No sense

Ultimamente eu tenho me perguntado o que está acontecendo

Eu estive aqui antes, mas não me lembro quando

E toda vez que chegamos onde estamos entrando

Eu sinto minhas crenças e esperanças se rendendo

Mas eu sei que estarei voltando para casa em breve

Soldier's eyes — Jack Savoretti

Como vamos ir? Olho para o gato risonho na minha mão e passo o polegar pelo sorriso pela milionésima vez, sei que os outros estão me olhando agora esperando por algo, aperto a peça com força na mão e ela emite um crack alto.

— Tudo bem? — Cain pergunta.

— Uh-hum. — Abro a mão e aperto as sobrancelhas, a base da peça trincou um pouco mas consigo ver algo por baixo, giro enquanto seguro o gato. — É um giz... — Viro a peça de cabeça para baixo pra olhar o giz branco.

— Deve ser pra desenhar algo. — Barbie sugere. — Uma porta talvez.

— Uma porta...? — Repito.

— Criativo. — Toby sorri. — Melhor do que passar fitas em vestidos.

Caleb dá uma cotovelada nele que guincha, mas não consigo rir, ando até a parede do quarto e faço o que Barbie sugeriu desenhando uma porta do chão até onde meu braço alcança e fecho o retângulo voltando para o chão, olho para a linha torta e para o gato, espero que você não esteja pregando uma peça em mim velho Charles.

— E agora...? — Toby me traz de volta, pisco e coloco a mão sobre a parede ainda esperando estar errada, mas ela se move a pressão e quando empurro vejo uma sala escura do outro lado. — Wow!

Wow define o sentimento.

Um rosto aparece no meu campo de visão e esqueço de tudo que aconteceu até agora, sorrio e corro saltando em Abel atravessando de Wonderland para Terra.

— Lilith a minha perna!!! — Abel guincha, sinto que mais alguém também pulou em nós e agora estamos indo pro chão. — CAIN!

Dou risada que se transforma em um soluço e continuo abraçando Abel enquanto uma confusão de passos e saltos faz o chão a nossa volta tremer levemente, Cain se afasta primeiro e faço o mesmo encarando um Bell irritado, mas com lágrimas nos olhos.

— Não me lembrava que vocês eram tão feios. — Ele sussurra e seca o rosto.

— Isso é interessante. — Olho para cima e Ângelus está parado na sala, me viro para trás onde ainda consigo ver a torre branca e Maaka nos olhando. — Olá novo cavaleiro branco.

— Ângelus eu presumo. — Maaka faz um meneio de cabeça, Nadia e Gareth se aproximam também, até consigo ver Galahad olhando para o nosso lado com curiosidade.

— Em breve estaremos aí. — Ângelus acena com a mão de forma indiferente. — Não deixe as realidades abertas por tanto tempo.

— Desagradável. — Maaka sussurra mostrando as presas. — Espero vocês logo. — Ele acrescenta antes de fechar a porta.

— Vocês fizeram mesmo amizade com eles. — Ângelus diz de forma debochada, já estou sentindo falta de Maaka. — Quem diria, achei que iam voltar com um a menos, não você Tobias.

— Eu tava apostando no Caleb. — Abel diz e dá de ombros. — Mas que bom que voltaram eu tenho tanta... — Ângelus pigarreia e ele revira os olhos. — Desculpa, nós temos que ser sérios primeiro.

— Onde está o velho Charles? — Cain pergunta.

— Na sala de jantar. — Ângelus se vira para voltar pelo corredor.

— Finalmente um pouco de alegria. — Abel sussurra e Ângelus se vira para olhar sobre o ombro. — Maldita seja a sua audição.

— Tenho pena de você. — Cain sorri se levantando esticando as mãos para me puxar. — Mas você sobreviveu também.

— Espero que tenha aprendido algo útil. — Caleb diz amargamente.

Bufo e estico uma mão para puxar Abel, Cain faz o mesmo e o levantamos, Abel passa um braço por cada um e nos abraça de novo, sorrio e fecho os olhos, pelo menos esse momento eu posso aproveitar.

Escuto os outros indo pelo corredor talvez para nos dar alguns minutos de privacidade, me afasto e de novo afago seu rosto, Abel sorri e apoia sua testa na minha.

— Adoro ser deixado de fora. — Cain resmunga.

— Me desculpa querido gêmeo, mas nós já nascemos juntos então dá um tempo. — Dou risada. — Charles quer que vocês prometam deixar ele entrar na Nonsense.

— Mas isso cabe a... — Abel nega com a cabeça.

— São vocês. Nós no caso. — Ele dá de ombros. — É uma coisa... do Oscar. — Ele acrescentou num sussurro. — Do mesmo jeito que Dormouse bloqueou as entradas de Wonderland ele bloqueou as da Nonsense e só nós podemos abrir elas.

— Parece que você descobriu algumas coisas interessantes. — Sussurro.

— Conto mais longe dos ouvidos deles. — Abel balança a cabeça. — Vamos logo, eu mal vejo a hora de ir pra casa.

Ele passa um braço pelos meus ombros e outro pelos de Cain e vamos assim até a cozinha escura e confortável, Charles não está na sua forma humana e sim um homem de cabelos castanhos longos amarrados em um coque.

Toby está sentado tomando chá, Barbie tira algo do forno enquanto Babel e Caleb seguram duas bandejas que já devem ter saído de lá, me pego feliz por voltar pra esse ambiente, sem tetos altos, colunas e salas gigantescas. Me sento na mesa com Abel do lado, Cain vai para trás de Toby e apoia as mãos no encosto da sua cadeira.

— Como foi? — Charles indaga sem cerimônia.

— Difícil de resumir em cinco minutos. — Rebato.

— Temos algumas horas. — Ângelus responde suspirando.

— Eu adoraria tomar mais uma xícara de chá, preciso levar uma mala de volta a Wonderland, eles não sabem o que é um earl grey!

— Temos problemas maiores, Tobias. — Cain sussurra.

Respiro fundo olhando para minha xícara vazia, temos problemas maiores e muita coisa pra contar.

XXX

Depois de darmos uma geral para Charles e Ângelus eles ficam em silêncio, ainda vamos ter que repetir tudo para a Nonsense e isso já me deixa cansada. Estamos todos cansados, é evidente e só queria voltar para casa agora.

— Bem. — Charles começa. — O que vocês fizeram é admirável, acho que nunca tinha visto os três reinos se unirem, ainda mais contra Heartsplains que é o maior e mais poderoso dos quatro, é realmente uma revolução.

— Não conseguimos que Mira se juntasse a nós. — Resmungo.

— Mira... — Ângelus diz com desdém. — Ela faz pose de fria e que não vai acatar a nada que outros dizem, mas é só você conseguir uma brecha na sua armadura que ela vai cooperar.

— E como fazemos isso? — Cain indaga.

— Dê algo que ela queira. — Ele me encara. — Ela deve ter pedido algo.

Engulo em seco, acho que pensar como Alice não é bem uma coisa que ela queira, dou de ombros mas Cain me olha desconfiado.

— Nada. Ela só me manda sair. — Minto.

— Tudo bem. — Ângelus dá de ombros. — Uma hora ela vai pedir alguma coisa, mas por hora seria bom nós voltarmos.

— Acho que Abel já disse da minha condição. — Bell levanta o rosto e uma fatia da sua torta de maçã cai no prato. — Preciso que vocês me deixem entrar assim como eu deixei vocês voltarem. — Charles sussurra.

— É só voltar conosco. — Respondo. — Estará autorizado a entrar dessa vez.

— Dessa vez. — Ele repete com desdém.

— A Nonsense sabe disso? — Caleb pergunta desconfiado.

— Já concordaram com isso a contragosto. — Ele dá de ombros.

— Então... podemos voltar? — Barbie pergunta sorrindo.

— Podemos. — Ângelus resmunga.

Sorrio com a ânsia de voltar pra casa, Abel se levanta e abraça um dos meus braços rindo, voltamos juntos pra sala e lá todos se reúnem em volta da porta, espero que Ângelus ou Charles vá até a porta, mas eles ficam parados atrás de nós.

— Uhn... acho que vocês tem que abrir a porta. — Toby diz para mim e Abel.

— Nós? — Repito.

— Você é quem geralmente abre a porta. — Caleb sorri.

— Com nós ele quis dizer que eu também estou no meio. — Cain diz ofendido.

— Cain você passou mais tempo com a Lilith nos últimos dias, para de ser dramático. — Abel rebate.

Ignoro a discussão dos dois e coloco a mão na maçaneta da porta de entrada, é a segunda vez no dia que estou diante de uma porta esperando por algo, o broche que Barbie nos fez da casa esteve preso na parte interna da minha gola desde que chegamos a Blanchess, acho que foi uma forma de ter sempre a casa Nonsense comigo. Me assusto quando Cain e Abel também apoiam as mãos em cima da minha, olho para eles e sorrimos abrindo a porta juntos, arquejo de felicidade olhando o hall pequeno e escuro e finalmente sinto que estou em casa.

XXX

Chevonne e Scorpio nos recepcionaram com muitos abraços e alegria, Charles e Ângelus foram para a sala do Marcel e nós liberados para fazer o que quisermos por um tempo, agradeço pelo banho quente e finalmente ter minhas roupas de volta, apesar de alguns vestidos estarem apertados e não combinam mais comigo. Termino de pentear os cabelos quando Cain entra no quarto, Abel está sentado na sua cama.

— Finalmente parou de beijar o Tobias? — Ele provoca, vejo Cain ficar vermelho pelo reflexo e dou risada.

— Pra sua informação eu estava sozinho. — Cain bufa indo até sua cama.

— É bom que agora sua boca está desocupada pra ficar de queixo caído com o que eu descobri. — Abel se levanta e vai até a cama de Cain, me viro erguendo uma sobrancelha. — Você pode vir aqui também.

Me levanto e vou até eles também, assim que me sento Abel abraça meus ombros, Cain grunhe e chuta ele.

— Vocês podem parar? — Dou risada. — Somos os três irmãos.

— E eu sou o menos favorito, já sei. — Cain suspira e se joga na cama. — Só por que eu tentei matar os dois?

— Foi um longo processo de adaptação pra você ser uma pessoa normal de novo, vocês dois. — Sorrio e eles grunhem ao mesmo tempo.

— Tá deixando o nosso pouco amor ao Cain de lado. — Abel se afasta e fica sério. — Eu descobri algumas coisas, claro aprendi tantas outras também, mas tem algo que eu preciso contar. — Cain se senta e sem um motivo que consiga explicar nos aproximamos mais. — Acho que o Charles queria que eu descobrisse algo, sabe? Ele não brigava comigo por eu remexer suas coisas quando não estava tendo alguma aula chata ou brigando com o Ângelus.

— Você descobriu algo sobre Wonderland...? — Sussurro.

— Mais do que só Wonderland. — Ele afasta uma mecha do cabelo branco. — Vocês me disseram sobre os outros membros das fábricas, certo? — Consinto me lembrando de Valerie e Allyson. — Um deles sabe sobre outros mundos também.

— Qual deles? — Cain pergunta.

— Renard... — Abel aperta as sobrancelhas e consente. — Sim, Renard, ele trocava cartas com nosso pai, mas diferente da Nonsense ele estuda outros mundos, outras realidades.

Ficamos em silêncio, foi por isso que o mais velho não assumiu a fábrica! O senhor William tinha dito que Renard era um explorador, bem, isso faz muito sentido.

— E aposto que ele deve manter contato com a chefia. — Abel aponta para o teto. — As cartas que o velho Charles tinha eram antigas, mas falavam sobre vários mundos, alguns descobertos pelo Charles, o meu Charles... isso ficou estranho?

— Então se existem outras pessoas que estudam os mundos, existem outras "Nonsense"? — Cain sussurra. — Existem mais crianças como nós?

— Acho que se são sensatos não têm crianças. — Dou risada. — Só estamos aqui porque nosso pai não foi.

— Uhn... na verdade... — Abel murmura, não gosto disso.

— Não tente defender o Oscar agora. — Cain sussurra. — Maaka nos fez ficar arrependidos de julgar ele, o que você vai fazer agora?

— Quem é Maaka? — Abel resmunga, depois cruza os braços. — Ouvi o velho falando com o Ângelus, eles estavam querendo que eu escutasse, disseram sobre Oscar ter deixado algo com a Fox, algo pra nós. — Ele olha pra mim e depois pro Cain. — Acho que é a nossa última chance de estarmos juntos desse lado, então provavelmente vamos receber alguma coisa.

Ficamos em silêncio cada um com seu próprio pensamento, não quero nada de Oscar, não quero ter que pensar sobre ele da forma que Maaka me fez pensar, afastado de nós para nos proteger, bem, se foi realmente isso ele falhou como falhou em tudo.

— Também descobri algo sobre o velho. — Abel sorri. — Ele me salvou.

— Como assim? — Murmuro. — Ele te mandou pra Wonderland pra sofrer.

— Não, ele sabia que o que Oscar estava fazendo era errado, tentou alertar ele diversas vezes, mas Oscar não ouviu obviamente senão não estaríamos aqui. — Ele ironiza. — Mas quando nós nascemos. — Ele olha para Cain. — Não foi nosso pai que correu atrás do Charles para ele me salvar, mas sim ele que foi ao meu resgate. — Abel encolhe os ombros. — Charles me salvou me levando pra Wonderland e me deixando com o Bill.

— Bill? — Guincho e sinto que estou vermelha. — O mesmo Bill que tentou te matar? Que tentou... — Abel segura meu ombro, engulo meu minha raiva.

— É. — Ele sorri. — O mesmo Bill, quero dizer, Gabriel. E foi ele que me levou para ser criado com os ases órfãos, sabe? Associava nosso pai a um par de olhos azuis bondosos quando era criança e agora descobri... descobri que mesmo com tudo isso ele ainda tentou me matar.

Abel para de falar e cobre a boca, lágrimas silenciosas rolam de suas bochechas, mordo o lábio e abraço seus ombros, Cain se encaixa do seu outro lado e apertamos ele em nosso abraço.

— Pelo menos você tinha alguém da família. — Cain sussurra e sorri esfregando o rosto dele. — Nunca conheci Raphael, só ouvi histórias dele.

— E eu só ouvi histórias de todo mundo. Dos nossos pais, de vocês, dos nossos primos. — Suspiro encarando o teto. — Fui deixada no escuro esse tempo todo. Mas achei minha família. — Abraço os dois. — Achei toda a nossa família nessa casa velha e mal cheirosa. — Solto eles e abro os braços me jogando na cama. — E eu não preciso de ninguém mais.

— Ah, para de posse. — Abel ri. — Você vai sair por aí fazendo amizade na primeira oportunidade que tiver.

— Cala a boca! — Dou risada e jogo um travesseiro nele.

Ele me xinga quando a porta é aberta e Scorpio olha para nós sorrindo com ternura, bufo e interrompo meu ataque a Abel.

— Odeio atrapalhar... — Ele começa e suspira. — Mas temos uma reunião lá embaixo e precisamos de vocês.

A paz longe de mesas de reuniões aparentemente durou pouco.

XXX

E temos o trio reunido novamente? Temos! Tava com saudades desses três juntos 🤧 e agora posso remendar alguns furos de roteiros das coisas do nosso lado que ficaram meio sem explicação como o Oscar por exemplo, e tem coisas muito legais vindo por aí também hehehe

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