38


— Como eles ultrapassaram a barreira de proteção? — ouço alguém dizer, mas as palavras se perdem junto ao vento.

Uma onda de poeira se espalhava do lado de fora do colégio. Assim que pisei os pés nos gramados meus olhos arderam como se estivessem sendo incendiados com fogo do inferno. A onda de poeira vinha como uma tempestade, engolindo tudo em seu caminho, subia uns cinco metros acima de nossas cabeças e se espalhava para além do que podíamos ver, havia apenas uma coisa que podia ser vista entre ela, lobos ferozes juntos de uma criatura gigantesca.

A figura animalesca se movia devagar, certamente por conta da sua estatura, escamas cobriam todo seu corpo e brilhavam tanto quanto seus olhos vermelhos incandescentes, as garras eram longas e afiadas, cravanvam-se no chão enquanto avançava em direção ao colégio, rasgando árvores com a facilidade de quem destrói papel. O chão tremia a cada passo e poeira era levantada como em uma tempestade de vento.

Os professores e alguns dos alunos mais velhos, estavam na linha de frente lutando. Os alunos contra os lobos que tentavam se aproximar, enquanto os professores tentavam deter à criatura. O professor Hayes, dominador do ar, conjurava redemoinhos para tentar dissipar parte da poeira, mas era como tentar apanhar o mar com as mãos. Ao seu lado, uma professora disparava rochas contra a criatura, tentando afastá-la e mais alguns também ultilizavam seus poderes.

Minha mão foi direto na espada que estava presa em meu cinto e então a puxei, o som da lâmina saindo da bainha se misturou com os gritos e o barulho ensurdecedor da tempestade de monstros.

Adrenlina pulsava em minhas veias quando corri até um lobos que se aproximava, avaçando sobre um grupo de alunos que já estavam distraídos com outras feras. Sangue escorreu para todos os cantos quando a lâmina da minha espada entrou em contato com a carótida do lobo. Mal tive tempo para comemorar minha pequena vitória quando mais um saltou, pronto para atacar um garoto que havia tropeçado e caído.

Sem pensar, me movi rápido e o golpeei com a espada, sentindo a lâmina cortar o ar antes de se cravar profundamente na espinha da criatura. Ela soltou um grunhido alto e se virou para mim, com olhos brilhando em fúria e então, o brilho se esvaiu como os ventos do Norte e seu corpo caiu pesadamente no chão.

O cheiro metálico de sangue já começava a se impregnar ao meu redor, respirei fundo, tentando me concentrar, pronta para seguir até as próximas feras. No entanto, antes que pudesse dar o próximo passo, senti uma mão no meu ombro.

— Any! — Sabina puxou meu braço, virei em sua direção, seu rosto estava coberto de poeira e suor  — Josh voltou para dentro do colégio, alguns lobos conseguiram saltar para lá e... ele está preocupado com Sina. Muito preocupado.

— O quê? Lobos conseguiram entrar? Quantos? — deixo minha preocupação transparecer. Havia alunos lá dentro, vários alunos inexperientes, que mal sabiam lutar ou controlar suas habilidades, então com certeza se defenderem com maestria também não estava incluso no pacote.

— Poucos, acho —  resposta dela causou um alívio momentâneo.

— Josh não precisa se preocupar com Sina — eu disse, enquanto ergui a espada novamente, observando de longe outro lobo avançar — Noah está cuidando dela. E se tem alguém que pode lidar com esses lobos lá dentro, é ele.

— Mesmo assim — ela jogou os ombros para trás, um pouco de poeira caía do cabelo, sujando seu vestido anteriormente impecável — você sabe como ele é quando se trata da Sina.

Eu sabia. Ele sempre foi superprotetor e tem um medo incontrolável de perder mais alguém, isso só se intensificava em situações como essa, principalmente se esse alguém fosse Sina. Desviei a atenção de Sabina por um momento, vendo um lobo saltar sobre nós, com a mandíbula aberta, pronta para morder nossa carne.

Com um movimento rápido, girei a espada em um arco largo, acertando o pescoço da criatura. O sangue jorrou em todas as direções e o lobo caiu com um baque no chão, imóvel.

— Confie em mim — falei enquanto limpava a lâmina, em um piscar de olhos, desviei de mais uma fera que vinha em minha direção, girando a espada e acertando sua lateral. A criatura soltou um grunhido e recuou alguns passos, com sangue escapando do ferimento — Josh pode ficar tranquilo. Noah daria a própria vida para protegê-la.

— Ah, eles vão acabar discutindo sobre quem vai proteger a Sina — ela girou, desferindo um golpe certeiro no lobo que se levantou novamente, dessa vez, o golpe foi fatal, cortando a cabeça deste com precisão.

— É sempre uma possibilidade — concordei — agora foco na batalha, vamos acabar com eles antes que mais danos sejam feitos.

A luta prosseguiu por mais alguns minutos, até que mais reforços chegaram e o caos diminuiu. Enquanto o último lobo caía, a poeira começou a se dissipar aos poucos, alguns profesores ainda lançavam os últimos feitiços contra a besta, que já parecia enfraquecida o suficiente para ser derrubada.

Minha respiração estava pesada e sangue cobria grande parte das minhas vestes. Os corpos dos monstros caídos e os feridos se espelhavam pelo chão, demonstrando o preço da luta. Conferi se Sabina estava bem e apenas quando tive certeza de que sim, permiti um suspiro de alívio.

No entanto, o alívio durou pouco. Vi Sina. Ela estava saindo apressada pela porta da frente do colégio, os cabelos bagunçados e o rosto coberto de poeira que se misturavam às lágrimas. Seu corpo tremia e o pânico em seus olhos foi o suficiente para me fazer esquecer qualquer coisa que fosse.

Antes que eu pudesse correr até ela, suas palavras cortaram o ar.

— Ele está morto — sua voz atingiu meus ouvidos e, ao invés de seguir em direção ao meu cérebro, pareceu se desviar e seguir direto em meu peito. Bem no fundo.

O lado racional do meu cérebro não parecia estar em funcionamento e o único nome que eu conseguia raciocinar era o de Josh. Josh.

— Quem está morto, Sina? — ouvi Sabina perguntar, correndo até ela, outros olhares também a seguiram. A loira estava quase completamente coberta de sangue, muito sangue, e tremia demais para ser capaz de pronunciar mais do que alguns soluços de choro.

Meus pés pareciam presos ao chão feito rochas pesadas, meus olhos correram por todo o local, à procura dele. Não fazia sentido. Não podia ser. O coração batia descompassado em meu peito, como se tentasse romper as costelas para fugir.

Tudo ao meu redor parecia se encolher, a poeira, o sangue, os corpos, tudo se tornava apenas ruído de fundo.

E então o golpe veio sem aviso. Um dos dominadores de fogo mirou uma rajada de fogo na besta, mas essa fora levada pelo vento diretamente até mim.

Senti o calor antes do impacto, o mundo ao meu redor parecia explodir em luz e escuridão simultaneamente quando meu corpo caiu pesado como uma pedra em chamas.

Tudo ficou turvo. As vozes de Sabina e Sina, chamando desesperadas, pareciam vir de um lugar muito distante, quase como se pertencessem a outro mundo.

Havia muitas chamas, mas não havia dor, não era como qualquer ferida que já senti, era mais como um despertar.

Levei menos que um milésimo de segundos para perceber que fogo não me estava queimando. Ele estava me fortalecendo. As chamas não me consumiam, elas me obedeciam, coomo se eu sempre tivesse sido parte delas.

Minha visão se clareou brevemente, o suficiente para ver o fogo ao meu redor dançar e se encolher, vivo, como se pulsassem em minhas veias e respondesse aos meus comandos, ou talvez respondesse às minhas emoções, alimentando-se da fúria e da dor que se entrelaçavam em meu peito.

Levantei, sentindo os olhares de todos sob mim, porém nenhum deles me importava. Nenhum daqueles olhares era o dele.

Tudo ao meu redor, que antes era um caos de poeira, sangue e morte, começou a se focar em um único ponto: a criatura monstruosa à frente, enfraquecida, mas com seus olhos vermelhos fixos em mim e brilhando feito brasas.

Os gritos de Sabina, Sina e mais uma dúzia de professores foram silenciados pelo rugido ensurdecedor da besta quando eu avancei. Ela também avançou, com suas garras afiadas rasgando o chão, prontas para me destroçarem, mas não senti medo. Eu estava no controle, eu era o fogo.

Apenas quando cheguei perto o suficiente para que não atingisse ninguém além do meu alvo, libertei tudo o que sentia, toda a raiva, toda a dor. Uma rajada de fogo explodiu ao meu redor, as chamas laranjas e vermelhas explodiam intensamente, varrendo o chão em direção a besta.

A besta soltou um último urro agonizante antes de cair, seu corpo queimando e se dissolvendo em cinzas bem à minha frente.

No mesmo instante senti minhas pernas tremerem de exaustão. A quantidade de poder que eu havia liberado era absurda, um poder que nem sabia que possuía, um poder que eu ainda nem sabia controlar. Meus joelhos queriam ceder, mas eu era orgulhosa demais para despencar. Tudo ao meu redor começou a perder cor, as vozes de Sabina e Sina ainda distantes, abafadas pelos professores que não deixavam que ambas se aproximassem, afinal eu ainda estava em chamas.

Até que as chamas foram interrompidas por algo frio, algo familiar. Algo que pode ser descrito como o abraço reconfortante de água ao redor do meu corpo em chamas. No início, meu instinto foi me defender, mas antes que pudesse reagir, percebi quem era.

— Any! — a voz de Josh atravessou minha confusão. Seu rosto estava sujo de poeira e os olhos azuis tinham um tom vermelho de choro, mas era ele, era o meu Josh.

Quando seus braços me envolveram, tudo ao redor perdeu importância. O som da água sussurrando contra o fogo foi a única coisa que ouvi, enquanto meu corpo, exausto, cedia ao cansaço. Porque por alguma razão eu podia ceder ao cansaço quando ele estava ali, qando sua presença estava ali para me proteger e me acalmar.

Eu estava aliviada e confusa. Achei que Sina havia dito que ele estava morto...

— Josh...? — tentei dizer, minha voz sempre tão forte escapou como um sussuro fraco. Ele estava bem... Ele estava ali, então quem estava morto? Minha mente estava cansada demais para raciocinar.

— Eu estou aqui — ele disse, sua voz suave, tentando me acalmar. Suas mãos, cheias de água, resfriavam as chamas que ainda dançavam sobre minha pele — vai ficar tudo bem, Any.

— Sina... — murmurei, tentando entender o que tinha acontecido — Sina disse que...

Josh me apertou mais forte contra ele, sua expressão de dor e preocupação ficando mais evidente.

— Não eu... — ele disse com suavidade, mas o peso em sua voz era inconfundíve— foi o Noah... Any... Noah está morto.

Meu coração disparou, mas antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, a escuridão me envolveu por completo e tudo que senti foram os braços de Josh me erguerem, impedindo que eu despencasse.

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