33

Mal consigo mover meus músculos. Tudo que desejo no momento é me arrastar para o meu quarto e desabar na cama.

A sala de treinamento já está toda escura, é claro, todos já foram embora minutos atrás e restaram apenas eu e o professor. Tive que repetir toda uma sequência de movimentações de defesa, pois segundo ele, ainda não estavam suficientemente boas.

Tenho um palpite de que o Sr. James está pegando mais pesado comigo durante o treino, quando comparado com os outros estudantes. Não que eu esteja reclamando, gosto de aprimorar minhas habilidades. Só que sinto que estou sendo drenada ao máximo.

Tento guardar meus equipamentos o mais rápido possível e infelizmente essa tarefa é um pouco complicada quando todo o meu corpo parece ter sido esmagado por uma carruagem de 300 quilos.

— Fez um bom trabalho hoje, Senhorita Soares — ouço o professor dizer, enquanto se aproxima.

— Obrigada, professor — murmuro, tentando manter a voz firme apesar do cansaço. Faço o possível para soar respeitosa e agradecida, mesmo que por dentro eu só queira xingá-lo por ter feito com que eu repetisse todo o treino.

—  Você sabe, Any, eu vejo muito potencial em você. Mais do que em qualquer outro aluno aqui — sua voz é carinhosa e ele usou diretamente o meu nome, "Any', expressando uma intimidade que não existe entre nós.

O silêncio se estende e sinto seus olhos em mim enquanto continuo a socar meus equipamentos no fundo da mochila o mais rápido que consigo. O corpo dele está próximo ao meu e tudo que quero fazer é correr, porque embora talvez eu esteja imaginando coisas, tenho a leve impressão de que esse homem está tentando flertar comigo.

E é nojento porque ele é o meu professor. E deve ter o dobro da minha idade.

— É... é mesmo? — balbucio.

— Sim, por isso que eu pego pesado com você — ele responde, e agora ele está perto o suficiente para que eu senta o calor emanando dele. Dominadores do fogo não costumam ser muito discretos.

— Obrigada — minha voz sai seca e fria, eu não quero que ela saía assim, mas não consigo ao certo controlar.

— Posso te fazer uma pergunta, Senhorita Soares? — prefiro que não faça, quero dizer, porém apenas confirmo — você sentiu algo diferente?

Faço o máximo para não expressar nenhuma reação diante do seu questionamento e ainda assim, tenho certeza de que seus olhos, tão negros quanto os meus, são capazes de visualizar minha surpresa.

— Algo diferente? — repito, tentando processar o que ele está insinuando.

Ele parece notar minha hesitação e dá um passo para trás, embora ainda esteja perto o suficiente para me fazer sentir seu calor.

— Não é nada de mais — ele diz, com uma voz mais suave, menos intimidadora — apenas me pergunto se você sentiu alguma mudança em relação a melhora de suas habilidades.

— Não, não notei nada de diferente — meu suspiro sai alto — só estou bastante cansada.

— Nada? E em relação às suas habilidades de cura?

— Não com humanos... Só consegui curar animais até agora — recuo um pouco. Esse assunto ainda me deixa desconfortável e insegura. E definitivamente não é o meu tópico preferido — sinto muito por decepcioná-lo.

Ninguém gosta de se sentir desconfortável e inseguro, eu especialmente, minha armadura de durona é quase impenetrável. Quase. Assuntos como esse conseguem me afetar, não deveriam, mas conseguem.

O homem acena com a cabeça, absorvendo a informação. Há um momento de silêncio, e eu sinto que ele está me mantendo por muito tempo ali. Homens não costumam me assustar, nem a escuridão da sala, ainda assim, por um momento eu sinto o medo bem ali, como se andasse sob minhas carnes.

— Você nunca decepciona, Any — ele volta a se aproximar. Meus dedos estariam gelados de nervosismo caso a sala não estivesse tão quente.

Passo a alça da mochila em torno dos meus ombros, deixando claro que pretendo sair.

— Preciso ir, tenho umas coisas para fazer...

— Ah, desculpe, acabei não vendo o tempo passar — ele olha ao redor, fazendo parecer que apenas agora se deu conta — está liberada, descanse bem por hoje.

Tudo soa tão estranho que apenas aceno com a cabeça antes de deixar a sala junto aos meus pensamentos.

Caminho pelos corredores quase arrastando os pés, minha mente ainda no que acabou de acontecer com o professor James. O que foi aquilo? Aperto tão forte meus dedos contra a alça da mochila que posso senti-los se embranquecerem devido à pressão.

As paranoias não se vão, mesmo que eu tente afastá-las, mesmo tentando com todas as forças jogá-las para um canto escuro da minha mente e deixá-las ali, trancadas, inacessíveis, elas ainda são capazes de assombrar cada passo que dou.

Quase colido com Heyoon e Sabina ao virar o corredor, as duas não parecem cansadas após o treino, muito pelo contrário, parecem ter energia de sobra.

— Any! — Heyoon entra no meu caminho e Sabina, ao lado dela, já começa a tagarelar logo em seguida — temos que falar com você sobre a festa!

— Festa? A festa da semana passada de reçepção aos calouros? — pergunto, ainda um pouco distraída.

— Não, Any. Estamos falando da festa das vilas, em comemoração ao início da primavera — Sabina explica e finalmente volto a me situar.

Todos os anos várias vilas organizam um festejo em agradecimento aos deuses pelo início da primavera e da época de colheitas.

— Ok, só não entendi o porquê de estarem tão animadas. Nós nunca vamos nisso — volto a andar, elas me seguem feito formigas atrás de açúcar.

— Na verdade, a gente pensou em organizar a festa de Haeris esse ano, a ideia foi de Heyoon — Sabina diz com cautela, olho para ela prestando um pouco mais de atenção ao ouvi-la citar a vila de Josh — Sina nos contou que com os impostos altos, a vila não conseguiria fazer, mas é uma tradição deles e não é justo que não haja.

— Sina falou isso?

— Sim. Quer dizer, não diretamente, você sabe como ela gosta de fingir que está tudo bem — a dominadora de ar explica devagar — porém, eu e Lamar notamos que ela estava preocupada. Triste, até.

A situação de mais cedo com o professor desaparece e dá lugar a outros pensamentos. Sinto um nó na garganta quando penso no quanto os direitos do povo vão se deteriorando com o tempo, ao ponto de perderem a chance de celebrarem um farelo de vitória. Tudo isso porque seus recursos, advindos de muitas lutas e esforços, estão sendo sugados por um tirano que já acumula mais riquezas do que todas essas pessoas juntas.

— Eu pensei nisso porque poderíamos usar a festa para arrecadar doações: dinheiro, roupas, mantimentos... tudo que possa ajudar — Heyoon deve ter menos de 1,60 de altura e isso fica ainda mais evidenciado quando ela está ao lado de Sabina, mas apesar disso, ela nunca pareceu tão grandiosa. Em coração e alma.

Eu paro de caminhar por um momento, os músculos ainda doloridos do treino, mas agora vislumbro algo. Algumas arrecadações não irão ajudá-los para sempre. É apenas um começo. E precisamos começar de algum lugar.

— E então, por onde começaremos? — minha voz sai cheia de determinação e as duas sorriem, já sabendo que eu aceitaria.

Não faço ideia de como irei convencer meus pais a me deixarem passar um final de semana em Haeris, mas irei, nem que precise comprar outra briga com minha querida mãe.

Os gritos dela ainda ecoam em meus ouvidos. Priscila Soares e seus dramas, isso tudo apenas por eu ter dançado com Josh na frente de todos, de acordo com ela, eu ainda deixei com que ele a desrespeitasse. Claro que eu discordo de cada palavra e, para falar a verdade, eu acho que ainda fomos muito simpáticos.

— Já planejamos algumas coisas e algumas pessoas concordaram em participar, vamos precisar de um local adequado, além de transporte para levar tudo pra Haeris... — Sabina começa a listar algumas coisas enquanto tento acompanhar sua fala rápida.

Ninguém esperava tanto apoio, tendo em vista que as pessoas por aqui estão mais preocupadas com seus próprios sapatos caros do que com qualquer outra coisa. No entanto, por incrível que pareça, conseguimos uma lista longa de apoiadores, se conseguirmos muitas doações iremos poder reparti-las com outras vilas além de Haeris.

Lamar entrou em contato com o conselho da vila, que é responsável por aprovar eventos desse porte e por distribuir as doações entre as comunidades necessitadas. Foi ele que garantiu uma quantidade significativa de doações. Confesso que quando Heyoon mencionou que o rapaz queria se envolver, eu não esperava que fosse com tanta dedicação.

Os dois parecem ter nascido um para o outro. Ela tem as ideias enquanto ele as executa. Sabina também se envolveu com muito afinco, principalmente na parte decorativa. Graças aos três e a ajuda de muitas pessoas envolvidas, temos quase tudo pronto para dar início aos festejos de primavera amanhã, o qual durará todo o final de semana.

— Sabina, eu já disse que não preciso da sua ajuda para convencer meus pais — repito pela décima vez, mas isso não a impede de entregar mais uma mala sua para o cocheiro.

— Sim, você disse e eu escutei, mas não me convenceu — ela analisa suas unhas da mão enquanto fala, claramente nem um pouco preocupada com minha recusa;

— Sabi...

— Nem comece, já estou decidida. Eu vou junto com você, vamos conversar com os seus pais e conseguir convencê-los — ela passa um de seus braços ao redor dos meus ombros — fique tranquila, você sabe que sua mãe me ama.

Cruzo os braços irritada pela insistência e mais irritada ainda por saber que não posso contra-argumentar. Sabina é muito persuasiva quando quer, persuasiva até demais.

— É, ela ama qualquer pessoa que tenha dinheiro e que não seja eu — reviro os olhos.

— Oh, vem cá. Ela te ama assim, do jeito distorcido e meio dela, mas sei que ama — ela alisa meu ombro como se isso pudesse tornar a situação menos difícil — seu pai também pode ajudar a convencê-la. Ele é um homem sensato e, com um pouco de sorte, conseguirá ver o quanto isso significa para você.

Sabina disse que minha mãe me ama. E ela nunca mente, então talvez seja verdade, mas isso não faz com que eu me sinta amada.

— É — concordo sem ânimo algum — seu pai é mais compreensivo, já a minha mãe.... é outra história.

Entrego minha mala para que o cocheiro e quando estou quase entrando na carruagem, uma voz chamando meu nome corta o ar. E conheço bem essa voz.

Eu nunca sei o que esperar quando o Beauchamp está por perto.

— O que foi agora, Josh? — pergunto, quando ele para bem à minha frente.

Eu não contei para ele sobre o festejo que estamos organizando, vi Josh durante a semana inteira enquanto traçavamos planos e estudávamos sobre as relíquias perdidas, porém não contei para ele. Só que também não fiz nada para impedir que as informações viajassem até seus ouvidos.

Eu só não queria ser a pessoa a contar. Não queria que parecesse que eu estava fazendo algo por pena, quando não estou mesmo.

Ele chega mais perto, quase fora de si. Seu olhar está fixo em mim, e há uma intensidade em sua expressão que me faz hesitar. Ele está bravo? Ou talvez... confuso?

— Eu... eu ouvi falar da festa em Haeris. É verdade? Vocês estão organizando uma arrecadação de doações para a vila? — a quantidade de perguntas me surpreendem, Josh costuma ser um homem de poucas palavras.

— Sim, é verdade. Heyoon e Sabina tiveram a ideia, e estamos fazendo tudo o que podemos para ajudar. Pelo visto as notícias demoraram pra chegar até você.

— Acho que elas teriam sido mais rápidas se alguém me tivesse falado diretamente — Josh deixa um sorrisinho de canto aparecer, não é bem um sorriso de felicidade. Reparo em suas bochechas vermelhas e no suor em sua testa.

— Está com calor? — aponto para seu rosto.

— Não mude de assunto.

— Não estou mud-

— Por que não me contou? — ele cruza os braços. Oh, droga. Ele está chateado.

Mordo o lábio, sem saber ao certo como explicar o porquê.

— Por que não me contou? – repete, dessa vez em um tom mais baixo. Percebo que está esperando uma resposta sincera.

— Eu... – começo – eu não sabia como te dizer.

— Não sabia como me contar? — ele repete — é a minha vila, Any. Haeris significa tudo pra mim. E você não achou que eu gostaria de saber que estavam tentando ajudar o meu povo?

— Sim, eu sei que isso é importante para você, e é exatamente por isso que eu não queria que parecesse que estamos fazendo isso por... pena.

Ele estreita os olhos, claramente irritado com minha escolha de palavras. Suas bochechas ainda estão vermelhas, sua pele clara deixam isso em evidência.

— Pena? – ele repete, quase com uma risada seca mas quando volta o olhar para mim, estão repletos de ternura e intensidade – você realmente achou que eu pensaria isso?

— Eu não sei...

Josh suspira, esfregando a nuca como se estivesse tentando conter a frustração. Ele sempre faz isso quando está pensando, quando está tentando encontrar uma explicação.

— Eu não queria que você pensasse que estou me intrometendo na sua vida ou que eu estou... que eu estou... — as palavras se perdem no ar.

— Intrometendo? — ele ergue as sobrancelhas em surpresa antes de deixar uma risada seca escapar novamente — você sempre se intromete, Any. E ainda assim, eu jamais pensaria que você está fazendo isso por pena. Você está ajudando o meu povo, o meu lar, isso significa o mundo para mim e é exatamente por isso que eu queria ter ouvido de você.

Fico sem graça. Odeio me sentir assim, fora de órbita. Josh faz um gesto em direção à carruagem, antes mesmo que eu possa responder a sua confissão inicial.

— Eu gostaria de ajudar. Eu conheço as pessoas de lá, posso ajudar a garantir que as doações sejam distribuídas de forma justa e eficaz.

— Claro, será ótimo — afirmo, meu coração finalmente acalma o ritmo das batidas e o analiso Josh um pouco mais — então... Isso significa que não está bravo comigo?

— Estou. Odeio ser o último a saber das coisas — ele olha para o alto, parecendo pensar um pouco antes de prosseguir — mas acho que posso te perdoar se você estiver presente lá amanhã.

— É claro que estarei — garanto e a frase sai muito rápida, quase desesperada — não por sua causa, obviamente — corrijo.

Ele dá um meio sorriso, aquele sorriso de canto que é horrivelmente charmoso.

— Ótimo, nos encontraremos lá — ele pisca antes de voltar a andar e então, se vira em minha direção novamente — e por favor, tenta não se meter em confusão enquanto estiver em Haeris. Eu sei como você é.

— E o que isso significa? — pergunto, fingindo ofensa.

— Significa que você vai dar um jeito de se enfiar em problemas, e eu vou estar lá para te tirar deles. Como sempre.

Dou uma risada leve, em saber que ele não está errado, por mais que seja custoso admitir. Entro na carruagem, sentindo olhares sob mim: o cocheiro e Sabina. O homem logo desvia o olhar e dá partida no veículo, porém minha amiga mantém o olhar divertido.

— Bem, acho que alguém aqui acabou de garantir mais um voluntário.

— Não começa... — peço e o resultado é o mesmo de não pedir.

— Você realmente acha que ele não sente nada por você?

— Sabina, pelo amor dos deuses... — peço já cansada antes de passar a mão pelo rosto e me recostar no banco da carruagem.

Priscila parece não acreditar nas palavras que saem da minha boca. Meu pai, como sempre, parece prestar atenção mas não se manisfesta.

— E então? — Sabina os incentiva a falar. Olho para ela, sabendo que pressionar só vai deixar minha mãe mais irritada.

Dito e feito. A mulher se levanta, o tecido alaranjado do seu vestido se espalha como um mar de fogo ao seu redor. Ela ergue o queixo, seus olhos cravando em mim como lâminas afiadas.

— Você realmente espera que eu aceite essa... essa insensatez? — sua voz é carregada de desprezo — eu nunca esperei muito de você, Any, mas ao menos achei que no fundo, você teria algum juízo.

— Não é uma insensatez! — digo indignada, ela continua a me olhar com desdém e assim eu sei que nenhuma palavra que eu diga a convencerá do contrário — olha, eu estou cansada de tentar discutir isso com você.

— Eu quem estou cansada, Any. Eu — ela aponta para o próprio peito, fazendo seu escândalo de sempre como se estivesse performando um espetáculo em um palco — eu gastei os melhores anos da minha vida educando você e para quê? Para que se tornasse uma... uma rebelde, uma ingrata. Sempre agindo contra tudo o que lhe ensinei.

Meu peito queima. A relação entre nós duas nunca foi das melhores e a cada ano que passa parece ir sendo minada cada vez mais. Apesar disso, ainda dói ouvi-la falar dessa maneira, como se eu fosse um experimento que tivesse dado completamente errado.

— Talvez eu só não queira ser como você — desabafo em um tom de voz controlado, as palavras saem da minha boca assim como um peso parece sair das minhas costas.

Ela piscou os olhos lentamente, incrédula.

— Sílvio, faça alguma coisa. Você vai deixar ela falar dessa maneira comigo? Como se eu fosse o problema? — o olhar dela se volta para o meu pai — na verdade, acho que o culpado é você, que fez ela criar essa ilusão de que nasceu para ser uma heróina.

— Não começa, Priscila. Se ela quer ir, deixe ir, não vejo mal algum nisso — meu pai me lança um olhar de cúmplice e não posso conter o sorriso, le é o melhor.

— Ah, então é dessa forma... Tudo que ela pede, você faz. E se alguém atacar a nossa filha? Se tentarem machucá-la? Você sabe como são essas pessoinhas e quer que eu deixe ela viajar um final de semana inteiro para uma vila desconhecida, para ficar na casa de sabe-se lá quem e fazer sabe-se lá o quê?

— Na casa da Sina — digo no mesmo instante, atraindo a atenção da mulher de volta para mim.

— Sina? Quem é Sina?

— Ela é minha amiga e mora em Haeris. Já te falei dela antes. Eu vou ficar na casa dela, junto com Sabina e Heyoon. Não tem perigo nenhum — explico, tentando manter o fio de paciência que ainda me resta.

— Amiga? — ela soltou uma risada sarcástica e alta o suficiente para fazer Sabina se encolher ao meu lado — você anda chamando qualquer uma de amiga agora? Que triste, Any. Que triste. Essas pessoas são o tipo de gente que você quer na sua vida? Vai se colocar em perigo por causa deles?

Eu sentia o sangue ferver dentro de mim. O ódio que Priscila demonstrava pelos mais pobres era algo que nunca conseguiria entender ou aceitar. Minha respiração estava pesada, mas eu sabia que explodir não resolveria nada.

— Priscila — meu pai se levanta da poltrona visivelmente irritado, sua pose de general ficando evidente — já chega. Basta. Toda vez é a mesma coisa. Você acha que pode controlar a vida da Any para sempre? Minha filha sabe se defender, eu a criei para isso, para viver, para lutar por aquilo que acredita. Eu confio nela.

Minha mãe o encarou, incrédula. A postura ereta, o queixo ainda erguido, como se estivesse acima de qualquer argumento.

— Ela não tem a menor ideia do que está fazendo, Sílvio — rebateu, com a voz gélida — e pelo visto, você também não, se acha que vou deixar nossa filha se misturar com... o lixo da sociedade. Eu conheço o tipo, Sílvio. Sei do que eles são capazes.

— Você não conhece ninguém de Haeris, Priscila — meu pai respondeu, sem desviar o olhar — não percebe o quão ridículo isso é

A mulher pareceu vacilar por um segundo, mas logo seus olhos se voltam novamente para mim, parecendo captar algo.

— Eu conheci alguém de Haeris sim — ela diz lentamente, olhando no fundo dos meus olhos — isso é sobre aquele rapaz, não é, Any? Aquele... Esqueci o nome. O bastardinho do rei.

— Não ouse falar assim sobre ele — vocifero, sentindo minha garganta queimar em um nó difícil de desatar, mas tento manter a calma. Não vou cair no joguinho dela — essa festa não é só sobre ele, não se resume a isso. Estamos arrecadando doações para as pessoas da vila. Elas precisam de ajuda. Alimentos, roupas… coisas que podem fazer a diferença na vida delas.

— E o que isso tem a ver com você? — ela rebateu, implacável — Você não é responsável por eles, Any. Não é sua função salvar o mundo, especialmente o mundo de gente que nem merece.

Essas palavras doeram mais do que eu esperava. Era como se ela tivesse desistido de tudo, de qualquer possibilidade de compreensão, de vislumbrar um mundo melhor e que fosse além do próprio umbigo.E, de certa forma, ela também desistira de mim.

— Pessoas como você é que não merecem ser salvas. Elas merecem — minha língua estala, sinto um gosto salgado, o gosto das lágrimas que eu não deixei caírem.

Ela me olhou por um longo momento e o silêncio que seguiu no ambiente foi brutal.

— Faça o que quiser, Any — ela disse finalmente, com um suspiro pesado — mas quando você falhar e você vai falhar, não diga que eu não lhe avisei.

As palavras dela pairaram no ar, mesmo após ela ter se virado e saído. Eu sabia que minha mãe nunca me daria sua bênção de verdade, mas ouvir isso ainda machucava. Sabina colocou a mão em meu braço, me oferecendo um apoio, como ela sempre faz.

— Não vou falhar — murmurei, mais para mim mesma do que para ela.

Meu pai se aproxima e deixa sua postura de general de lado ao me envolver em um abraço apertado, às vezes eu me pergunto como um homem bom como ele pôde se casar com uma mulher como a minha mãe.

— Vai ficar tudo bem, minha linda. Você sabe o que está fazendo. Não deixe que as palavras dela te afetem, continue lutando — ele segura meu rosto ao me soltar do abraço

Eu assenti, sabendo que ele sempre seria minha âncora em meio ao caos que minha mãe trazia.

— Obrigada, pai — murmurei, me sentindo grata por ele sempre estar ao meu lado, mesmo quando parecia ser o único a entender.

O primeiro passo estava dado.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top