1. It started with a skirt


- Tudo bem, eu começo... Ãhn, eu não sei nem como começar.

- Como diria Jack, o estripador, vamos por partes.

- Quando você resolveu ser engraçadinha, Mione? - Hermione Granger, com seu rosto entre o vão das cadeiras do ônibus escolar, deu um sorrisinho de lado como resposta para a pergunta daquele que estava atrás de si.

- Anda logo, Harry! - Ronald interviu, buscando maior conforto na posição que se encontrava: sentado do lado de Hermione, quase destruindo sua coluna para ver o rosto do melhor amigo. O ruivo optou por ficar de lado, apoiando o braço no topo da cadeira. Harry podia ver apenas seus olhos, cujas íris eram de um tom azul piscina, dessa forma.

A verdade é que Harry Potter estava guardando aquela notícia fazia uma semana, esperando ansiosamente para o retorno das aulas em Hogwarts apenas para poder contar naquele exato momento. Naquele ônibus. Eles tinham confessado muita coisa naqueles bancos desde que ficaram amigos a três anos atrás, então, era quase uma tradição estar ali. E ele sabia que Hermione e Ronald sentiam o mesmo. Algo que se comprovava pelo fato deles também terem uma notícia da qual não podia ser contada por telefone ou em qualquer outro lugar, mas sim, ali.

Incrível o que sentimentos fazem com bancos rasgados, cheiro de fumaça e janelas embaçadas. Incrível o que eles fazem com tudo que é mundano.

- Não me apressa! Vocês vão ficar embasbaca-embas-

- Embascados? - Hermione ergueu uma de suas sobrancelhas.

- Sim! Embasbacados. - Harry forçou uma tosse, um pigarro para limpar a garganta. - Como vocês sabem, meus padrinhos, Remus Lupin e Sirius Black ou melhor, Moony e Padfoot, estão juntos desde...

- Sim, sim, sim, sabemos. Nós estávamos lá quando... Quando toda aquela situação aconteceu. - Dessa vez, Ron foi quem o interrompeu. Granger deu um tapinha em seu ombro.

- Deixe ele terminar. Que falta de educação. - Weasley ia revidar com algum comentário, mas Harry voltou a falar com muita empolgação.

- Padfoot e Moony vão se casar!- Sorrindo de orelha a orelha, animado e esperando reações muito contentes dos seus amigos, ele ficou confuso quando tudo que recebeu foi silêncio e uma troca de olhares entre a cacheada e o ruivo. - Eles vão casar, vocês me ouviram? Isso não é, sabe, muito incrível?

- Ah, a gente tava esperando a novidade. - Hermione deu uma cotovelada leve em Ron quando ele disse isso. - Auch!

- Estamos explodindo de felicidades, Harry! É só que... - Mione procurou palavras, gesticulando em círculos com a mão. - Era meio óbvio que isso ia acabar acontecendo, sabe, eles estavam cheios daquele clima de lua de mel no natal. E aí, teve a viagem... A Sra. Weasley já estava me fazendo perguntas sobre que tipo de roupas usam em uma cerimônia de casamento gay.

- É melhor você ajudar ela nisso mesmo, você sabe como o gosto dela pode ser levemente duvidoso. - Ronald disse, o rosto contorcido em uma careta. Harry deu uma risadinha. Molly Weasley é uma mulher incrível, entretanto desde o baile de inverno do ano passado, tinha ficado claro que suas escolhas para roupas eram muito mais que levemente duvidoso. Eram muito duvidosas. Ronald tinha acabado com pior terno da vida dele.

- Eu não estava esperando pelo pedido de casamento. Sirius dizia que já era como se eles estivessem casados, por isso não precisava de cerimônia. Então, eu fiquei bem surpreso...

Hermione deu um suspiro longo antes de responder:

- Suspeito que é pelo fato dele ter sido... Bem, detido pela lei de forma injusta. Sirius pode ter adquirido uma visão mais pessimista sobre boas coisas acontecendo com ele. Se ver nesse momento da vida, morando com o homem que ama, cuidando de um... - Ela pensou um pouco antes de chama-lo assim, uma outra palavra sambou pela sua língua. Mas sabia das consequências e não falou. - afilhado muito especial. Deve sentir como se já tivesse mais do que merece.

- E sem contar que fazem o que? Quatro anos desde o reencontro? Cinco? Seis? - Ron completou. - Você sabe como ele é meio tradicional em algumas raras vezes. Se o pedido não foi feito em um mês então era porque não ia ser feito nunca, na mente dele, vai saber.

- Deve ser isso. Eu... Eu já estava me sentindo um pouco culpado. Talvez não estivesse prestando atenção neles o suficiente. - Declarou Harry, em um tom um pouco mais baixo.

- Ah, cara, deixa disso! Ninguém tem que ficar observando o relacionamentos alheio mesmo, é estranho. - Harry deu uma risada divertida. - Deixa de ser preocupado demais, você não precisa ser assim.

- Tá, então, me diz aí, qual a notícia de vocês? - Potter começou a desconversar, tirando os holofotes de si e jogando na negra e no ruivo a sua frente. Os dois deram mais uma daquelas trocas de olhares que Harry não conseguia entender. Hermione deu um sorriso muito largo e então começou a falar:

- Ronald Weasley, com seu cabelo ruivo, sardas e jeitinho unicamente bobo... - O garoto soltou um "ei!" em protesto. - Mas muito incrível também, me pediu em namoro. Com aliança e tudo!

Ronald ergueu a mão e a pôs na lateral da boca, como se não fosse para Hermione ouvir e se aproximou do rosto do melhor amigo.

- E ela, meu chapa, disse sim.

Harry também colocou a mão do lado da boca, prendendo uma risada cheia de diversão. Usou a voz com o tom mais acusador possível:

- Mas não era ela que você achava irritante? Muito sabichona para o seu gosto?

A recém exposta como namorada ergueu uma sobrancelha em direção ao recém exposto como namorado, o qual por sua vez, trabalhou na sua melhor expressão de desentendimento, ainda com a mão erguida.

- Não faço ideia do que está falando meu caro amigo. Tem certeza de que está bem da cabeça? - Ela revirou seus olhos cor de amêndoa e Harry apenas sorria, abaixando a mão junto de Ron.

- Minhas felicidades ao casal! Vocês já contaram para a... - Harry Potter não conseguiu dizer mais nada quando o ônibus, agora parado em algum ponto, tinha se concentrado em um silêncio nenhum pouco dentro do cotidiano esperado para um veículo lotado de adolescentes inquietos. Isso porque, aquele dia tinha acabado de se tornar completamente atípico com a recém chegada de Draco Malfoy.

Todos os olhos miraram e devoraram de cima a baixo aquela figura esbelta e de nariz empinado que era o loiro de íris azuis. Seu cabelo quase branco era de fato, impossível de não se notar. Mas eram os olhos que Potter nunca tinha visto igual, muito mais puxado para o cinza do que para o azul, como se seus globos oculares tivessem sugado uma tempestade fervorosa, os quais ele sempre reparava. Aquele garoto nunca tinha pisado em um ônibus escolar em todos os seus anos como estudante de Hogwarts. Ele estava em um nível social que o permitia ter um motorista para o levar todos os dias para a escola. Ele não era o único que fazia isso, mas certamente era o indivíduo com a aparência mais arrogante entre todos.

Todavia, ele estar exibindo a sua presença em um ônibus não tinha sido a única coisa a deixar todos surpresos. Draco, cujo sobrenome tinha sido herdado de uma linhagem de políticos adeptos a um conservadorismo extremo, vestia sem o mínimo desconforto uma linda saia de pregas verde pastel. Não apenas a saia, como também uma camisa branca de botões e coturnos pretos femininos se agregam com muito equilíbrio e beleza ao conjunto. Ademais, se observasse com um pouco mais de atenção, podia se notar esmalte prateado em suas unhas compridas e pequenos brincos brilhantes em sua orelha.

Draco estava indiferente a todos, sem exceção. Caminhou até um lugar vazio no fundo do ônibus com uma confiança invejável. Harry se despertou do estado de surpresa quando uma rede de comentários começou a surgir imediatamente. "Seria Draco Malfoy uma bichinha de merda agora? Vinte vezes mais louco por atenção?". Potter se fez de surdo, completamente alheio a situação.

- Ele veste uma saia melhor do que eu. - Hermione parecia extremante chocada quando confessou, quase inaudível. Não que isso a ofendesse. Ela estava muito feliz com seus jeans e tênis. Mas era uma cena chocante demais para ser processada rapidamente.

- Eu não achei nada demais não, ew, continua o mesmo babaca do ano passado. Tenho certeza disso. - Ron franziu o cenho, pensativo, murmurou para si mesmo. - Se ele for da comunidade trans assim como eu... Será que eu vou ser obrigado a ser legal com ele também? Não. Acho que não. Babaca não se perdoa.

Hermione revirou os olhos.

- Draco não disse nada sobre seus pronomes ou gênero. Ele só vestiu uma saia. Vamos parar de ficar emocionados. Até porque, se ele tivesse se descoberto ou algo assim com certeza ia fazer todos nós o chamar e reconhece-lo do jeito certo. - Ron assentiu com a cabeça. - Eu só me pergunto se isso tem relação com o pai dele estar preso...

Harry abriu a boca e ergueu as sobrancelhas para o alto em descrença. - Como é que é? Ele foi preso?

- Você não viu o noticiário? Lucius Malfoy está em prisão preventiva por suspeita de envolvimento com o crime organizado, corrupção e mais alguma outra coisa. - Granger bufou. - Da qual não vou lembrar agora. Acham que ele é um dos comensais da morte...

- Tá falando daquela facção lá, liderada pelo Voldermort? Tudo que sei é que quase não tem informações sobre ele e o que tem ou é boato ou tá no sigilo. O cara é perigoso demais. - Disse Ron. Hermione abriu a boca para perguntar mas ele rapidamente respondeu. - Meu pai trabalha no ministério, lembram? As vezes ele solta uma coisa ou outra. Bem sem querer mas solta.

- Vocês... Vocês não acham que o Malfoy esteja envolvido nisso. Ou acham? - Harry perguntou, cruzando os braços.

- Draco pode ter um ego irritante de tão grande e ser muito mimado, mas ele não me parece alguém que iria fazer parte de algo assim por vontade própria. Sem contar que em todos os casos de crimes desse naipe, a família geralmente é mantida fora dos negócios. Ele tem só dezesseis, não tem? - Hermione respondeu com calma, como se estivesse falando sobre algo do cotidiano. Harry nunca ia entender como ela tratava de assuntos sérios desse jeito enquanto qualquer outra coisinha boba se tornava digna de um certo show. - Agora, o pai dele... Encontraram documentos e outras provas comprovando tudo, acho difícil ser um engano ou uma armação.

- A gente também tem tipo, dezesseis e dezessete. Não fale como se fosse mais velha. - Ron se pronunciou. - Eu acho bem capaz sim dele tá metido nisso. Não confio mesmo nesse seboso.

Harry uniu um pouco suas sobrancelhas, parecendo meio curioso.

- Você realmente tá acusando ele de ser um criminoso por causa daquele comentário?

- Não foi apenas aquele comentário. Draco sempre precisa reafirmar que eu não jogo bem toda vez que me vê entrar na quadra pra aqueles amiguinhos dele. Ou fica me provocando sem a mínima razão. "Vê se faz alguma cesta dessa vez, Weasley". - Ron o imitou com uma voz extremamente esganiçada. - Eu sempre faço cestas! Ele também te provoca sobre isso, Harry! Ele até faz esses comentários com a Hermione, diminuindo ela de forma indireta. "E eu nem estudei tanto". Ah, por favor, tenho certeza absoluta que ele se mata para chegar perto da inteligência e da perfeição da Mio... - Harry o interrompeu.

- Entendi, Ron, você não confia nele. E ama a Hermione.

- Nem nele e nem nos amiguinhos dele.

- Pansy e Blaise não me parecem tão ruins... - Hermione falou. - Sendo bem honesta, não sei nada deles sem ser fofocas. E não é só o Draco que manda indiretas ou que começa, sempre que posso, gosto de mostrar que sou tão inteligente quanto qualquer outro riquinho de Hogwarts. Seja por indiretas ou por coisas bem diretas.

- Eu acho muito provável deles serem meio sem causa como falam. Tenho quase certeza que vi Pansy fumando atrás da escola outro dia.

- Ron, sem querer defender ninguém, mas provavelmente noventa por cento dessa escola deve ser fumante. - Harry deu uma risada baixinha. O ônibus de repente deu uma parada mais brusca, a qual fez seu corpo ser impulsionado para frente. Assim ele soube que tinha chegado ao colégio. - Vamos esquecer desse assunto e descer. Eu ainda tenho mais uma pergunta sobre o namoro de vocês.

Hermione, que tirava a poeira da calça, já de pé, arredou para que os vários vários alunos saiam ao montes atrás de si pudessem passar. - Pode perguntar.

- Já contaram para os pais de vocês sobre o namoro ou...? - Harry percebeu que Ron tinha congelado no lugar e Granger se encolhera um pouco, mordendo o lábio.

- A gente tava pensando sobre isso tipo, faz umas duas semanas que oficializamos. - Ela olhou de relance para o anel dourado em seu dedo anelar e respirou fundo, parecendo um pouco mais confiante. Aquele anel reluzia com a luz. - Nós ficamos nervosos, sabe, nossos pais sempre nos viram apenas como bons amigos... É meio difícil de explicar. Acho que é natural. Né, Ron? - O sardento confirmou com um sorriso e pegou na mão dela, entrelaçando os dedos.

- Tenho certeza de que vai dar tudo certo. - Harry arrumou a mochila em suas costas e empurrou o óculos para mais perto do rosto. Ele devia comprar logo um par de lentes de contato, já estava ficando difícil ter que ficar comprando um par novo sempre que o seu quebrava. O que, levando em conta que ele jogava basquete muito frequentemente e não podia simplesmente deixá-los em um canto por conta da miopia, acontecia com bastante frequência.

O trio saiu do ônibus. Potter reconheceu diversas pessoas durante o percurso, o cabelo vermelho e bastante chamativo de Ginevra Weasley - por favor, a chamem apenas de Ginny, sujeito a paulada - ao lado de uma garota baixinha que ele reconheceu como Luna Lovegood caminhando abraçadas. Elas definitivamente faziam um casal muito meigo, pensou. Ele conseguiu distinguir as irmãs Patil e Cedrico Digorry com outros membros do time de basquete, segurando Cho Chang pela cintura em um canto, perto dos armários amarelos. E mais uma vez seu olhar parou em Draco, dessa vez acompanhado de seus amigos - ou ao menos ele achava que eram - Blaise Zabine e Pansy Parkinson, ambos vestidos com roupas caras e feições distintas. Pansy parecia avoada e Blaise mais carrancudo. Draco sustentava uma expressão bem menos fria que a de quando estava no ônibus, mas, ainda assim, parecia ser capaz de congelar o sol.

Mesmo que Harry tentasse parecer tão indiferente a ele como o loiro parecia ser a si, não conseguia deixar de reparar em como o garoto parecia tão... Cansado. Olheiras abaixo dos olhos, muito mais magro do que se lembrava, podendo ver os ossos do seu rosto quase saltando, o cabelo um pouco menos brilhante. Deixe de ser alguém tão preocupado, dissera Ron, e ele acatou o conselho.

Pelo menos por agora.

[💘]

Draco Malfoy andava pelos corredores como se estivesse em um grande desfile de moda. Entretanto, ele andava bem mais rápido e com duas companhias, uma de cada lado. A sua direita, se localizava a nem tão amável Pansy Parkinson, a garota conhecida por beijar muitas meninas das quais nem o nome lembrava e sempre usar um delineado preto marcante. A sua esquerda, o nem tão simpático Blaise Zabini, conhecido por ser alguém de poucas palavras, alto e atraente - sua pele era escura e brilhante, tinha o maxilar bem marcado e sempre estava bem arrumado -, na maior parte do tempo se encontrava alheio ao mundo com seus airpods tocando no volume máximo.

Eles andavam focados e com o objetivo de chegar ao banheiro o mais rápido possível. Pansy tinha esquecido que o coordenador Filch - que deus o elimine, dissera Blaise - costumava fazer uma varredura pelas mochilas em busca de itens proibidos, como drogas. E Pansy estava com uma mochila até o talo de Marlboro Lights para dividir com o amigo Zabini.

- Ainda não acredito que estamos desperdiçando caixas valiosas porque você é simplesmente muito lerda para lembrar de algo que acontece todo o ano. Porra, Pans! - O garoto resmungava baixinho sobre a mesma coisa a quase cinco minutos e ela respondia da mesma maneira:

- Argh! - Abusando de uma entonação mostrando que já estava de saco cheio disso. - Quer saber o que aconteceu? O Draco sempre me manda um toque me lembrando dessas coisas e dessa vez não recebi nada. Aí, já viu, né.

- Não jogue a culpa disso em mim, você tem a função lembrete no seu celular por uma razão. - Draco cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha de forma debochada para a garota. - Essa foi a pior desculpa que você poderia ter pensado, já foi melhor, Pansy.

- Tá, tá, tá, eu errei. Mas sério, Draco, você sumiu nessa última semana de férias. Cansou de eu te ligando e esqueceu de desbloquear?

- Eu deveria mas não, Pansy, caso tenha esquecido, a imprensa fica rodando a minha casa mais vezes agora que meu pai tá passando um tempo fora. E as coisas... Não são fáceis. Só queria um tempo. É isso.

- Seja direto, Dray, ele tá preso. Não vai sair tão cedo. - Blaise enfiou as mãos no bolso da calça, o loiro suspirou, se encolhendo um pouco e sem responder. O que o garoto dizia com tranquilidade, fazia uma pressão forte nos ombros de Malfoy. Os quais não aguentavam.

- Ah, sim, sim, sim, eu lembrei agora. Desculpa a mancada, loirinho. Como tá a tia Cissa? Ela deve tá acabada e você também, né? Depois do que aconteceu mês passa-

- Você vai jogar os cigarros pela janela do banheiro feminino ou do desativado? - Draco mudou de assunto, avistando os banheiros a poucos metros de distância. A aula já ia começar então aquela parte dos corredores se encontrava vazia. Pansy e Blaise entraram rapidamente no feminino. Draco ficou do lado de fora, se encostando na divisão das portas enquanto a dupla jogava tudo pelo basculante de uma das cabines o mais veloz que suas mãos conseguiam. Na melhor das hipóteses, ninguém ia perceber os dez maços de cigarro no meio de uma moita ao lado do colégio. Se tivessem muito azar, provavelmente iam ter que jogar a culpa em algum aluno aleatório.

- Espera, espera, antes de ir embora eu vou fazer uma coisa. - Dissera Pansy, com a voz animada e dez vezes mais aguda. Draco pôs a cabeça para dentro do banheiro para ver o que a doida da sua amiga iria fazer. O banheiro feminino era demasiadamente mais limpo comparado ao masculino, dava um pouco de inveja. De frente para a fileira de cabines a sua direita, estava um enorme espelho com diversas pias embaixo. - Vou colocar esse post it com meu número e um "Me ligue se quiser se divertir..."- Parkinson ia falando e escrevendo. Quando terminou, se aproximou do próprio reflexo. - E grudar aqui!

- Isso é sério? - Draco fez uma careta de desgosto. Para ele, aquilo era o cúmulo da humilhação.

- Veja bem, eu preciso que as meninas saibam meu número se eu quiser ter contatinhos. Sabe, tô cansada de ter que ficar me deslocando pra muito longe, se for daqui do colégio fica mais fácil. Cansei de ser a sapatão que só gosta de quem tá a uma cidade de distância.

- Baixa logo o Tinder, já que resolveu distribuir em vez de dar, né. - Blaise debochou. Pansy, pela sua cara, ia responder algo bem mal educado, porém foi cortada de forma violenta com o primeiro sinal ecoando por toda escola. Um símbolo claro e agonizante de que se não corressem, perderiam a primeira aula no primeiro dia. E foi o fizeram, correram no limite da velocidade que suas pernas permitiram. Pansy, infelizmente, tinha as pernas curtas.

- Pra alguém de botas pesadas e com salto, você até que corre rápido... - A garota resmungou para Draco, inconformada.

- Você sabe como eu treinei bastante. - Ele murmurou de volta, divertido com a memória de si mesmo andando de lá para cá com saltos na casa dela.

Quando entraram na sala de aula, indo diretamente para as três mesas no fundo dela, o oposto da situação no ônibus ocorrerá. Draco não tinha feito todos levarem seus queixos ao chão como tinha feito antes. No entanto, ainda podia perceber olhares maldosos seguidos de fofocas. Seu nome saia sutilmente de muitas bocas ali presentes. Nunca acompanhado de bons adjetivos. Ele não se abalava. Sendo honesto consigo mesmo, se sentia mil vezes mais confortável daquele jeito. Mostrando um pouco mais de si. O fazia se sentir corajoso, um sentimento que pouco tinha explorado até então.

Roupas deviam servir para isso, não é? Se expressar, se sentir confiante. Era o que Draco acreditava, mesmo que algumas pessoas desdenhassem. Pessoas importantes. Ele mesmo desdenhava no começo. Até o mês passado, para ser mais exato.

- Eu acho que estão falando sobre você. - Pansy sussurou, sem deixar de encarar Malfoy mesmo quando se sentaram em suas cadeiras, pondo seu caderno sobre a mesa. Blaise ergueu uma sobrancelha para ela. - Mais que o usual.

- Por que será, não é mesmo, querida? - Blaise disse, demorou um pouco mas Pansy soltou um "ah!" assim que entendeu.

- Essa eu perdôo. - Draco se pronunciou, com uma voz entediada. Ele não se importava com o que as pessoas pensavam de sua saia, claro, ele tinha um limite para todo o assédio. Mas como ninguém tinha ultrapassado ele, então, até aí estava tudo bem. - Eu sempre uso esse tipo de roupa enquanto estou vocês. A Pansy se acostumou a me ver assim... E eu também. Virou um hábito. Só percebi que estava de saia em vez de uma calça quando cheguei na parada de ônibus.

- Você sempre se sentiu mais confortável usando roupas assim, bem mais delicadas do que as outras. Você é bem diferente do que transparece de vez enquando, sabia? - Pansy deu um sorriso estranho. Draco interpretou como felicidade por ele. Malfoy sabia que era uma pessoa diferente do que se passava pelas mentes alheias - embora não gostasse do delicado. Não se via como alguém frágil, não mesmo. - mas ele tinha muitos motivos para não ser essa pessoa que era com os amigos. - Gosto de te ver assim, loirinho. - Ele pressionou os lábios um no outro como uma tentativa falha de sorrir em agradecimento. - Olha, eu sei que você não quer chamar a atenção dos jornalistas e por isso começou a usar o ônibus. Só que eu ainda acho que se a gente organizar direitinho dá pra você ficar de carona com a gente e... Sério, o ônibus parece ser uma merda. Não parece higiênico. Vai que você pega uma doença.

- Eu ia chamar atenção do mesmo jeito dessa forma. - Draco falou baixo, meio derrotado.- Até pensei em chamar um táxi ou algo assim mas vai que um deles me sequestra. - Pansy deu um sorrisinho divertido com o seu exagero. - Vou usar só para alguma emergência. Até lá, sou obrigado a usar o ônibus... E, sim, não é nem um pouco higiênico. Porém, passo despercebido desse jeito.

Parkinson fez um sinal de concordância com a cabeça. O segundo sinal bateu e os grupinhos de conversa se desfizeram rapidamente, todos voltando a se sentar em seus devidos lugares. Durante a movimentação, Blaise aproximou sua cabeça do ouvido de Malfoy e sussurrou baixo o suficiente para que apenas ele escutasse.

- Eu não sou idiota, Dray. Você não ia ligar se começassem agora a falar merda de você no blog do Profeta. Percebi que tá se esquivando muito durante esse tempo todo. Ou você me conta o que aconteceu ou eu vou descobrir sozinho. E eu sei por onde começar.

- O professor da primeira aula é o Snape, Zabini. É melhor você apenas ficar no seu lugar, sabe como ele é rigoroso.

Blaise bufou, indignado e mesmo sem chance alguma de admitir, preocupado com o amigo. Ele voltou para o seu lugar, criando mentalmente um esquema muito sórdido. Na mesa ao lado esquerdo de Draco, viu Luna Lovegood, uma menina cheia de bijuterias feitas a mãos nos braços e conhecida por ter alguns parafusos a menos, olhando encantada para o loiro.

- A sua saia é realmente muito bonita! Você tem um estilo tão... Tão... Encantadoramente elegante! Esse tecido parece tão chique. Parece até costurado a mão. - Draco apenas murmurou um obrigado para a garota. Quem não conhecesse diria que ele estava sendo arrogante demais para agradecer de forma apropriada. No entanto, Blaise conhecia Draco a tempo suficiente para saber que ele estava apenas encabulado demais. Tantos comentários ruins a cerca de si - e não estamos falando mais apenas da saia. - e milhares de fofocas sem sentido... Ouvir um elogio inocente dava uma sensação muito boa. Lembrava um abraço caloroso nos dias frios.

[💘]

- Como assim vocês nunca assistiram A Ursupadora? - Ronald Weasley caminhava pelos corredores com as mãos firmes nas alças da sua mochila surrada, a qual tinha pertencido a pelo menos dois de seus irmãos anteriormente, decorada com uma infinidade de bottons e chaveiros. O trio - ele, sua namorada e Harry - seguia a passos velozes até a saída do colégio. Eles estavam comentando sobre novelas e filmes e a família de Ron tinha alguma espécie de cultura em que todos se reuniam para assistir novelas mexicanas com edição exagerada e trilha sonora chiclete.

- Ron, eu amo você, mas essas novelas não fazem o menor sentido.

- Mi, você nunca terminou um único episódio. Por isso é tão contra tamanha obra de arte. Eu juro que ela é viciante!

- Eu não me viciei. - Harry anunciou. - De vez enquando Sirius assiste umas assim mas só quando Moony não está em casa. Ele gosta muito mais daqueles filmes estranhos em preto e branco.

- Esses filmes vêem do cinema mudo e são maravilhosos! - Hermione deu um sorriso gigante. Ela ia começar a falar empolgada e sem parar e Harry já estava preparado para ouvir seu enorme discurso. Mas ela disse outra coisa em vez disso: - Eu preciso ir no banheiro rapidinho, com licença. - Simplesmente se virou, passando pela porta de um dos banheiros. Harry ouviu Ron prender a respiração ao seu lado.

- Odeio só olhar esses banheiros, sério.

- Por causa do ano passado ou só porque o masculino nunca é limpo direito? - Harry olhou para o amigo. As íris cor de piscina de Ron iam em direção aos próprios pés, encarando o piso bege. Imerso em uma frustração.

- Ano passado... Acho que se eu não tivesse a Mi ainda teria que segurar até em casa.

- Ela é incrível, não é? - Harry deu uma cotoveladinha nele. - Parabéns pela namorada.

- Valeu. - Ron corou um pouco, erguendo um pouquinho mais a cabeça. - Sabe, o apoio dos meus pais no começo da transição foi muito importante mas ela... Ela foi parte da minha coragem.

- Você sozinho é a pessoa mais corajosa do mundo. Ela só te disse "vai" e você foi. - Harry cruzou os braços, em uma pose meio descontraída. Ronald tinha uma história longa envolvendo sua descoberta como garoto transgênero. Desde a disforia até o confronto com seus pais, os quais o aceitaram e o apoiaram em tudo, além de toda a luta para Hogwarts respeitar o fato de que ele era um garoto como todos os outros. Que ele tinha os mesmos direitos e fim. Era uma eterna batalha para todos ao seu redor entenderem isso, mas ele aguentava tudo de cabeça erguida. Era o que ele era, e sempre seria. As coisas tinham melhorado muito desde o ano passado, tinha começado o tratamento hormonal, as pessoas tinham parado com o bullying. Ele estava no time masculino de basquete! Isso o deixava imensamente feliz.

Todas essas mudanças tinham começado ali, com os três enchendo a diretoria de reclamações porque Ron e mais pessoas transgênero que estudavam ali podiam e deveriam estar no lugar que elas quisessem estar.

Foi um ano de conquistas.

Com a expressão pouco satisfeita, Hermione saiu do banheiro segurando um pequeno Post It verde vibrante entre os dedos. Parecia ter acabado de chupar um limão muito azedo.

- Vocês não vão acreditar. Algum idiota colocou o número em um papel e deixou grudado no espelho. Com a frase: me ligue se quiser se divertir! - Hermione ergueu ele e faltou esfregar na cara dos meninos. - Sério, isso é tão desesperado que me deixa constrangida. Aposto que foi algum garoto nojento da turma C. Sabem quantas aberturas esse tipo de coisa dá? Não quero me sentir assediada quando entro no banheiro. Eu só quero mijar em paz.

- Você não sabe o contexto da história, vai ver nem era um garoto. - Harry disse. - E além do mais é só um número... - Semicerrou os olhos em direção ao papel. - A caligrafia é bem estranha. Muito arrumadinha e pomposa. O último número é um seis ou um oito?

- A gente devia mandar um trote pra esse número, ia ser engraçado. - Ron segurou uma risada, Hermione não. Ela riu com maldade.

- Anota o número no seu celular aí, Harry. Adorei a ideia!

- Eu me pergunto por que eu iria fazer algo assim...

- Porque um, vai ser engraçado ver a pessoa achando que conseguiu alguém desse jeito e depois se decepcionando. Dois, eu tô curiosa para descobrir quem foi e três, eu não quero que um provável idiota tenha meu número.

Harry ergueu uma sobrancelha, a expressão de quem pergunta "...E?".

- E nós vamos te pagar um lanche no Cabeça de Javali. - Hermione deu sua última cartada para convence-lo.

- Eu quero aqueles chocolates em forma de sapo como sobremesa e uma cerveja amanteigada. - Harry falou com a seriedade de um homem de negócios. Os dois selaram o acordo com um aperto de mãos. Harry e Hermione tinham mãos grandes e fortes, mas os dedos dela eram muito mais finos e delicados, fazendo sua mão parecer menor. Harry voltou a sorrir.

- Então tá... - Disse Ron. - Vamos resolver isso no ônibus. Tenho quase certeza que a gente perdeu o nosso.

- Se a gente correr dá pra alcançar! - Bastou Harry dizer isso para que ele e Ron se desembestassem a correr como desesperados em direção a saída. Hermione gritou de onde estava.

- Ei! Parem já, idiotas! - Harry e Ronald foram diminuindo os passos até pararem, fazendo feições desanimadas. Contudo foi apenas o tempo de Hermione sair correndo e adquirir liderança. Os dois garotos deram gritos de protesto e sobre como aquilo era trapaça, enquanto tentavam alcança-la. Suas mochilas batiam em suas costas e os outros alunos davam olhares confusos para aquele trio estranho.

Um verdadeiro trio de ouro.

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