09

Ser parte da elite do nosso reino. Muitas pessoas acham que isso significa ser rodeada de ouro e estar isenta de responsabilidades. Porém não, ser parte da elite é abraçar um mundo cheio de regras, que dita a maneira que você deve se vestir, andar, falar e se portar diante da sociedade. Ser parte da elite é como usar uma máscara. Não uma como aquelas usadas em bailes de máscaras, mas sim uma que você não pode retirar. Não pode arrancar, não pode se desfazer dela, ela deve estar com você vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana.

Essa máscara é o sobrenome que carregamos. Ele não é apenas algo que determina quem nós somos, ele representa toda a nossa família, representa a honra e a glória dos nossos ancestrais. E não importa se eu quero ser apenas a Any Gabrielly, porque não sou. Antes de tudo, sou uma Soares.

— Onde você estava? — ouvi a voz da minha mãe no momento que fechei a porta da sala, virei lentamente em sua direção já sabendo que ouviria um sermão enorme. Ela estava sentada no grande sofá da sala, com meu pai ao seu lado.

— Ou melhor, nem responda! A senhorita acha que pode fazer o que desejar e na hora que bem entender, sem nem ao menos pedir a nossa autorização? — se levantou, vindo na minha direção.

— Eu mandei uma carta — tento dizer, porém ela interrompe usando um tom de voz cortante.

— Ah, claro. Então acha que basta mandar uma carta de aviso e logo em seguida correr para o meio da floresta? Onde estão os seus escrúpulos? — sua voz está bastante alterada, enquanto meu pai mantinha uma expressão serena, parecia não estar muito interessado na nossa discussão.

— Eu estou bem, obrigada por perguntar — passo por ela, indo até a base da escada.

Determinação. Uma das primeiras coisas que uma Soares é ensinada, é a ser determinada em seus objetivos. Se você acredita em algo que vá honrar o nome da sua família, então não hesite em fazê-la! Lutar contra aquelas criaturas era algo que eu acreditava e não havia absolutamente nenhuma chance de me arrepender disso. Quanto a essa atitude ter desagradado a minha mãe não havia dúvidas ou surpresas, mas tenho certeza que agradou bastante ao meu pai, até porque foi ele o responsável por me ensinar a lutar.

— Any Gabrielly, eu não estou brincando. Isso que fez foi extremamente irresponsável, ao menos tem consciência disso? E não dê as costas para mim, mocinha — suspiro pesadamente e viro novamente em sua direção — ir em uma caçada, se arriscar dessa maneira, não é possível que você seja tão desnaturada ao ponto de não ter um pingo de amor à própria vida.

Ela acha que eu sou uma criança?

— Não foi perigoso, estava tudo sob controle e eu sou bem grandinha já, sei me defender muito bem — falo pausadamente para ver se ao menos assim ela entenderia. Porém, talvez eu precisasse fazer um desenho, começo até a cogitar essa ideia.

— Absolutamente não sabe — aponta o dedo em minha direção — além de tudo, perdeu um jantar importante, sabia? Por que você não consegue agir como uma dama? Deveria seguir o exemplo da Sabina Hidalgo, ela sim é uma boa influência e provavelmente vai se casar com algum lorde importante e não perder a sua vida em uma batalha inútil.

Mal sabe ela que Sabina estava ao meu lado durante toda a caçada. Contive um sorrisinho irônico para não levantar desconfianças e acabar entregando a minha amiga.

— Mãe, eu não ligo pra esse jantar, ok? Eu fiz algo bom, ajudei a salvar uma vila inteira daquelas criaturas, se não fosse por nós, muitas crianças ainda estariam sendo atacadas — justifico e olho rapidamente para o meu pai que continuava calado, prestando atenção em minhas palavras, enquanto minha mãe mantinha um olhar desinteressado — você que não consegue enxergar nada de bom que eu faço, só sabe me criticar o tempo inteiro e esfregar na minha cara que eu não sou a filha perfeita que a senhora tanto gostaria que eu fosse.

— Coloco expectativas em você sim, Any. Porque eu te criei para ser uma dama, para agir como uma lady e não para nos desafiar dessa forma e arriscar a sua vida a toa, eu estou cansada da sua rebeldia. Não me importa se estava ajudando criancinhas pobres, fazendo caridade ou o que quer que seja, você é a minha filha e deve ser obediente com os seus pais — ela também olha para o meu pai buscando apoio, ele continuava com a mesma expressão desinteressada — diga isso para ela, Sílvio.

— Any, querida — meu pai se manifesta pela primeira desde que cheguei — deveria ter nos consultado antes.

— Ela nunca deixaria — digo já com os ânimos exaltados. Será que nem ele me apoiaria dessa vez?

— Espere eu concluir a minha fala — me interrompe — a sua atitude foi errada mas apesar de tudo, estou orgulhoso do trabalho que você desempenhou. Arriscar a própria vida para salvar alguém requer muita coragem e empatia.

— Não acredito que você está apoiando isso — minha mãe coloca a mão na testa, parecendo se esquecer da minha existência e mantém toda a sua atenção no meu pai, que permanece sentado no sofá bebendo uma taça de whisky

— Priscila, não é pra tanto.

— Então no campo de batalha, se um soldado te desobedece, está tudo bem? — retruca.

— São situações completamente diferentes.

Aproveitei a discussão dos dois para subir as escadas e ir em direção ao meu quarto, a última coisa que eu precisava agora era ouvir o sermão de horas que minha mãe daria. Me amaldiçoei por não ter ido direto para Eblenia, já que amanhã se inicia mais uma semana de aulas e além de tudo, pouparia os ouvidos dessa discussão desnecessária.

Achei que vindo para casa apaziguaria um pouco a situação, no entanto, minha mãe era uma pessoa tão determinada quanto eu, apenas temos determinações diferentes.

Ela é determinada a tornar a minha vida um inferno.

Peguei um roupão cor de creme e fui direito para o banho, uma serviçal parecia já ter preparado a água pois a banheira estava cheia. Prendi o cabelo com alguns grampos que achei na pia, tirei a roupa e entrei. A água estava em uma temperatura muito elevada e de certa forma, aquele calor era necessário para relaxar o meu corpo.

Olhei na direção dos joelhos, nenhum sinal dos ferimentos que estavam ali antes, todos haviam sumido. Encostei a cabeça na banheira, olhando para cima.

O teto do banheiro é repleto de detalhes esculpidos de ouro, com um grande lustre de cristais no centro. E mesmo assim eu ainda me sentia mais confortável estando naquela pequena estalagem de Brastiya, não que oferecesse aconchego semelhante ao que a casa dos meus pais oferecesse e sim, pois lá eu podia ser eu e me divertir sem preocupações relacionadas às malditas regras de conduta.

Lá eu podia ser a Any Gabrielly, sem máscaras e sem julgamentos. E aqui eu sou a Soares, tenho que cumprir com as minhas obrigações.

Saí da água ao terminar o banho e envolvi o roupão creme ao redor do corpo, o amarrei em um laço um tanto quanto desajeitado e saí do banheiro. Meu coração disparou de susto ao ver a minha mãe sentada na cama, com sua coluna reta e as pernas elegantemente cruzadas uma sob a outra. Fingi não ter me assustado, afinal, essa era outra coisa que um Soares deveria saber.

Nunca demonstre medo em frente a alguém. No convívio em sociedade nunca sabemos realmente quem são os nossos aliados, durante os bailes, você é sempre um objeto em avaliação. Esse foi mais um dos ensinamentos que recebi, se você demonstrar medo ou fragilidade, eles obterão o poder de destruí-lo, pois saberão os seus pontos fracos e não o hesitarão em usá-los caso haja necessidade. Quando demonstramos medo, estamos dando ao outro a capacidade de nos intimidar e de demonstrar poder sob nós.

Caminhei até o closet para pegar uma camisola confortável, meus instintos também sentiram que minha mãe estava atrás de mim. Ignorei sua presença e peguei a camisola, branca e de seda longa.

— Pensei ter deixado bem claro que não gosto de quando você foge da conversa — ela puxou o meu braço para que eu virasse em sua direção - o seu pai mima muito você, faz tudo o que você quer. No entanto, vou deixar bem claro, comece a se comportar como uma dama, como uma Soares, ou não medirei esforços para te remover daquele colégio.

— Me remover de Eblenia? O colégio mais conceituado do reino? — puxo o meu braço, ficando livre de suas mãos, a loira olhava para mim com raiva — o meu pai nunca permitiria.

— Não duvide da minha capacidade de persuasão, Any — sorriu antes de virar as costas e sair.

Permaneci em silêncio, eram ameaças vazias e sem nenhum fundo de possibilidade de realmente acontecer. Entretanto, em um uma coisa ela estava certa, eu nunca seria capaz de duvidar do quanto Priscila Soares era persuasiva e manipuladora quando queria.

Sabina não estava no quarto quando cheguei em Eblenia, acho que isso se deve principalmente ao fato de eu ter acordado tarde e perdido praticamente todas as aulas do período da manhã. Com certeza ter ido para casa ontem foi uma péssima ideia.

Da próxima vez lembrarei de não cometer o mesmo erro.

Vesti a blusa branca que compõe o nosso uniforme, resolvi deixar sem a gravata já que não teria tempo de ajeitá-la e em seguida, passei a calça azul marinho pelos meus calcanhares e puxei para cima, até que estivesse devidamente arrumada no quadril. Calcei o coturno preto e saí do quarto lutando para fechar a porta e vestir o blazer ao mesmo tempo.

Alguém deveria ter me acordado para que eu não perdesse o horário, mas não o fizeram. Não tenho dúvidas de que havia dedo da minha mãe nisso, ou uma mão inteira, se assim descreve melhor.

Corri até o refeitório que estava cheio de alunos no momento em que entrei. Fui direto servir o meu almoço e depois caminhei até a mesa habitual, a qual estava com mais pessoas, além de Sabina e Bailey. Lamar, Noah e Heyoon marcavam presença.

Puxei uma cadeira e me sentei, fazendo com que a conversa entre eles cessasse, quase como se a minha presença fosse um evento importante.

— Vossa Alteza — faço uma pequena reverência com a cabeça em direção ao príncipe.

— Não precisa disso — ele sorri — aqui eu sou um aluno normal, como qualquer outro. E por favor, não estrague o meu disfarce — diz conferindo ao redor para ver se ninguém havia percebido.

— Ah, desculpe — digo. Pelo visto eu não era a única que odiava as regras associadas ao sobrenome.

— Sabe que isso não vai funcionar por muito tempo, não é? Uma hora vão descobrir a sua verdadeira identidade — Bailey diz olhando para Noah.

— Enquanto eu puder escondê-la, estarei escondendo — ele dá de ombros mantendo a atenção na comida, faço o mesmo.

— Onde você estava? Perdeu todas as aulas teóricas de hoje — diz Sabina com seu olhar curioso de sempre — por que você está usando o uniforme com calça? E cadê a sua gravata?

Não respondi de imediato pois estava mastigando e a cada segundo que passava a Hidalgo mexia a colher nervosamente dentro da sua taça de iogurte, aguardando a minha resposta.

— Sabi, você vai sufocar a garota com tantas perguntas — Bailey dá um empurrãozinho no ombro da irmã.

— Obrigada, Bailey — digo rindo de leve — e respondendo as suas perguntas, acabei perdendo o horário e resolvi vesti essa roupa pra poupar tempo, já que depois daqui irei direto pra aula de luta. E sem gravatas por hoje — dou de ombros.

— Depois posso te passar a matéria, caso queira — ouço Heyoon dizer, a garota estava sendo gentil pela primeira vez desde que nos falamos. Interpretei aquilo como uma forma de agradecimento.

— Vou querer sim, obrigada Heyoon. E fico feliz de saber que já está recuperada — sorrio sem mostrar os dentes e ela assente, concordando.

— Preciso agradecer a Deinert, ela foi impecável no tratamento dos ferimentos. Inclusive, vocês a viram? — pergunta e Lamar aponta discretamente em direção a três mesas depois da nossa.

Sina usava uma trança na lateral do cabelo e não comia nada, estava muito concentrada nos livros espalhados por toda a mesa e parecia explicar alguma coisa para Josh, que a ouvia atentamente.

— Acho que ela está um pouco ocupada no momento — Noah murmura.

— Estudando... Como ela consegue estudar tanto? — Lamar pergunta impressionado.

— Nossa, ainda não conheci aquele loirinho! É dele que as pessoas tanto falam? — Heyoon morde o lábio, não posso deixar de revirar os olhos discretamente, ela estava voltando a ser insuportável de novo — agora entendi o porquê tanto falam sobre ele. A Deinert tem sorte.

Não entendo o motivo, mas Josh parecia deixar todas as garotas encantadas, talvez pelo seu jeito misterioso ou pelo seu maldito sorrisinho de canto, não tenho muita certeza. O fato era que o número de garotas que andavam atrás dele aumentava um pouco mais a cada dia. Aquele assunto estava me deixando levemente incomodada e pelo visto eu não era a única.

— Podemos falar de outra coisa que não seja sobre esses dois? — Noah pergunta e imediatamente concordo com ele.

— Como quiser, alteza — Lamar brinca e muda de assunto — qual as eletivas de vocês, calourinhos?

— Queria entrar na de feitiços ou algo do tipo... Semana passada eu procurei e algumas ainda estavam cheias — digo.

— Ah, abriram vagas hoje, me inscrevi na dos feitiços, porém estavam quase lotadas quando anotei meu nome — Sabi diz para mim — se eu soubesse que você queria teria colocado o seu também.

— Tudo bem, depois vou conferir se ainda sobrou alguma.

— Natação — murmura o príncipe com uma cara não muito boa, pelo visto Josh havia escolhido a mesma.

— Ah, Soares — Lamar chama a minha atenção - acho que você tem que ir na diretoria.

— O quê? Porquê? — pergunto indignada, não fiz nada de errado hoje.

— Por conta do seu atraso.

— E você só me fala isso agora? — bufo irritada, só faltava levar uma advertência por ter chegado atrasada. Parabéns mãe, conseguiu o que queria.

— Desculpa, é que eu acabei esquecendo — justifica e eu me levanto, frustrada.

— Tudo bem — suspiro — então acho que essa é a minha deixa — recolho o meu prato e o copo que estavam espalhados na minha frente, colocando-os na bandeja.

— A minha também, preciso trocar de roupa para a aula de arco e flecha — Sabina se levanta junto comigo, me despeço dos meus companheiros com um aceno rápido e caminho ao lado da minha amiga até a saída do refeitório.

— Não acredito que vou levar uma advertência na segunda semana de aula — minha voz estava marcada pela frustração e raiva.

— Talvez duas — comenta, olho para ela assustada — pelo fato de você não estar usando a gravata — aponta para a minha camisa.

Reviro os olhos, era só o que faltava! Não posso levar mais outra advertência por um motivo tão bobo, principalmente considerando o fato de que praticamente todos os alunos estilizaram os seus uniformes, enchendo-os de detalhes que não estavam ali antes, como pedrinhas brilhantes, broches e coisas do tipo.

Descontei toda a raiva na aula de luta, bati em um boneco até quase arrancar sua cabeça do corpo e derrubei todas as garotas que lutaram comigo, algumas saíram irritadas, não entendi o motivo... Achei que a aula de luta fosse para lutar?!

A professora até pediu para que eu maneirasse pois as minhas colegas eram novas e ainda não tinham o mesmo conhecimento que eu no combate. E então me colocou para lutar com Heyoon, ela era boa, mas eu estava queimando de raiva.

E a raiva, diferente do medo, fortalece o meu corpo.

— Que bicho te mordeu hoje, hein? — a coreano pergunta deitada no chão após o fim do treino.

— Ganhei uma linda anotação na minha ficha, feita pela nossa querida diretora, devido ao meu atraso — estendo a mão para a garota — não é nada pessoal.

— Imagina se fosse então — ela ri, aceitando a minha ajuda para se levantar.

— Não estou em um dia bom — caminhamos juntas até o banco, peguei a garrafa de água, aproveitando para matar a sede, enquanto Heyoon procurava algo em sua bolsa.

— Então talvez isso melhore o seu dia — coloca um caderno na minha mão livre — a aula de hoje foi muito interessante, você perdeu, mas anotei tudo o que foi dito. Espero que ajude.

— Eles falaram sobre o quê? — passo as páginas, observando rapidamente as anotações que datavam o número de hoje.

— Feiticeiras, bruxas, feitiços como o de Compoua... — explica — comentaram brevemente também sobre algumas lendas, tipo a história da mãe que fez esse feitiço para salvar a vida do filho, morrendo por ele.

— Nossa! — solto um pouco surpresa, essa eu não conhecia — minha mãe nunca faria isso por mim, é mais fácil ela me sacrificar para salvar a própria vida do que o contrário.

Heyoon soltou uma risada.

— Obrigada, Heyoon — guardo o caderno em minha bolsa junto com a garrafa de água — vou reescrever e mais tarde te entrego, ok?

— Sem problemas, não tenho pressa — bate a mão em meu ombro — ah e eu que preciso lhe agradecer por ter salvo a minha vida.

— Eu não fiz nada, foi tudo a Sina — ajeito a bolsa no ombro e voltamos a andar em direção a saída da quadra.

— Não foi tudo a Sina.

— Foi sim — insisto.

— Any, você removeu a minha dor. Nem adianta negar, eu senti ela se esvaindo quando você me tocou... Pode não ser grande coisa para outras pessoas, mas já é válido para mim — ela me olhava com gratidão, dou um sorrisinho de canto. Talvez ela não fosse tão insuportável assim.

Sentei no chão de uma das sacadas do terceiro andar, encostada confortavelmente em uma parede e apoiando o caderno na perna. Ir para a biblioteca era uma opção, mas a vista do final da tarde era linda dali de cima. O sol começava a se por no horizonte e podia ver claramente a vastidão de campos e árvores em verde vivo que se espalhavam ao redor do colégio, elas se balançavam de acordo com o vento, em um movimento que exibia toda a majestosidade da natureza. Espetacular.

A única coisa que estragava a vista eram os rapazes treinando lutas no gramado. Eu lutava melhor que quase todos, a maioria mal sabia segurar uma espada direito. Vi Josh de relance, era possível reconhecê-lo mesmo estando distante, seu cabelo brilhava em um dourado vivo com a luz de sol batendo neles. Ele lutava bem até demais para alguém que nunca tinha recebido tantas instruções e parecia aprender rápido, a cada movimento errado, se concentrava para não cometer o mesmo erro novamente. Até que não é tão burro assim.

Foco, Any.

Heyoon estava certa. As anotações dela haviam salvado o meu dia, copiei para o meu caderno, lendo-as no processo. Ao que tudo indica, foi falado sobre as feiticeiras, todos nós tínhamos a capacidade de realizar alguns feitiços simples, porém elas se destacavam não apenas pela realização de feitiços mais simples e complexos, como também pela forte percepção do mundo à sua volta. Elas identificam sinais que outras pessoas não conseguem, pressentem acontecimentos e ainda, são extremamente sedutoras.

Continuei anotando as informações. Grande parte falava sobre feitiços de proteção simples, que qualquer pessoa podia fazer e algumas outras linhas contavam sobre os mais complexos. O único feitiço difícil que uma pessoa não-feiticeira podia realizar era o com Compoua, que Heyoon me disse, mas só podia ser feito no leito da morte, pois tomava toda a energia vital do indivíduo e devia ser direcionado para a proteção de alguém que ama verdadeiramente e com todas as suas forças, da maneira mais pura possível. Caso contrário, não funcionaria.

— Colocando o conteúdo da aula em dia? — não precisei levantar a cabeça para saber quem era. Aquele garoto parecia ter prazer em atrapalhar os meus momentos de paz.

Não respondi, continuei copiando. Ele se sentou ao meu lado no chão, tão perto que se braço quase se encostava no meu, olho para ele sem acreditar em tamanha audácia. Que garoto folgado!

— Você está suado — observo.

Josh estava sem o seu blazer, sem o colete, com as mangas da camisa levantadas até a altura do cotovelo e os primeiros botões dela abertos. Era quase atraente.

— Acabei de sair da aula de luta, seria estranho se não tivesse — dá de ombros, permaneço em silêncio.

— E não pensou nem em tomar um banho depois daquele treino todo? Porco! — resmungo.

— Estava indo, porém alguém fez com que eu mudasse a rota — diz fazendo com que eu revire os olhos irritada — você está mais mal humorada que o normal.

Respiro fundo antes de respondê-lo.

— Eu estava em paz antes de você aparecer e começar a conversar no meu ouvido — largo a caneta irritada e olho para ele que estava com a expressão neutra, esperei que ele ficasse bravo com a minha ignorância, no entanto, se restringiu em dar um daqueles malditos sorrisinhos de lado que não mostravam os dentes e eram recheados de deboche, isso enquanto ainda olhava fixamente no fundo dos meus olhos. Em seguida, desviou o olhar para a frente, encostando a cabeça na parede, com o sorriso ainda em seu rosto, acompanhei cada movimento seu atentamente — qual é o seu problema?

— Você, donzela.

— Acredite se quiser, você também é o meu — bufo e volto a atenção para as minhas anotações — inclusive, seu rosto está quase queimando de tão vermelho.

— Ele fica assim quando eu estou com calor — diz, paro de escrever por um instante mas continuo com o olhar no caderno — por causa do treino — completa.

— Claro — digo sem interesse, lógico que não pensei em outra coisa — agora se não se importa, realmente preciso terminar de transcrever isso pra poder devolver o caderno da Heyoon, porque infelizmente eu cheguei atrasada e perdi todas as aulas do período da manhã.

— Reparei — murmura algo que não sei se entendi muito bem.

— O quê? — franzo a sobrancelha e levanto o olhar para ele, que encarava a parede a nossa frente — repete o que você disse, Joshua.

— Eu disse que reparei — bufa — seria difícil não reparar na cadeira vazia atrás de mim — justifica.

Continuo escrevendo, se eu parasse para conversar com Josh nunca terminaria de colocar aquela merda em dia. Tentei desenhar a planta chamada Compoua e colocar uma setas ao lado, apontando o caule, as folhas e escrevendo as propriedades que ela possuía.

— Até que você sabe desenhar — o loiro ri, observando o meu desenho. Que droga! Eu tinha esquecido que ele estava ali.

— É um dos meus talentos — me inclino para pegar um lápis de cor do estojo, ia colorir as folhas da plantas quando Josh se aproveitou da minha distração para roubar o caderno do meu colo — ei? o que você está fazendo? pode me devolver agora mesmo.

Tento puxar o caderno das suas mãos, mas ele segurava forte, enquanto olhava para o desenho mais de perto. Ah, esse garoto reservou o dia para me atentar.

— Se continuar puxando, vai acabar rasgando a folha — avisa. Largo o caderno imediatamente, tentando manter a calma.

— É sério, Josh. Quero terminar de escrever isso antes do jantar, se você não devolver vou ter que... — paro de falar para pensar em algo — enfiar essa caneta no seu olho, já que pelo visto você se esqueceu do chute na canela aquele dia.

Isso faz com que ele saía do transe e comece a rir. Que droga de risada contagiante é essa? Tive vontade de rir junto, porém não ia dar esse gostinho para ele, cruzei os braços tentando parecer ameaçadora.

— Relaxa, donzela — diz ainda recuperando o ar — se continuar nessa lentidão, parando para colorir cada detalhe e enfeitando o caderno inteiro, nunca vai terminar.

Atrevido! Olhei incrédula para ele, eu estava indo muito bem antes dele chegar e atrapalhar tudo e definitivamente, não estava enfeitando o caderno inteiro, apenas adicionando alguns detalhes para tornar o entendimento mais fácil no momento de estudar.

— Ah, é? Então o que você sugere? — aponto com a caneta em direção ao seu rosto e ele aproveita para rouba-la da minha mão — ei!

— Vou copiar para você — explica como se fosse óbvio.

O desgraçado me deixou sem palavras. Observei sem acreditar que ele estava mesmo transcrevendo todo o conteúdo do caderno de Heyoon para o meu, ele escrevia em uma letra não muito bem elaborada, em comparação com a minha, mas escrevia rapidamente, de maneira que em poucos segundos quase toda a metade da folha já estava preenchida.

— Sua letra é muito feia, quase ilegível — comento inclinando o rosto um pouco mais para o lado, para ver melhor. Parecia um monte de arames, porém se fizesse muito esforço dava para entender o que estava escrito.

— De nada, Soares — murmura em um tom debochado.

Espera um pouco, ele acha que eu devo agradecê-lo por uma ajuda que nem pedi? Se acha que vou fazer isso, está muito enganado.

— Pode ir tirando o cavalinho da chuva, não irei te agradecer, está copiando porque quer... não estou lembrada de ter pedido a sua ajuda — resmungo irritada arrancando um risinho do seu rosto. O idiota gostava mesmo de tornar a minha vida mais complicada!

— Sábado você não parecia se importar muito em agradecer.

— Se for para ficar jogando isso na minha cara o tempo todo, poderia ter deixado aquele lobo me atacar — seria menos humilhante — e estou realmente considerando enfiar a caneta no seu olho.

Ele ficou em silêncio alguns segundos, aproveitei o instante de paz para voltar a atenção à vista. O sol já havia ido embora, dando lugar ao início da noite, uma parte do céu estava marcada por um tom de rosa alaranjado quase imperceptível, que começava a ceder o lugar para os tons de azul escuro que já encobrem metade do céu.

— Falando nisso... — chama a minha atenção, viro o rosto em sua direção o amaldiçoando por ter estragado meus poucos minutos de paz — você já viu tantos lobos como aqueles que havia lá? Quer dizer... sempre ouvi que eles andavam em grandes matilhas, mas aquilo era uma quantidade exorbitante né?

Minha cabeça doía só de pensar em admitir isso, porém para a minha infelicidade, Josh estava certo. Aquela quantidade de criaturas era um passo além do comum, eles não deviam estar atacando aleatoriamente.

— Eu sei, pensei nisso também — suspiro — é quase impossível que eles estivessem atacando somente por atacar, lobos não funcionam assim, sabe? Eles escolhem suas presas, geralmente são crianças, mas havia uma matilha muito grande apenas para matar criancinhas.

— O que você acha? Que a Floresta está em busca de... alguma coisa? — compartilha a sua teoria comigo, encostei melhor a cabeça na parede e fechei os olhos, sentindo meus neurônios trabalharem incansavelmente — além das crianças, claro.

— Provavelmente, ah se eu pudesse queimar cada pedacinho daquele lugar... — respirei fundo abrindo os olhos novamente, Josh prestava atenção em minhas palavras — você ouviu muito sobre essas coisas em Haeris, Beauchamp?

— Quais coisas? — franziu as sobrancelhas, confuso. Ou talvez se fingindo estar confuso. Aparentemente eu não sou a única pessoa que sabe fingir suas emoções e conseguia ver perfeitamente que ele estava mascarando alguma, seja lá qual for.

— Você sabe — encostei o braço no seu, lhe dando um leve empurrão, ouvi ele soltar uma risada fraca, sinal de que o idiota realmente sabia muito bem sobre o que se tratava aquele assunto — lendas e outras séries de histórias que ninguém sabe ao certo se é fato ou boato...

— Tipo a lenda dos objetos misteriosos? — indaga, assinto com a cabeça mesmo sem nunca ter ouvido essa em específico — é eu conheço muitas histórias sim, as pessoas mais velhas gostavam de contá-las milhares de vezes e a minha mãe também lia para mim antes de dormir.

— Sua mãe lia para você? Que fofo — provoco deixando uma risada alta escapar dos meus lábios, o loiro revira os olhos parecendo arrependido por ter compartilhado essa informação — tá, agora conta sobre essa lenda dos tais objetos, nunca ouvi sobre ela.

Não que eu acreditasse em nenhum desses contos, para mim, todas eram apenas histórias fantasiosas de livros ou invenções criadas para acalentar as crianças, suprimir os seus medos, reprimi-las por seus erros ou educá-las. Todas as histórias eram de fato interessantes, mas não havia nada que comprovasse a veracidade da maioria delas, quase como se fossem pistas propositalmente apagadas pelos deuses do tempo.

— Terei o prazer de te deixar na curiosidade — entrega o caderno em minhas mãos, com uma expressão séria no rosto, que desgraçado!

— Que seja, de qualquer forma não estou com tempo para jogar conversa fora — dei de ombros fingindo não me importar, mesmo com uma pulguinha de curiosidade atrás da orelha — ainda mais sobre essas histórias inexistentes.

Levantei irritada e caminhei rapidamente até a saída da sacada, pelo visto todos tinham feito um complô para que eu ficasse com raiva hoje. Suas mãos puxaram o meu pulso de maneira firme, me virando em direção ao seu peito antes que eu pudesse reagir, aqueles olhos azuis encaravam os meus da mesma forma que um leão encara a sua presa. Abri a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra saiu, ele me deixava sem fôlego, como se todo o ar da face da terra desaparecesse quando suas órbitas azuis paravam nas minhas.

— Eu sou uma história inexistente para você? — as palavras voavam da sua boca em direção aos meus ouvidos, o seu rosto estava próximo do meu. Não Josh, você definitivamente parece real demais para mim - como sempre, a nobreza achando que suas crenças são mais importantes que a do resto da população.

— O que você está insinuando?

Vocês sempre tentam reprimir as crenças dos outros, o modo de viver dos outros, porque para vocês a forma como pensam e agem em relação ao resto da porra do mundo é mais importante. Então você pode agir como uma riquinha mimada sem se importar com os sentimentos dos outros, porque parece que ter dinheiro, joias e essas coisas todas te dão aval para isso, não é mesmo? — quase grita, eu nunca tinha visto ele tão sério antes — e que se dane o resto, Any, que se dane.

O menino surtou do nada... Será que eu disse alguma coisa errada? Apesar das suas provocações, ele nunca falou assim comigo antes.

— Esqueceu a sua mochila — suspirou parecendo se dar conta das palavras que tinha dito. Tarde demais.

Peguei aquela maldita bolsa que estavam em suas mãos e disparei para o dormitório em passos firmes, com os pés se movendo rápido como um raio. O ar em meus pulmões pareciam voltar aos poucos, porém minha mente se questionava se ele tinha sentido a mesma eletricidade que eu no momento em que nossas mãos se tocaram, ao mesmo tempo em que meus olhos ardiam de raiva.

Ele não tinha o direito de me tratar daquela forma e de dizer coisas tão desagradáveis sobre a minha pessoa, mesmo após ter visto que eu não era a porcaria de uma "riquinha mimada", como insinuou. Achei que o final de semana em Brastiya já tinha deixado isso bem claro, mas pelo visto eu estava enganada.

Demonstrar sentimentos é uma tarefa complicada quando você cresce precisando reprimi-los para que ninguém note o quanto um sapato está machucando o seu pé ou o quanto você está cansada de ouvir as conversas chatas na mesa de jantar ou quanto o comentário maldoso de uma mulher em relação ao seu corpo te incomodou. São coisas pequenas, que acabam modificando a forma como reagimos e aos poucos, passamos a ignorar esse tipo de emoção, até que elas estejam apenas em seu âmago, inacessível para os outros e quase inacessível até para você mesma.

Poucas pessoas conseguem ver meus reais sentimentos e minhas reais intenções para com as pessoas e com as coisas ao meu redor. Sabina é uma dessas pessoas e por um momento... Achei que Josh também fosse, pela maneira como ele interagia comigo, como se seus olhos pudessem enxergar cada pedacinho da minha alma. Pelo visto eu estava enganada, já que ele possuía um julgamento tão desagradável sobre a minha pessoa.

Balancei a cabeça negativamente, tentando afastar aqueles pensamentos tolos, maldito Josh! Abri o caderno em minhas mãos, diretamente onde estava o assunto que escrevi sobre as feiticeiras, a página encontrava-se repleta de desenhos e com as palavras-chaves destacadas pela cor lilás do marca texto, o que eu tinha escrito sobre o feitiço de Compoua também marcava presença na folha.

Passei para a próxima página, onde estava o desenho da planta e em seguida, as linhas escritas por Josh. Percebi de imediato que ele não tinha somente colocado as informações das anotações de Heyoon, forcei a minha visão para descodificar a sua letra mal feita e reparei que tinha acrescentado outras informações extremamente ricas ali, como se soubesse perfeitamente sobre o feitiço escrito.

Como ele aprendeu tudo isso? Suspirei cansada, aquele cara é um mistério sem fim.

Oi pessoal, tudo bem com vocês?

Estou vindo aqui pela primeira vez falar um pouco com vocês e explicar algumas coisas sobre a fanfic. Antes de tudo, quero agradecer pelo engajamento, sei que não temos um público grande, mas já estou feliz em ter pessoas acompanhando. Quando comecei, pensei que não teria nem sequer dois leitores e é uma tarefa extremamente difícil e até desconfortável ter que divulgar fanfic. Então obrigada a todos, amo muito vocês.

Sobre a minha escrita, tem um bom tempo que não escrevo nada, então talvez eu esteja um pouco enferrujada - as vezes acaba indo uma palavra ou outra errada pois o meu TDAH não ajuda haha -. Também não sei se estou conseguindo deixar a história tão emocionante ou do agrado de vocês, peço desculpas caso não estiver. De qualquer forma, eu estou sempre pronta para receber críticas construtivas.

Mas enfim! A segunda coisa que quero falar aqui é em relação ao tempo histórico da fanfic. Não temos um tempo histórico concreto, apesar de a ambientação se passar em um cenário medieval, quero destacar que é um universo alternativo - tipo Game of Thrones - cheio de magia. Então alguns acontecimentos e regras que ocorreram na vida real durante o período da Idade Média , não se aplicam ao universo da minha fanfic. Caso contrário, não teríamos mulheres estudando e nem ao menos, conversando com tanta proximidade com homens, por exemplo.

É isso, queria apenas agradecer aos leitores - que me incentivam muito - e ressaltar essa pequena informação, para que não houvesse nenhum mal entendido. Beijos e até o próximo capítulo!!

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