Hole

Eu ouço o silêncio

Sinto a adrenalina

Como se estivéssemos entrando na escuridão total

Alguma coisa não está certa

Mas é tarde demais para voltar, reinicie isso

Feche os olhos e ficaremos bem

Paralysed — RedHook

Quando Abel me solta agradeço por estar no chão e por não ter poderes, subo a escada correndo com ele atrás de mim, com facilidade Abel abre o sótão e chegamos ali em tempo recorde.

— Eu sei que você já tem o Caleb. — Ele começa arfando enquanto abro a janela procurando pelos outros. — Mas o primo dele era bem bonito também.

— Não é hora de falar sobre isso!

— É eu sei, o Cain deve tá usando a cara de escudo, mas eu precisava dizer isso pra alguém e a garota das armas também.

— É, ótimo que você notou isso, era bonita mesmo. — Apoio a arma na janela, eu nunca usei um rifle ainda mais um assim, olho pela mira, Cain de costas e Caleb parado na sua frente.

Vamos lá... olho em volta procurando por Hamnet, Yue e Babel lutam contra a menina que some e volta a aparecer, não sei o que Toby fez mas a deixou afetada. Cain para e vejo ali minha oportunidade, ajusto a mira e espero, Hamnet franze as sobrancelhas, prendo a respiração e puxo o gatilho ele recua, abaixo a arma e acerto sua perna o derrubando.

— Caramba, você é boa mesmo! — Abel sussurra. — Ainda bem que você nunca atirou em mim.

Bufo e reviro os olhos, Caleb sai correndo, mas Cain continua no mesmo lugar, aperto as sobrancelhas, Abel arqueja e vejo Hamnet se sentar. Um calafrio sobe pela minha espinha e sem pensar muito mudo a mira para seu peito, vamos lá Cain... Hamnet flexiona os braços e parece estar falando, só tem um jeito de terminar isso, eu não posso deixar ele vivo agora porque se deixar ele vai matar o Cain, respiro fundo e levanto a mira para sua testa e atiro antes que ele se levante.

Abel fica em silêncio, fecho os olhos com força, um grito me faz entrar em alerta e abro os olhos de novo, Judith grita sobre o corpo do irmão, engulo em seco. Olho em busca dos outros, Toby olha na nossa direção, ele está puxando Cain.

— Uo-oh. — Abel sussurra. — Estamos ferrados.

Olho para o céu escuro e entendo. Eles soltaram o pássaro JubJub.

XXX

Abel parece voltar a raciocinar mais rápido do que eu, ele puxa a arma da janela e a fecha com força. Puxo o ar e olho pra ele.

— Precisamos chegar até o túnel rápido.

— Chegar ao túnel vivos. — Eu acho que preferia ter ficado com alguém mais positivo. — Eu sei que não temos muito tempo, mas você fez a coisa certa, mesmo que... mesmo que... enfim você salvou o Cain. Ele nunca ia parar e sabemos que o Cain é menos durão do que a gente, de qualquer forma eu posso te carregar pra gente compensar a ajuda emocional.

— Não! — Ele aperta as sobrancelhas. — Guarde isso pra se a gente precisar, vamos só correr se a situação piorar pode me pegar no colo, mas obrigada eu nunca tinha... matado alguém antes.

— Isso vai voltar pra te assombrar depois, mas agora precisamos correr. — Ele dá uma última olhada no sótão. — Vamos, já me despedi o bastante e não quero pegar fogo.

Consinto e nós dois descemos a escada lado a lado, lá embaixo a fumaça já começou a tomar conta da casa, Abel cobre minha boca enquanto empurra a porta com os ombros, o calor me atinge em cheio quando saímos, as barracas em volta já queimaram quase que por completo e o fogo se aproxima lambendo as poucas tendas que encontra no seu caminho, passo a arma pelas costas e segurando o braço dele começo a correr para longe da fumaça, a árvore TumTum fica pela outra saída em direção a casa do Dormouse o fogo é uma boa cobertura agora.

Escuto um grito que gela minha espinha e o pássaro negro de duas cabeças dá um rasante na direção em que os outros estavam, arregalo os olhos.

— Os outros sabem se virar. — Abel continua me puxando. — Eles têm o Toby, temos que correr.

— Mas e se...? — Abel me encara, sustento seu olhar até ele revirar os olhos.

— Qualquer sinal de perigo eu te tiro daqui. — Consinto e corremos da direção contrária.

A fumaça parece mais densa desse lado, com o dobro de esforço saímos perto de onde os cavalos estão, Barbie, Taylor e Ethan tentam soltá-los, mas eles parecem mais agitados do que nunca por causa do fogo.

— Ei! — Grito chamando a atenção deles, pulo o balcão de madeira e Abel me acompanha. — Aqui, cavalinhos... — Olho pra ele em busca de apoio.

— O Cain é que é bom com isso. — Ele resmunga e levanta as mãos tentando acalmar seu cavalo. — Vamos sair daqui seus estressados!

— Não é assim que se fala com eles. — Ethan resmunga, definitivamente é um parente do Caleb. — Eles não nos deixam segurar os arreios.

— Tente o cavalo branco, ele é do Caleb, deve te reconhecer. Barbie o cavalo da Yue, você pode me ajudar.

Taylor se aproxima e só então noto que ela tem um rabo, mas minha surpresa fica para depois, consigo segurar os arreios de Etsep e ajudo Taylor a segurar Emof, Abel tem mais sucesso já montando Arreug e Barbie leva o cavalo negro de Yue para fora do cercado. Ethan conseguiu montar Etrom também. Quase morro de susto quando alguém bate do outro lado da barraca, Cain e Toby se apoiam no balcão respirando rápido e tossindo.

— Cadê os outros? — Guincho indo até eles.

— Distraindo o pássaro. — Toby tosse. — Temos que ir até eles.

Com uma agilidade que eu não sabia que tinha monto Etsep, estico minha mão para Taylor que sorri e aceita subindo também, Cain salta o balcão e ele e Toby montam Emof, temos cinco cavalos e dez pessoas eu espero que isso funcione.

Os cavalos não parecem ter sido afetados pela fumaça, menos o de Yue que resfolega mais do que os outros, Cain abre caminho com Emof voltando por onde vieram e vejo o pássaro monstruoso no chão, Caleb arrancou algumas penas dele enquanto Babel e Yue balançam os braços e se movem em volta dele fugindo das duas cabeças. É aqui que eu percebo que só teremos uma chance de fugir daqui, engulo em seco e aperto as rédeas com mais força, você deve estar orgulhosa de mim Mira, fiz sua entrada triunfal e talvez nem escape dela para te contar.

XXX

Ethan passa na frente de Cain e estende a mão puxando Caleb que parece mais afetado pela fumaça. Tusso e paro meu cavalo também, troco um olhar com Cain.

— Vai na frente! — Ele grita. — Você tem que abrir a árvore para nós.

— Mas e vocês?

— Eu seguro ele. — Toby tenta sorrir, mas faz apenas uma careta. — Pode ir.

Bufo e puxo as rédeas virando Etsep, Abel e Barbie avançam contra o pássaro enquanto Cain e Toby ficam a uma distância segura.

Etsep corre na direção contrária como se o mundo não estivesse pegando fogo, escondo o rosto nos braços em vários momentos para escapar de pedaços destruídos da decoração ou das chamas, Taylor tosse e seu rabo afasta as coisas que eu não vejo. Saltamos uma barraca e aproveito para olhar pra trás, vejo lampejos laranjas e guinchos que parecem cem corvos gritando juntos.

— Confie neles. — Taylor tosse e aperta minha cintura. — A gente vai sair dessa.

— Já entramos, é o mínimo. — Cubro o rosto e o calor me faz fechar os olhos quando saltamos por cima de mais uma barraca. — Mas se Alice não nos matar, uma guarda de Espadas vai.

— Viva pra escapar dessa então. — Taylor ri.

Viver para escapar de mais encrenca parece uma boa, bato os pés contra o corpo de Etsep e ele começa a correr mais rápido, já posso ver a saída do parque, olho para trás e consigo ver os cavalos seguindo o nosso rastro.

Saímos do Vale das Lágrimas e o ar fresco parece uma benção, respiro fundo sentindo o cheiro de queimado que não vem só do parque mas de nós, Etsep parece saber para onde estamos indo, correndo mais rápido pelo vento da noite. Olho para trás os outros ainda não saíram, um estrondo levanta uma nuvem de fumaça e fogo dentro do parque, meu coração gela quando o pássaro JubJub levanta abrindo suas asas, os cavalos saem pela entrada do parque, aqui fora a céu aberto estamos mais vulneráveis do que dentro do fogo.

Um círculo laranja barra minha visão e outro aparece atrás de nós onde Emof é o primeiro a passar me fazendo dar um grito de susto, os outros cavalos passam e a luz laranja some, Tobias é realmente incrível. O pássaro negro grita e agita suas asas alçando voo com dificuldade em meio aos escombros.

— Precisamos nos separar! — Cain grita. — Ele não pode atacar todos de uma vez.

— Já estamos perto! — Grito sobre o vento e o barulho dos cascos. — Melhor não!

— Deixa comigo! — Toby grita em resposta, escuto um não rouco que deve ter vindo do Cain.

— Eu derrubo ele! — Grito olhando para Taylor.

— Ma'am! — Ela ri e seu rabo se enrola na minha cintura e ela pega as rédeas das minhas mãos. — Eu cuido do seu corcel, minha rainha.

Passo as pernas para um lado do cavalo e tiro a arma das costas, Taylor indica seu ombro com a cabeça, ainda bem que ela está usando uma armadura no busto, apoio o rifle ali bem quando o pássaro JubJub começa a se aproximar.

— Se você abrir esse compartimento de coração, tem umas balas especiais nele. — Ela diz orgulhosa.

— Você é incrível.

Tiro duas balas do coração, elas são vermelhas e pretas, devo admitir que Cain tem influência nesse rifle também, é fácil trocar o compartimento das balas normais e encaixar as especiais prontas para atirar, simples e prático.

Olho pela mira e prendo a respiração, vamos lá, eu já fiz isso antes. O primeiro tiro atinge a asa do pássaro que grita e afunda um pouco, mas continua voando atrás de nós, engulo em seco.

— O que foi? Ouvi tantas histórias de você.

— Ouviu? — Sussurro, Taylor ri.

— Seu irmão e seu namorado gostam muito de você.

— Ele não é meu namorado. — Consigo dar risada mesmo que nossas vidas estejam por um fio.

Descarrego o rifle e coloco a outra bala no coldre, eu vou derrubar esse corvo idiota custe o que custar. Olho pela mira mais uma vez, dessa vez eu vou acertar pra valer.

— Estamos chegando! — Cain grita na minha frente.

Só mais um pouco... fecho um olho e aperto o gatilho. A bala segue em direção ao peito do pássaro JubJub, mas uma redoma negra a rechaça. Arregalo os olhos sem entender nada quando o pássaro pousa e grita, a sua frente a mesma redoma toma a forma de Judith que grita também.

— Vocês tiraram tudo de mim! TUDO! — Lágrimas brancas molham seu rosto sujo de fuligem. — E agora eu vou tirar tudo de vocês também!

Antes que Judith faça alguma coisa Yue se joga sobre ela rasgando sua garganta com suas garras, Taylor puxa as rédeas de Etsep, os outros cavalos não param e eu não consigo olhar para eles, por que estamos indo?

— O que vocês estão fazendo? — Yue se vira pra gritar, o pássaro grita de novo e também escuto um som assustador que deve vir de Judith. — Vão!

— Mas... — Consigo murmurar. — Não!

— Você não entende mesmo, não é? — Ela ri como se a situação fosse engraçada, o pássaro grita de novo fazendo Taylor puxar as rédeas para voltarmos a andar. — Vocês são o futuro da Nonsense, menina idiota.

O pássaro JubJub mergulha seu bico nas costas de Yue que grita de dor, mas já estamos correndo para longe dela.

Não, não, não.

Olho pela mira e atiro, mas o cartucho está vazio e minhas mãos tremem demais para colocar novas balas, Taylor aperta mais o rabo em minha cintura e é quando percebo que estou gritando enquanto cada vez mais nos afastamos de Yue, Judith e do pássaro JubJub.

Tudo começou porque eu briguei com ela e agora a resposta está aqui.

Mergulho na escuridão e sei que conseguimos entrar na árvore TumTum, as raízes se fecham e minha última visão do céu noturno manchado pelas fumaça e um último grito cortando a noite.

XXX

— Nós temos que voltar! — Digo voltando ao poder do meu corpo, Taylor me solta e eu salto no chão. — Yue precisa de ajuda, o pássaro e Judith...

— Lilith... — Cain se aproxima, encaro ele, mas minha visão está borrada. — Ela já se foi...

— Não! — Guincho recuando um passo. — Ela tá lá sozinha, nós temos que... temos que... — Olho para as raízes em vão. — É minha culpa!

— Não! — Abel se aproxima também, Taylor está ao seu lado. — Eles sabiam que íamos pra lá, estavam de tocaia.

— Eles não conseguiam ir do castelo até lá. — Cain continua. — Da última vez eles nos acharam, mas não nos atacaram no Vale das Lágrimas, eles já estavam ali nos esperando.

— Mas... mas eu gritei... — Solto o rifle e sou abraçada por Cain e depois sinto Abel também. — É minha culpa...

— Não é sua culpa... — Escuto Caleb dizer em algum ponto, mas não consigo me afastar.

— Sabíamos dos ricos, Yue fez aquilo porque não conseguiríamos chegar aqui se a Judith voltasse a nos atacar. — Toby diz devagar. — Ela nos salvou, todos nós, não foi culpa sua. Se te consola, me culpe, já que não sei usar meus poderes ainda e encrenquei a gente.

— Pode parar aí. — Taylor resmunga. — Eu não sei quem ela era, mas fez isso para todos nós, como o Dormouse disse.

— Se os outros voltassem também seria um risco com a Judith pra soar o alarme, o pássaro deve voltar para o castelo. — Babel responde.

Mas eu sei que tenho culpa, eu alertei a eles sobre a nossa localização, briguei com ela, apesar dos métodos Yue continuava tentando nos proteger. Um calafrio faz eu me afastar dos dois, olho para o chão onde um amontoado de sombras com olhos brilhantes me encaram, pisco para afastar as lágrimas e volto a olhar para os outros.

Todos estão sujos de fuligem e tristes, abaixo meu olhar para as sombras, nós sabíamos dos riscos, e eu pensei que sim, mas agora percebo que eu não estava preparada. Não para perder alguém de verdade assim.

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