Horses

Eu finjo que não dói

E eu sei que são apenas palavras

Mas paus e pedras quebram ossos

Então, se você já teve o suficiente

Venha para a terra dos perdidos e solitários

Não tenha medo, seremos uma grande família

De malucos como você e eu

Jordan Clarke — Freaks


Depois que voltamos para o quarto não consigo fechar os olhos, Caleb dorme tranquilamente ao meu lado, mas eu não consigo ficar tranquilo, não com uma cama vazia no quarto. Rolo na cama de madeira pelo que parece uma eternidade até ver a luz começar a clarear o quarto, me levanto e saio sorrateiramente, com sorte posso achar alguém na cozinha disposto a me dar algo pra comer, já que também não fiz isso desde que voltamos. Quando estou passando pela sala do trono escuto passos e me escondo atrás de uma pilastra, Lilith me deixou um pouco paranóico de andar sozinho por esse castelo ao falar dos guardas que poderiam apoiar um motim.

Prendo a respiração e escuto conversas baixas, olho pela pilastra branca e não consigo contar uma exclamação de surpresa que atrai a atenção de Mira e Rosalinda ao mesmo tempo.

— Olha só, o segundo... — Mira diz com desdém voltando a olhar o trono.

— Na verdade ele é o primeiro... — Rosalinda a corrige. — O que você está fazendo acordado por aí?

Saio do meu esconderijo já que elas me viram e ando devagar até chegar onde estão, olho para Mira que torce o nariz, depois para Rosalinda que sorri cansada.

— Não consegui dormir... — Sussurro e volto a olhar para a rainha Branca que ergue as sobrancelhas e cruza os braços. — Lilith?

— É, foi ela mesma. — Mira bufa e descruza os braços. — Sabe como eu vim parar aqui, moleque? — Nego com a cabeça. — Eu também era da realeza no meu reino, mas eu queria restituir o que roubaram da minha mãe. — Mira olha para o trono quase com ternura. — Por 150 anos eu fui uma criança por causa de uma maldição e fiquei sozinha em um castelo destruído, tudo que eu mais odeio é ficar sozinha.

— Então por que ficou tanto tempo no jardim de inverno? — Sussurro.

— Porque achei que ninguém mais iria se importar comigo quando Copas surgisse, quero dizer, era assim antes. — Ela suspira e olha para Rosalinda. — Mas como eu estava dizendo, por muito tempo pesquisei sobre meu reino e ouvi de outras pessoas que ele era de dragões que reinavam com sabedoria e essas baboseiras, mas que foram mortos pelos humanos. Foi por isso que eu fui amaldiçoada com a minha família, mas sempre ouvi também que dois dragões tinham conseguido sobreviver e sabe onde um deles estava?

— Mandrake. — Olho para o trono e suspiro. — Ângelus me disse que ele tinha um irmão.

— Por muito tempo eu quis que Copas caísse porque assim ele cairia também, mas eu gostava dele, sempre gostei mais do Mandrake do que da Mikayla ou Charles, ouso admitir que até mais do que do anjo.

— Mandrake teria sido um ótimo líder. — Rosalinda suspira. — Ele sempre estava nas sombras, mas sabia o que fazer e ele foi um bom braço direito para Mikayla até Charles aparecer.

— Charles tirou a cabeça dele do lugar antes de cortar. — Mira bufa.

Olho para meus pés, então existem outros reinos em outros mundos, afinal, acho que quando essa guerra passar eu posso ir até o reino de Mira, quem sabe encontrar esse irmão que ninguém sabe onde foi parar.

— Se Alice não vencer... — Mira recomeça. — Vai ser bom reinar com você dessa vez. — Ela afaga meus cabelos. — Acho que assim estarei me redimindo da traição que cometi com um velho amigo.

— Obrigado, eu acho... — Respondo.

— As três rainhas estiveram reunidas ontem a noite e agora os três governantes estão juntos em um novo amanhecer. — Rosalinda ri e apoia uma mão no meu ombro. — Eu acho que é um bom presságio.

Fico em silêncio absorvendo essa sensação, os três governantes, quero acreditar que dessa vez as coisas aconteçam da maneira certa.

— Mas eu preciso de um banho e você de um bom copo de leite, chega de momentos contemplativos, tive muitos nos últimos dias. — Mira bate na minha nuca me afastando. — Se contar pra alguém que me viu por aí vou aderir a onda de Copas e cortarei sua cabeça.

— Você não vai se juntar a nós? — Resmungo me afastando caso ela queira me acertar de novo.

— Vou pensar. — Mira sorri e Rosalinda suspira. — Agora andando, dragãozinho.

Bufo e cruzo os braços indo para a cozinha enquanto as duas seguem na direção contrária, mais um ponto para Lilith e mais uma peça na colcha de retalhos que é essa história de mundos e do Mandrake. Acho que vou mesmo aceitar a sugestão de Mira de tomar um copo de leite e quem sabe dormir um pouco para aguentar mais dor de cabeça que esse dia vai me dar.

XXX

A Nonsense assim como Nadia e as guardas decidiram nos colocar contra a parede e reafirmar sua decisão de que não iremos com os soldados, Lilith, Babel e até mesmo Caleb rebateram sobre, afinal alguém tem que manter esse teatrinho, suspiro e encaro Fox usando sua máscara.

— Pelo visto tudo o que fizemos nunca é valorizado por vocês. — Sussurro fazendo as discussões paralelas pararem, Maaka me encara franzindo as sobrancelhas. — Quando estávamos aqui nos perguntaram o que queríamos fazer porque confiavam em nós para isso, mas para Nonsense sempre seremos crianças que precisam de proteção.

— Nós não diminuímos os seus feitos, mas estamos sim pensando na sua segurança. — Alethos responde com um suspiro. — Especialmente você Cain com seu histórico de fugas e missões fracassadas, estar na linha de frente seria um risco pra você e pra... — Maaka a interrompe com um som que parece um silvo misturado com um rosnado de gato.

— Todos nós temos medos e cometemos erros... — Ele sussurra para Fox que o encara sem medo. — E eles foram mais longe do que qualquer um de vocês.

— Nós sabemos da sua inclinação a defender as crianças. — Nadia debocha e Maaka silva de novo. — Mas não vamos mudar de opinião.

— Ser justo não é nosso forte. — Ângelus resmunga alisando o cabelo e algo me faz acreditar que ele sabe que estamos apenas fingindo essa indignação. — Vocês vão estar melhores aqui.

— E outra coisa, você pode até falar bem às vezes senhorita raposa... — Abel começa cruzando os braços. — Mas saiba que se o Cain não fosse um fracasso em tudo eu não estaria aqui, por isso eu devo essa a ele.

Suspiro com a intromissão, mas pelo menos foi positivo eu ser um fracasso, acho que Ângelus sabe o que estamos tramando, mas assim como Maaka e Rosalinda não demonstrou ou se importou. Mira não apareceu pelo saguão real ainda e suas damas de companhia estarem sentadas fofocando como todos os dias me diz que ninguém sabe que ela deve estar com Rosalinda.

— Bem, meus fracassos a parte e quanto o Tobias? — Continuo com meu teatro. — Não podemos deixar ele, Taylor e Ethan sozinhos.

— Quando vocês forem para a linha de frente buscaremos eles. — Alethos diz dando de ombros. — Estarão seguros, até porque iremos cercar o castelo depois da casa do Dormouse.

— Vocês podiam deixar o Cain ir... — Lilith recomeça a discussão, suspiro.

— Não, eles não vão. — Reviro os olhos. — Podemos ficar com os cavalos hoje, pelo menos?

— Claro, acho que Abel e a Lilith não tiveram uma introdução a eles ainda, certo? — Fox perguntam, eles concordam e parecem bem desanimados. — Vocês sabem montar, não sabem?

— Não... — Lilith dá de ombros.

— Montar não é bem uma atividade que eu gostaria de praticar.

— O Cain e os outros sabem montar, alguns cavaleiros podem ensinar o básico pra vocês o principal é se darem bem com os cavalos. — Ela olha para os outros. — Acho que essa reunião já pode se dar por encerrada, agora iremos falar com os exércitos e nos preparar para amanhã. — Alethos suspira e se vira para conversar com os outros.

Suspiro cruzando os braços. Eu sabia que teríamos que fingir um embate, só espero que eles tenham acreditado em nós.

XXX

Quando eu me encontrei com Emof senti como se estivéssemos conectados e com Caleb não foi diferente, mas Lilith e Abel? Sinto que eles têm mais medo dos seus cavalos do que o contrário.

— Vocês nunca montaram...? — Caleb pergunta de novo.

— Eu não tive muitas oportunidades... — Lilith resmunga.

— Não é como se eu tivesse muitas também... — Abel complementa.

— Eu pude montar algumas vezes no internato, apesar de não ser algo que eu gostasse.

— Quem diria que logo você ia se dar bem com os cavalos. — Abel resmunga.

Reviro os olhos, do outro lado do pequeno estábulo Barbie e Babel escovam um cavalo branco, suspiro e olho para o cavalo baio e o vermelho que estão nas suas baías olhando para os donos.

— Podíamos tirar eles dali primeiro, dar uma escovada em cada um, vocês não precisam montar. — Recomeço.

— Você esqueceu que se quisermos ir mesmo depois dos adultos precisamos que eles montem... — Caleb rebate, encaro ele e respiro fundo.

— Como sempre sem tato nenhum. — Ele grunhe. — Nunca fui bom com animais, mas é como se eles soubessem quem somos, não posso explicar a sensação, mas acho que vocês deveriam tentar.

Olho para os dois e eles também trocam um olhar cansado, quem diria que eu estaria incentivando eles a algo, dou risada e eles se viram de cara feia.

— Acho que é minha oportunidade de ser o mais velho alguma vez. — Digo enquanto abro a baía de Etsep e seguro suas rédeas, ele está bem mais manso do que quando o vi em Queensland. — Você primeiro, não deveria estar com medo de um cavalo quando quer incitar um motim durante uma guerra.

— Quem é mesmo que não tem tato? — Abel ironiza.

— E você? — Apoio as mãos na cintura. — Você foi meu pior pesadelo por um longo tempo, por que tem medo de um cavalinho?

— Porque eu não tenho as duas pernas como você... — Abel grunhe.

— Já te vi fazer muita coisa que eu não consigo mesmo sem uma perna. — Abro a baía de Arreug e seguro suas rédeas. — Vocês não precisam ter medo, eu estou aqui para ajudar.

— Nós... nós estamos... — Caleb resmunga.

Lilith sorri e se aproxima do cavalo esverdeado, ela estende uma mão e quando ele não refuga, ela acaricia seu focinho. Abel anda determinado até o cavalo vermelho e o encara apoiando as mãos na cintura, ele bufa e o cavalo o imita o que gera uma risada vinda dele, acho que estamos progredindo.

Ou pelo menos é isso que eu espero.

XXX

A tarde já está começando a escurecer quando Maaka aparece no estábulo, ele olha para Lilith montada em seu cavalo e depois Abel que está sendo ajudado por Caleb já que eu não o alcanço em cima do cavalo, ele sorri e se senta ao meu lado.

— Acreditaram no nosso teatro? — Pergunto devagar.

— Quase todos, mas um tal de Marcel reforçou para ficarem de olho em vocês umas trinta vezes. — Maaka ri, sorrio, nunca subestimei o instinto dele. — E vocês progrediram?

— Um pouco. — Olho para os outros, Emof já está de volta a sua baía. — Eles conseguem montar como você pode ver.

— Espero que consigam fazer seu motim. — Ele ri.

— E Mira? Rosalinda falou alguma coisa?

— Nada, mas não acredito que ela vai ficar escondida quando formos e como a conheço aposto que vai fazer uma aparição teatral para dizer se vai conosco ou se fica aqui.

— Espero que ela resolva nos ajudar, não nos trair.

— Duvido muito.

Maaka fica em silêncio observando os outros, Babel leva seu cavalo para a baía e Barbie continua cavalgando na pequena área coberta onde estamos, os cavalos de Blanchess tem patas peludas e são maiores que os de Queensland.

— Vim avisar que iremos levar Daphne a presença da boneca de noite. — Me viro com medo para encará-lo, Maaka suspira. — Vocês não precisam estar presentes, mas resolvi avisar.

— Você já viu reflexos se encontrando? — Ele nega e me encara curioso. — É estranho, mas, às vezes nos damos bem.

— Eu imagino, como você deve imaginar, os vampiros não têm reflexos.

— Nem no espelho? — Maaka balança a cabeça.

— Isso é mito. — Ele suspira e sorri. — Quero dizer que somos únicos, cada vampiro tem um poder só seu, mesmo que herdado de uma linhagem ainda vai ter uma manifestação só sua.

— Deve ser incrível. — Olho para Lilith desmontando e Caleb se aproxima dela.

— Ser um rei também deve ser. — Sinto minhas bochechas esquentarem.

— Às vezes não me sinto preparado, quero dizer, tenho só 14 anos.

— Não precisa ficar preocupado com isso agora. — Maaka me tranquiliza. — Você vai ter bons conselheiros.

— Eu sei... — Abel vem em nossa direção e tento afastar a insegurança. — E vou ter ótimas pessoas do meu lado também.

— O que vocês estão fofocando aí? — Ele pergunta apoiando as mãos na cintura, uma pose quase recorrente aqui.

— Nada, futuro cavaleiro branco. — Maaka brinca e ele grunhe. — Acho que com minha desistência do título você se torna o único cavaleiro branco de novo.

— Blanchess não teve criatividade em nomear seus cavaleiros. — Ele rebate dando de ombros. — Eu sempre fui o original, da linhagem errada.

— Não seria a linhagem certa? — Pergunto.

— Cain, todos os cavaleiros brancos de Hearstplains deram errado, são a linhagem principal e mais errada.

— É, você tem um ponto. — Sorrio. — Mas a linhagem branca não fica muito longe disso se considerarmos o Ângelus.

— Nisso só tenho a concordar. — Maaka diz se levantando. — E amanhã irei limpar o meu nome como cavaleiro branco.

— Você nunca o sujou... — Murmuro e ele ri.

— Obrigado, espero vocês no jantar. — Maaka se afasta.

Quando ele desaparece pelo estábulo, Abel cruza os braços e bufa.

— Metido. — Ele resmunga. — Se fosse alguns anos mais novo eu beijaria ele.

Congelo e depois dou risada, os outros olham pra nós dois e Abel me encara vermelho.

— Maaka tem uma filha da nossa idade! — Guincho ainda rindo.

— Por isso eu disse se ele fosse mais novo! — Ele descruza os braços ficando mais vermelho.

— Bem, se ele fosse mais novo nunca se apaixonaria por você. — Continuo. — Você viu Maeve e ele é sério e inteligente, como eu.

— Claro que não! — Abel guincha de novo. — Você furaria meu olho assim? — Dou de ombros. — Tem sorte de não sermos parecidos ou eu faria Tobias achar que eu sou você e ficar comigo.

— Ele nunca cairia nessa nem se fossemos idênticos.

— Quem garante? — Ele levanta uma sobrancelha. — Aposto que se eu ficar um dia sem dormir posso me tornar tão ranzinza e chato quanto você.

— Eu me afasto cinco minutos e vocês já estão brigando de novo? — Lilith grita da sua baía.

— Ele que começou! — Dizemos em uníssono.

— Não importa quem começou. — Babel se aproxima rindo. — O que Maaka queria?

Às vezes queria que nossos problemas se resumissem a discussões assim, suspiro e conto para eles o que eu ouvi esperando para ver suas reações.

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