3. It started with a memorie

Ronald Weasley sempre esteve no meio.

Ele não era o caçula e não era o mais velho na família. Ele era o filho do meio. Possuía memórias muito vívidas de como seus pais estavam sempre correndo atrás dos primogênitos. Porque eles estavam sempre se distanciando da própria casa tal como o diabo corre da cruz. Porque Percy sempre tinha sido ambicioso demais, desejando distância de toda a família, a qual aos seus olhos, nunca tinha escolhido pensar grande. E por isso todos ali eram inferiores a ele. Porque Guilherme quase não ia visitar os próprios pais, ocupado com o trabalho, dando seu sangue e suor. Aos poucos se tornara um homem velho e avarento com pouquíssima idade. Porque Carlos estava quase fugindo para outro país, correndo atrás de um sonho que não envolvia ninguém além dele e somente ele.

Depois, havia os gêmeos Jorge e Fred, cujo objetivo de vida era fazer seus pais enlouquecerem de vez. Eles eram atrevidos, brincalhões e carregavam com muito prazer o recorde de maior número de advertências pelas razões mais bobas que um aluno poderia recebe-las. Os dois eram o centro das atenções de cada, de Hogwarts. Firmes em suas verdades. Eles nunca tinham ido embora, nunca tinham escolhido ficar longe. Sempre amados e lembrados de uma forma única.

Ah, claro, também existia a Ginevra. A mais nova, a melhor. A ousada Ginny.

Ela era como o fogo. Um ano mais nova do que Ronald e tinha roubado todos os olhares sem nem ao menos se esforçar. Tinha alguma coisa muito corajosa em tudo ao redor dela. De fato, alguém muito espirituosa e capaz de balançar qualquer um que chegasse perto.

E Ronald... Era Ronald. Era o do meio. O garoto legal. O amigo. O meio. O filho mais escondido na foto da família. Sem dar trabalho aos pais, nem tão perto e nem tão longe. Meio. Talvez fosse muito mais imprudente do que corajoso. Agindo as vezes como um garotinho assustado.

O ruivo passou um bom tempo se sentindo um tanto quanto solitário. Uma vez que ele se sentia diferente das outras crianças. Na escolinha, percebeu que era como se todos estivessem dentro de caixinhas. Meninos iam direto para uma caixa inteiramente pintada de azul, com futebol e outras coisas muito mais agitadas e as meninas iam diretamente para a caixinha toda rosinha com seus laços e bonecas. Não que laços e bonecas fossem inferiores de alguma forma as outras atividades, você deveria poder escolher o que gosta, certo?

E sabe, o Rony de seis anos não entendia o porquê dele e de todo o resto não poder aproveitar as duas caixas. Veja bem, todas as meninas deveriam poder jogar bola e os meninos poder brincar de boneca. Isso não queria dizer nada, na sua opinião. Era tão simples, qual era o porquê de todos estarem tão separados?

Encucado, ele decidiu jogar futebol com os outros garotos para tentar entender. Pois todo aquele movimento, aquela bola indo de lá para cá... Era tão vivo. Tão interessante. Ele não podia ficar sem tomar alguma ação. Porque ele sempre estava na linha de frente, mesmo que seu corpo inteiro tremesse de medo e seu semblante sempre fosse o mesmo assustado.

Ronald tinha oito anos quando o verberaram com um nome que não lhe pertencia e por fim, jogaram várias bolas de esporte em cima dele. Uma atrás da outra. Em uma quadra pública e gritando: "VAI COM AS OUTRAS MENINAS!".

Ele teve que mudar seu pensamento. Não eram caixinhas. Eram prisões.

Seus pais não deram tanta importância assim ao ocorrido. Bem, eles ficaram com medo de seu filho ter ficado traumatizado - afinal, não comia direito, não falava com ninguém. Então, o mandaram para uma psicóloga infantil.

A sala tinha cheiro de algodão doce e estava cheia de cores.

Seu único pensamento era que ele estava ali porque seus pais não podiam se preocupar com ele. Não enquanto sua filha perfeita estava se saindo tão bem na escola, com seus outros filhos criando problemas que ocupavam o resto da sua sanidade... Não tinham tempo para ele. Ronald era o trabalho de outra pessoa.

Não era ruim ou bom o suficiente para ter atenção dos pais, assim como também não era o suficiente para ficar completamente sem cuidados. Tão meio. Tão Rony.

Aí o tempo passou, as pessoas crescem e mudam. A psicóloga tinha o ajudado até um certo ponto, então ele disse que estava tudo bem e seus pais acreditaram, sem muitas perguntas. Ronald continuou seguiu sua vida.

Outros pensamentos o rebatiam quando ele chegou aos seus treze anos. Quando ele começou a focar muito mais em si mesmo e quem ele realmente era, sem sua família, sem influências. Apenas ele.

"Você... Você pode me chamar de João?" Perguntou para sua nova melhor amiga, Hermione Granger. Ela tinha o cabelo tão bonito, tão cheio, enrolado e com um cheiro de frutas tão gostosinho. Hoje, estava preso em várias trancinhas com pequenas presilhas coloridas em formato de borboleta, em diversos pontos aleatórios na sua cabeça. Ela estava quase sempre afastada de todas as pessoas e Rony estava muito interessado em saber que livro era esse que a fazia o querer ler em vez de correr e brincar como as outras crianças. Como resposta, ela simplesmente deu um sorriso para ele e o garoto não viu outra opção sem ser ficar.

"Mas seu nome não é esse...? É alguma piada? O que está planejando?"

"É... É... É só um teste. Eu quero ficar um tempo usando esse nome e quero que você use ele e "dele" comigo. Também termine tudo referente a mim com "o" em vez de "a"."

Hermione Granger semicerrou seus olhos. O ruivo estava tão sério.

"Tudo bem... Eu acho. Mas eu ao menos posso saber por quê?"

"...Vamos ficar um mês fazendo isso. Tudo bem? Então, eu te explico melhor depois."

Ela odiava não saber sobre uma coisa. Conhecida por chegar a ser incoveniente de tantas perguntas, Hermione decidiu que dessa vez ela ia ser paciente e  esperar. Era como se tivesse uma súplica silenciosa naquele rosto. Não tinha como ir contra aquilo.

Nesse meio tempo, Ronald passou a conversar mais e mais com Hermione. Grande parte disso era porque ele queria ouvir ela o chamando de ele - e a outra porque a cacheada sempre tinha algum assunto interessante na ponta da língua. -. Ela estava falando com ele como se ele fosse um garoto. E porra, Ron tinha passado tanto tempo da sua vida tentando aceitar o fato de que ele tinha que ser uma garota. Que ele tinha que fazer parte daquele rótulo, daquela caixa  e sempre tinha que ouvir chamarem ele de ela.

No começo, ele pensava que era somente uma garota com gostos diferentes, tinha que ser isso. Mas então havia os momentos em que Ron odiava o próprio corpo. Não que ele se olhasse no espelho e sentisse vontade de se machucar e socar aquela imagem. Não era bem assim. Ele sentia uma certa tristeza, uma ansiedade um incômodo com algumas coisas. Ele não via problema naqueles pelos crescendo mas ele definitivamente tinha algum problema com seus seios. Queria que não estivessem ali, queria dormir de barriga para baixo e acordar no dia seguinte sem eles ali.

Nada estava bem. Ronald continuou se retraindo cada vez mais e mais.

Seus pais não perceberam, agarrando-se ao pensamento de que deveria ser apenas a adolescência e seus males passageiros.

Tudo isso perdurou até o teste com a Hermione chegar ao fim e ele ter que dar para sua melhor amiga algumas explicações.

Foi em um cantinho isolado na sala de aula. "Eu acho que você tem que continuar vendo sobre esse assunto. Conversa com a sua antiga psicóloga. Pesquisa sobre isso. Se está te fazendo mal é porque alguma coisa está errada aí." E então ela tocou sua mão, seu toque nunca era frio. "Já que sei que isso te incomoda, você vai continuar sendo ele pra mim até que você diga o contrário."

Ronald amava Hermione. Ele amava aquela garota do fundo do seu coração.

Não demorou muito para que toda aquela transfobia internalizada começasse a se esvair. Foram pesquisas atrás de pesquisas e Hermione deveria estar muito orgulhosa do tanto que ele tinha estudado sobre um único tema. Colocou mais dedicação naquilo do que todos os anos em que ele passou na escola.

Ronald Weasley tinha encontrado uma definição muito boa para si mesmo: Homem Transgênero.

Foi como se uma pressão em torno dos seus ombros tivesse começado a se esvair. Era uma leveza. Ele sabia o que ele era. Ele era um menino. Ele sempre seria um. Aquele corpo feminino não o representava e aí estava o porquê. Ele não era uma garota que gostava de coisas que as outras pessoas julgavam sendo do universo masculino. Não, ele definitivamente era um garoto. Um garoto trans.

Com as mãos tremendo ele ligou para Hermione:

"Meu nome é Ronald. Mi, eu sou um garoto. Eu sou um garoto trans. Um garoto trans binário, no caso. Existem outras pessoas como eu, e-"

Ouve uma pausa, a respiração pesada dela.

"Posso te chamar de Rony? Já que, né, você é meu melhor amigo e eu acho que devia continuar tendo um apelido com você."

Ele começou a rir, eufórico e nervoso.

"Desde que não seja meu antigo nome tudo ótimo." Ele parou por um tempo. "Eu particularmente amei esse apelido."

"Acho que consigo sentir sua felicidade pelo telefone, acho que vou desmaiar de alegria!" Eles riram. "Mas... O que você vai fazer agora? Desculpa, eu realmente não sei muito sobre pessoas trans." Outro silêncio. "Acho que está na hora de eu começar a aprender..."

"Não se preocupa, eu também não sabia. Eu..." Ele respirou fundo. Lágrimas descendo pelos seus olhos uma atrás da outra. "Eu vou começar devagar. Quero passar por todas mudanças. Trocar as roupas, cortar o cabelo, começar com os hormônios, fazer as cirurgias... Sei que muito provavelmente nunca vou alcançar um corpo cisgênero mas... Eu não preciso disso. Eu vou amar meu corpo trans. Eu estou tão determinado! Feliz e... Eu nem sei como te explicar."

"Eu sei que não vai ser fácil, Rony. Sei que as coisas vão ser completamente diferentes. Mas eu tô aqui por você, tudo bem? Eu nunca vou sair do seu lado. Se qualquer idiota na escola, na sua família, o que acontecer não te aceitar, eu juro que vou te defender com toda a minha força... Eu te amo."

Então ele que achava que não podia estar mais feliz, chorou ainda mais.

"Eu também te amo, Mi. Te amo."

Ronald Weasley achava que aquela felicidade duraria para sempre. Ele estava enganado.

As pessoas não estão aí para apoiar você. Elas estão sempre para apontar o dedo, para julgar todos os seus passos, todos os seus atos. As pessoas ao seu redor temem mudanças. Temem tudo que não conhecem e não compreendem. O garoto fez como tinha planejado, ele começou com as roupas então foi para o cabelo e seus pais nem estavam ligando, afinal, roupas não precisavam sempre ter algum significado. Aquilo não era nada. Se sua filha queria ser assim, tudo bem.

Então Rony apanhou em uma sexta feira de manhã. Ele apanhou porque todos aqueles adolescentes do nono ano não conseguiam ver além de uma genitália, porque aqueles adolescentes achavam que tinham o direito de por alguém no que diziam ser o seu devido lugar.

Porque Ronald estava no meio de uma mudança que os assustava completamente.

Ele estava na sala de espera da enfermaria. Possuia machucados por toda sua pele sardenta, incluindo um olho roxo e um corte no lábio superior. Tinha os olhos inchados pelas lágrimas e mãos calejadas. Tudo doia, inclusive, alguma coisa dentro de si. Um aperto. Um medo.

"Hey!" Ron deixou de encarar seu tênis all stars. Agora, observando o rosto do menino em sua frente. Ele era estranhamente magro, apenas um pouco mais alto do que o ruivo. Negro - embora sua pele fosse bem mais clara do que a de Hermione, por exemplo - e tinha o cabelo rebelde, com ondulações apontadas para todos os lados. Os olhos... Eram tão verdes, pareciam duas esmeraldas brilhantes. Por um minuto, achou que poderiam até mesmo ser lentes. Ele vestia roupas que visivelmente não serviam mais, bastante detonadas e nas suas mãos esticadas, estavam alguns pirulitos e um chocolate. "Você quer algum doce? Comida sempre me anima quando algo ruim acontece."

"Obrigado. Eu quero sim." Ele sorriu, pegando o que parecia ser um sapinho em forma de chocolate. "É o meu preferido."

"Ah! Esse é o meu preferido também, cara." Então eles trocaram um sorrisinho. "Meu nome é Harry."

"Meu nome é Ronald!" O garoto respondeu, confiante. "Você tá aqui por causa dessa cicatriz na sua testa ou...?"

"Não." Ele respondeu, então apoiou a sua perna direita na cadeira ao lado do garoto e puxou um pouco a barra da calça jeans. Mostrando o que pareciam ser grandes arranhados. "É por isso aqui. Eu... Eu machuquei jogando basquete. É. Foi isso." Ele piscou, arrumando seus óculos unidos no meio por uma fita adesiva, os quais iam diretamente para a ponta do seu nariz. "E você...? Wow, como parou em uma briga tão feia?"

Ron deu um suspiro frustrado.

"Porque eu disse que não era uma garota."

Em algum momento depois dessa declaração, Harry e Ronald não tinham mais parado de conversar, parecendo até mesmo que se conheciam desde o berço. Harry não podia dizer que entendia direito o que Ronald era ou toda essa questão trans mas se ele dizia que era um garoto, o mesmo iria respeitar. O garoto novo conheceu Hermione um tempo depois, ela estava saindo da diretoria com uma cara amarrada.

"Acredita que eles não deram a mínima para o que aconteceu?! Eles são uns estúpidos! Uns merdas! Se eu pudesse, quebrava a cara de todos eles com um único soco. E eu juro que se encontrar qualquer um deles na rua vai ser o que eu vou faz..." Ron simplesmente abraçou ela. E ela parou.

"Tá tudo bem. Depois a gente deixa alguns transfóbicos sem dentes." Então eles se separaram, levemente envergonhados. Ela se aproximou o suficiente para deixar um selar na testa dele.

"Vamos. Vamos sim." Entrelaçou seus dedos com cuidado.

Harry deu uma pequena tossida, os lembrando de sua presença no recinto.

"Ãhn... Oi? Vocês querem que eu saia ou..."

Ele e Hermione também acabaram ficando muito amigos. Porque ela não conseguia ver um garoto sem juízo e deixar ele por conta própria pelo mundo. Não. Granger era alguém preocupada demais com tudo ao seu redor para isso.

Harry era alguém muito divertido, tinha alguma coisa muito leve ao redor dele e sua personalidade era absurdamente gentil. Não tinha como não se sentir bem perto dele. Como não foram mais para as aulas depois disso, simplesmente conversaram até o momento em que Rony e Hermione tiveram que ir para casa. Montados em suas bicicletas, Harry deu alguma explicação esquisita do porquê iria com eles em vez de ir para a própria casa e simplesmente seguiu suas recém amizades.

"Não. Você não é um garoto. Você é uma garota. Que merda é essa, agora? Você está tentando ser uma sapatão imunda ou coisa do tipo? Isso não existe. Você é anormal!"

Ele ouviu isso sair da boca dos seus irmãos mais velhos, na verdade, mais e mais frases desse tipo foram despejadas em si de um jeito tão rápido... Era como ele nunca tivesse tido importância alguma para aquelas pessoas. Para a sua família. Carlinhos tinha sido o único a dizer que ele não era um problema - dessa forma, rápido e direto - e correu atrás dos outros dois. Ginny não estava em casa para assitir toda cena.

Ronald estava de coração partido. Completamente e de uma forma terrívelmente dolorosa. Porque aquela família tinha dito que o amaria independentemente de qualquer coisa.

Ron sempre tinha sido o do meio. Mas pelo menos ele se segurava na ideia de que ainda era amado.

Fred Weasley ficou do seu lado o tempo todo enquanto Jorge preparava alguma coisa quente para ele beber. Os dois se permaneceram em silêncio enquanto Ronald tinha se trancado no quarto, tentando lidar com tudo que tinha acabado de acontecer - toda aquela dor, todo aquele ódio... O deixava em pânico. E Hermione e Harry esperaram seu amigo do lado de fora, apreensivos e indo embora somente quando os pais de Rony chegaram e praticamente os obrigaram a sair. Não queria que eles vissem uma briga acontecendo.

Hermione e Harry deixaram várias mensagens na caixa de entrada do amigo.

Quando Molly e Arthur se mostraram do lado dele em vez do lado dos mais velhos, Ronald estava chorando boa braços da mãe e uma outra confusão já tinha começado:

"Vocês só podem estar de brincadeira." Dizia Percy. "Eu não entendo essa família! São todos tão... Tão... Miseráveis. Estranhos. Eu vou embora daqui. Não acredito que estão concordando e apoiando essa... Essa abominação!" E foi o que ele fez, pegou suas coisas e foi embora de casa.

Percy está fora do país agora. Guilherme, que já tinha uma vida e só estava a visita, fez o mesmo e se mudou de uma vez por todas de lá. Carlinhos ainda ficou por um tempo. Ele apoiava o seu novo irmão ou seja lá o que ele fosse, pensava. Na mente dele, não era algo que deveria se intrometer de qualquer jeito.

Mas Jorge e Fred... Eles estavam sempre lá.

Molly chorou e chorou quando seus filhos foram embora porém nunca colocou a culpa disso em Ron. Não. Ela poderia, mas ela nunca faria isso com o garotinho dela. A mulher respirou fundo e eles tiveram uma conversa franca. O ruivo explicou e explicou e eles chegaram em algum lugar depois de algumas horas. Tudo estava doendo, tudo estava sendo muito difícil.

Não deveria ser, mas, quando as coisas acontecem do jeito que desejamos?

Os dias depois disso foram, na medida do possível, bons. Rony sabia que sua mãe estava triste de saudade pelos seus filhos, entretanto Arthur estava lá por ela, como sempre. Todos estavam. O ruivo estava passando muito mais tempo indo a médicos, passar por todo o processo de transição era algo que demandava bastante cuidado. Ele tinha o privilégio de poder passar por isso com toda uma assistência, algo que muitos outros jovens trans não poderiam sequer sonhar. Ele era infinitamente grato por isso.

"Você sempre foi diferente." Fred disse, estava mexendo em algo sobre sua mesa de trabalho, atividade essa que envolvia diversas peças de madeira. "Mas sabe de uma coisa? Nunca achei ruim."

Rony, que estava lendo uma das revistas em quadrinhos da Marvel na cama do seu irmão, suspirou. "Eu fico feliz por você pensar assim. É uma pena que o resto do mundo não seja desse jeito." Ele largou a revista, escondendo o rosto em meio aos lençóis.

Fred Weasley se levantou da cadeira de escritório, se sentando do lado do garoto, cutucou seu ombro de um jeito meio irritante até que o mesmo erguesse seu rosto novamente.

"Você é meu irmão." Ron sentiu uma felicidade súbita alcançando seu corpo quando ouvira aquelas palavras, correndo por suas veias como eletricidade. Uma felicidade incompreensível. Do tipo que estava dando vontade e energias suficientes para ele sair correndo e gritando por toda a toca. Fred mostrou no que estava trabalhando. Era um avião de madeira... Nas cores rosa, branco e azul. Ronald achou que poderia chorar. Eram as cores da bandeira do orgulho trans! Era a sua bandeira ali. Em um presente único. "Eu costumo fazer coisas bem maiores e mais tecnológicas... Mas eu achei que algo mais simples seria melhor para esse momento. Além de que também era o mais rápido que eu conseguia fazer. É um presente meu e do seu outro gêmeo menos favorito, o Jorge." Deu um sorriso bobo. "Apenas não diga a ele que falei isso."

Foi com essa lembrança que Ronald Weasley, agora com seus dezessete anos, matou as últimas duas aulas. Chorando nos braços de seus amigos e irmã, sob a sombra do salgueiro que ficava atrás da escola. Harry repetindo as mesmas palavras que Hermione e toda sua família tinha repetido. As quais ele ouviu a vida inteira:

- Vai ficar tudo bem.

[💘]

- Se liga por onde anda, sua puta nojenta. - Deveria ser a trigésima esbarrada propósital de algum ser humano aleatório em Draco Malfoy. Enfurecido, ele respondeu:

- Antes uma puta nojenta do que a porra de um vagabundo preconceituoso. - No momento que o valentão de expressão assustadora pareceu querer ir para cima dele, sua reação foi pisar em seu pé de forma ágil, com muita força e sair correndo em seguida. Não antes de gritar para todos do corredor que quisessem ouvir: - ENFIA UM ROJÃO NO ORIFÍCIO E EXPLODE, DESGRAÇA!

Quando o cara já não estava mais no campo de visão de Draco, ele se permitiu relaxar. Pansy Parkinson, a qual estava mexendo no seu armário com Blaise Zabini do seu lado, lançou um olhar preocupado para o loiro.

- Outro idiota? - Malfoy se aproximou dela, escorando-se nas portas verde escuro dos armários. Somente confirmou com a cabeça. - Isso tá se tornando perseguição. Você deveria ir falar com o diretor Dumbledore, ou pedir para o Snape resolver isso pra você.

- Não precisa. - Ele mordeu o lábio com força, porque ele ainda não tinha amaciado aquele par de saltos novos, então correr com eles tinha sido uma verdadeira tortura para seus pés. Internamente, se negava com veemência a buscar alguma ajuda, uma parte era porque só de pensar em ter que envolver sua mãe ou Snape em uma problema desse tipo já trazia a tona uma enorme enxaqueca para si. A outra era porque não tinha medo de meia dúzia de caras, não, ele podia lidar com isso e era o que iria fazer. - Eu posso me virar muito bem sozinho.

- Se você diz... - Pansy fechou o armário com força. Segurava um livro de física e um caderno estampado do Star Wars com uma certa falta de cuidado. - Vai passar lá em casa de novo?

- Não. Sabe, eu ainda tenho a minha própria casa. - Ele deu uma risadinha nasal. - Mas eu vou aceitar a carona que você me ofereceu mais cedo. Só dessa vez... Acredito que não vá dar em nada.

- Eu dispenso meu motorista e vamos nós três no sedan da Pans. - Zabini sorriu. - Aposto minha herança que você só aceitou porque tá cansado demais pra ir pro ponto de ônibus. A aula da McGonagall foi pesada.

Draco fez uma careta: - Por que você me conhece tão bem?

Senso bem honesto, Draco não aceitaria a carona só porque ele não queria caminhar muito. Talvez em outros dias no passado, mas agora, a lembrança de Narcisa dizendo que iria esperar o filho na porta de casa, o fez ficar preocupado. Afinal, ele não podia deixar ela sonhar que estava indo para o colégio de ônibus todos esses dias. As coisas estavam tão complicadas...

Lucius Malfoy poderia estar detido, porém, as consequências de seus atos não caiam simplesmente nele. Não. Ele tinha uma família completamente ignorante a sua segunda vida, a qual agora também estava pagando o preço.

- Porque eu sou seu melhor amigo e... Ei, gente, vocês perceberam que o trio lá da alegria sumiu depois do intervalo? - Zabini perguntou, as sobrancelhas curvadas para baixo. Pansy prendeu uma riso.

- Qual trio, já tá doido?

- O Weasley, o Potter e a Granger. Incluindo a Weasley menina. Ou só a galerinha doida que todo mundo respeita por causa do Potter. - Blaise explicou e Pansy reagiu com um "ata".

- Eles sempre somem em algum momento e nada acontece com eles. Privilégios de serem queridinhos do diretor. - Draco revirou os olhos. - Sério, nunca vou entender o que vêem no Potter. Ele nem joga tão bem assim! E toda essa admiração estúpida faz a Grifinória pegar sempre os melhores recursos e os outros times ficam quase sem nada. Já falei como a Sonserina merecia ma... - Pansy respirou fundo, passando o braço pelos ombros do amigo reclamão, o calando.

- Só segue o baile, Dray. Supera que é melhor. Depois você fala de como vôlei é melhor que basquete e pipipopo.

- Mas... É que eles pareciam bem abatidos. Das vezes em que eles saiam pareciam sempre prontos pra fazer alguma coisa arriscada meio estilo aventura, entendem? Tipo, bastante felizes. - Os dois confirmaram com a cabeça, prestando atenção no garoto. - Dessa vez, tenho quase certeza que vi um deles chorar.

- Não é da nossa conta, de qualquer jeito. - Foi Malfoy quem disse, com a voz quase seca. - Eles não se importam com a gente e nós não nos importamos com eles. Na verdade, se me lembro bem... Acho que eles me odeiam. O que é algo que nunca entendi o porquê. - Draco deixou um sorrisinho debochado minúsculo aparecer entre seus lábios finos. Ele se divertia horrores quando era mais novo e tudo era tão mais fácil de se provocar. Ver Weasley ficar em vinte tons de vermelho por simplesmente brincar com seu nome e o chamar se "Weasel" só para em seguida ver Potter com sua pose de herói tentar defender o amigo - a memória do menino de cabelo cacheado e olhos verdes dizendo "Não chama o meu amigo assim!" e ele apenas respondendo "Por que não?" de uma forma que nem o papa poderia manter a paciência... Era tudo muito engraçado. Um circo. Ele adorava tanto.

Era uma época tão mais fácil e tranquila. Tão inocente e sem sentido.

Draco Malfoy não era uma criança fácil de se lidar, já tinha adquirido a consciência disso. Culpava esse traço pela falta de contato com outras crianças que não fosse o círculo social dele que por sua vez, também sabia muito pouco além do que seus pais de semblantes sérios e conservadores diziam. Era uma somatória simples e de resultado óbvio. Malfoy não poderia ter crescido de forma mais arrogante.

Porque não fazia sentido algum dos pais tão amorosos dele serem pessoas ruins, certo? Ah, pequeno Malfoy, você estava tão enganado.

Então a vida tinha dado um grande e enorme chute na sua cara e mostrado que sim, ele precisava crescer. Que as coisas eram totalmente diferentes no mundo real.

Embora, provocar as pessoas fosse algo que provavelmente nunca iria sair da sua personalidade. Ele gostava de ser irritante, de ser alguém marcante por seja qual for o motivo. Nesses tempos atuais, estava buscando naturalmente o limite do aceitável nas suas brincadeiras, só que as coisas eram nubladas e todo mundo era tão diferente. Demandava tempo, uma hora ele iria acertar.

Forçando-se a acreditar que uma hora, aquela imagem construída a base de uma linhagem que não o representava como achava que sim, ruiria abaixo dos seus pés.

- Ah, claro que não, imagina. - Pansy deu uma risadinha, sarcástica. - Nossos grupos são tipo fogo e gasolina. Nunca poderiamos dar certo sem causar alguma explosão em algum ponto.

Draco suspirou, ela estava certa. Mas, bem, nenhum deles estava afim de acabar com a rotina de alfinetadas. Não tinha o porquê pensar nisso.

- Vamos logo para a aula. Deixa a trupe dos patetas pra lá. - O loiro resmungou, e os outros dois apenas o acompanharam.

Draco nunca admitiria sem um bom valor em troca, contudo, alguma parte sua pensava no que poderia ter acontecido ao trio. Se pensasse muito no passado, sabia que todas aquelas brincadeiras eram seu jeito bobo e infantil de chamar atenção e tentar ganhar a amizade deles. Alguém que nunca tinha aprendido a ser gentil, nunca poderia reproduzir isso que não fosse se um jeito muito torto.

Ele pegou seus pensamentos, prendeu a sete chaves e jogou no fundo de sua mente.

[💘]

"E aí, garoto de ouro, o que tá fazendo agora? Travado na punheta?"

"Você sonha com isso, Príncipe."

"ui ui ui ui, kink."

"Hoje foi um péssimo dia pra mim. Desculpa, não consegui falar nem com minha família hoje direito..."

"Mas o que aconteceu de tão grave???"

"Bem... Um amigo meu e que também é irmão do meu melhor amigo descobriu um câncer de pulmão recentemente. Mas tem muitas chances dele melhorar, é meio que a nossa esperança."

"Melhoras pra ele... O irmão dele deve estar completamente destruído! Eu ficaria assim se algo assim acontecesse com alguém que eu amo. Espero que tudo acabe bem."

"Pois é..."

"Como eu não sei a cura do câncer, posso ao menos tentar te distrair? Você tem me divertido bastante nos últimos dias com seus memes, acho que posso te divertir hoje."

"Hm, você pode tentar."

"Tá."

"Tá."

"Mas vai guardando seu pau aí nas suas calças porque não vai ser com nude."

"EU NÃO ESTAVA PENSANDO NISSO! E quem disse que eu tenho pau?"

"Ah, então guarda a buceta aí, cara. Erro meu."

"Eu tenho mesmo pau mas eu não preciso guardar, porque eu não coloquei pra fora. Aliás, o tarado aqui é você que já chegou perguntando se eu tava travado na punheta."

"Tô tentando criar uma intimidade contigo, inferno."

"Desculpa, gatinho, eu sou difícil."

"[Figurinha do gatinho dizendo miau miau, caralho, ela foi enviada inicialmente por Harry quando Draco enviou uma foto da sua comida.] Difícil é passar de ano e andar de salto quinze."

"Você já andou de salto??? Quinze???"

"Você não?"

"Não, parece desconfortável. Eu nunca usaria um troço desse."

"Pois eu uso e desfilo como o príncipe que sou: perfeito."

"Teu ego é do tamanho do oceano atlântico, né."

"E você não gosta?"

Dando seu primeiro sorrisinho do dia, Harry digitou: "Infelizmente... Sim."

[💘]

Harry só parou de boiolagem quando seu padrinho Sirius bateu na porta de seu quarto. Ele estava com o cabelo escuro e comprido todo bagunçado, as mãos nos bolsos e um sorriso sonolento. Potter se perguntava se ele nunca iria fazer aquela barba mas não se incomodava tanto. O homem se encostou no batente da porta do afilhado, cruzando os seus braços fortes:

- Vai dormir, criança. Tá tarde já.

- Eu tenho dezessete anos, Padfoot.

- Continua sendo criança. - Os dois trocaram uma risadinha cansada. - Como você tá? Era o Rony com quem você estava falando no celular?

- Tô bem, tô bem... E não. - Harry suspirou quando Sirius Black semicerrou os olhos em sua direção. - É um amigo que eu fiz, só isso.

- Amigo, é? Não vai me dizer mais nada sobre ele? - Potter quase conseguia ler "amigo de cu é rola" nos olhos castanhos escuros do homem em sua frente. Uma memória dele conversando sobre sua bissexualidade com os padrinhos brilhou na sua mente. Tinha sido um ocorrido constrangedor e agradável ao mesmo tempo, se é que isso era possível. Ele fez de tudo para esquecer aquela conversa e voltar a focar no padrinho.

- Achei que o Moony tinha falando que você deveria respeitar meu espaço. - Falou, mais pela diversão do que realmente um incômodo.

- Ele também fala que você tem que estudar mais e parar de comer besteira, e aí?

- Touché. - Harry deu risada. - Boa noite, Padfoot. Tá tudo bem, de verdade.

- Você sabe que minha porta tá sempre aberta, não sabe? Para qualquer coisa. Você pode confiar em mim sempre... - Ele acabou dando um bocejo, se auto interrompendo. - Tudo bem, te amo, Harry. Boa noite. Eu preciso mesmo ir dormir.

- Vai lá... - Murmurou. Padfoot saiu do quarto, fechando a porta branca e desligando a luz. Assim que ele fez isso, várias estrelinhas coloridas presas no teto se seu quarto brilharam para ele.

"Já é quase meia noite e eu não sei se você tem treino amanhã ou não mas a escola é cedo de qualquer jeito. Só dorme. Seu chato. Se não fica com olheira." O tal príncipe mandou e Harry não pode evitar dar um último pequeno sorriso.

"Boa noite pra você também, seu duplamente chato."

E um emoji de coração vermelho.

[💘]

Notas finais:

Fala aí, gente. Espero que o dia dos pais (caso você tenha, né) tenha sido bom. O meu foi bem uó, vou mentir não. Mas pelo menos consegui terminar esse capítulo.

Espero que o final tenha feito vocês darem uma risadinha porque né, eu tô aqui pra fazer drama mas também tô pra distribuir amor.

A dinâmica do Harry de bom moço e do Draco de bad boy sempre me faz rir, até porque eu não acho que as pessoas são 100% uma coisa ou outra. Enfim, espero que tenham gostado.

❤️.

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