4. It started with a mistake


[4 dias desde a primeira mensagem, nove e dez da noite de uma terça, a primeira mensagem é do contato Príncipe, Assunto: "Nossas bolas"]

“Não acredito que você nunca tinha assistido A Culpa É Das Estrelas."

"Eu só não entendo por que todo mundo gosta desse livro ou filme, sei lá. Tipo, são adolescentes com câncer morrendo. Não gostei de ter assistido."

"NÃO É SÓ ISSO! Para de ser burro, Garoto. Tem todo um enredo profundo em que ela só se vê compreendida por ele! Respeite a história do João Verde."

"Ah, não tô acreditando nisso."

"Não tá acreditando no que, porra?"

"Você é alguém romântico!"

"NÃOOOOO!!!!! Eu não sou romântico, apenas sei apreciar uma boa história. Inclusive, você TEM que ler o livro. Acho que aí sim você vai conseguir sentir o que eu senti."

"Você não me engana, Príncipe. Aposto que você é o tipo de cara que ama uma história cheia de romance e aquelas frases de efeito. Como aqueles filmes em que os personagens se odeiam e depois se apaixonam ou se conhecem desde a infância e aí se apaixonam do nada, ou sei lá. Todo aquele jeitinho metido e convencido de quando comecei a te conhecer é um disfarce, aha!"

"...Eu te odeio. Te odeio muito. Você está completamente errado e me sinto ofendido. Enfia o romance no cu e gira até arrombar, seu arrombado."

"Ah, sim, consigo sentir o ódio e a ofensa. Cuidado para não causar um terremoto com tanta energia negativa."

"Você é um idiota. Aposto que é um dos jogadores de basquete do time da Grifinória. Grifindiota." 

"Não vou dizer nada sobre eu jogar ou não. Mas qual é o problema da Grifinória?! É um time incrível. Vai me dizer que torce para o tima das outras escolas? E por que isso do nada?! Nem tente mudar de assunto."

"Você com toda certeza é um Grifinório, minha nossa senhora. Como que esse é um assunto do nada? É de senso comum entre todos os estudante de Hogwarts que vocês são uns burros. Todas as jogadas de vocês são impulsivas e ganham as partidas por milagre divino. Não se planejam em nada, coragem pra vocês é sinônimo de idiotice. E o time só é incrível porque o Dumbledore é cadelinha de vocês."

"Seguindo essa lógica você com certeza deve ser completamente Sonserino. Afinal, ninguém mais seria tão ardiloso quanto vocês. E o Dumbledore não dá privilégios pra gente, ele trata todo mundo igualmente."

"Igualmente o meu rabo. E não, não faço parte do time. Embora eu goste muito de vôlei e ache eles os melhores."

"???????? COMO IGUALMENTE SEU RABO??????"

"Você já viu o uniforme da Lufa-Lufa? Ou os horários que são dados pra Sonserina treinar? É INJUSTO! A Grifinória nunca passou por nenhum tipo de aperto. Ano passado a Corvinal teve que esperar meses até que a sala de debates deles fosse restaurada."

"Você está agindo como uma criança mimada por uma coisinha idiota. Não é nada tão grande quanto você faz parecer. Alguém tinha que ficar com os piores horários, a Grifinória também passa por dificuldades de vez enquando."

"Me cite uma única vez."

"Bem tem muitas. 

"Estou esperando..."

"Eu apenas não estou lembrando de uma agora mas quando eu lembrar você vai ver só, okay?"

"Vai a merda."

"Por favor, vamos voltar para você me dizendo o porquê de A Culpa É Das Estrelas ser um bom livro. Ou filme. Ou sei lá."

"Sim, Grinfidiota. Como eu estava dizendo, o João Verde fez uma obra prima. É uma história sobre amor e que diferente de todas as outras gruda em você e te faz pensar sobre todas as coisas em um relacionamento e si próprio. Eu fico tocado lembrando. Não romântico. Mas sim, tocado."

"Então não tem nada a haver com você querendo um cara falando coisas bregas pra você?"

"...E se eu quisesse? Vai me dizer que você também não gostaria de viver um clichê estilo Hollywood?"

"Eu gostaria. Mas aqui não é um filme ou um livro ou qualquer coisa. É a vida real. As pessoas não são felizes pra sempre e mesmo que eu acredite em finais felizes, na vida real a morte do Augustus vai acabar com a Hazel. Não é bonito. Tudo é tão doloroso."

"Olha, eu sou a última pessoa que você vai esperar um comentário feliz ou animador ou sei lá o que. Mas, Garoto, as pessoas podem sim ter coisas boas de vez enquando. Você tem que ler esse livro. Estou te obrigando, agora." 

"Vou procurar um epub na internet. Mas eu duvido que eu goste de toda essa coisa só porque tá escrito dessa vez."

"Não. Amanhã de manhã vai no vestiário da Sonserina e olha em cima do armário 04B depois das aulas. Eu vou deixar esse livro e Orgulho e Preconceito pra você ler."

"Por que eu leria esse tal de Orgulho e Preconceito? Tem cara de ser clássico... Chato."

"Você vai engolir todas as suas palavras quando conhecer o Sr. Darcy."

[7 dias desde a primeira mensagem, nove e três da manhã de uma sexta, a primeira mensagem é do contato Garoto de Ouro, Assunto: "Nossas frases"]

"Acho que amo o Darcy e a Elizabeth. Você me tornou em um idiota romântico que nem você, príncipe, eu estou com raiva. 

"Você os ama... Ardentemente?"

"Meus pensamentos são estrelas que não consigo arrumar em constelações."

"VOCÊ ESTÁ CITANDO A CULPA É DAS ESTRELAS, VOCÊ GOSTOU SEU OTÁRIO!"

"GOSTEI, MESMO QUE VOCÊ TENHA FERIDO MEU ORGULHO E EU NUNCA VOU TE PERDOAR POR ISSO!"

"PARA! EU QUERO DIZER QUE ESTAVA CERTO E ESFREGAR ISSO NA SUA CARA E NÃO COMEÇAR A RIR... EU ESTAVA CERTO!"

"A VIDA É TÃO INJUSTA!"

"Você chorou lendo?"

"Não tem como não chorar. Mas foram só algumas lágrimas."

"Awn, que romântico. Tão romântico."

"Você também chorou que eu sei, enfim, a hipocrisia."

"Eu não vou responder isso."

"Você não é igual aqueles caras que acha que chorar é uma fraqueza, certo?"

"Não. Mas algumas informações são feitas para serem mantidas somente no íntimo de uma pessoa. Você não consegue conquistar elas tão facilmente."

"Terei que escalar alguma torre para tê-las, querido Príncipe? 

"Tente e verá, Garoto De Ouro. Tente e verá."

[12 dias desde a primeira mensagem, dez da noite de uma quarta, a primeira mensagem é do contato Garoto De Ouro, Assunto: "Nossas cantadas"] 

"Oi." 

"Oi...?"

"Como foi seu dia?"

"Você estava estudando química, não é?"

"Você é um stalker...?"

"Observador, eu diria. Todas as vezes em que conversamos e você está desse jeito é quando temos alguma aula envolvendo química."

"É. É por causa disso. Inclusive, como você não está exausto de estudar pelo teste que ele vai passar? Na verdade, como você nunca tá exausto em qualquer coisa na aula? Você tem mesmo desesseis anos? É um alienígena?!"

"Dezessete daqui a alguns meses, não esquece. E eu não me sinto exausto porque estudo com antecedência. Química é incrível!"

"[meme do barney atendendo uma garotinha, a legenda é você tá bem doentinha, vai se tratar.]"

"Nem vem que é bom sim e irei defender minha matéria."

"Tá falando isso só porque o professor passa a mão na cabeça de todos os sonserinos."

"Ele não passa a mão. Snape só tem muito bom gosto."

"Mimimimi... Seboso."

"Te odeio. Você tá me fazendo rir do professor da minha matéria favorita!"

"Hm, espera, acho que achei um jeito melhor e mais leve de estudar química."

"...que? Qual?"

"Você deve ser um composto de bário e berílio, porque é um BaBe."

"A NÃO, VOCÊ NÃO ME ENVIOU ISSO, GAROTOLKKKKKK"

"...Boro pro Quartzo?"

"Vai dormir vai."

"Para de me rejeitar, Príncipe. Acetil Pego!"

"Ridículo, nota zero, para de se humilhar."

"Nunca mais flerto com você também. Sem graça."

"E quem disse que eu quero seus flertes de quinta?"

"Ninguém disse mas eu consigo sentir, entende?"

"Ô, Márcia sensitiva, você nunca nem me viu pra sentir alguma coisa."

"Você não precisa ver uma pessoa pra sentir algo por ela. Se você conhece ela, não interessa muito o que tem por fora, certo?"

"Acho que meus livros estão começando a te influenciar. Mas eu tenho a mesma opinião... Acho."

"Você se considera meu amigo? Mesmo que não saibamos nossos nomes e rostos? Porque, sabe, eu te considero."

"Me sinto completamente precipitado em dizer que sim. Mas, sim."

"E eu me sinto completamente precipitado em ficar tão feliz por saber disso."

"Idiota."

"Mas você gosta."

"Diz que, né."

[16 dias desde a primeira mensagem, oito e meia da manhã de um domingo, a primeira mensagem é do contato Príncipe, Assunto: "Nossas encrencas e vergonhas, principalmente vergonhas"]

"Lembra de todas aquelas histórias de feriados constrangedoras na casa do seu melhor amigo que você me contou?"

"Acho meio difícil de esquecer delas."

"Essa aqui vai superar os níveis de vergonha alheia. Mas como não foi comigo que aconteceu, eu vou contar."

"[enviou um meme de duas meninas em animação tosca com a legenda "fofoca"] Prossiga. Mesmo que eu ache que nada vença as minhas vergonhas."

"Juro que não me importo se as suas histórias forem inventadas porque são tão boas que se não fossem tão vergonha alheia, eu dizia que todas eram minhas."

"Tá mas continua, vai, vai. Tô curioso."

"Ontem a noite, minha amiga me ligou e disse: — Eu preciso que você faça um favor pra mim e não conte de jeito nenhum pro nosso outro amigo. Fizemos promessa."

"Por que vocês não podem contar pro seu outro amigo...? Se acontece alguma coisa comigo acho que não dura nem duas horas até toda a minha família saber."

"Notei isso no natal em que seu amigo ficou preso no banheiro e entupiu a privada com uvas passas. O que eu não faria para saber nomes..."

"Esquece e continua."

"Eu já estava me questionando se ia aceitar mesmo fazer a tal promessa sem saber o porquê, mas no fim acabei aceitando. Essa é a mesma amiga que colocou meu número sem querer no banheiro, então eu já suspeitava que ela devia ter feito uma desgraça muito grande pra querer manter sigilo."

"Preciso agradacer ela em algum momento dessa vida. [Emoji de carinha piscando]"

"Enfim! Eu respondi que sim, prometia. Um segundo depois ela vai e me diz..."

"Diz o que?"

"Eu acho que perdi um cigarro na minha buceta."

"ELA FEZ O QUE?"

"TE ACALMA QUE FICA PIOR."

"ELA PERDEU UM CIGARRO DENTRO DA VAGINA DELA, COMO ISSO ACONTECEU E COMO ISSO PODE FICAR PIOR????"

"Eu parei dois segundos e disse: — Você fez o que, garota? E ela disse de novo que tava com um cigarro dentro da buceta dela e aí eu continuei sem acreditar, porque na minha cabeça só podia ser pegadinha e perguntei de novo: — Você perdeu o que no que? E ficou desse jeito até que ela me explicou a situação. Minha amiga decidiu ir para uma festa com esse meu amigo. Festa na qual eu não fui porque estava com muita dor de cabeça. Chegando na fila da boate, esse meu amigo muito impaciente diz que precisava fumar e com um pouco de medo, ele convenceu essa minha amiga a arranjar um cigarro para ele."

"Acho que sei bem o que esse amigo sentiu."

"A minha amiga que também nenhuma santa é, longe disso, foi e arranjou sei lá com quem uns cigarros. Tudo com as identidades falsas deles. Os cigarros não estavam na caixinha original. O cara deu para ela tipo dentro de um saquinho plástico uns dois. Enfim, acontece. Ao mesmo tempo, começaram a ouvir barulho de sirene de polícia e no meio da confusão começaram a se dispersar por todos os cantos. Pelo que eu entendi eles se separaram, meu amigo conseguiu pegar um táxi que tava lá próximo e se mandou no meio do desespero. Mas no meio do processo ele perdeu a minha amiga no meio da confusão. Ela tinha entrado e se escondido em um dos banheiros, porque não pensa."

"Eu tô muito divido entre rir e ficar tenso. Estou tenso."

"A gente já passou por coisa mais barra pesada. Superamos."

"[mandando o meme do emoji tenso, com as mãos entrelaçadas e os olhos esbugalhados]"

"Enfim, ela ainda pensou depois de muito tempo que podiam pegar ela lá, já que obviamente iam ver os banheiros da boate. No desespero, pegou o cigarro e enfiou nas partes dela para esconder as provas. E também porque tava todo embaladinho e lembrava um daqueles absorventes internos, então na mente dela não ia dar em nada."

"POR QUE ELA NÃO JOGOU DENTRO DA PRIVADA?"

"ELA TAVA MUITO BÊBADA e é naturalmente lerda. A resposta que ela me deu foi: — Ué, vai entupir a privada, otário."

"Continua, quero saber o desfecho da fofoca."

"Um policial achou ela mas ele viu que não tinha nada de errado e tudo mais e liberou ela dessa vez. Eu queria ter visto só o que ia acontecer se tivessem pegado a ficha dela."

"Vocês são terríveis. Isso é o NORMAL no rolê de vocês?"

"Eu não diria normal, mas sim, sempre acontece alguma coisa desse nível. A gente só se ferra, nos acostumamos já. Pedíamos sempre pra algum conhecido mais velho limpar nossa barra. Tanto que é por isso que já temos ficha em umas delegacias, aí."

"A cara chega nem treme. Teria vergonha, viu."

"Mentira! Você é completamente imprudente. Nas suas histórias quando você tá sóbrio parece que tá bêbado de tanta decisão errada que você toma. Ainda não esqueci que você invadia propriedades privadas com seus amigos."

"Shiu, o assunto não sou eu, continua. E no meu caso foi pra salvar os animais que aquele cara tava maltratando, inferno."

"Tá, aí depois disso ela pegou um táxi. Toda alcoolizada, já tinha até esquecido do cigarro. Só que ela teve que passar por uma rua toda esburacada no processo e começou a sentir o negócio entrando mais fundo."

"Socorro."

"Como os pais dela nunca estão em casa, minha amiga simplesmente entrou e me ligou desesperada pedindo ajuda porque de jeito nenhum ela conseguia tirar aquilo de dentro dela. Eu disse que de jeito nenhum que ia ser eu que ia enfiar a minha mão dentro dela pra tirar a porra de um cigarro."

"Grande amigo você é."

"Eu sou mesmo. Em vez de deixar ela sozinha pra lidar com as merdas dela, liguei pro nosso amigo, sem ser o que tava na festa pra fazer esse favor. Quando eu liguei pra ele, tive repetir todo o lance de novo e novo e ficou naquilo: — Ela enfiou o que? Enfiou um cigarro na buceta. — Ela enfiou um cigarro onde?! Na buceta, desgraça. Acabou que era quase meia noite quando a gente foi escondido para a casa dela."

"E vocês conseguiram...?"

"Sim e acho que essa vai ser a experiência mais próxima de um parto que todos nós vamos ter. Contei tudo pro meu amigo que fugiu da festa hoje de manhã e a gente se acabou de dar risada."

"MAS ELA TE PEDIU SEGREDO, PUTA QUE PARIULKKKK"

"A gente se conhece a tempo suficiente para saber com quem estamos lidando. Se eu não contasse ela ia contar de qualquer jeito."

"Eu acho que nunca vou esquecer esse história. Meu padrinho tá me perguntando o porquê de eu estar vermelho de tanto rir. Estou morrendo."

"NÃO ME EXPÕEKKKKKK EU NÃO EXPONHO PARA OS MEUS AMIGOS AS HISTÓRIAS DE VOCÊ E SUA TURMA ENVOLVENDO FUGAS DE HOGWARTS!" 

"EU DUVIDO! Mas tudo bem, vou ficar calado."

"Não faz mais que a obrigação."

"...mas eu vou tirar prints caso mude de ideia."

"Não é também como se eu não tivesse os meus. Risos." 

[20 dias desde a primeira mensagem, oito e quarenta da noite de uma quinta, a primeira mensagem é do contato Príncipe, Assunto: "A mentira"] 

"A sua família e amigos são tão... Legais e divertidos. Eu não tenho muito disso. Acho que é mais fácil meteoros caírem um atrás do outro em  Londres do que resolvermos simplesmente contar as coisas uns para os outros."

"Relações são baseadas em confiança. Como você pode se sentir bem se não confia nas pessoas ao seu redor?" 

"Não é falta de confiança. Nós confiamos, claro. Conheço eles desde muito pequeno... É só que eu não me sinto confortável. Tem coisas que conto para os meus amigos e outras que eu simplesmente não entendo o porquê de ir lá e contar. Eu falava tudo para os meus pais e agora... Não tenho como fazer isso. Acho que nunca pude." 

"Como assim? Não estou entendendo."

"Você me disse que teve uma infância complicada com seus tios mas agora vive uma vida feliz com seus padrinhos e amigos. Você teve uma vida ruim e está tentando ter uma vida boa agora. O inverso aconteceu comigo. Eu acreditei que tudo estava bem, então comecei a perceber os problemas."

"Nas histórias que você conta sobre seus pais e como eles te ensinavam tudo, me parecia tudo bem. Parece que eles te amam e você também os ama. O que tem de tão problemático?" 

"É justamente isso. Eu os amei tanto, que me ceguei completamente sobre a possibilidade deles poderem errarem. Minha mãe me ama por quem eu sou, meu pai por quem eu poderia ser. E eu os amei por me amarem. Então eu descobri todos os defeitos deles, eu entendi o porquê deles serem tão errados em diversos aspectos."

"Você tem medo de confrontos." 

"Tenho medo de ser enganado. Tenho medo de acabar idêntico ao pior lado do meu pai." 

"Como era esse pior lado?"

"Acho que as melhores definições são agressivo e intolerante."

"Você não vai acabar que nem ele, porque você simplesmente não é ele. Só tem que tomar as decisões certas." 

"É... Acho que você está certo." 

"A sua família tem mais algum problema além desse...?"

"Não. Nada que precise se preocupar."

[34 dias desde a primeira mensagem, sete e dez da manhã de uma quinta, a primeira mensagem é do contato Príncipe, Assunto: O presente] 

"Garoto de ouro..."

"Tudo bem, Príncipe?"

"[foto de uma torta de melado muito bonita em cima de um prato decorado, mais um emoji de coração] Sinta inveja."

"Estou te socando virtualmente."

"Tenho certeza disso. Estou sentindo metade do meu rosto latejando. Ui, ui, ui."

"Idiota."

"Eu tô de carona hoje. Minha amiga praticamente me obrigou a parar para comer. Vou pedir para embalar uma fatia de torta para você e deixar no mesmo armário em que deixei os livros, pega na saída."

"E infelizmente sou muito cadelinha desse idiota adorável. Au au."

"Adorável é a minha bunda. Eu ainda sou seu pior pesadelo."

"Você nunca foi, meu bem. Nunquinha mesmo."

[💘]

Harry Potter estava com uma caixinha de papelão pequena em formato retangular cor de rosa de alguma cafeteria com o nome muito chique em francês enfurnada com muito cuidado dentro da sua mochila. Ele tinha deixado o livro de química, o de biologia e talvez o de história dentro do seu armário no colégio para que nada em hipótese alguma, chegasse minimamente perto de amassar o seu presente. 

Ele provavelmente teria uma enorme dor nas costas para levar tudo de volta para casa no dia seguinte. Mas o post it de coração dizia: "Com carinho, Príncipe", e isso tinha sido escrito com aquelas canetas prateadas com glitter e cheirinho de fruta. Harry não poderia estar mais bobo. 

Idêntica a vez em que ele recebeu os livros, não tinha pista alguma de quem era o aluno misterioso conversando com ele. Isso o inquietava levemente, era alguém naturalmente curioso. Mesmo que por diversas vezes tenha falado que não se importava em não conhecer seu rosto e seu nome, o desejo de querer ter sua companhia fisicamente crescia dentro de si a cada dia que passava. Queria dividir aquela torta embaixo da sombra de uma árvore no intervalo do colégio, sentindo a brisa em seu rosto e rindo de suas palavras.  

Ao seu ver, não fazia sentido algum eles estarem escondendo suas identidades de forma tão determinada, já que, bem, tinha ficado extremamente claro que eram mesmo estudantes da mesma idade e não eram perigosos. Eles tinham passado semanas tendo os diálogos mais bobos possíveis. Uma pessoa com interesses ruins não teria esperado tanto. O Príncipe parecia ter a mesma opinião. 

Potter quis acreditar firmemente que dessa vez o universo estava sorrindo pra ele. 

 Pois Harry Potter estava completamente encantado. Ele sabia que o garoto em questão tinha vários defeitos, todos os traços de alguém metido, fresco, mimado e um provocador com jeito natural para atrair a si mesmo as situações mais erradas. Não que pudesse julga-lo por isso, o último era um de seus defeitos também.  O que mais tinha feito desde que nascera era se meter nos mais diversos problemas. Quase tinha reprovado pelo número extenso de faltas no ano passado. Embora tivesse vários motivos para isso, Harry nunca conseguia dizer não para alguém que precisasse de ajuda. Hermione tinha chamado de complexo de herói ou coisa parecida, ele acreditava que era simplesmente muito empático, Ronald dizia que ele era um grande trouxa. 

O Príncipe não, ele se metia em problemas por razões egoístas, na maior parte do tempo. Quase todas as vezes eram consequências de seus atos, como beber demais e não conseguir controlar sua língua afiada. Mesmo sendo alguém sagaz o suficiente para sair de todas as suas encrencas, Potter sabia que ele não se orgulhava tanto assim de seus feitos. O garoto parecia estar sempre escondendo dores das quais Harry queria conhecer e ajudar. Todavia, ele não conseguia, tudo no garoto era tão... Secreto. Só se revelava se ele quisesse, nunca deixando escapar nada. O que ele tanto temia? 

Outras memórias atingiram sua mente. Como nos dias em que estivera tão cansado que nada ao redor conseguia anima-lo. Potter passava de o menino que sobreviveu para o amigo do garoto cujos irmãos vivenciavam o maior drama. Isso não o incomodava, de fato, Harry Potter sempre estava lá para o seus amigos o quanto fosse necessário. Ele facilmente tomaria um tiro por qualquer um deles. Mas isso não significava que de vez em nunca se sentia cansado. Ele era um humano, não uma máquina. 

Sirius e Remus estavam sempre ao seu lado, fazendo de tudo e mais um pouco para que se sentisse confortável e feliz, mas Potter se sentia internamente culpado em roubar tanto tempo deles com a sua presença. Porque ele sabia que organizar um casamento perfeito era uma tarefa muito árdua para somente duas pessoas. Remus ainda tinha o trabalho exaustivo de ser professor vinte e quatro horas por dia para o nocautear de vez. Sirius, o qual vivia basicamente de sua herança farta, estava meio que segurando as pontas de todo mundo. E seus dois garotos o amavam demais por isso. 

Então, nos horários vagos e nos mais aleatórios possíveis chegavam todas aquelas mensagens e tudo se era esquecido. Não havia problemas. Não havia escola. Não havia nada. Só havia o Garoto De Ouro e seu Príncipe rindo em suas casas. Eles

Quando eles conversavam até o sol nascer ou quando Harry lia suas mensagens enormes sobre qualquer assunto no meio da tarde, sentia seu coração se aquecendo com todas as risadas e reações sobre as suas próprias reações, com eles sendo tão verdadeiros

Potter não sabia se o garoto era mesmo essa pessoa que ele tinha demonstrado - mas não tinha como ele mentir por tanto tempo, certo? O que ele ganharia com isso? Por que alguém iria discutir sobre como filmes de heróis eram chatos no meio de uma madrugada para depois querer fazer algum mal? Não. Ele queria confiar. Ele ia confiar. Alguém tão interessante e que o fazia se sentir bem, que o fazia rir e era tão cheio de sagacidade e ambição, além de se mostrar alguém com uma lealdade fervorosa - embora distorcida se comparasse com a que Harry tinha com seus companheiros - a qual apreciava bastante toda vez que a via em suas histórias. 

E Harry poderia achar várias pessoas com essas características mas não seria a mesma coisa. Ele não entendia o porquê disso, muito menos como funcionava essas coisas de amizade e relações. Ele nunca teve tempo de sequer pensar sobre isso. Afinal, por muito tempo acreditou nas mentiras sobre toda sua vida na casa dos seus tios Dursley, quando mais novo. 

Ele também sempre estava andando com as mesmas pessoas, sendo que Hermione e Ronald praticamente tinham decidido andar com ele e fazer todo o esforço de socialização, logo se tornará alguém meio idiota em conhecer pessoas novas. Quando se tratava de interesses amorosos, Potter nunca tinha desejado mais que um único momento. Então de repente um completo desconhecido tinha surgido do acaso e roubado sua atenção somente com palavras, um amigo novo. Alguém que ele desejava mais que um único momento - ele desejava todos os momentos. 

— Isso já tá virando uma palhaçada, Harry James Potter olha pra mim, agora! — Ele saiu de pensamentos de forma abrupta, meio perdido e dando de cara com Hermione e Ronald o encarando, tal como no primeiro dia de aula, os três no ônibus, os dois a sua frente. A divergência estava nas suas expressões nenhum pouco divertidas, ambos estavam com algumas olheiras e sobrancelhas para baixo. As marcas debaixo dos seus olhos faziam seu peito apertar, era a prova de que Weasley estava afundando com toda a situação em sua casa e estava levando sua namorada junto. Ele só queria poder ajudar todo mundo. — O que está acontecendo com você? 

— ...Que? — O jovem piscou, atordoado e confuso. — Por que estaria acontecendo alguma coisa? 

— Como por quê?! — Ela bufou, massageando sua testa, a qual fazia dobras de estresse. — Nesses últimos dias tudo que você faz é ficar enfiado com a cara na tela do seu celular! As vezes queremos falar com você mas não, você está digitando uma coisa rapidinho e que, não, não é rápida. Meia hora e você já perdeu todo o assunto. E eu sei bem o porquê disso, você tá conversando com aquele garoto, lá, não é? — Harry abriu a boca para falar mas Granger respirou fundo e ergueu um dedo, indicando que não tinha terminado ainda. — Cala a boca, eu não terminei. Sei que não deveria me meter na sua vida privada mas no instante em que ela começa a afetar todo o resto, aí sim, eu tenho todo o direito de puxar sua orelha, porque eu sou sua amiga, caso tenha esquecido. — Respirou fundo de novo. — Estou preocupada com você, Harry. Quer continuar conversando com esse garoto, o faça, mas não esqueça que ainda tem outras pessoas ao seu redor. Eu sei que temos andado um pouco afastados, mas isso não significa que de repente nós não importamos mais. 

— Faço das palavras dela as minhas. — Weasley acrescentou, assim como Harry, um pouco encolhido em sua posição. Hermione tinha uma voz alta, grave e com uma dicção perfeita. Fazia qualquer um ouvi-la e ter como primeira reação se assustar. Tinha muito poder naquilo. 

— Desculpa. — Harry apoiou a cabeça no vidro do ônibus. Suspirando. — Eu me sinto bem conversando com ele, só isso e acabo não vendo o tempo passar. Eu vou prestar mais atenção ao meu redor, agora. Não tinha percebido que estava deixando vocês de lado. Você sabem o quão importante são pra mim, poxa. 

— Eu entendo, de verdade, Harry. — Granger suavizou a expressão. Ronald o encarava ainda um pouco incomodado e em uma pergunta sileciosa, Potter questionou o motivo, erguendo uma de suas sobrancelhas na sua direção. 

— É só que... Você ao menos sabe que aluno ele é? — A garganta de Potter secou.

— Não. Ainda. Eu queria perguntar essas coisas hoje a noite, poderia fazer agora a tarde se não tivesse o treino de basquete. 

A expressão de Hermione voltou a ser irritada, na verdade, quase chocada. 

— Você é idiota?! — Ela bateu com a mão na testa, sem muita força mas o suficiente para ter impacto. — Vocês estão conversando e trocando figurinhas a um mês. Um mês. E você nunca tentou descobrir ou pensou ou perguntou sobre a identidade dele? 

— Você mesma me disse que era pra manter segredo! Que seria mais seguro... 

— Por um tempo, né, seu idiota! Não pela porra de um mês inteiro. Não é difícil discernir um possível babaca de um garoto normal em tipo, uma ou duas semanas. — Ela jogou o cabelo para trás, passando uma mecha pela orelha, inquieta. — Você tem que descobrir quem ele é, marcar um encontro ou sei lá. 

— Se quiser nós ficamos na cola pra caso aconteça alguma coisa... — O ruivo disse, uma expressão tão preocupada quando a de Hermione. 

— Eu não sei porque um nome e um rosto é tão importante pra vocês e... — Granger o interrompeu. 

— Porque é o mais saudável. Tem muita gente aqui no colégio que não gosta de nós e vice-versa. Ou melhor, já parou pra pensar na possibilidade de não ser um aluno e sim... — Ela fez uma careta de nojo. — Um funcionário? 

Um gosto azedo se permeou na língua de Potter. 

— Não! Eu tenho certeza que não é um adulto. Não pode ser. Não tem a mínima chance disso, Mi. — A cacheada suspirou. 

— Você tá começando a gostar dele, não é? Dá para perceber pela sua cara de bobo e o jeito que você tá defendendo isso tudo. 

— Talvez

Ronald colocou a mão no ombro de seu melhor amigo, dando alguns tapinhas. 

— Faz o que você achar melhor, cara. 

Granger revirou os olhos. 

— Já vou me preparar para caso aconteça alguma explosão. 

— Talvez seja uma boa explosão...?

— Nada que exploda é bom, Harry. Nada

[💘]

— Eu não estou entendendo o porquê de vocês terem me jogado sem mais nem menos dentro do seu carro, Blaise. — Draco Malfoy estava de pernas e braços cruzados, o trio estava em uma limusine discreta que não era específicamente de Blaise e sim do pai dele, tanto que o motorista era quem estava dirigindo. Draco estava sentado em um banco bastante acolchoado e Parkinson e Zabini no banco de frente para o seu. A janela para o motorista permanecia fechada desde que seus amigos o puxaram e o empurraram para dentro do veículo, mantendo todas as portas trancadas.— Isso se configura como sequestro, caso não saibam. 

Draco Malfoy conhecia seus amigos como a palma de sua mão, o que significava que ele sabia o que aquele ataque significava e como sempre, estava preparado para se esquivar ao máximo de todas e quaisquer perguntas que fossem direcionada a si. 

— Ah, nós sabemos. Mas não esqueça que conseguimos pagar a fiança caso esteja pensando em nos denunciar. — Pansy colocou seus óculos escuros da Gucci em cima da sua cabeça, fazendo que seu rosto ficasse em destaque. — Encare isso como uma intervenção de extrema necessidade. 

— Intervenção...? Com que finalidade? — O loiro cruzou os braços. Típico

Pansy e Blaise obviamente não tinham conseguido tirar nada de seu padrinho e professor, Severus Snape ou ao menos chegar perto de sua casa no último mês. Era óbvio que isso estava os incomodando ou coisa parecida. Eles achavam que ele estava com problemas e não, isso não era da conta de ninguém. De novo, tudo que estava acontecendo Malfoy conseguiria lidar sozinho. Porque em hipótese alguma, ele era alguém fraco

Seus amigos trocaram olhares. 

— Você tá gostando de alguém. É isso. — Zabini quem disse. E Draco Malfoy teve a reação mais plausível para tal acusação. 

— Vocês estão achando... O que?! — Ele estava uma bagunça, com os olhos arregalados, os braços um do lado do corpo e seus ombros tensionados. Ele tinha certeza que suas bochechas também estavam esquentando. Puta merda. 

— Gostando de alguém. Crushando. Boiola pra caralho. — Pansy quem continuou, gesticulando com as mãos. Chegando a fazer um coração tosco com a mão, o que apenas fez o seu amigo querer se enterrar ainda mais no banco do carro. 

Ah, então era isso

— Por que caralhos de asas vocês acham que eu estou gostando de alguém? 

— Como por quê?! — A garota colocou as mãos na própria cintura, franzindo o cenho. — Você tá igual um otário, todo o tempo olhando o seu celular, sorrindo sozinho. E nós também vimos você deixando aquela caixa com um post it de coração pra alguém no vestiário. Não somos cegos, Draco. 

O loiro quis se encolher ainda mais no lugar onde estava. Ele não estava preparado para aquilo. Nem um pouco. Quando se tratava do Garoto De Ouro, todo o universo ao seu redor se tornava insignificante aos poucos, até não restar nada mais importante do que qualquer assunto que os dois garotos estivessem falando. 

— Vocês nunca se preocuparam com quem eu saio. Por que disso justamente agora? E não, não estou afim de ninguém! 

— É porque a gente acha que quem você gosta é aquele garoto que você conseguiu o número no banheiro. O Garoto De Ouro. — Blaise disse. O rosto tenso. — E ficamos preocupados porque você tá conversando com um cara completamente desconhecido. Ou, desconhecido até onde nós sabemos. 

— Ele não é um completo desconhecido! Eu sei muita coisa sobre ele. Nós conversamos bastante e eu sei várias coisas sobre ele, assim como ele também sabe muitas coisas sobre mim. 

— Ele sabe que você é um Malfoy? 

Pansy Parkinson foi quem disse e de repente Draco sentiu seu peito se apertando. 

— Não. Ele não precisa saber disso. 

A garota explodiu. 

— Não precisa? Não precisa?! — Seu rosto estava esquentando de raiva. — Se passou um mês, Draco. Um mês. O seu pai tá praticamente preso, a porra do jornal só fala mal dele, de você, da sua mãe, de todo o resto da sua família e você em vez de falar com seus amigos, se fechou completamente pra todo mundo. Todos desconfiam de você e sabe por quê? Porque você é Draco Malfoy. Você é um Malfoy. Você é filho de Lucius Malfoy, o cara que tá na porra da cadeia por tirar dinheiro da porra de uma população que odeia ele e a sua família a séculos, odeia você e tudo mais que vem dele. — Ela apontou seu dedo para o rosto do menino. — Nós somos seus amigos e por um bom tempo, Draco, talvez sejamos os únicos que você terá. Ou vai me dizer que nunca passou pela sua cabeça que esse garoto aí que você troca mensagens, isto é, se for mesmo  um garoto, tente te fazer qualquer mal caso descobrir por acaso quem você é?! Que ele possa tentar te machucar?!

Um silêncio incômodo se formou por todo o veículo. Zabini encarava o chão, sem saber o que dizer e silecionamente concordando com tudo que a amiga dizia. Pansy encarando Draco, com o seu peito subindo e descendo, a respiração acelerada. 

Os olhos arregalados dele aos poucos foram passando para um estado normal, somente para começar a bater seus cílios um no outro com força. Como se quisesse segurar algo. 

Como se estivesse segurando um choro.

— Draco...? — Pansy sussurrou. Porque ela nunca tinha visto ele chorar. — V-Você tá bem? Loirinho... 

Ela tentou aproximar a sua mão do seu rosto mas ele simplesmente a afastou. 

— Não me chama assim, Parkinson. 

Ela abriu a boca diversas vezes, a expressão suavizando, os lábios tremendo e sua garganta recusando a deixar sair o mínimo som possível.  O carro logo em seguida parou e o seu até então amigo, saiu do carro, sem ao menos olhar para trás. 

Dentro do carro, Zabini fechou as pálpebras com força, soltando a respiração que prendia. 

— Você fez merda. 

— Eu sei. 

— Você podia ter falado qualquer coisa. Você podia ter só falado pra ele tomar cuidado...

— Eu sei, Blaise.

— Você disse as piores coisas que ele poderia ouvir. Você disse exatamente o que... — Ela o interrompeu, ele viu uma lágrima sair do canto do olho dela. 

— Exatamente o que o pai dele diria. É, eu sei. — Ela limpou a lágrima. — Agora, eu sei. 

[💘]

Draco passou pelos portões da Mansão Malfoy e praticamente correu para dentro da residência, segurando todas as suas lágrimas que de tão acumuladas, começavam a borrar sua visão. Ele sabia que Narcisa, sua mãe, não iria sair do quarto para o ver naquele exato instante, porém mesmo assim, ele tinha que continuar sendo forte. Ele tinha que impedir que aquelas lágrimas caíssem, por tudo que era mais sagrado.

Porque era isso que ele devia ser, alguém forte.  Ele não podia ser alguém fraco. Nunca. 

De repente, ele começou a se sentir sufocado. Talvez fosse a voz de seu pai vociferando seus piores momentos no mês passado em sua cabeça, o penalizado por ser quem era. Talvez fosse todas as paredes daquela casa, as quais exalavam com orgulho tudo que aquela família detenta de um ódio infinito de todos ao seu redor representava. Luxo, ganância e frieza. Incapaz de ter qualquer outra reação, ele simplesmente continuou caminhando pela entrada, em direção ao seu quarto. 

Já perto das escadas, parou um minuto para perceber a falta de algum som por todo o lugar. Parecia tão vazia, tão solitária. Ele não ouvia o som de nenhum empregado cozinhando, limpando, conversando ou qualquer outra mínima ação. Draco sentiu seu peito se apertando cada vez mais. Ela não teria feito isso? Teria? Deixou sua mochila escorregar pelos seus braços finos e cair no chão. Desesperado, correu com tudo de si em direção a cozinha. Lá, ele viu uma carta repousando sobre o balcão. 

Não. Não podia ser. Não hoje. Não nunca. 

Com uma coragem que não tinha, ele pegou a carta com cuidado e a leu.  

“Querido Draco,

Sei que deve estar preocupado mas não, a Sra. Malfoy não demitiu todos nós.

Ela está ficando pior, de fato, não tem forças nem para reclamar da falta de açúcar em seu chá. Como sempre fazia. 

Nós todos saímos do expediente mais cedo porque ela pediu uma casa inteiramente vazia. 

Acho que também estou preocupado.

Por favor, tome cuidado, menino.  

Seu mordomo, Dobby"

Draco não conseguiu segurar, uma lágrima caiu em cima da carta. Ele respirou fundo. Não podia chorar, não podia. 

Ele pegou de volta sua mochila do chão e as pressas, subiu as escadas em direção ao quarto do que era eles. O quarto do casal. 

Agora, somente ocupado por ela

Ele não deu batidas na porta antes de entrar,  preocupado demais para quaisquer educação que  tivessem passado a vida toda lhe cobrando. 

Era a sua mãe que estava ali dentro. Ele não iria bater na porta. Não naquele momento. 

Draco viu um corpo coberto dos pés ao pescoço por um lençol grosso, deitado na cama e meio encolhido. Com muito cuidado, se aproximou devagar dela, assistindo seu rosto tranquilo repousar. Mal se viam seus traços de velhice, mas ela já tinha algumas mechas brancas por todo o seu cabelo preto. Draco amava como ela nunca tinha tido vergonha da sua idade. Sentiu um alívio percorrer por todo seu corpo quando assistiu as movimentações normais do seu corpo. Seu peito subindo e descendo. Ela estava respirando. Ela estava bem. 

Ele pousou uma mão em sua testa, mesmo que estivesse um pouco quente, não pareceu um começo de febre para ele. Deixando um beijo suave na testa de sua mãe antes de sair do quarto, achou que finalmente podia relaxar. 

Foi quando parou bem em frente a grande porta de madeira escura do quarto, ele viu de canto de olho uma coisa que não tinha nos outros dias em que fazia o mesmo ritual de vê-la, sobre a sua penteadeira. Ele engoliu em seco e se aproximou do que parecia ser a sua caixinha de remédios completamente revirada. 

Ele começou a contar. 

Ah

Ela tinha exagerado nos remédios que o médico tinha receitado para que ela pudesse dormir, de novo. 

Draco parou por um segundo, arrumou tudo e  respirou fundo, saindo do quarto devagar. 

Porque ele não sentia as suas pernas. Ele não sentia nada

A última coisa que sentiu foram as suas lágrimas descendo grossas e pesadas pelas suas bochechas. Quando, pelo que pareceu uma eternidade, chegou no seu quarto, deixou seu corpo fraco escorregar até o chão, escondendo o seu rosto entre as pernas quando o choro ficou mais forte. Idêntico ao de uma criança patética e assustada. Idêntico a criança assustada e patética que ele era. 

Quando todo aquele espaço pareceu ficar ainda mais pequeno, quando os seus pulmões não pareciam mais funcionar e ele se sentia horrível, tudo que conseguiu fazer era se encolher ainda mais. 

Draco Malfoy tinha medo de muitas coisas.

Mas ele nunca achou que a chance de perder sua mãe tão cedo, fosse ser um dos seus primeiros medos a vir se realizar. 














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