32
O baile brilha classe e tradição. Brilha quase tanto quanto o vestido que minha mãe insistiu para que eu vestisse, um tecido azul serenity que destaca-se sob minha pele negra.
Um vestido lindo e desconfortável. Quase tão desconfortável quanto a conversa em que estou presa.
Priscila Soares não perde nenhuma oportunidade de tecer críticas sobre a filha, que no caso, infelizmente, sou eu.
Pelo menos não sou exclusividade qando se trata de críticas. Minha mãe olha de cima à baixo cada pessoa que passa por nós.
— Poderia ao menos disfarçar o seu descontentamento — murmuro, atraindo sua atenção de volta para mim.
— Impossível disfarçar. Eu sempre deixei bem claro o meu posicionamento, querida. É um absurdo que essas... — ela dá uma pequena pausa, respirando fundo antes de prosseguir — essas... pessoas... frenquentem o mesmo ambiente que nós.
Sei bem de quais pessoas ela está falando. Olho ao redor, todos os calouros estão vestidos da mesma forma, com uniformes nas cores branca e azul, assim como eu também estive na minha recepção de caloura.
— Nem tem nem como distingui-los.
Até meu pai parece se divertir, certamente compartilhando da mesma lógica que eu.
— Não é sobre roupas. É sobre a postura, sobre o comportamento. Certas coisas não podem ser escondidas nem mesmo com um traje apropriado.
— Eles também possuem poderes, Priscila — meu pai intervém — precisam ser treinados tanto quanto nós.
— Treinados sim, também concordo quanto a este ponto. Precisamos de soldados lutando em nossas guerras. Agora, permitir que essas pessoas convivam conosco já é abusar da nossa boa vontade — ela ergue o queixo ao perceber a expressão de descontentamento translúcida em meu rosto — inclusive, falando em treinamento, ainda acho que deveríamos ter colocado a Any naquele colégio religioso.
Já ouvi esse discurso inúmeras vezes, ela sempre fala como se Any fosse sua cachorrinha de estimação e não a filha. Meu pai abre a boca para dizer algo, mas é outra voz a que interrompe a discussão.
— Se me permitem dizer, seria uma grande perda para Eblênia. A Senhorita Soares é uma excelente aluna, tanto no combate quanto na cura — o Professor James se aproxima e a atmosfera esquenta com a presença do dominador de fogo.
— Não temos a menor dúvida — meu pai responde prontamente, estendendo a mão para cumprimentar o professor. Minha mãe mal se move, congelada diante da audácia do homem.
Os olhos escuros do James se encontram com os meus rapidamente e não preciso de muito para entender o recado. Ando matando aulas ultimamente. E não sou nem de perto sua melhor aluna da cura, o que faz dele um grande mentisoso. Embora sim, eu seja a sua melhor aluna de combate.
— E ela seria ainda melhor caso fosse uma dominadora da terra, igual ao pai — a mulher comenta em um tom ardiloso.
— Isso seria impossível — o homem rebate.
— O que o senhor quis dizer com isso? — sou a primeira a questionar. O homem inclina a cabeça ligeiramente em minha direção.
— Nada demais — ele joga os ombros para trás, indiferente — é apenas uma questão de lógica, você já domina a cura, então seria impossível dominar a terra. Mas, de qualquer modo, às vezes o verdadeiro potencial de alguém pode ser... surpreendente, não é?
As palavras enigmáticas do professor ardem feito faíscas de fogo contra minha mãe. Um silêncio tenso se estende entre nós e de repente percebo que não faço ideia do que está acontecendo. E sinceramente, não quero fazer, já tenho problemas o suficiente.
— Com licença — aproveito o momento para escapar, sem esperar por uma reação contrária.
Ando alguns passos, procurando por Josh.
Não demoro muito para encontrá-lo, o rapaz se destaca em meio às pessoas mesmo sem fazer esforço nenhum. Seus fios dourados que brilham contra a luz e suas feições marcantes seriam reconhecíveis mesmo que ele estivesse a um quilômetro de distância. Ele traja um smoking preto que realça seus músculos e destaca seus ombros largos.
Fico tão vidrada que mal percebo a presença de Noah ao seu lado, embora o príncipe perceba a minha e faça questão de sair para nos deixar a sós, mas não sem antes fazer com que Josh olhasse para mim.
— Estou louca ou acabei de ver você e o Noah conversando sem socos ou gritos?
— Ah, você com certeza está louca — responde, colocando casualmente a mão em seus bolsos. Dou um empurrãozinho em que ombro por me chamar de louca.
— Achei que você não fosse aparecer — comento, reparando o quanto ele conseguia ficar ainda mais atraente quando estava de perto.
— E realmente não iria. Infelizmente, alguém não me deu muitas escolhas — reparo que ele também dá uma boa olhada em meu visual.
— Não permito piadinhas referentes ao meu vestido — aviso, já prevendo o que viria.
— Você tem um julgamento muito distorcido sobre a minha pessoa, donzela. Eu apenas ia dizer que você está deslumbrante — sua atenção vai do resto do meu corpo para, exclusivamente, meus olhos e em seguida, para minha boca.
— É porque ser cavalheiro não combina com você.
— Não estou sendo cavalheiro, estou sendo sincero.
Ele está sério, o que me faz acreditar que está sendo sincero. Ficamos parados feito dois idiotas se encarando e por mais que eu lute, não posso evitar o desejo de agarrar aquele homem ali mesmo, em frente à todos.
Quebro a troca de olhares, um pouco envergonhada. Quem fica envergonhada com um elogio? E caramba, é só o Beauchamp, não é como se fosse especial, certo.
Mudo de assunto repentinamente, gesticulando para que déssemos uma volta pelo salão.
— É... Está gostando do baile?
— Com certeza. Exceto pelo fato de que fui obrigado a vir e agora eu estou preso nesse evento idiota, cercado por gente que não suporto e sendo forçado a encarar meu pai assassino em algum momento. Tirando isso, estou amando cada segundo.
— Sua habilidade de odiar tudo é impressionante.
— Obrigado, é um dom — ele joga os ombros para trás com um pouco de dificuldade pois seu smoking está tão apertado que provavelmente qualquer movimento brusco causaria um belo rasgo.
— Não tinha um mais apertado?
O loiro me olha sem entender, suas sobrancelhas franzidas em confusão quase fazem com que eu ria no momento em que aponto para sua roupa. Finalmente ele entende e balança a cabeça negativamente enquanto revira os olhos, sem conseguir conter o sorriso.
— Peguei emprestado do meu amigo Alex. Ou você acha que eu gastaria minha grana só para ficar bonito em uma festa idiota?
— Você não precisa de uma roupa chique para estar bonito.
— Ah, é? Então você acha naturalmente bonito? — provoca, com seu típico sorriso formando uma curva atraente em sua boca.
— N-Não foi isso que eu quis d-dizer... — tento buscar um argumento mas as palavras se embaralham.
— Ah, não? Então o que você quis dizer? — insiste, achando graça.
— Eu... quis dizer que... Que a roupa não é tão importante assim, quer dizer... Você entendeu! — respondo irritada ao sentir o calor subir em meu rosto. Agradeço aos deuses por minha pele ser escura o suficiente para que nenhum rubor transpareça.
Josh ri, parecendo satisfeito.
— Venha — ele puxa minha mão suavemente em direção à pista de dança, onde alguns casais já começavam a se moverem.
É um ato tão repentino que mal tenho a chance de reagir.
— O quê? Dançar? Aqui?
— Não, na sua casa.
— Idiota. Não vou dançar — bato a mão em seu peito.
— Vai sim. Nada mais justo, já que me obrigou a vir nessa recepção chata, pelo menos permita que eu aproveite um pouco.
Eu engulo o seco sem conseguir dizer não. A música lenta nos envolve enquanto começamos a dançar juntos, movendo-nos suavemente no ritmo da melodia.
— Você dança bem — admito, um pouco surpresa, tentando ignorar o fato de que sua mão está segurando firme em minha cintura e isso provavelmente é a única coisa que me impede de derreter em seus braços.
— Aprendi com minha tia, ela sempre diz que um homem que sabe dançar consegue conquistar qualquer mulher — ele me gira e eu começo a rir — do que está rindo? Funcionou?
— Não, não é isso — digo imediatamente ainda achando graça da sua autoconfiança — só comecei a imaginar você dançando com todas as moças de Haeris.
— Então está imaginando todas essas moças caindo aos meus pés? — Josh pergunta, com um brilho travesso nos olhos, enquanto continua a nos guiar suavemente — mas não, eu não dançava muito, só com a Sina, às vezes.
— Eu havia esquecido que você é meio antissocial — comento — você gosta de lá?
— Bem, é a vila em que eu nasci — ele franze as sobrancelhas sem entender ao certo a pergunta — não é o melhor lugar do reino, as pessoas trabalham mais do que dormem e se alimentam menos do que qualquer pessoa gostaria — ele pensa um pouco antes de continuar — mas é a minha casa. Pode ter faltado muitas coisas sim, porém nunca faltou amor ou carinho, meus tios cuidaram muito bem de mim e, de certa forma, lá todos tentamos ajudar uns aos outros. Então sim, acho que gosto de Haeris.
— Tirando as tragédias, parece um lugar incrível — comento me sentindo genuinamente conectada às suas palavras — eu gostaria de conhecer melhor esse lugar. É totalmente fora da minha realidade, eu sei, mas gostaria de conhecer...
— Posso te levar para visitar, quando quiser — sua voz soa suave e distante do sarcasmo habitual.
— Eu adoraria — dou um sorriso sincero, sentindo uma onda de calor se espalhar por mim.
Não era sempre que nós éramos tão abertos um com o outro. A música continua, e por um momento, é como se só existíssemos nós dois ali.
— Sabe, eu não odeio tudo, na verdade... — ele começa a dizer, mas para de falar assim que alguém invade nosso espaço.
Minha mãe e sua cara de quem chupou limão e não gostou. Ela não diz nada, apenas aponta para fora. É claro, ela é fina demais para causar um escândalo em frente a todos. Sem muita vontade e escolha, arrasto os pés para segui-la, mas não sem antes avisar a Josh que eu logo retornaria.
Ela agarra meu pulso com força quando chegamos em um canto menos movimentado.
— O que pensa que está fazendo, Any? Por que está dançando com aquele... garoto? Ele não é adequado para você.
— E quem é adequado para mim? Alguém que você escolher? Alguém que seja do seu agrado?
— Alguém que lhe proporcione um futuro, Any... Sinceramente, você é muito inconsequente, não pensa que ser vista com ele pode acarretar consequências negativas para a nossa reputação? O que as pessoas irão pensar?
Respiro fundo tentando manter a calma. Paciência é uma virtude de Sina, não minha.
— Eu não ligo para status. E também não ligo para o que os outros pensam —;sinto que estou prestes a explodir — por que você não permite que eu viva a minha vida? É a droga da minha vida! Minha.
— Porque você é ingrata! — responde imediatamente — e age como se não ligasse para a reputação que nossa família construiu esses anos todos! Eu cuidei de você com tanto carinho, com tanto cuidado, com tanto sacrifício e você nem sequer consegue enxergar as coisas que eu faço para te proteger.
— Acontece que eu nunca pedi a sua proteção. Eu não preciso que você me proteja.
— Aquele garoto é um bastardo, e não é nem um bastardo rico, antes fosse. Esse rapaz não deve ter nem onde cair morto, e aqui você está, se comportando como se ele fosse um dos seus iguais.
Eu preferia que ela me xingasse, que ofendesse meus poderes, que dissesse mil defeitos meus. Mas nada sobre ele.
— Cala a boca! A senhora nem ao menos o conhece, não tem o direito de falar sobre ele dessa forma — puxo meu pulso do aperto de suas mãos, desprendo-o com facilidade.
Ela arregala os olhos como se eu tivesse lhe dado um tapa na cara, deveria, porém ela ainda era mulher que me colocou no mundo e, por mais que não merecesse, eu ainda lhe devia alguém respeito.
— Um dia talvez você entenda.
Um barulho de passos nos interrompe. Josh se aproxima com seu sorrisinho provocativo e passa um de seus braços ao redor do meu pescoço, achei que minha mãe fosse explodir de raiva.
— Boa noite, Senhora Soares. Infelizmente não tive a chance de me apresentar, mas meu nome é Josh Beauchamp — ele disse com um tom cortês, estendendo a mão para cumprimentá-la, ignorando completamente a desaprovação lançada em sua direção.
Minha mãe hesitou por um momento, desconcertada, claramente não esperando um cumprimento tão formal. Ela olhou para a mão estendida de Josh por um instante antes de finalmente aceitar o gesto, apertando-a brevemente.
— Boa noite — respondeu friamente, seus olhos ainda avaliando-o com desconfiança — é um dominador da água?
Seu tom de voz é bastante sugestivo e calculado. Se alguém visse de fora, acharia que ela estava sendo simpática, quando na verdade aquela era uma insinuação. Uma forma de chamá-lo de bastardo sem ser direta.
— Sim, com muito orgulho — ele responde sem se abalar pela provocação.
— Fico feliz que tenha os mesmos dons que o seu pai. A Any não adquiriu tal privilégio, ela tem os meus poderes, não os do pai.
E é assim que ela tenta matar dois coelhos com uma cajadada só. Cita o pai que ele odeia e ainda aproveita a oportunidade para me criticar. Sinto a mão do Beauchamp apertar meu ombro, de início, penso que está com raiva, logo percebo que é apenas um gesto de apoio. Algo como "estamos juntos nessa".
— Ah, mas veja pelo lado bom! A única coisa que ela possui de semelhante com a senhora são os poderes — a resposta rápida e atrevida faz com minha mãe aparente estar à beira de um colapso.
— Isso foi uma ofensa? — indaga.
— De forma alguma, eu seria incapaz de ofendê-la — preciso colar os lábios para evitar que uma risada escape. Gosto de seu tom sarcástico quando não é direcionado a mim.
— Sei bem... Uma mãe sabe das coisas — ela ergue o queixo, na tentativa de aparentar superioridade — por isso sempre digo a Any que ela deveria ser mais seletiva ao escolher amizades. Amizades decentes são importantes, sabia disso, Senhor Beauchamp?
— Concordo. É uma pena que ela também não pôde selecionar uma mãe decente.
Minha mãe ficou sem fala, seus olhos agora estavam arregalados e seu rosto tão vermelho que parecia querer explodir. Ninguém nunca havia falado daquela forma com ela, nem mesmo eu.
— Você é um insolente! — ela finalmente conseguiu pronunciar algo.
— Não é a primeira vez que alguém me diz isso e provavelmente não será a última. Agora, vou roubar sua filha novamente para a pista de dança. Tenho certeza de que ela está cansada dessa conversa.
E com isso, ele me levou de volta ao salão, deixando minha mãe chocada para trás.
— Você é louco — finalmente consigo soltar a risada que estava presa em minha garganta.
— Talvez um pouco — admite, com um sorriso travesso — mas valeu a pena só de ver a cara dela.
— Valeu mesmo — concordo, ainda sentindo uma leveza no peito por sua ousadia — eu fico te devendo uma.
— Vou lembrar disso — pisca, ainda com um brilho de diversão nos olhos, mas então seu olhar se torna mais sério, e ele hesita por um momento.
— A propósito, eu vi meu pai — diz de repente, quebrando o sorriso que eu ainda mantinha — porém não quero falar sobre isso agora. Não pretendo estragar a noite.
A mudança em seu tom é abrupta, e percebo que o assunto é sensível. Eu assinto, entendendo que ele precisa de tempo para processar isso.
— Tudo bem — digo suavemente — quando você estiver pronto para falar sobre isso, eu estarei aqui.
Ele me olha, e um pequeno sorriso de gratidão aparece novamente em seu rosto, embora seus olhos ainda carreguem um peso.
— Obrigado, Any.
A música nos envolve novamente enquanto Josh me guia pela pista de dança, eu me permito relaxar e aproveitar a sua companhia.
Josh me gira mais uma vez, e quando volto a ficar de frente para ele, não consigo evitar um sorriso.
— Sabe... — ele começa, com a voz baixa, parecendo envergonhado e um cara totalmente diferente do que teve coragem de enfrentar minha mãe — acho que dançar com você é a única coisa que fez essa noite valer a pena.
— Ah, então agora você confessa que gosta de dançar comigo? — provoco, levantando uma sobrancelha.
— Admito que gosto de dançar com você - ele responde, inclinando-se um pouco mais perto — mas não conta para ninguém.
Seu olhar continua fixo no meu e percebo que não em nenhum outro lugar no mundo que eu queira estar agora, senão em seus braços.
— Ora, ora, o que temos aqui? — Heyoon aparece ao nosso lado, com Lamar ao seu lado e ambos com um sorrisinho malicioso no rosto.
— Vocês estão adoráveis juntos, sabiam?
— Não comecem, vocês dois — Josh diz, tentando parecer irritado e falha miseravelmente.
— Estamos apenas dançando — tento argumentar. Meu tom soa fraco até para meus próprios ouvidos.
— Claro, claro — a garota sorri ainda mais, claramente — mas só para vocês saberem, nós dois dizíamos a mesma coisa antes de iniciarmos o namoro.
— É, sempre começa assim — Lamar diz, dando um tapinha no ombro de Josh.
— Ok, ok, vocês venceram — Josh levanta as mãos em rendição — agora, podem nos deixar em paz?
— Claro — Heyoon concorda — só não se esqueçam de nos chamar para o casamento.
Eles se afastam, rindo. Josh olha para mim, balançando a cabeça em descrença.
A mesa de comida é minha parte preferida da festa, nada melhor do que ficar sentada em paz no seu cantinho enquanto come. Na verdade, não estou tão em paz assim.
Alex estava ao meu lado, tentando convencer Sabina à dançar, fazia um bom tempo desde a última vez que o vi e ele não parecia a mesma pessoa que era antes da morte de Nour. Contudo, ele ainda era um mulherengo, isso não mudou.
— Eu já disse que não, Alex. Não quero que meus pés sejam esmagados.
— Tudo bem, você não quer dançar comigo, mas saiba que tem um várias garotas querendo.
— Ah, é? — questiona Sabina, olhando ao redor — eu não estou vendo nenhuma delas por aqui.
— É claro que tem — Alex responde indignado, seus olhos passam da Hidalgo para mim em busca de apoio — Sina, você está vendo?
Ele aponta para o salão de dança lotado, embora nenhuma garota estivesse de fato olhando para cá.
— Ah, claro, Alex, elas estão todas ali, apenas lhe esperando.
Sabina soltou uma risada baixa, cruzando os braços.
— Se quiser eu posso dançar com você — sussurro tentando animá-lo.
— Ah não, você não serve — ele balança a cabeça rapidamente. Se a intenção era ofender, conseguiu.
— Ei!
— Calma, não entenda mal. É que aquele bonitão que tá te olhando a noite toda vai querer me matar se eu te tirar para dançar — explica, apontando sutilmente para a direção contrária de onde estamos.
— Bonitão? Não tem bonitão nenhum me olhan... — paro de falar assim que minha visão focaliza no local apontado.
Meu coração deu um salto. Lá estava Noah, encostado em uma das colunas, seus olhos verdes intensos fixos em mim. Ele parecia perfeitamente à vontade com o ambiente ao seu redor.
Um calor sobe pelo meu rosto, me forçando a desviar o olhar rapidamente.
— Viu? Eu disse que ele estava de olho — Alex riu e Sabina levantou uma sobrancelha, olhando de mim para Noah e depois de volta para mim.
— Parece que alguém tem um admirador — ela comenta.
— Você deveria ir até lá — o Mandon incentiva.
— Ele só estava olhando por acaso.
Alex deu um tapinha leve nas minhas costas.
— Claro, Sina, claro. E eu sou o próximo rei de Alesthéia — diz sarcasticamente antes de virar novamente para Sabina — e então, linda, vamos dançar?
Sabina ainda parece interessada no desenrolar da situação, mas acaba cedendo ao pedido de Alex.
— Tudo bem, mas se você pisar no meu pé, vai se arrepender.
Observei os dois sumirem do meu campo de visão e só então virei de costas para pegar mais um docinho.
Agarrei o doce e dei uma boa mordida antes de virar novamente, com a intenção de verificar se Noah ainda estava observando. Acontece que dei de cara com ele de pé bem à minha frente.
— Pretendendo acabar com o nosso estoque de comidas?
— Não é uma má ideia — minha resposta é verdadeira, uns docinhos a mais ou a menos não faria muita diferença para eles, embora faça para o meu estômago — você deveria experimentar, estão uma delícia.
— Não, obrigado. Preciso manter a forma para os treinos — ele responde e não posso controlar meus olhos, ele já parece perfeitamente em forma, na verdade, bem até demais. Um pouco de açúcar não faria mal.
— Sorte a sua poder recusar comida — murmuro, ainda sentindo um pouco de indignação após a situação do aumento dos impostos.
— Sina... Eu vim até aqui por um motivo.
— Se for pra dançar, vou logo avisando que eu não sei. Já tentei dançar com o Josh e sempre acabo pisando nos pés do coitado — aviso, arrancando um leve sorriso de seus lábios.
— Não, não é isso. Eu queria te apresentar... Para os meus pais.
Quase engasguei.
— O quê? Para os seus pais? Noah você sabe que não tem nada acontecendo aqui, certo?
— Não, não é isso. Deixe-me explicar direito, na verdade, só irei apresentá-la para a rainha. Temos várias dominadoras de cura trabalhando para a nossa família, porém algumas foram transferidas para a cidade natal da minha mãe e estamos precisando de novas. O salário é muito bom e eu convenci minha mãe a deixar você trabalhar apenas aos finais de semana, eu sei que sua família precisa de dinheiro depois do que aconteceu então eu pensei que isso pudesse ajudar... — ele explica, enquanto acompanha cada reação minha, parecendo ansioso.
Fico sem palavras. Trabalhar para a família real como uma dominadora de cura não era algo que eu tinha considerado, não sou tão experiente. E ainda assim, a ideia de ajudar minha família é tentadora.
— É sério? — pergunto, ainda surpresa, enquanto tento processar tudo.
— Sim. Quer dizer, se você estiver disposta, claro.
— Noah, eu... Eu não sei o que dizer. É uma oferta muito generosa da sua parte, mas não sei se estou qualificada.
— Você está. Você é perfeita — elogia, ainda me olhando — para o cargo — completa.
— Tudo bem... Eu aceito falar com a sua mãe — respondo, um pouco nervosa.
Noah sorriu satisfeito e segurou minha mão, me guiando para uma outra ala, uma ala claramente mais privada e protegida por muitos guardas.
Finalmente, chegamos a uma porta grande e ornamentada. O rapaz bateu na porta e som ecoou pelo corredor. Segundos depois a porta se abriu, revelando uma mulher bonita de cabelos lisos escuros e olhos verdes.
— Mãe, esta é a Senhorita Deinert. Minha colega, a dominadora de cura de quem lhe falei.
Faço uma reverência assim que a mulher olha para mim. A rainha Tereza avalia cada gesto meu com um olhar perspicaz. Por sorte, hoje eu estou trajando um vestido emprestado por Sabina e seu tecido lilás se adere elegantemente ao meu corpo.
— Senhorita Deinert, é um prazer conhecê-la — a voz da mulher é suave, assim como sua aparência. Ela estende a mão e eu aperto no mesmo instante, suas mãos são frias e isso aumenta meu nervosismo.
— O prazer é meu, Majestade.
— Então a senhorita é colega do meu filho?
— Sim, Majestade.
— Apenas colega? — ela ergue uma sobrancelha.
— E amigos, eu acho — respondo um pouco confusa, lançando um olhar rápido para Noah que está ao meu lado. Ele confirma.
— Bem, se Noah vê potencial em você, então devo considerá-la como apta para o trabalho. Vou providenciar os detalhes e você começará seus deveres em breve ,— ela nem questiona mais nada.
— Muito obrigada, Majestade. Prometo dar o meu melhor.
— Muito bem, então. Filho, por favor, leve a moça de volta ao salão — ela nos dispensa e Noah me guia de volta.
— Você não precisava ter feito isso por mim.
— Não, mas eu quis — ele fala e então, um calor estranho preenche meu peito. Gratidão?
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