Library

Não consigo lembrar

Quem eu sou

Tudo é um borrão

Leve-me ao fim

Vou me tornar o que você gosta

Isto é o que você queria

Certo!?

Sacrificarei tudo que eu conheço

Eu vou ensinar a mim mesma como deixar isso para lá

Copycat — Gumi

Cain grita como se o caco tivesse atingido ele, com um movimento de mão seu chicote dança a nossa volta, primeiro passando por um espelho e depois saindo em outro se esticando como uma fita em um corset, ele puxa o chicote de volta e um a um os espelhos se chocam em uma chuva colorida. Humpty Dumpty faz uma careta de dor e se dobra. Olho rápido para Toby e depois o homem ainda abaixado, é a minha chance de atirar sem que a bala volte para nós.

Levanto o rifle e puxo sua trava quando algo quase me faz derrubar a arma, uma espada prateada e fina desce do teto e atravessa Humpty Dumpty, olho de boca aberta para o lugar onde ele estava antes e Charles me encara enquanto o corpo do outro desaba no chão a nossa frente.

Engulo em seco.

Ele salta para o chão e corre em nossa direção, tenho que controlar meus instintos para não apontar o rifle para ele, não importa quanto Charles queira eu não consigo confiar nele. Ele se ajoelha e pega Toby no colo e só então meu corpo sai do estado de alerta quando percebo a quantidade de sangue que eles deixam enquanto Charles o carrega para uma mesa.

— Como ele entrou aqui? — Abel me puxa pelo pulso e sussurra.

— Eu não faço a mínima ideia...

Ele segura minha mão e seguimos os outros, Ethan joga os livros de uma mesa no chão, Charles deita Toby ali e ele parece anormalmente pálido, círculos roxos estão abaixo dos seus olhos fechados e ele segura o machucado na lateral do corpo com força. Cain se debruça sobre a mesa e na minha mente eu me lembro daquele dia no circo, olho de relance para Abel e ele está encarando a mesa com medo como se pensasse o mesmo, passo o rifle para as costas e o abraço.

— Ele... ele... — Cain balbucia.

— Ele está se curando sozinho... — Charles sussurra assustado.

Toby enfim parece perder as forças e seu corpo fica mole sob a mesa, Charles apóia uma mão sobre o local ferido e com o indicador levantado gira a mão em sentido anti-horário como um relógio, Toby parece relaxar mais.

— Ele dormiu...? — Caleb sussurra, o sangue continua a escorrer da mesa, mas não parece mais estar saindo dele.

— É de onde vem a força do Dormouse. — Charles sorri. — Ele não está apenas dormindo, está criando pequenas bolhas temporais. Agora mesmo ele pode estar desacelerando o tempo para se curar mais rápido ou retrocedendo o tempo dos seus órgãos internos para antes do machucado. O importante é que ele não vai morrer. — O velho Charles afaga os cabelos de Cain que se debruça na mesa e cobre a cabeça com os braços.

— E como você chegou aqui? — Pergunto.

— Infelizmente porque as barreiras enfraqueceram. — Ele olha para Toby e entendo. — Eu estava tentando entrar no castelo desde que a outra equipe chegou a casa do Dormouse, mas Alice fez alguma coisa... de qualquer forma quando Tobias foi atingido a barreira se desfez por um momento e eu me aproveitei disso.

— Você sabe algo do exército vermelho? — Ethan pergunta.

— Sei algumas coisas, mas vocês podem se afastar da mesa, Tobias precisa de espaço. — Charles dá um passo para trás e olha para a porta. — A barreira de vocês é boa, mas está fraca, eu vou reforçá-la. Não vamos sair daqui tão cedo então descansem.

Barbie se aproxima de Cain e se inclina para falar com ele, Ethan e Caleb se encarregam de arrastar o corpo do Humpty Dumpty enquanto Charles vai até a porta, puxo Abel para uma das poltronas e desabo nela, ele se encolhe sentando abraçado comigo, colocando os joelhos contra o peito. Babel e Taylor vão revistar o resto da biblioteca e assim nos espalhamos.

Demoro a perceber que Abel não está assim apenas pelas memórias da noite no circo, mas sim porque a espada prateada continua ali no chão de onde algum dos meninos a tirou antes de levar Humpty Dumpty. Respiro fundo e me levanto indo até Charles que tira as mãos da porta e me encara.

— Tire aquilo daqui. — Aponto para a Vorpal e ele mexe a mão fazendo a espada desaparecer.

— Eu entendo que está preocupada com seus irmãos, mas deveria se preocupar com você também. — Levanto uma sobrancelha. — Eu quero te mostrar algo.

Penso em recusar sua oferta, mas não tenho nada para fazer agora com os outros ocupados, Abel encosta sua cabeça na poltrona e parece perdido em pensamentos, suspiro e concordo. Charles se afasta da porta e começa a caminhar em direção ao fundo da biblioteca, agora que a minha adrenalina diminuiu, reparo como o lugar é enorme.

A biblioteca tem três andares, o primeiro onde estamos é repleto de mesas e poltronas, o segundo tem apenas um corredor estreito que cruza a sala de uma ponta a outra e suas paredes são forradas de estantes cheias, e seguindo a escada até o final existe uma espécie de salão do chá, com mesas pequenas e janelas de vidro que me fazem tremer de medo, mesmo sem o pássaro JubJub fico feliz de Charles reforçar a barreira.

Passo pela mesa dando uma olhada em Cain que parece estar descansando ao lado de Toby, sei que ele não vai dormir tão cedo e decido parar para olhar os dois na volta, a espada desapareceu assim como um tapete onde Humpty Dumpty foi enrolado e levado para longe da nossa vista, em apenas duas salas três pessoas morreram por causa de Alice, suspiro de raiva porque não tenho energia para grunhir.

— Vocês deram sorte de entrar aqui ou azar. — Charles começa, olho para ele. — Se me perguntassem eu não apostaria que vocês viriam para cá.

— Antes fomos nos estábulos, no jardim e na torre do pássaro JubJub depois viemos para cá.

— Isso faz mais sentido, Mira sugeriu essa confusão?

— Em partes, mas sim, a ideia foi dela. Assim como Maaka, Rosalinda e Ângelus sabiam que nós iríamos pra Heartsplains e acho que você também.

— Sim eu sabia, desde quando Tobias sumiu da antiga casa do Dormouse junto com os outros dois. — Ele olha para mim. — Mira não errou no conselho, o castelo deve estar um caos por isso temos tempo para nos recuperar.

Charles sobe a escadaria no final da sala e o sigo, penso em olhar os livros para saber do que se trata, Caleb uma vez disse que Alice baniu muitos livros e mesmo assim tem essa biblioteca enorme.

— Vocês encontraram muitas pessoas?

— Não exatamente, no jardim caímos em uma armadilha, mas era um truque como você escreveu. — Ele concorda. — No estábulo também não, não posso dizer o mesmo da torre do pássaro JubJub porque não tivemos tempo de conversar.

— Mas e aqui?

— Aqui? — Começamos a subir a última escada. — O Leão e a Unicórnio estavam na entrada e alguns guardas em volta, quando entramos eles já estavam atrás de nós e aqui dentro estava o Humpty Dumpty como você mesmo viu.

— Não notou nada estranho?

Olho para Charles e gostaria de apenas mandar ele calar a boca, mas começo a pensar, o estábulo estava vazio, o jardim também, mas... quanto mais viemos para cá mais guardas apareceram no nosso caminho e até defesas especiais da Alice. Eles não esperavam que viéssemos, mas se prepararam mesmo assim, aperto as sobrancelhas.

— A biblioteca estava mais protegida. — Sussurro.

— E você imagina por qual motivo? — Nego com a cabeça, quando olho para cima as janelas me chamam a atenção, Charles aponta para elas com a cabeça e vamos naquela direção.

— Alguma coisa importante eu presumo. — Olho de soslaio para ele. — Você disse algo sobre eu me preocupar antes, não disse? — Ele levanta as sobrancelhas. — Eu gosto de mistérios, mas estou cansada demais para pensar.

Olho para as janelas e ignoro o olhar reprovador dele, corro até elas e colo meu rosto contra o vidro colorido, a vista da biblioteca me mostra algumas planícies que agora estão verdes e floridas, não vejo o estábulo nem os jardins daqui, mas sim um coreto e mais mesas de chá. Alguém gosta de festas do chá pelo visto, mais além vejo um palco e isso me faz ter um calafrio.

— Tem algo de Copas aqui? — Me viro para o velho e sua expressão se suavizou. — É por isso? O que tem aqui?

— O Coração Escarlate. — Um arrepio percorre meus braços. — Pode-se dizer que é a coroa de Wonderland... — Charles suspira e parece pensar.

— Não!

— Eu não disse nada... — Ele sorri.

— Eu não quero falar com ela. — Me viro para a paisagem. — Deixe o coração bem longe de mim, se o Cain precisar dele então o dê a ele, mas não me mostre onde está.

Charles suspira e caminha, escuto ele puxar uma cadeira e se sentar. Mira nos mandou armar um circo, mas parece que o circo se transformou em uma armadilha não só para todos, mas especialmente para mim. Encurralada com Copas aqui era o que eu menos queria no momento. Olho para o anel que Caleb me deu da última vez em que estivemos aqui, o rubi vermelho reflete a luz do fim de tarde.

— Você acha que ela ia querer falar comigo?

— Eu não sei, ela gostava de falar e de mandar também.

— Você gostava dela?

— Como o outro Charles e Mandrake? Não, eu não a amava nesse sentido. — Olho para ele. — Mas como uma amiga? Sim, eu gostava muito dela, ela sempre me entendia.

— É horrível se esquecer do nome das pessoas... — Comento.

— Eu não me esqueço. — Levanto uma sobrancelha. — Eu poderia lhe dizer seu nome, mas não farei isso, apesar de que soa muito parecido com o nome de alguém que você conhece, é só pensar bem que vai descobrir.

— Eu não pedi uma pista agora. — Sorrio.

— De fato, não pediu. — Charles se levanta. — E também não irei lhe mostrar o que queria, mas os outros estão lá embaixo descansando e você deveria fazer o mesmo.

— E você?

— Eu já descansei demais nesses últimos dias, não se preocupe comigo.

Dou de ombros, Charles me espera voltar para perto dele e descemos de volta para onde os outros estão.

XXX

Depois de descer Charles voltou a subir sozinho, Taylor e Babel não acharam mais nenhuma armadilha e depois juntamos nossos últimos alimentos para passar a noite na biblioteca, o salão do chá infelizmente não tinha comida, as sombras apareceram um pouco depois disso. Abel me disse que, apesar de não estarem mais ligados, ele e Humpty Dumpty eram próximos no passado e mesmo que quisesse vencer ele ficou abalado com sua morte e por isso preferiu ficar sozinho próximo a porta, Cain continua com Toby que ainda não acordou, resolvemos deixar ele de fora dos turnos de vigia e no fim eu peguei o último deles. Sento do lado dele que está vigiando Toby que continua dormindo profundamente.

— Parece um pouco quando você enfrentou o Jaguadarte... — Murmuro, ele suspira. — Você não quer mesmo dormir?

— Tá tudo bem... — Cain dá um meio sorriso.

— Não está... — Ele suspira de novo e o puxo para um abraço. — Eu fico de olho nele.

— Não sou muito útil em uma luta, você deveria dormir... — Cain ri.

— Está dizendo isso a pessoa que destruiu os espelhos do Humpty Dumpty com um grito.

— Não foi exatamente assim. Eu estava quase pirando.

— E quem não está...? — Ele se aconchega mais em mim.

— Só quinze minutos...

Cain fica em silêncio, olho para Toby que continua respirando de forma pesada, Barbie limpou o sangue e o ferimento que já estava quase curado, mas seu rosto continua mortalmente pálido, preciso me lembrar de que apesar da aparência Toby está bem.

Olho para o terceiro andar onde o velho Charles continua escondido, não consigo imaginar o que esteja fazendo. Meus olhos vagueiam pela biblioteca no escuro procurando por algo para afastar o sono, até mesmo as sombras parecem todas cansadas, fecho os olhos, mas os reabro rápido.

Quando estou quase dormindo de novo, um som me chama a atenção: um piano. Bem ao longe, olho em volta mas todos ainda estão adormecidos.

Levanto devagar e deito Cain na poltrona, ele continua dormindo. Ando um pouco procurando ouvir melhor de que lado aquela música está vindo. Olho para cima e não parece ser de lá, ando até o final da biblioteca e depois sigo a parede até achar a última estante.

Encosto a cabeça nos livros e o som parece mais alto assim, me afasto e começo a puxar todos os livros sem me importar com o barulho que fazem, quando as opções estão quase acabando puxo um de capa vermelha que não cai como os outros apenas volta ao seu lugar e o som de um mecanismo sendo acionado me faz recuar para encarar a porta escondida boquiaberta.

Espero mais um pouco, mas como ninguém aparece puxo a estante que revela uma sala de vidro em seu interior, tem um piano branco que está quase encostado na parede de vidro e uma garota de cabelos castanhos longos que deve ter a minha idade encara a paisagem.

— Se eu fosse diferente não estaria aqui. — Ela diz ainda olhando para fora. — As pessoas não acreditam em mim lá do outro lado. Por que os humanos são assim?

— Nós humanos costumamos ser assim. — Olho para trás, mas não vejo ninguém. — Você sabia que eu sempre acreditei em coisas impossíveis?

— Eu ouvi da Mira. — Ela ri. — Seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

— Foi assim que eu me tornei rainha.

Congelo e prendo minha respiração, Alice balança a cabeça para afastar os cabelos dos olhos, depois suspira e volta a tocar.

— Você está pensando...

— Estou pensando em ser rainha também quando crescer, você vai me dar a coroa, não vai?

Uma risada doce preenche a sala, mas Alice parece ficar apenas mais irritada e isso se reflete em suas notas no piano.

— Não tenho herdeiros e acho que não vou ter, você sabe que vai ser rainha no futuro.

— Mas eu não sou sua filha de verdade.

— Talvez não seja, mas eu a amo como se fosse.

Alice desiste de tocar de novo e olha para alguém além de mim, seu olhar não é de gratidão ou amor.

— Mas você sabe o que eu fiz.

— Todos fazemos coisas das quais não nos orgulhamos.

— Mesmo assim, você não tem medo?

Um silêncio longo se segue, Alice tamborila os dedos sobre o piano branco, depois respira fundo.

— Acho que viver sem medo é uma idiotice, mas ser cauteloso demais te impede de viver, você não concorda?

— Às vezes eu não te entendo.

— Eu também não.

Alice revira os olhos e se levanta, ela passa por mim e bate à porta às minhas costas. Olho para os lados, mas continuo aqui.

— E você?

Respiro fundo, Copas não odiava Alice, não a impediu em nada mesmo sabendo dos riscos e o seu jeito de agir, a forma como a trata se parece tanto com uma mãe. Apenas uma mãe com sua filha que pode crescer e se tornar uma brilhante rainha ou uma assassina usurpadora.

Copas que tinha dois amantes que estavam sempre prontos para enfiar uma faca nas suas costas ao mesmo tempo que queriam protegê-la. Copas que amava seu povo, mas que matava aqueles que se desviavam do seu caminho. Copas que me disseram que era boa, Copas que me disseram que era má.

Eu não aguento mais isso, essas memórias, essas lacunas e a sensação de não saber nada. Está na hora de pôr um ponto final nisso.

Abro os olhos e demoro a me situar, estou de volta na poltrona e Cain dorme com a cabeça apoiada na mesa, Toby continua apagado e todos estão dormindo também.

Foi um sonho...

Olho para cima, mas nem sinal de Charles. Levanto devagar e caminho até a última prateleira, acho o livro vermelho e o puxo, mas dessa vez não é uma sala que se abre para mim, mas sim um cofre e eu encaro um colar com um coração vermelho, o rubi brilha refletindo no meu rosto.

Você tinha um nome parecido com alguém que eu conheço, não é? Agora eu sei quem é você, Copas.

— Eu quero ouvir a verdade... e agora eu estou pronta para conversar com você, Mikayla.

Seguro o coração de rubi e o passo pelo pescoço sentindo o mundo se apagar à minha volta.

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