Capítulo 1 - Elijah
A ÁGUA QUENTE SE CONGELA ASSIM QUe entra em contato com meu corpo, causando cócegas em meus pés quando os respingos caem no chão. Abraçando a mim mesma, encosto a testa no vidro congelado do box e fecho olhos, tentando controlar a temperatura abaixo de zero que meu corpo está emanando para poder sentir um pouco da água fervente e assim poder relaxar ao menos um pouco.
Graças à raiva que sinto por Horace, o ex jogador de futebol da minha antiga escola que nos traiu em troca de sua liberdade, e o luto por Will, meu amigo que teve seus poderes tomados pela pior criatura viva na face da Terra — Klonthus – eu não consigo enxergar a um palmo de distância de tanto vapor. É isso o que acontece quando o choque térmico é alto demais...
Uma água quente seria muito bem-vinda agora, mas não consigo me controlar por tempo o suficiente para ela chegar no meu corpo.
Mas luto? Eu não deveria estar de luto. Não por Will. Afinal, ele não morreu, não é? Ele está vivo. Mas raiva de Horace... eu não posso evitar ela, mesmo que eu queira. Afinal, ele nos traiu. Teve a covardia de me atacar pelas costas enquanto eu ainda estava ferida e longe de Halt ou qualquer proteção que eu pudesse ter. Eu não o culpo e nem tenho ressentimentos pelo bullying que ele fazia com as pessoas na escola. Ele estava apenas tentando sobreviver enquanto procurava a criocinética; enquanto me procurava. Mas depois que se juntou a nós? Depois que recebeu treinamento? Não... Aí ele não estava tentando sobreviver. Ele estava sendo covarde. E ele sequer contou que também era um cinético.
Suspiro. Eu deveria ter matado Horace. Deveria... mas sou fraca demais para me sujar com uma morte. Seria um peso impossível de carregar. Se Horace conseguiu andar até o novo esconderijo de Klonthus, qual será que foi o seu destino? Klonthus o mandou ir atrás de outros cinéticos inocentes e que ao menos sabem de suas habilidades? Ou será que ele apenas o descartou como um inseto indesejado e tomou seus poderes?
A ideia me faz estremecer. Klonthus com telecinese e aerocinese? A junção dos poderes me assusta mais do que eu gostaria de admitir. Mesmo que tenha apenas a aerocinese, o que Klonthus fará a seguir? Treinará para dominar o poder ou voltará a nos caçar o mais breve possível? Faço uma anotação mental para lembrar de conversar sobre isso com Halt mais tarde e discutirmos todas as probabilidades.
— Alyss, já está pronta? Elijah e os outros não têm a noite toda.
E por falar nele...
— Já estou saindo! — digo, fechando o chuveiro com um suspiro derrotado.
Enxugo-me e visto a roupa que Halt me entregara antes de eu entrar no banheiro. A roupa não é nenhuma novidade, é a mesma de quando eu treinava na casa de Halt e na Resistência: uma calça verde musgo e uma blusa preta de manga curta.
Saio do banheiro, fazendo a névoa que o preenchia passar para o quarto, o que faz com que Halt se levanta do sofá espantado. Ele já está prestes a reclamar quando vê o meu semblante abatido.
— Você precisa conseguir controlar isso, canalizar essa energia — ele diz, voltando a se sentar.
Solto um suspiro. Sempre tão técnico...
— Eu sei... Mas é difícil.
— Se você quiser, depois que falarmos com Elijah, podemos conversar sobre isso. Você não pode se deixar dominar pelas emoções. Em uma situação de luta, você...
— Eu sei, tá bom? — interrompo, subitamente me sentindo exausta. — Me dê pelo menos alguns dias, poxa. Will se foi.
A palavra parece o ter atingido fisicamente, como um soco no peito. Ele olha para baixo e penso que ele vai se compadecer, mas Halt volta com seu olhar técnico quando diz:
— Se eu fosse um kallckara, escolheria te atacar agora. Somos fugitivos, Alyss. Não podemos nos dar ao luxo de sentir luto. Não ainda.
Abaixo a cabeça, concordando com um suspiro. Eu sei que ele está certo, mas... Por que isso me afeta tanto? Will não está morto. Eu não devia estar me sentindo assim.
Meu protetor lança um sorriso reconfortante antes de abrir a porta do quarto simples que, mais cedo, ele me dissera que era onde todos os cinéticos ficavam antes de conversar com os "líderes" do refúgio.
Sim, refúgio. Cheguei aqui não faz nem duas horas. É um lugar pequeno, menor do que eu imaginava, mas há vários cinéticos, apesar de eu não ter encontrado nenhum ainda. Primeiro, de acordo com Halt, eu tenho que falar com os líderes daqui e contar tudo o que descobri sobre Klonthus.
Droga. Relembrar de todo aquele sofrimento que passei há pouco tempo atrás não vai ser nada fácil, mas sei que é necessário. Vai ajudar muito o refúgio, que poderá se preparar melhor e, quem sabe, até bolar um plano para derrotar o líder kallckara.
Passamos por um extenso corredor com paredes de madeira. Está vazio. Até agora eu não encontrei ninguém aqui, e a sensação é de que somos os únicos em todo esse lugar. Porém, felizmente, em menos de três minutos já estamos defronte à uma grande porta de madeira dupla, com um desenho dos quatro elementos esculpido cuidadosamente em sua superfície, o que não deixa a sensação ruim durar por muito tempo. Céus, estou parecendo aquelas pessoas de livro que ficam "Oh! Sou a última pessoa na Terra. Oh! Todos dependem de miiim!".
Em um instinto bem infantil, mas automático, estico minha mão para tocar no desenho, porém, para o meu desencanto, a porta se abre bem no momento em que meu braço se levanta.
— Halt! Há quanto tempo! — O homem é alto e magro. Seus cabelos loiros estão cuidadosamente penteados para trás, de forma que deixa um pequeno topete amassado no topo. Não sei o porquê, mas tenho a impressão de que sua voz me é familiar...
— Marshall! Bom te ver, meu amigo. — Halt diz isso enquanto aperta a mão do loiro de uma forma calorosa. — Essa é Alysson.
O homem me olha com curiosidade, seus olhos âmbar brilhando. De frente, posso notar que ele deve ter mais ou menos a mesma idade de Halt, pois sua pele possui algumas linhas de expressão bem visíveis. Um velho, resumidamente.
Mas não tããão velho. Halt me mataria se soubesse que o chamei de velho.
— Finalmente, depois de tantos meses, estou tendo a honra de te conhecer — ele me estende a mão e eu aperto. — Já estava mais do que na hora, Alysson. Vamos, entrem. Elijah e os outros estão aguardando.
Respiro fundo quando Marshall abre totalmente a grande porta, revelando uma sala ampla e sem janelas com uma grande mesa no centro, onde dois homens estão sentados. Um na ponta e o outro no meio.
— Ora, ora, se não é a criocinética que enfrentou Klonthus e sobreviveu... — o homem que diz isso é o que está sentado no meio. Examino-o rapidamente antes de dar um pequeno sorriso tímido: cabelos castanhos desbotados pela idade, da qual não dou menos do que cinquenta anos, pele branca como a de um fantasma e olhos castanhos. Ele usa farda militar, mas reparo que ele não possui nenhuma medalha ou patente escrita no peito e nem no braço. O que será que isto significa? Será que é apenas uma roupa para assustar ou o exército está do nosso lado?
Estou ficando paranoica.
— Bem-vinda, Alysson. Estávamos te esperando — o homem da ponta diz polidamente. Ele, antagonicamente ao moreno, tem cabelos brancos bem enrolados e é negro. Ele é magro, pode-se dizer. Lembra-me muito o tipo físico dos atores com papéis de empresários super ricos que eu via na televisão de casa, o que me intimida. — Por favor, sente-se — Pede, apontando para a cadeira do meio, de frente para o homem da farda.
Halt se senta ao meu lado logo em seguida, e Marshall fica do lado oposto, ao lado do moreno.
— Bem, antes de irmos ao ponto, permita-me me apresentar — começa o homem negro assim que todos terminam de se sentar — Eu sou Elijah, fundador deste refúgio. Fui eu quem descobriu a existência dos cinéticos e resolveu ajudá-los. Treinei a maioria dos protetores e os enviei mundo a fora, na esperança de encontrar todos os cinéticos existentes e os trazer para cá. Você já conheceu o Marshall, meu agente — apontou para o loiro. E logo em seguida para o moreno. — E aquele é o Ronald, meu braço direito.
— Prazer — fala ele, dando um breve aceno de cabeça.
Retribuo o gesto e olho para Elijah.
— Como você descobriu as cineses?
— Alyss... — Halt me dá um cutucão com o ombro, reprimindo-me.
— Desculpa — digo rapidamente. Não é o momento.
— Não, tudo bem — Elijah solta uma risada. — Na verdade, a história não tem nada de surpreendente. Minha sobrinha era uma cinética. Ela podia se comunicar por sonhos. As probabilidades dela ser a única eram baixas, então deduzi que deveriam haver mais espalhados.
— E onde... — me interrompo quando percebo: Klonthus pode se comunicar por sonhos. — Ah. Sinto muito...
Elijah faz um gesto, pedindo para deixar para lá.
— Klonthus vai pagar por isso — fala. — E, aproveitando a deixa... conte-nos: pontos fortes e fracos dele que você percebeu, o que ele aprendeu durante a luta e o que você aprendeu. Conte também sobre as limitações dos poderes do seu amigo aerocinético. Precisamos saber de tudo para bolarmos uma estratégia.
Engulo em seco, encarando Elijah ainda um pouco receosa. Eu sei que é preciso, mas... por algum motivo, as palavras ficaram pesadas de repente.
— Eu sei que é difícil contar algo assim, Alysson, mas entenda que é necessário.
Abaixo a cabeça, desenhando linhas imaginárias com o meu dedo na coxa antes de finalmente conseguir perguntar:
— Tudo bem. Eu consigo.
[JOGA A ESTRELINHA AÍ QUEM QUISER BOTAR A ALYSS NUM POTINHO]
E lá vamos nós novamente, meus cinéticos. De volta ao início... Temos uma Alysson paranóica e um Halt toodo dodói.
Que combinação complicada, hein?
Bom, logo mais teremos o próximo capítulo. Espero que estejam tão animados quanto eu!
Até mais!!!
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