*+º:. 🦋Especial de Halloween🦋.:º+*
Cain estava sentado na carruagem ouvindo seus pais o recomendarem mais mil coisas e situações que deveria ou não fazer para agradar a família de sua noiva, ele nunca tinha escutado falar de uma senhorita Tabita Everglot até pouco tempo atrás e agora estava ali indo ensaiar para seu casamento com ela.
— E tente ser mais comunicativo. — Chevonne disse com seu sotaque forte.
— Você sabe ser mais encantador também. — Scorpio apoiou batendo sua bengala no teto da carruagem para que parassem. — Agora não precisa ficar nervoso.
Falar era fácil, Cain olhou para a mansão escura engolindo em seco, esperou os pais descerem para seguir eles, deu uma última olhada no velho Charles, o faz tudo dos seus pais, antes de seguir eles. Os Maurêveilles eram uma família sem origem nobre, mas depois que Scorpio começou a subir na vida com seu consultório eles puderam ser incluídos na sociedade, o único problema é que sendo novos nobres nenhuma dama de família rica queria se casar com Cain até que Tabita apareceu. Ele subiu a escadaria tropeçando nos seus pés enquanto do interior da mansão os Everglot julgavam o garoto estabanado dos Maurêveilles.
— Isso é o herdeiro dos novos ricos? — Mandrake disse com desdém enquanto se afastavam.
— Pelo menos eles tem dinheiro, diferente de nós. — Mikayla resmungou abrindo seu leque vermelho. — Espero que ele não descubra a farsa.
— Desde que descubram depois do casamento não tem problema, estaremos livres do estorvo e com dinheiro suficiente para nos mantermos.
— Duvido que aquele palerma iria anular o casamento. — Mikayla forçou um sorriso quando a campainha tocou. — Agora finja estar feliz.
Os Maurêveilles foram recebidos pelos sorrisos engessados dos Everglots e arrastados para o salão de jantar, menos Cain que ficou para trás olhando a imensa escadaria da mansão, ele caminhou sem saber para onde seus sogros e pais tinham ido até que viu um piano negro encostado em uma das paredes, seus pais sempre almejaram serem ricos por isso lhe educaram como um garoto de alta posição social com aulas de piano e francês, mesmo que ele só quisesse sair para brincar em um dia de neve.
Sentando em frente ao piano seus dedos dançavam sobre as teclas tocando uma melodia triste que refletia sua angústia, mas o som se tornou agudo quando ele enfiou as mãos nas teclas de susto ao notar a pessoa atrás de si. Cain se levantou rápido e derrubou o banco que estava sentado, a garota atrás dele riu e se abaixou para arrumar o móvel no mesmo lugar.
— Você toca muito bem.
Cain engoliu em seco sem saber o que responder, aquela deveria ser a Tabita, mas algo estranho no seu rosto o deixava confuso e não saberia dizer se era pelos cachos castanhos serem curtos demais para um penteado elaborado por isso estavam soltos ou pelo sorriso brincalhão que ele não esperava.
— Você deve ser o senhor Maurêveilles. — Ela alargou seu sorriso. — Sou sua noiva falsa.
— Falsa? — Perguntou em um sussurro.
— Acho que seus pais não questionaram muito como os Everglot arranjaram uma filha tão rápido. — Revirou os olhos castanhos. — Meu nome é Tobias.
— Tobias?! — Seu sussurro aumentou, mas não a ponto de chamar atenção de alguém. — O que diabos...?
— Estamos falidos, é por isso. — Tobias sorriu de novo ao se virar para ele, depois colocou um dedo em frente aos lábios pedindo silêncio. — Finja mais um pouco e eu fujo na primeira quinzena após nosso casamento e você pode fazer o mesmo ou ser o noivo triste para sempre, só dê o dinheiro a eles e estaremos livres.
Os passos no corredor não deram chances a Cain de responder, Tobias abaixou a cabeça e naquela posição Cain jamais diria que ele era um garoto.
— Tabita... — Mikayla repreendeu enfatizando cada sílaba. — Eu já disse para não sair sozinha.
Ele encolheu os ombros e com uma mesura puxando o vestido largo voltou a subir as escadas, Cain piscou sem reação.
— E você. — A mulher ruiva rosnou. — Só deveria ver sua noiva no ensaio.
— Foi um acidente... — Cain sussurrou, olhou mais uma vez para a escadaria antes de seguir a mulher raivosa de volta assustado e confuso pela sua descoberta.
XXX
O padre Gabriel bufava de raiva quando Cain tropeçou no degrau pela terceira vez.
— Três passos nem mais nem menos! — Ralhou com raiva, Tobias riu por baixo do véu que cobria seu rosto. — E uma noiva não deve rir!
— Me desculpe... — Murmurou o mais baixo que conseguia, Cain suspirou.
Sua cabeça que já estava cheia antes agora estava duas vezes mais, não conseguia decorar as falas que deveria dizer a sua noiva falsa nem parar de tropeçar nas decorações da igreja, eles se assustaram quando a porta do salão foi aberta e um rapaz de cabelos tão claros que quase pareciam brancos sorriu, apenas Chevonne, Scorpio, Mikayla e Mandrake estavam ali no salão da igreja.
— Cheguei mais cedo? — Perguntou parando próximo aos pais dos noivos. — Que descuido o meu, sempre me atrapalho com datas, de qualquer forma Lorde Hamnet. — Disse com uma mesura e se sentou no banco atrás dos que estavam ocupados.
— Ele é do seu ou do meu lado da família...? — Mikayla murmurou, Mandrake deu de ombros.
— Do começo de novo. — Padre Gabriel resmungou.
Cain respirou fundo e segurou o braço de Tobias, quase jurou poder ver seu sorriso por baixo do véu, deram os três passos e se viraram um para o outro, Cain segurou as mãos mornas dele entre as suas frias e abriu a boca.
— Uhn... Com essa mão espantarei suas tristezas. — Cain começou. — Sua taça nunca ficará vazia, pois eu serei o seu vinho. Com essa vela... com essa vela...
— Eu iluminarei seu caminho pela escuridão... — Tobias sussurrou, o padre resmungou, mas não o censurou.
— Com esta aliança eu peço a você que seja... minha? — Cain se atrapalhou e o anel dourado caiu da sua mão.
— Ele não quer se casar! — Mikayla guinchou, Mandrake balançou a cabeça em desaprovação.
Cain seguiu o anel até o pegar embaixo da saia de sua sogra, ele recuou de joelhos, mas a vela que estava segurando encostou nas rendas vermelhas do vestido da dama que gritou de pavor. Na confusão de pisadas e reclamações sobre o vestido, o lorde desconhecido apagou as chamas com um simples virar da taça de vinho que estava no altar.
— Estou farto deste circo. — Padre Gabriel fechou a bíblia com força. — E você mocinho não volte aqui até saber seus votos!
Todos os olhares se viraram para Cain, ele abaixou os olhos e correu porta afora sem ouvir seus pais que o chamavam nem Tobias que aumentou a voz correndo o risco de ser descoberto. Ele não queria receber nenhum olhar de reprovação agora, por isso correu em direção a floresta sem olhar para trás.
XXX
Cain andou até a ponta do seu nariz congelar e seus lábios ficarem azuis, seus pés afundavam na neve e ele bufou tirando o anel do bolso, olhou para a floresta escura e ali naquela clareira onde a lua tocava quebrou um galho e andou em círculos.
— Não volte até saber os votos, huh? — Ele deu três passos e empertigou a coluna. — Com essa mão espantarei suas tristezas. Sua taça nunca ficará vazia, pois eu serei o seu vinho. O que disse senhor Mandrake? — Ele fingiu ouvir algo. — Oh claro, o chamarei de pai com certeza porque estou me casando com sua falsa filha. — Riu amargurado. — Com essa vela eu iluminarei seu caminho pela escuridão... — Fingiu mostrar a vela a uma multidão que não estava ali. — E com esta aliança eu peço a você que seja meu.
Ele enfiou a aliança prateada em um galho torto que saia da neve, os corvos gritaram o assustando e quando voltou para pegar a aliança já se convencendo a voltar o galho se moveu, juntas estalam e Cain percebe que aquilo não era um galho como ele imaginou, mas se pareciam muito com ossos.
A mão pálida se dobrou e ele gritou recuando, um galho o derrubando na neve enquanto via uma figura alta sair da neve, usava um vestido branco rasgado e puído que um dia tinha sido belo, a pessoa a sua frente levantou o véu revelando um rosto cinza com olheiras fundas, o cabelo liso enquadrava seu rosto em um tom azul escuro que poderia ter sido qualquer outra cor em vida.
— Eu aceito! — Disse sorrindo.
Cain gritou e conseguiu voltar a sentir as pernas, se levantou com um pulo e correu de volta para a cidade, olhando para trás ele acertou uma árvore, sua visão ficou borrada, mas seus pés continuaram correndo e derrapando. Ele chegou a ponte ofegante, olhou em volta e quando viu que estava sozinho começou a se questionar se tudo não tinha sido causado por uma alucinação, ele suspirou e se virou para voltar pra casa quando o grito morreu em sua boca a figura que saiu da neve sorriu segurando seus braços.
— Pode beijar o noivo.
A visão de Cain escureceu e o mundo frio o deixou naquele segundo.
XXX
Cain acordou em um lugar quente e barulhento, se sentou achando que tudo tinha sido um devaneio quando engoliu seu grito de pavor, um esqueleto branco bebia ao seu lado. Ele piscou e esfregou os olhos várias vezes antes de aceitar aquilo, olhou para o palco onde um garoto loiro tocava piano, ele seria bem normal se não fosse pelo tom acinzentado da sua pele e as veias roxas a mostra na sua pele, outras pessoas meio mortas o assistiam, alguns sem pedaços do corpo, outros eram só esqueletos ou partes de corpos como uma cabeça decapitada assobiando.
— Você acordou. — Ele saltou de susto. — Fiquei preocupado.
— O que... quem...? — Ele sussurrou.
— Oh, meu nome é Jared. — Sorriu, Cain reparou no vestido puído que não era tão estranho quando estava naquele lugar. — Ah... isso é uma coisa do passado, não posso mudar, bem, depois de... — Ele fez uma careta e passou um dedo pelo pescoço.
— Parece que finalmente chegou sua vez. — Cain se virou assustado, o rapaz loiro do palco estava do seu outro lado. — Um brinde ao nosso noivo fantasma enfim casado.
Os mortos em volta gritaram e bateram palmas, Jared olhou para o chão e Cain gaguejou tomando coragem.
— Houve um engano... — Disse olhando o outro.
— Engano? — Um terceiro rapaz surgiu atrás de Jared, tinha os cantos dos lábios levemente cortados em um eterno sorriso que combinava com sua roupa de palhaço e franziu as sobrancelhas. — Que belo marido você arranjou, ele já está tentando te deixar.
— É tudo novo para o recém chegado. — Uma menina ralhou, usava um vestido preto com longas fitas a sua volta, no seu pulso uma almofada de costura estava cheia de alfinetes. — Deixe ele em paz Abel! Ah, eu sou a Lilith, prazer.
— Está tudo bem... — Jared disse tentando amenizar a situação.
— Não, não está. — O loiro balançou a cabeça. — Você não sabe o que vai estar fazendo se magoá-lo. Deixe o velho Chrispanto te contar uma história.
Os outros mortos balançaram a cabeça, Cain olhou de um para o outro enquanto o loiro novamente subia no palco. Ele começou a tocar o piano e as luzes mudaram, Jared abaixou a cabeça ao seu lado e Cain também olhou para o chão sentindo os olhares sobre si.
— Caros defuntos a sua atenção ou quem de vocês tiver audição vou contar uma história melancólica demais de um noivo fantasma sedento de paz.
Os outros mortos engrossaram um coro de um refrão que dizia a Cain que a hora de qualquer um chegaria, ele deslizou para outro banco, depois um terceiro e correu enquanto todos os mortos cantavam distraídos, devia ser um sonho, uma pegadinha. Ele olhava em volta enquanto corria, mas não podia ver o céu estrelado apenas terra o cobria, ele engoliu em seco.
Depois de rodar o máximo que conseguiu, ele se sentou em um banco cansado de tentar achar uma saída, quando viu o vestido puído não se assustou ao encarar Jared, até que se sentia grato por não estar mais sozinho e perdido.
— Desculpa... — Sussurrou quando o outro se sentou. — Eu não ouvi sua história.
— Chris sempre exagera nas coisas. — Sorriu timidamente.
— Por que te chamam de noivo fantasma?
— Por causa do vestido, parece uma assombração. — Ele sorriu balançando o vestido com uma mão.
— Conheço uma pessoa que também usa vestido e é um garoto.
— Conhece? — Jared franziu as sobrancelhas. — Eu adoro a vista daqui.
— Nem sei como cheguei aqui... — Murmurou olhando o outro. — É tudo tão confuso.
— Você nem imagina o quanto, todos os esqueletos são iguais para mim. — Eles riram, Cain se assustando por conseguir rir em um momento como esse. — Bem, agora que te achei tenho um presente.
— Presente? — Cain aceitou a caixa preta das mãos do seu noivo.
— É, de casamento. — Ele sorriu piscando.
Cain olhou para a caixa curioso, o que um morto lhe daria de presente? Balançou a caixa e depois a abriu, ele engoliu em seco a fechando novamente.
— Ossos...? — Sorriu, Jared o olhou assustado. — Eu... hn...
A caixa se balançou no seu colo e caiu no chão, Cain já estava se abaixando quando viu os ossos elaborarem uma dança até formarem uma criatura que latia e abanava o que ele achou ser um rabo. O esqueleto andou até ele e se sentou ao seus pés.
— Um cachorro...? — Cain perguntou e sorriu. — Eu sempre quis um! Mas minha mãe odeia a ideia. — Ele riu coçando as orelhas invisíveis do cãozinho que abanou mais o rabo esquelético. — Você é um bom menino.
— Eu entendo de mães que não te deixam fazer nada.
— Nem gostam de nada.
— Acha que ela gostaria de mim? — Jared perguntou se inclinando.
— Definitivamente não. — Cain riu, depois pensou. — Na verdade acho que ela te adoraria.
— Jura? — Jared sorriu, ele consentiu engolindo em seco. — Oh me apresente a ela então! Onde ela está enterrada?
— Uhn... lá e cima eu acredito. — Cain encolheu os ombros.
— Ela está viva? — Consentiu. — Difícil, mas não impossível.
— De verdade? — Ele sorriu e Jared suspirou. — Como?
— Só precisamos de um amigo, vem. — Sorriu se levantando e Cain o seguiu planejando tudo o que faria ao voltar à superfície.
XXX
Eles andaram até chegar em uma biblioteca caindo aos pedaços, no centro dela estava uma pilha de livros onde um homem de pele roxa lia um enorme volume encapado em couro, Cain piscou admirado quando ele se virou para encará-los.
— O que foi? — Ele perguntou sem nenhuma gentileza, Jared encolheu os ombros.
— Uhn, olá velho anjo. — Cain olho o homem novamente com mais interesse agora. — Queríamos te pedir um favor...
— Um favor? — Ele bateu o livro pesado e olhou as duas figuras a sua frente. — Interessante, prossiga.
— Queríamos ir lá para cima visitar a mãe do meu marido...
— Viva? — Ele consentiu. — Certo, mas vai ter um preço.
O homem saltou do alto da sua pilha de livros e começou a procurar por algo. Cain engoliu em seco, que preço ele cobraria? O que mortos poderiam usar como moeda de troca?
— Eu mal me lembro como é lá em cima... — Jared sussurrou animado e abraçou um dos seus braços, Cain sentiu o estômago se revirar por estar enganando ele.
— É feio. — Murmurou. — Aqui as coisas parecem mais vivas.
Jared não teve tempo de respondê-lo porque o outro voltou carregando um grande ovo negro, ele olhou bem para os dois e levantou as mãos.
— Quando quiserem voltar é só dizer "tickety-boo". — E quebrou o ovo acima deles.
Cain fechou os olhos, mas não sentiu nada cair sobre ele e quando abriu os olhos viu a lua cheia acima dele, o céu escuro e as estrelas. Ele suspirou grato por estar de volta. Jared arquejou o soltando e rindo enquanto girava na neve branca, o vestido seguindo seu movimento até sua perna se prender a uma raiz e ele cair longe dela, Cain engoliu o grito de pavor e se ajoelhou soltando seu pé da raiz.
— Acho que você deixou cair algo... — Brincou devolvendo a perna ao outro.
— Obrigado... — Jared murmurou constrangido. — E agora? Aonde vamos?
— Ahn... na verdade eu queria ir na frente para preparar ela... sabe? — Jared piscou e depois consentiu se sentando para recolocar sua perna no lugar. — Espere aqui um pouquinho que eu venho te buscar, certo?
— Tudo bem. — Cain sorriu e afastou uma mecha do seu cabelo colocando atrás da sua orelha, Jared arregalou os olhos, sabia que estaria vermelho se conseguisse.
— Eu volto logo. — Murmurou se afastando.
E saiu correndo, ele passou pela ponte e entrou na cidade de novo arfando. Ao invés de ir para própria casa resolveu ir atrás de alguém que acreditaria nele, foi até a casa dos Everglot e congelou ao ver Mandrake na janela, ele se esgueirou até uma pilastra repleta de trepadeiras velhas, em sua condição normal nunca tentaria isso, mas estava desesperado e reunindo toda sua coragem começou a escalar as plantas até chegar ao segundo andar rezando para acertar o quarto, Cain se aproximou da porta de vidro e olhou o interior do quarto grande com uma lareira acesa e uma cabeleira castanha de costas para ele, suspirou de alívio e forçou a porta, Tobias se virou confuso e se assustou mais ao ver quem estava ali.
Ele se levantou e abriu a porta deixando Cain entrar, ele engoliu em seco e reparou que agora Tobias se vestia com um terno escuro e elegante, piscou agradecendo o calor da sala quando o outro fechou a porta.
— Pensei que você tinha fugido do nosso casamento! — Tobias sussurrou.
— Escuta... — Cain segurou seus ombros. — Eu preciso pedir sua ajuda, mas, por favor, acredite em mim! Eu não enlouqueci, promete acreditar?
— Ei! Tudo bem. — Tobias segurou seu rosto entre as mãos. — Céus, você está congelando. Vem pra perto do fogo, eu prometo acreditar.
Tobias o guiou até se sentarem em frente a lareira, ele puxou o cobertor que estava na poltrona atrás deles e cobriu os ombros de Cain.
— Tobias...
— Toby. — Ele sorriu e Cain sentiu as bochechas esquentarem. — Pode me chamar de Toby aqui.
— Certo, Toby... Olha eu não quis fugir do ensaio é só que tinha tantas coisas na minha cabeça.
— Eu entendo, não te culpo.
— Mas aconteceu algo... — Cain segurou suas mãos e ele engoliu em seco. — E... eu me casei...
— Que?! — Toby segurou seus ombros com medo de que ele estivesse delirando. — Calma, você só sumiu por algumas horas.
— Eu sei! Mas eu me casei com um cadáver...
Toby franziu as sobrancelhas, estava tentado a chamar alguém quando a porta de vidro foi aberta e o frio entrou, Cain se encolheu e ele abraçou seus ombros. Eles se levantaram e congelaram, Jared levantou o véu do rosto no meio do quarto, Cain arregalou os olhos abraçando mais Toby que piscou surpreso.
— Jared?! — Ele disse confuso, Jared arregalou os olhos.
— O que você está fazendo com meu marido? — Rebateu.
— Seu marido...? — Toby olhou para Cain. — Meu Deus... você disse a verdade!
— Que verdade? — Jared andou até eles e puxou Cain. — Eu sou o marido dele.
— Não... quero dizer, ele é meu noivo. — Toby rebateu. — A gente pode resolver esse mal entendido.
— Mal entendido?! — Jared fechou a cara. — Como ousa... Tickety-boo.
Cain não teve tempo de dizer nada e estava sendo puxado de volta, o mundo escureceu e quando ele conseguiu abrir os olhos estava de volta a biblioteca onde o anjo o olhava com um sorriso divertido nos lábios.
— Você voltou para fugir de mim! — Jared choramingou. — Você fugiu pra ficar com meu irmão?!
— Seu irmão? — Ele perguntou confuso. — Escuta, eu estava noivo antes de te pedir em casamento...
— Mas você casou comigo! Não pode me deixar por ele! — Jared guinchou e se virou correndo para fora.
— Nisso ele está certo. — O velho anjo sorriu entretido. — Você está mais do que apenas noivo, não é mesmo garoto vivo?
Cain engoliu em seco e não conseguiu fugir dos olhos amarelos do outro enquanto Jared se afastava cada vez mais deles.
XXX
Toby piscou sem reação e depois deu um tapa no seu rosto, seu irmão desaparecido tinha morrido e aparentemente se casado com seu noivo. Ele tentou pensar em muitas soluções, mas como não chegou a nenhuma conclusão pegou o cobertor que estava sobre os ombros de Cain e desceu as escadas sorrateiramente decidido a ir atrás do padre Gabriel, ele se esgueirou pelos corredores escuros até parar na sala engolindo em seco, ouviu seus pais e a voz de uma terceira pessoa conversando.
— Acredito que o garoto vai voltar logo, uma pena, pois se eu tivesse uma noiva não fugiria assim, mas ficaria e a faria a mais bela, feliz e rica da terra.
— Sua noiva deve ser uma mulher de sorte lorde Hamnet. — Mikayla disse.
— Infelizmente sou viúvo, minha querida teve um pequeno acidente logo após nos casarmos.
— Deve ter sido difícil... — Mandrake disse indiferente.
Toby se agachou pronto para passar engatinhando atrás dos sofás quando sua mão se enroscou no cobertor e escorregou o fazendo bater o queixo no chão, o barulho chamando a atenção dos três que conversavam.
— Ai... — Choramingou e quando ergueu o olhar congelou.
— Ora, ora... — Hamnet sorriu. — Parece que essa noiva é um pouco estranha.
Mandrake e Mikayla entraram no seu campo de visão também e Toby engoliu em seco.
— Podemos conversar com o senhor, lorde Hamnet, já que o noivo de Tabita aparentemente desapareceu... — Mandrake disse com um sorriso fino. — Mas antes disso, por que você não volta para seus aposentos...?
— Cain se casou com um... um morto... — Ele engoliu em seco, eles não se importariam com Jared. — Eu preciso ajudá-lo, ele não fugiu!
— Parece que a coitadinha anda tendo alucinações... — Mikayla sorriu se abaixando e puxando Tobias, ele grunhiu quando as unhas dela se enfiaram no seu braço. — Volte para seu quarto enquanto tratamos do seu novo casamento.
— Não! — Toby tentou se desvencilhar, mas os empregados da mansão já o cercavam e puxavam para dentro. — O Cain precisa de ajuda!
Mas sua voz foi abafada quanto mais longe ele era arrastado.
XXX
Jared se jogou em um caixão com algumas lágrimas solitárias escorrendo pelas suas bochechas, Abel e Lilith estavam sentados próximos e o viram se aproximar, trocaram um olhar e foram até o outro que encarava o céu coberto de terra.
— O que houve? — Lilith murmurou se sentando no chão ao lado do caixão.
— Aposto que foi aquele garoto de novo, não defenda ele agora, Lilith.
— Ele pediu para ir ao mundo dos vivos para ver meu irmão! — Jared soluçou já que não tinha mais lágrimas.
— Como eu disse... — Abel debochou. — Ele é um ingrato, como pode te dispensar por um vivo? Ele não toca piano, não canta nem dança, não tem nada pra mostrar!
— Ele pode estar preso aos vivos ainda. — Lilith afagou o rosto de Jared. — Ele ainda te conhece tão mal.
— Não é desculpa. — Resmungou o outro.
Jared franziu as sobrancelhas depois se sentou olhando para Lilith, ele sorriu e afagou seus cabelos.
— Você tem razão! Quando passei um pouco mais de tempo ao seu lado ele foi gentil e parecia gostar de mim. — Jared sorriu se levantando. — Acho que fui precipitado em julgá-lo mal.
— Eu acho que você deveria continuar julgando. — Abel cruzou os braços.
— Não vou deixar vocês dois porque estou casado. — Riu. — Acho que devo desculpas ao Cain, se me dão licença.
Jared voltou devagar deixando os irmãos brigando por terem opiniões contrárias quanto ao noivo do seu amigo.
Enquanto isso Cain tinha voltado ao bar, seus olhos estavam perdidos e ele parecia mais cansado do que quando tinha despertado ali, andando de cabeça baixa esbarrou em alguém e ao levantar a cabeça arregalou os olhos.
— Velho Charles? — Guinchou ao olhar o velho empregado dos seus pais.
— É aqui que você estava? — O velho tossiu. — Seus pais vão ter uma dupla decepção, coitados.
— Como assim? — Cain inclinou a cabeça.
— Sua noiva foi prometida a outro, bem, foi o que eu ouvi antes de... — Ele deu de ombros. — Sua mãe estava aos prantos, Tabita era a única nobre disposta a esse casamento.
— Tabita... — Cain engoliu em seco, com quem Toby vai se casar agora? pensou.
Nesse momento Jared entrou no salão, Cain andou devagar até o piano cabisbaixo, Chrispanto observava tudo sentado no bar. Jared o seguiu e se sentou ao seu lado.
Cain olhou para ele sorrindo e ele retribuiu o sorriso, se inclinou sobre as teclas e tocou algumas notas que quase sumiam no bar barulhento, Cain imitou os acordes tocados o que fez o outro sorrir mais. Os dois entraram em harmonia tocando juntos uma melodia animada e melancólica que refletia o estado de espírito de ambos, uma das mãos de Jared se soltou do pulso e seguiu tocando até Cain a segurar rindo.
— Mil perdões. — Murmurou envergonhado.
— Eu gosto até. — Cain segurou seu pulso recolocando a mão. — Sabe Jared? Antes eu estava triste, mas eu acho que não é tão ruim ficar aqui, não por você. E outra não tem mais ninguém esperando por mim lá em cima então não me importa ficar aqui embaixo de vez.
— O que você quer dizer?
— Hn? — Cain olhou para ele. — Eu estou vivo.
Algumas cabeças se viraram para eles chocados, Chris ergueu as sobrancelhas, Abel e Lilith pararam sua discussão para olharem chocados para o garoto vivo.
— Uhn... é... eu estou vivo. — Cain se levantou vendo olhares sobre eles, esticou sua mão e Jared aceitou se levantando e parando ao seu lado. — E o velho anjo disse que só há um meio de eu ficar. — Ele encarou Jared. — Porque não estamos casados de verdade, a morte já nos separou. — Arquejos de emoção surgiram na plateia. — Por isso vamos nos casar novamente e do jeito certo no mundo dos vivos.
— No mundo dos vivos? — Chris indagou confuso.
— Você não pode estar falando sério. — Abel emendou.
— Estou. — Cain sorriu apertando a mão de Jared. — E estou convidando todos vocês, vamos todos ao mundo dos vivos e eu beberei o vinho eterno para me juntar a você.
— Mas... é veneno... — Jared sussurrou chocado.
— Está tudo bem. — Cain sorriu afastando a mesma mecha do seu rosto e a colocando atrás da orelha. — Quem está comigo?
— Um casamento no mundo dos vivos! — Lilith gritou animada. — Vamos nos organizar!
Os mortos deram vivas e o bar ficou movimentado como nunca estivera. Cain sorria e recebia os parabéns, mas Jared não conseguia sorrir, estava apreensivo, triste e sabia o motivo: era porque não queria que o outro morresse, mas nem teve tempo de conversar com Cain quando foi puxado e assim separados para os preparativos do casamento.
XXX
Toby também não estava feliz, quando a aliança foi posta em seu dedo sua mão caiu ao lado do corpo quase tão sem vida quanto um cadáver, com o Cain era diferente, ele sabia que podia contar com ele para fugir da casa dos pais após o dote, mas Hamnet era um homem de sorriso cruel e que estava aproveitando da situação. Eles mal tiveram tempo de sair da igreja enquanto os poucos parentes o parabenizaram pelo casamento. Hamnet sorria de braços dados com ele.
— Mal vejo a hora de irmos embora. — Disse olhando para sua noiva.
— Embora? — Toby levantou a cabeça coberta pelo véu.
— Claro ou você acha que eu vou ficar nessa cidadezinha? — Disse com desprezo. — É só eu pegar o seu dote que vamos sumir daqui.
— Dote? — Toby riu incrédulo. — Estamos falidos, esse casamento era para salvar os meus pais com o seu dinheiro e me chutar da vida deles.
— O que?! — Hamnet se virou para ele.
Toby não pode aproveitar o deleite do seu choque porque a porta da igreja foi aberta, ele a olhou achando que tinha sido o vento e alguns outros convidados o seguiram mas não tinha ninguém a vista apenas uma sensação ruim que arrepiou os braços do Toby foi quando ele viu um rapaz loiro entrar de cabeça baixa, atrás dele dois adolescentes seguiam de cabeça baixa até que ele pode ver mais e mais pessoas estranhas até onde sua vista alcançava.
— Quem são vocês e por que perturbam a paz de uma igreja? — Bradou o padre Gabriel para os estranhos parados na entrada.
— Viemos celebrar um casamento. — Padre Gabriel não conseguiu conter sua expressão de susto ao encarar Cain agora tão diferente do dia anterior, ele sorriu para o outro. — E eu peço para usar sua igreja em uma celebração de vivos e mortos.
Os mortos riram e comemoraram erguendo as cabeças e entrando na igreja festejando, os vivos gritaram e correram em desespero diante daquela visão aterrorizante, lorde Hamnet se escondeu assim como aqueles que estavam no fundo da igreja, menos Toby que arregalou os olhos e levantou o véu para observar os mortos que o cercavam, mas não teve tempo de olhar muito porque foi puxado pelo seu marido para trás de uma das colunas.
A estranha procissão entrou na igreja festejando e Cain ocupou seu lugar no altar, Toby o observou sentiu seu coração bater mais rápido. Os mortos ocuparam seus lugares e a marcha nupcial começou a tocar, Jared colocou o pé na entrada da igreja e suspirou, seus passos foram lentos e ele aproveitou todo o trajeto até o altar onde foi recebido por um Cain sorridente e novamente a culpa se abateu sobre ele.
— Caros defuntos, hoje estamos aqui para celebrar o casamento entre um vivo e um morto. — Toby arregalou os olhos, o velho anjo andou até ficar entre os noivos. — Meu caro...
— Com essa mão espantarei suas tristezas. Sua taça nunca ficará vazia, pois eu serei o seu vinho. — O velho anjo encheu a taça de prata em sua mão com veneno, Jared desviou o olhar e foi quando encontrou seu irmão parado atrás do altar o encarando, ele piscou e voltou a olhar para Cain.
— Com essa vela... com essa vela... — Gaguejou.
— Eu iluminarei seu caminho pela escuridão... — Cain completou levando a taça aos lábios.
— Espera! — Jared segurou seu pulso. — Eu não posso te deixar fazer isso.
— Tudo bem... — Cain sussurrou erguendo a taça de novo.
— Não! — Jared esticou sua mão para Toby que se levantou.
Cain se virou para ele e arregalou os olhos, mas Toby foi puxado para trás pelo homem de cabelos brancos. Jared encarou aquele rosto frio e arregalou os olhos.
— Você?! — Deu um passo hesitante e fechou as mãos com raiva.
— Ora ora... o outro impostor... — Hamnet sorriu segurando um braço de Toby atrás das costas. — Pelo visto você faliu sua família.
— Você... foi você que me matou!
Os mortos arquejaram e se levantaram com raiva, mas o velho anjo os parou com um olhar frio.
— Estamos do lado deles, vocês não podem fazer nada.
— Ouviram só? Do meu lado. — Hamnet sorriu mais puxando Toby para trás. — Agora não me sobra dote, mas eu ainda posso fazer alguma coisa a esse rostinho bonito aqui.
Cain apertou as sobrancelhas e pegou um castiçal da igreja e saltando até onde os outros dois estavam.
— Eu não estou morto. — Disse com raiva e os mortos vibraram novamente pelo garoto vivo. — E essa é a minha noiva falsa.
— Você quer ele de volta? Para que? — Hamnet apertou mais o braço de Tobias que grunhiu de dor. — Estou te fazendo um favor, assim como você para aquele pobre tolo morto.
— Eu não sou um pobre morto. — Jared rosnou pegando um castiçal também. — E esse é o meu irmãozinho.
Jared saltou em direção aos dois fazendo Hamnet soltar Toby e pegar outro castiçal onde os dois começaram a duelar, Cain puxou Toby pelos ombros e eles se encararam surpresos, Jared usou seu castiçal para quebrar o de Hamnet e apontou a sua ponta para a garganta do outro.
— Você está do meu lado! — Hamnet sorriu. — Oh, pobrezinho dele, uma noiva fajuta com seus sonhos de fugir desta cidade arruinados, com um casamento arruinado e uma vida esquecível. — Jared torceu os lábios.
— E você? — Toby rebateu. — Tolo a ponto de cair no mesmo golpe duas vezes, pobre lorde Hamnet, mais pobre que os Everglots.
Hamnet cuspiu no chão e marchou de forma pomposa, mas antes de sair pegou a taça de vinho posta na mesa em frente ao altar sorrindo.
— E não vamos esquecer desta alma caridosa, um brinde a você caro noivo.
E com o mesmo sorriso frio ele virou a taça em um gole só, o velho anjo fechou seu livro e sorrindo apoiou o rosto nas mãos.
— Parece que... — Ele começou quando Hamnet interrompeu sua caminhada para a saída se engasgando. — Temos um recém chegado.
Os mortos que observavam o farsante afastados sorriram, Hamnet se virou sem nenhum traço de elegância gritando enquanto era arrastado para fora da igreja, o velho anjo por fim saiu depois dos mortos rindo como nunca tinha feito antes. Assim que a procissão de mortos saiu a igreja caiu em um silêncio sepulcral.
Cain encarou os dois irmãos estranhos à sua frente e engoliu em seco.
— Podemos continuar o casamento? — Sussurrou.
— Ah... sobre isso... — Jared sorriu para Tobias. — Acho que estou roubando algo seu.
— Que? Não! — Tobias balançou a cabeça. — Quero dizer, ele é bonito, mas eu estou estragando o seu casamento.
— Bonito? — Cain engoliu em seco.
— Não me importo com beleza. — Jared sorriu e segurou as mãos do irmão. — Como aquele maldito mesmo disse, meu casamento foi arruinado, minha chance de fugir se foi, mas a sua não e eu sei que Cain é a pessoa certa para isso.
— Mas e você? — Cain murmurou. — Eu prometi te libertar.
— Você já me libertou. — Jared sorriu e afastou um cacho do rosto dele com ternura. — Eu te amo Cain, mas você não é meu. Cuide bem do meu irmãozinho.
E se virando para Toby o abraçou com força, com uma última olhada para os dois sorriu enquanto andava devagar até a saída da igreja, respirou fundo e jogou seu buquê para trás, que foi pego pelo irmão.
Jared pôs um pé para fora da igreja velha e cinza suspirando quando um raio prateado do luar o iluminou transformando seu corpo em inúmeras borboletas azuis que voaram em direção à lua iluminando a noite escura, fria e silenciosa.
— E agora? — Toby sussurrou secando as lágrimas.
— Acho que nos casamos. — Cain sorriu e abraçou seus ombros. — E depois damos o fora daqui.
— Cuidado ou assim eu vou me apaixonar de verdade. — Brincou.
— Não seria uma má ideia.
Toby riu e deitou sua cabeça no ombro de Cain enquanto observavam as borboletas noite adentro.
*+º:.🦋.:º+*
O especial de halloween que eu tava muito ansiosa pra postar hehe com certeza foi um dos meus favoritos 🥺💙 usei duas teorias que eu gosto pra complementar a história que é a da Emily e a Victória serem irmãs e também do Victor ser a alma gêmea da Emily, mas fora do tempo porque o Cain e o Jared eram almas gêmeas que deram errado (Toby não leia isso) e foi muito divertido de escrever ♥ minha primeira ideia tinha sido Anastasia, mas acho que não ia combinar com o Cain :v então me veio Noiva Cadáver na cabeça que é meu filme favorito e eu sempre quis usar pra um especial de halloween, fico feliz de ter feito agora porque ficou tão fechadinho e lindo, enfim espero que tenham gostado 💙
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