ele se explicar e tudo fica bem. Amigos também erram.

O sorriso bobo no rosto de Draco sumiu lentamente, o rosto raivoso e o dedo apontado de Parkinson preencheram sua mente com a mesma velocidade e força que um tsunami preenche uma cidade.

- Ela não falou uma besteirinha, sabe? Machucou. Não quero perdoar ela tão cedo pelo o que ela disse e muito menos sei se vou tentar. Ela que venha até mim e se ajoelhe pedindo desculpas.

- Dramático.

- Você que não entende o meu temperamento artístico.

- Aham! Claro! - Potter deu uma risada anasalada. Suas palavras poderiam ser traduzidas para "Apenas me dê um tempo." - Não querendo chutar cachorro morto, mas, pelo o que seu pai foi preso?

- Meu pai não foi preso, ainda. Ele tá a caminho do julgamento. Foi uma prisão preventiva. Mas tem de tudo um pouco, formação de quadrilha, corrupção, lavagem de dinheiro... Ele sempre foi obcecado com poder. - Malfoy fechou os olhos, como se tal ato pudesse fazê-lo sumir da face da terra. - O melhor para mim é cortar todo tipo de ligação com ele. Estou terminantemente proibido de ir visita-lo na cadeia e bem, acredito que meu pai não queira me ver, também.

- Você assistiu ele sendo preso e tudo mais? Isso... Isso me parece bem pesado.

- Sim. Mesmo que não devesse, doeu como o inferno. - O menino rolou na cama, ficando estirado nela e de braços abertos, imagens da polícia entrando na sua casa e revirando tudo que viam pela frente o acertaram em cheio. - Acho que a vida quis me dar um tapa, só que aí ela mudou de ideia e deu um soco.

- Acha que foi um soco merecido?

- Nada que estrague meu rostinho é merecido! - Uma pausa, Draco bufou. - Pelos meus anos de garoto babaca, é, um pouquinho.

- Eu me pergunto que tipos de coisas você dizia para as outras pessoas...

- Você vai odiar ouvir. Você vai odiar tanto. Mas juro que não faço mais isso! Ou ao menos não digo coisas tão ruins. Eu procuro um equilíbrio!

- Príncipe... - Do outro lado do telefone, Harry usou seu tom de advertência. Foi a primeira vez que Draco conseguiu ter foco suficiente para prestar atenção na sua voz e, como resultado, estremeceu.

- ...Uma vez eu chamei uma menina de ratinha de subúrbio, quando tinha treze anos, porque ela tinha comprado os sapatos dela em um brechó. Ano passado, eu também tinha como um dos meus passatempos preferidos junto dos outros sonserinos dar dicas não tão úteis para os jogadores da Lufa-Lufa.

- Que tipo de dicas não tão úteis?

- Tipo dizer que pó de mico ajuda a amaciar chuteiras.

- Príncipe! Como você pode...? Ah, eu não acredito, então era por isso que no primeiro ano eles tiveram que parar o treinamento naquele dia!

- Foi engraçado na época! E eu lá ia saber que a brincadeira da Millicent dizendo que era uma infestação de piolhos que estava fazendo eles se coçarem iria ficar como sendo a verdade? - Draco se segurou para não rir com a lembrança.

- Sonserinos são mesmo uma peste. O time trapaceiro de vocês e os torcedores piores ainda. A Lufa-Lufa se prejudicou no final de tudo, sabia? E vocês nem tiveram vergonha na cara de ir se desculpar!

- Não, Lufanos que são muito bonzinhos e Grifinórios obcecados por justiça, sempre indo defender os menos afortunados. Olha, no final o time da Sonserina acabou levando uma suspensão, se isso te faz mais feliz. Foi uma coisinha boba, não foi que nem na vez que usamos pistolas de água para molhar as calças de quem passava pelo corredor. Ou quando tivemos que nos livrar de uma bolsa de cigarros no primeiro dia de aula... - Uma pausa. - Tá, talvez nós sejamos um pouquinho travessos.

- Filch deu advertências pra todo mundo que ele viu com as roupas molhadas! Você tem sorte de que somos amigos, porque olha, é difícil, viu.

- Se te faz sentir melhor, tivemos que nos livrar das armas jogando todas elas no lixo.

- Vocês todos são riquinhos metidos. O que são simples pistolas de água da lojinha de um e noventa pro bolso de vocês?

- É do bolso desse riquinho metido aqui que sai dinheiro para pagar torta de melaço pros amigos, caso tenha se esquecido. - Draco deu uma risadinha bem humorada. - Aliás, você gostou da torta?

- Eu ainda não comi. Vou comer só depois do treino. - Harry se ergueu da cama, olhando seu relógio e se assustou quando viu o horário. - Aliás, é melhor eu começar a me arrumar. Você vai ficar bem?

- Não seja tão preocupado comigo. Eu sou um príncipe, mas sei me cuidar. Hoje foi... Foi uma exceção. Um momento louco. - Draco deixou um sorrisinho permanecer nos seus lábios. - Ah, deixa eu só fazer uma pergunta muito importante antes de você desligar.

- Pode fazer.

- É verdade que os Grifinórios só podem usar cuecas vermelhas quando estão em campo? Porque isso é algo que me deixa bastante curioso, se quer saber.

[💘]

Na quadra de esportes de Hogwarts, mais especificamente no canto superior direito, se encontra o que parece ser um sinal do fim dos tempos.

Cho Chang, a garota asiática do terceiro ano, reconhecida por Deus e o mundo pelas suas excelentes notas, beleza, liderança determinada no time de debates e popularidade inalcançável, possui também o que se tem como dito o namoro perfeito, no estilo em que se aparenta ter saído direito de um romance cheio de açúcar com o capitão de futebol, Cedrico Digorry, este que faz jus ao lema de trabalho duro e paciência dos Lufanos, repleto de uma aura gentil e entorpecida de charme. A cena em questão, dá a impressão de que o romance tinha sido pego e jogado com violência pela janela. O Príncipe de Harry tinha uma palavra para isso, ah sim, defenestrar. Parecia que eles estavam prestes a defenestrar um ao outro.

E isso era um sinal do fim dos tempos, afinal, não tinha uma única alma viva em Hogwarts que não tivesse acompanhado a história de amor perfeita dos dois. A nerd popular e o jogador de futebol gentil. A personificação máxima do sonho de consumo romântico.

Falando em Harry Potter, ele estava atrasado para o treino - de novo - porém, não era como se os outros jogadores fossem se importar dessa vez, já que a sua negligência estava servindo como uma desculpa perfeita para todos os jogadores de basquete e mais alguns torcedores curiosos pararem tudo que estavam fazendo e guiarem toda sua atenção em direção ao barraco. Os poucos alunos que uma hora estiveram todos organizados nas arquibancadas, tinham se mudando para rente a divisória entre a quadra e a torcida, com todos os seus olhos vidrados na confusão entre Cho Chang e Cedrico Digorry, alguns inclusive, comendo pipoca. De fato, era um espetáculo.

- É ÓBVIO QUE EU GOSTO DE VOCÊ! Vai mesmo acreditar EM UMA MENTIRA QUE PODE TER SIDO FEITA POR QUALQUER UM?! COMO VOCÊ NÃO PODE CONFIAR NA SUA NAMORADA? - Cho gritava, um tom de voz tão furioso, as maçãs do seu rosto brilhavam em vermelho.

- A foto foi dada como verdadeira! Eu quero saber o PORQUÊ DE VOCÊ estar MENTINDO pra mim mesmo depois de tudo isso! - Digorry rebatia, dor saindo de sua voz. Seus punhos estavam cerrados e seu maxilar travado, nunca tinham visto ele naquele estado.

- Eu não estou mentindo! Acredita em mim, por favor! - Aos poucos, sua voz mais se assemelhava a choramingos desesperados do que gritos de ódio. - Eu NUNCA trairia você!

- ...E eu não estou entendendo nada. O que aconteceu? - Harry murmurou, o qual entrara de fininho na quadra, se esquivando dos outros jogadores e se aproximando de Ronald Weasley de maneira discreta. O ruivo, que se encontrava de olhar semicerrado para a cena, com uma mão segurando a bola de basquete e a outra no quadril, aproximou seu rosto para o de Potter, murmurando em resposta:

- Eles estão aqui brigando a mais de meia hora e ninguém tem coragem de interromper. Pelo que eu entendi, postaram no Instagram uma foto da Cho beijando outro cara nos fundos de uma festa, acho que a do ano passado. - Potter arregalou os olhos, em completo choque. - Teu queixo tá lá no chão, pega de volta.

- A Cho? Tem certeza que era ela? - Ele realmente estava de queixo caído. De todas as pessoas, não esperava isso dela. - Por que alguém iria postar uma foto dela traindo no Instagram? E quem era o cara?

- A foto mostra uma garota idêntica a Cho. Ou era ela ou ela tem uma irmã gêmea desconhecida. - Rony agora estava o encarando. - E, cara, eu também não sei quem era o amante ou por que alguém iria postar isso. Mas se o objetivo da pessoa era estragar a vida da Cho, olha, foi sucesso.

- Ela vai perder o namoro, provavelmente, mas se ela estava traindo... Então, meio que ela vai merecer o que vai acontecer depois disso, certo? - Harry franziu o cenho, tentando entender a situação. Weasley negou com a cabeça.

- Não, cara. O Cedrico é tipo, o cara perfeito na mente de todo mundo, ele vai ganhar fama de corno mas a família, os amigos, a escola vai massacrar a Chang pelo o que ela fez. Ela perdeu toda a credibilidade dela.

- E em que perfil foi postado isso?! Mesmo que ela tenha errado, ninguém tem o direito de ficar expondo a vida privada das pessoas.

- Amigo, ninguém sabe. Era anônimo. Depois eu te mando o link do post. - Ronald deu a bola de basquete para ele, cruzando os braços, ficando com uma expressão apreensiva. - O lance é que se o cara expôs ela, pode fazer isso com todo mundo de Hogwarts.

- Ninguém é tão desocupado a ponto de querer ficar vinte e quatro horas xeretando a vida alheia. Aliás, nem nós somos. - Ele encarou o resto do time, jogando a bola no chão e chamando atenção de todos que estavam ali. Harry segurou firme a risada quando viu a expressão de susto em suas faces. - E aí, porra, a gente vai treinar ou não?

- Estavamos só esperando o capitão. - Dino Thomas, um de seus melhores jogadores, de um sorriso animado. - Aliás, qual foi a razão do atraso de hoje?

Potter assistiu Cedrico e Chang saírem a passos apressados e brutos de onde estavam, caminhando em saídas opostas e os alunos que ali estavam para assitir o treino voltarem a ficar todos sentados. No fundo de sua mente, se questionou se seu Príncipe não estaria ali, o acompanhando. Com um sorriso idiota no rosto, deu sua resposta.

- É segredo. - Ele bateu com a bola no chão mais algumas vezes, o sorriso aumentando. - Mas é uma razão muito boa. Muito boa mesmo.

[💘]

Notas finais:

Pergunta rápida, qual é o melhor horário de postagem pra vocês?

E outra pergunta também, o que vocês acharam do capítulo? Tudo está indo muito rápido? Hoje foi basicamente sobre o Draco destruindo muros e o Harry sendo boiola. O que vocês acham sobre os problemas do Draco? Acham que é uma boa razão pra ele ser do jeito que é ou ele tinha sim, como mudar antes?

E sim, esse lance de alguém expondo a Cho e o Cedrico ainda vai voltar contra todo mundo. Tudo que eu planto nessa história uma hora aparece depois hahaha.

Beijos <3












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