04

Quando eu era criança minha mãe sempre dizia para eu ficar longe do perigo, ela me vestia com vestidinhos cheios de babados e pedia para que eu me comportasse como uma dama. Meu pai, em contrapartida, me levava com ele em caçadas pelas matas e me ensinava a lutar com espadas afiadas. As mulheres da sociedade diziam que eu ficava linda com aqueles vestidos, mas eu não queria ficar linda, eu queria aprender a caçar e a lutar como o meu pai fazia.

Minha mãe dizia que eu chamava o perigo.

Por mais que minha mãe tivesse avisado que uma dama não deveria agir dessa forma, eu gostava do perigo. Eu gostava da adrenalina que sair em caçadas com o meu pai proporcionava. Eu gostava da forma como as aventuras nas matas e as lutas faziam o meu coração acelerar em um ritmo fora do normal.

O mesmo ritmo que senti desde a primeira vez que ouvi sobre Josh, mesmo sem o conhecer. O mesmo ritmo de quando ouvi a sua voz e o mesmo ritmo de quando o vi pela primeira vez, me encarando com aqueles hipnotizantes olhos azuis. O mesmo ritmo de quando o vi controlar a água com tamanha habilidade que deixou até um dos professores mais habilidosos do reino surpreso.

Joshua parecia ter a palavra perigo escrito em sua testa.

E além de tudo ele era mais atraente que o esperado, com seus cabelos loiros que agora se destacavam no sol, olhos azuis como o mar e uma mandíbula bem definida. Ele é alto e forte, dava para ver que seus músculos se destacarem mesmo com o casaco que usava por cima da roupa, certamente o trabalho manual que desempenhava na vila fazia bem ao seu corpo. Eu já havia visto muitos homens bonitos e muitos soldados fortes, não era novidade, mas Josh tinha algo que o fazia ser diferente dos outros. Ele me atraía como um imã.

— Essa seria uma boa hora para você colocar aquele capuz de volta — brinquei quando ele se aproximou, todos ainda o olhavam incrédulos, então apenas tentei quebrar o clima pesado.

— Na verdade, acho que talvez eles estejam impressionados com a minha beleza — passou a mão pelos cabelos cacheados, entrando na brincadeira, será que ele tinha reparado que eu o observava? — não pode mais dizer que eu uma pessoa feia, hein?

Ele havia reparado sim. 

E lá estava novamente o tom debochado que eu havia conhecido na noite anterior.

— Eu nunca disse que você era feio — digo e percebo o meu deslize no momento mesmo momento que as palavras saltam para fora da boca, ao ver um quase sorriso brotar em seus lábios completo a frase na tentativa de reparar o erro — mas também não pense que te acho atraente, porque não acho nem um pouco.

— Você não é uma boa mentirosa, Any — falou o nome como quem apreciasse cada letra dele. Confesso que meu nome soava bem melhor quando dito por ele, com seu sotaque das províncias do Norte, provavelmente de Haeris ou algum vilarejo próximo. 

— Se me permite perguntar, de qual cidade do reino você vieram, Sina? — ignorei Josh e me dirigi a Sina, que estava apenas observando a nossa conversa em silêncio.

— Haeris — bingo! — é uma pequena vila do Norte.

Quando ela respondeu tive vontade de continuar a conversa e perguntar sobre como era Haeris, eu já havia passado por essa cidade algumas vezes, então logo reconheci o sotaque proveniente de lá. Porém não tive a oportunidade de conhecer melhor o lugar, dizem que em suas diversas cordilheiras e bosques abrigam ervas de todos os tipos e amoras silvestres que adoçam a boca como açúcar, também dizem que o melhor pão do reino é feito nas padarias de Haeris pois eles têm as melhores plantações de trigo da região. No entanto, a nossa conversa foi interrompida pelo Sr. James anunciando que estávamos dispensados, então tive que guardar os meus questionamentos apenas para mim.

— Será que ele pode criar tempestades como o rei? E tsunamis? — Sabina perguntava animada enquanto comíamos no grande refeitório rústico, o qual era iluminado apenas pela luz natural que entrava pelas grandes janelas de vidro.

— Provavelmente, eles possuem o mesmo DNA — dei de ombros.

— Você estava conversando com ele, o que mais ele falou? Nível três de domínio de água não é para qualquer um, nem para o Príncipe Noah que cresceu ao lado do pai — ela tinha razão, em poucos meses provavelmente Josh já estaria no nível 4 de domínio.

Os níveis de domínio iam do 1, que representava os iniciantes, até o 5, que seria o ponto máximo de controle. O meu nível de domínio com a cura era o 1, tão baixo como o de uma criança, enquanto o de Sina era nível 3. Mas eu não me importava, afinal meu objetivo é lutar em guerras.

— Não me disse nada de importante, apenas descobri que ele é de Haeris.

— Nunca fui nesse lugar.

— Falando no Príncipe, eu não o vi no teste de habilidades — digo com cautela. Não era muito seguro comentar sobre os membros da realeza em público, porém não faria mais tanta diferença, já que o assunto do dia era exatamente esse.

— Ser da realeza tem seus privilégios — deu de ombros — aposto que ele ficou com vergonha de que todos soubesse que o bastardo domina água e ele não. Apesar de que isso não é mais um segredo, de qualquer forma.

— Sabina! — a repreendi, não sei ao certo se por se referir a Josh como "bastardo" ou se por falar sobre o Príncipe tão abertamente dessa maneira.

— O que foi? Eu não menti — disse levando um pedaço de pão amanteigado até a boca — esse pão não está nada agradável.

Sabina tinha muita classe, mais do que eu jamais teria, porém sua língua era afiada igual as espadas dos soldados que meu pai comandava. Ela é a pessoa mais sincera que eu conheço, nunca a vi mentir. Sempre que nos metíamos em encrenca quando crianças, a Hidalgo contornava a situação manipulando muito bem as palavras e desviando do assunto principal. Mas ela nunca mentia.

Antes que ela pudesse continuar a fazer perguntas a respeito de Josh, fomos interrompidos pelo Hidalgo mais velho que vinha em nossa direção como quem estivesse faminto ou louco para nos contar algo. Ou talvez as duas opções, a julgar pela maneira como seus pés se moviam rapidamente.

— Conta, conta — Sabina batucava os dedos na mesa quando Bailey já estava próximo o suficiente para nos ouvir.

— Como vocês conseguem ser tão fofoqueiros? — soltei uma risada fraca. Parecia que a fofoca estava no sangue dos Hidalgos.

— Não são fofocas, Anyzinha — o mais velho falou, se sentando ao meu lado — são notícias.

— Qual a diferença? Virou jornalista agora? — perguntei enquanto Bailey roubava a nossa comida da mesa.

— Conta logo — a Hidalgo mais nova estendeu o braço para dar um peteleco na cabeça do irmão, o qual fez uma careta de dor — dramático.

Olha quem fala.

— Só vou contar em respeito a Any — disse colocando a mão no lugar onde a morena havia dado o peteleco — bom, eu soube de ataques que estão acontecendo Brastiya.

O clima divertido da conversa foi embora no mesmo instante.

— Que tipos de ataque? — perguntei aflita, já havia alguns meses desde o último ataque da Floresta. Pensei no povo de Brastiya, eles não eram guerreiros, eram pessoas pobres que trabalhavam com a venda de peixes, provavelmente nem tinham meios de defesa.

— Lobos — ele respondeu passando o braço em volta dos meus ombros, eu e Sabina franzimos a testa quase ao mesmo tempo.

— Brastiya é uma cidade portuária, não existem lobos lá — falo desacreditada.

— Não sei, os moradores relataram terem vistos lobos — diz Bailey e aproveita para roubar um pãozinho do prato da irmã — alguns alunos veteranos, incluindo eu, foram escalados para uma caçada no final de semana.

Tive uma rápida troca de olhares com Sabina, o suficiente para saber que ela pensava o mesmo que eu.

— Isso aqui tá horrível — o garoto quase cospe o pão.

Em outros momentos nós teríamos rido da cena, porém a ideia dos moradores de Brastiya sendo atacados sem nenhuma chance de defesa martelava na minha cabeça.

— Bailey, você precisa nos levar com vocês — Sabina diz antes de mim, mas era exatamente o que eu estava pensando. Essa pequena frase foi o suficiente para arrancar uma expressão preocupada do rosto do irmão.

— Não, não posso — balançou a cabeça negativamente — vocês acabaram de chegar na escola, ainda não sabem nada sobre as criaturas da Floresta. Não vou levá-las para uma sentença de morte.

— Nós vamos — digo tentando ser o mais autoritária possível — fomos treinadas a vida inteira, ou você se esqueceu que sou filha do comandante de guerra e, sua irmã, também é filha do general? Não somos garotinhas indefesas, Bailey.

Digo da maneira mais confiante possível, eu odiava usar esse tom de autoridade mas nesse caso era em prol de um bem maior. Bailey podia ser dois anos mais velho, porém ele nos vira treinar a vida inteira e se tem uma coisa que sabia melhor que ninguém é que não éramos fracas ou inocentes.

— Mesmo se eu quisesse levar vocês, não sou eu quem está escolhendo quem vai e quem fica — deu de ombros.

— Quem está escolhendo? — pergunto olhando para o rapaz. Ele parecia pensar se me diria ou não, aproveitando do tempo que mastigava para demorar a responder, mas no fim apenas suspirou ao ver que nós duas aguardávamos a resposta como loucas.

— Morris, Lamar Morris — se deu por vencido.

Lamar Morris, eu o conhecia, era filho do duque de Oserid e vinha de uma família muito influente de dominadores de terra, ele era praticamente o meu compatriota.

— Deixa com a gente, vamos falar com ele agora mesmo — Sabina piscou um olho para o irmão e saímos andando pelos corredores colossais de Eblenia em busca do Lamar.  

Bailey não tentou nos impedir novamente, acredito que no fundo ele saiba que a nossa ajuda é necessária. Podemos não ter tanto conhecimento teórico ainda, mas de lutas e caçadas nós entendemos muito bem.

Eblenia era repleta de escadarias e salões, se assemelhando mais a uma grande mansão que a um colégio, fiz uma nota mental sobre precisar aprender a localidade de cada parte do colégio. Após quase dez minutos andando por entre os corredores, nós o encontramos saindo da ala dos dormitórios masculinos. Logo, nos aproximamos devagar, Sabina ia na minha frente.

— Lamar Morris — ela o chamou e ele se virou na nossa direção.

— Eu mesmo, Senhorita Hidalgo, certo? — lançou um sorriso para a minha amiga antes de beijar a mão dela. Um verdadeiro cavalheiro — a filha do general.

— Isso mesmo — colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha — e essa é a Senhorita Soares, filha do supremo comandante.

Lamar finalmente percebeu a minha presença ali e me cumprimentou da mesma maneira que havia cumprimentado a minha amiga.

— Tenho que confessar que estávamos a sua procura — ela relaxou as mãos ao lado do corpo, ainda mantendo a sua postura firme e elegante.

— E a que devo a honra? — ele perguntava com interesse enquanto fitava Sabina.

— O meu irmão Bailey, nos contou sobre uma expedição que será feita em Brastiya no final de semana — explicava com a voz calma e sedutora, como uma criança que queria te convencer a comprar um doce.

— Sim — confirmou e pareceu pensativo, como quem escolhia bem as palavras que seriam usadas — a caçada é do seu interesse?

— Muito — respondeu — alguma possibilidade de irmos com vocês? — os olhos de Sabina praticamente piscavam, ansiando por uma resposta positiva.

Lamar analisou o meu rosto e depois olhou para Sabina, ele parecia ver além da aparência. Mas ainda era um homem e o filho de um dos homens mais conservadores do reino, com certeza tinha uma mentalidade igualmente retrógrada sobre as mulheres. Inclusive achei que fosse recusar de imediato, contudo ele estava analisando a situação em silêncio.

E logo minha consciência reprimiu a mim mesma por pressupor que uma pessoa possuísse pensamentos retrógrados apenas porque seus pais os possuíam. Afinal, minha mãe não é a pessoa mais cabeça aberta do mundo.

— Viajaremos no sábado assim que a aurora surgir pois a viajem daqui até Brastiya dura cerca de cinco horas, nos encontraremos nos estábulos da ala leste. Irei arrumar dois cavalos para as senhoritas, porém peço que sejam extremamente sigilosas sobre esse assunto — ele explicava em um tom de voz baixo — estarei encrencado se alguém descobrir que estou levando duas calouras comigo.

Avisou e um alívio surgiu em meu corpo. Ele havia permitido e ainda por cima usado o termo "duas calouras" e não "duas mulheres", o que demonstrava que o meu julgamento sobre ele estava realmente errado. Sabina quase soltou um gritinho animado, percebi isso pelo modo como seu se movimentou como se fosse dar um pulinho, mas se conteve.

— Não tenho nem palavras para agradecê-lo — falei dando tempo para que a minha amiga se recuperasse do quase surto.

Lamar sorriu simpático.

— Muito obrigada, Senhor Morris! Eu me lembrarei da sua gentileza, se em algum momento precisar da minha ajuda, não hesite em me procurar — disse Sabina. Quem não a conhecesse nem imaginaria que ela estava surtando por dentro.

— A senhorita não precisa me chamar de senhor, temos quase a mesma idade — diz — e quanto a isso, saiba que o prazer será todo meu em tê-las na minha equipe — piscou para Sabina, em seguida nos despedimos e ele voltou a andar.

— Ele estava flertando muito com você — digo provocando a morena, mesmo sabendo que ela não negaria, pois eu estava falando a verdade.

— Morris é um cavalheiro. E sobre a caçada, nós teremos que manter a boca fechada  — e aqui está ela contornando o assunto — se bem que essa parte é um pouco difícil para mim.

— Não estamos nos metendo em encrenca na primeira semana de aula, não é? — pergunto aguardando uma resposta negativa.

— Nem você acredita nisso — responde em um tom acusatório.

Era verdade, nem eu acreditava. Talvez minha mãe tivesse razão em dizer que eu chamava o perigo, entretanto tenho uma opinião mais interessante a respeito dessa questão, acho que o perigo é quem me chama.

E quase posso ouvi-lo gritando o meu nome entre o vento, gastando todas as suas cordas vocais apenas para que a mensagem chegasse até os meus ouvidos:

"Any Gabrielly, venha até mim".

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