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Perfeição. Essa palvra é usada muitas vezes para descrever a vida na realeza, porque as pessoas de fato têm uma concepção formada de que é fácil ser o futuro herdeiro de todo um reino e o futuro governante de todo um povo. A idealização criada a respeito do que é ser um príncipe sobrepõe a realidade.
Ser um príncipe vai muito além de um rostinho bonito e um carisma bacana. Envolve responsabilidades e mais responsabilidades para lidar.
Havia cerca de dez minutos que eu estava sentado em meu trono, ao lado do meu pai, esperando que ele falasse alguma coisa. O rei esteve fora por quase um mês e desde então eu não pude questiná-lo a respeito da presença do Beauchamp em Eblenia, no entanto, aquele não parecia ser um tópico que estava no topo de suas preocupações, já que ele olhava despreocupadamente para os mapas em suas mãos.
— Não vai dizer nada? — não consegui segurar a língua e acabei perguntando de uma vez, ele nem sequer fez um esforço para olhar em meus olhos.
— Eu quero respostas. O que aquele garoto está fazendo estudando em Eblenia?
É claro que o Beauchamp não estaria estudando lá sem que o meu pai soubesse dessa informação. Ou pior, sem que o meu pai tivesse permitido isso.
Ele parecia não entender o quanto era humilhante e doloroso ter que olhar para Josh todos os dias e saber que não importasse o que eu fizesse, eu ainda não teria um domínio tão bom da água quanto ele.
— Você não está em condições de questionar nada, Noah — a voz do meu pai era dura e cortante, deixando bem claro que ele não me daria explicações — na verdade, já tenho problemas demais para lidar e você apenas criou mais um com aquela briga rídicula de egos.
Engoli o seco sem saber ao certo o que dizer.
Não era uma briga de egos. Eu estava tentando provar que o senhor não tinha nada haver com o controle da Floresta, muito menos com a morte da mãe de Josh e de vilas inteiras. Essas eram as palavras que se passavam na minha cabeça.
— Desculpe — foi tudo o que consegui dizer.
— Não estou lhe pedindo muitas coisas, Noah, apenas que se comporte como o príncipe herdeiro do trono. Você tem responsabilidades e não posso permitir que suje a sua imagem se comportando feito um animal selvagem, desse modo, as pessoas acharão que você não tem controle de suas ações — odiava quando ele usava esse tom de voz, como se eu fosse uma criança mimada que não sabia o que estava fazendo.
Quando na verdade, eu estava apenas tentando protegê-lo de boatos falsos a seu respeito. Eu nunca permitiria que o Beauchamp espalhasse mentiras a respeito da minha família.
— Nada disso teria acontecido se o senhor não tivesse levado o seu filho bastardo para Eblenia — percebi que eu havia cruzado a fronteira de impertinência direto para a desrespeito, no momento em que meu pai desviu os olhos do mapa para me olhar pela primeira vez no dia.
Vi um relance de raiva em seu rosto, porém esse logo foi substituído por um sorriso ardiloso.
— Nada disso teria acontecido se você fosse um dominador da água — diz, devolvendo as palavras contra o meu peito. Apesar dos socos que levei na briga com Josh, nenhum deles haviam doído tanto quanto ouvir aquelas palavras sendo pronunciadas pelo meu próprio pai, elas cortam meu coração como facas afiadas.
— Está dispensado — se limitou a dizer.
Os olhos azuis do rei brilhavam feito gelo cristilano, o desprezo era visível em seu rosto e ele nem ao menos fazia questão de escondê-lo. Com um lampejo de dor parecendo atingir meu peito, levantei do trono e fiz uma última reverência ao rei antes de deixar sua sala em passos rápidos.
Eu podia gritar aos quatro cantos do mundo que Joshua estava completamente errado e que o meu pai não tinha absolutamente nada haver com o que ele havia me contado. Não importava, porque por mais que eu fingisse não ver, no fundo eu sabia que suas palavras refletiam a verdade.
Um homem que não é capaz de amar seus próprios filhos, não pode ser capaz de amar mais ninguém.
Ao sair da sala, acabei esbarrando com a minha mãe. Ela pareceu notar minha apreensão.
— Noah, meu querido — começou a falar em uma voz suave, eu via a preocupação em seus olhos, mas aquilo não mudaria nada — sei que deve ter sido difícil lá dentro, porém você...
A interrompi sentindo o peso da frustração sob meus ombros.
— Ele nem sequer deu importância para o que eu tinha a dizer! Ele simplesmente me ignorou — relato, ela estende a mão para acariciar o meu rosto, me afasto no mesmo instante, recusando qualquer possibilidade de ser consolado.
— Por favor, agora não. Preciso de um tempo sozinho para pensar.
— Imagino o quanto está magoado, meu filho. Seu pai não é uma pessoa fácil de lidar, você precisa tentar... — começou a dizer com ternura.
— Não há justificativas! Ele deveria me apoiar, deveria me entender — murmurei e então voltei a andar deixando-a para trás.
Minha mãe é uma boa mulher, amorosa e compreensiva, mas naquele momento eu não precisava que ela compreendesse o meu pai.
Conforme ando em direção aos meus aposentos, não posso deixar de olhar o meu rosto em um dos espelhos dispostos no corredor do castelo. A enfermeira de Eblenia havia feito um bom trabalho ao curar meus ferimentos com sua magia, o único sinal da briga era uma pequeno corte na minha bochecha que ainda não tinha se cicatrizado por completo, de resto, nenhum resquício ou ferimento estragava a meu rosto.
Meus cabelos castanhos caíam em mechas suaves sobre a testa, minha pele geralmente branca, agora se destacava em um leve bronzeado devido aos dias passados treinando ao ar livre de Eblenia. Meus olhos verdes eram o que de fato capturavam a atenção, eram penetrantes e exibiam um verde profundo como as florestas de Alesthéia, agora pareciam carregar um peso extra.
As pessoas costumam dizer que eu tenho uma boa aparência, não posso negar. Mas naquele momento, não posso deixar de questionar se aquilo de fato era importante.
Quando criança, eu treinava todos os dias para ficar mais forte fisicamente. E então eu cresci e era forte, mas ainda não estava bom o suficiente, meu pai dizia que eu precisava ser inteligente. Assim, eu tive acesso aos melhores livros e aos melhores professores particulares do reino e adquiri conhecimentos que iam desde os referentes as ciências exatas, até os melhores métodos de lutas. Mas ainda não estava bom para o meu pai.
No fundo, eu sabia que o que ele queria mesmo é que eu dominasse a água, porque tecnicamente, essa era uma obrigação do futuro governante. Trazer chuvas para o seu povo. E nem sequer isso eu conseguia fazer direito.
Ofereci as melhores e mais bonitas árvores para o jardim do castelo, elas iam desde árvores raras na região até as mais altas e increvelmente lindas.
Fiz um esforço fora do normal para conseguir criar uma cerejeira naquela área apenas usando os meus poderes, levei dias para acertar o feitiço e quando consegui, ela era a mais bela de todo o jardim, suas folhas longas e rosas pareciam ter saído de um sonho. Minha irmã, Joalin, estava encantada. Achei que após essa ação meu pai finalmente reconheceria que minhas habilidades eram tão boas quanto as dele.
Ele ordenou que cortassem a cerejeira.
Apenas ao ver Josh no colégio que eu consegui entender toda a situação. Nada que eu fizesse nunca estaria bom para o meu pai porque eu não era Josh.
Eles se pareciam até fisicamente e isso fazia com que eu o odiasse, quando eu olhava para ele, não via apenas o outro filho do rei, eu via o reflexo do meu pai.
Senti raiva por isso e quis atingir Josh, queria machucá-lo, mas não apenas fisicamente, queria ele sentisse um pouco do que eu sentia.
Então decidi pedir a Sina para que me ajudasse com a matéria, claro que não passava de uma desculpa, eu estava disposto a machucar Josh e sabia que usando a sua melhor amiga seria a oportunidade perfeita para que aquilo acontecesse.
O que eu não esperava é que ela tivesse tanto poder sobre mim. Sina não deveria ter tanto poder sobre mim, afinal, eu era uma das pessoas mais poderosas do reino. Niguém deveria exercer tanta influência sob a minha pessoa. Mas quando ela olhou para mim com aqueles olhinhos brilhando e pediu para que eu não contasse que havia visto Josh e Any juntos, eu não soube dizer não para o seu pedido.
E eu me odiava por isso. Odiava o fato de ter tido a chance de expulsar Josh de uma vez por todas das nossas vidas e ter desperdiçado a oportunidade.
Porém talvez, somente talvez, eu repetisse esse erro se Sina novamente me pedisse. Porque no fundo, eu sei que não quero ser a pessoa presunçosa e medíocre que ela uma vez disse que eu era e eu sei que posso fazer escolhas que vão além do meu próprio benefício, mesmo que isso me afaste dos meus objetivos iniciais.
Ver os olhos de Sina brilharem em agradecimento fazia com que eu me sentisse um pouco mais de esperança. A esperança ser amado pelo meu povo algum dia, mesmo que meu próprio pai não me amasse.
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