Dollhouse
Há uma guerra dentro da minha cabeça
E eu estou me afogando em arrependimento
Quando as luzes se apagam
Tenho uma coroa vazia
As peças que faltam no meu corpo
Não podem se juntar
Empty crown — Yas
Mal consegui comer o jantar pensando no que Daphne vai falar ou fazer, nem mesmo sei se estou preparada para vê-la de novo. Não tem muitas pessoas aqui, Abel e Cain ficaram comigo assim como Caleb. Bankotsu e Jaken estão com a Doll e Nadia próxima a porta esperando, é uma sala pequena que está cercada por guardas do lado de fora, mas nem tudo isso me deixa tranquila.
Escuto passos no corredor e Abel apoia a mão no meu ombro me tranquilizando. Dessa vez vai ser diferente, e Maaka já mostrou que pode me defender dela, respiro fundo e espero pela Chapeleira.
Quando a porta se abre, meu sangue gela e contenho o impulso de me esconder apenas levantando a cabeça, os olhos vermelhos varrem a sala até se focar em Doll e um sorriso cruel cruza o rosto dela. Maaka empurra ela para dentro da sala e fecha a porta.
— Ora, por que não me avisaram que íamos brincar de boneca? — A Chapeleira começa rindo. — Mas vocês já trouxeram a minha de qualquer forma, e vejam só, tem mais de vocês agora. — Ela me encara.
— É, quem diria, não é mesmo? — Abel rebate. — Mas logo menos, só vai ter uma de você.
Ela faz uma careta e mostra os dentes, depois que meu medo passa consigo reparar em sua aparência, as roupas brancas estão sujas, os cabelos também e seu rosto está mais magro, me sinto mal por ela, mas não poderíamos arriscar ninguém para deixá-la solta. Maaka a senta em uma cadeira e a algema nela, duvido muito que a Chapeleira possa fazer como ele e quebrar suas amarras.
— Então? Ninguém é corajoso o suficiente para me falar sobre o que vai acontecer aqui? — Ela olha de um ao outro.
— Acho que você sabe o que vai acontecer por aqui. — Jaken rebate.
— Vocês dois sempre juntos. — Ela cospe no chão. — Aposto que foram juntos que quebraram ela também e agora, como são egoístas, vão acabar comigo da mesma forma.
— Admita, você é perigosa demais para te soltarmos. — Nadia bufa. — Diferente de todos que parecem ficar bons quando conversam com essas crianças, você agarraria a primeira oportunidade para dar cabo de qualquer um aqui. — Ela suspira. — É isso ou a forca, você escolhe.
— Com tantas opções boas. — Ela ironiza. — Já que vocês vão acabar comigo, espero que saibam que Alice deve estar preparada para essa rebelião.
— Por quê? — Pergunto franzindo as sobrancelhas.
— Faz mais de uma semana que eu fui enviar a resposta de Mira sobre o tratado das rainhas, Alice não é burra. Ela deve ter percebido o silêncio de Queensland e Blanchess, você acha que nenhum mensageiro apareceu ainda por que?
Perco o ar por um segundo e o pânico toma conta de mim, como se estivéssemos encurraladas na torre branca de novo.
— E você acha que não estamos mais bem preparados do que ela? — Cain diz ao meu lado me trazendo de volta. — Temos dois reinos aqui, dois exércitos, pessoas do outro lado e criaturas tão antigas quanto a própria Wonderland, se eu fosse Alice seria esperta em ficar em Heartsplains.
— Você fala bonito lagartinho. — Ela dá de ombros. — Mas vocês ainda são só um bando de desgarrados.
— Alice também era quando virou "rainha". — Abel faz aspas com os dedos.
— Você não nos assusta. — Caleb sussurra. — Alice pode vir até nós ou nós iremos até ela, não importa a ordem só que nós seremos vencedores em qualquer lugar.
Agradeço por dessa vez estar com eles ao meu lado, respiro fundo e encaro a Chapeleira que bufa.
— Que ela venha se tiver coragem. — Sorrio. — Você podia ter ficado com o Dormouse, ter ajudado ele e não o lado errado...
— Nunca foi o lado errado para mim. — Ela faz o melhor para dar de ombros. — Dormouse é só um rato deprimido com sua sombra igualmente triste. — Ela encara Bankotsu. — Não tenho culpa se nós fomos para o lado da Alice, foi a primeira vez que pudemos escolher algo, não é divertido ser um peão em um jogo que não muda. Ninguém gosta de ser sempre a mesma coisa, "faça chapéus e mais chapéus" ela dizia, mas quando a loucura veio, quando a guerra bateu a porta, o que fazer chapéus adiantaria?
Um silêncio estranho toma o quarto, acho que todos desse lado entendem o sentimento e eu culpo Copas por isso, abaixo o olhar fechando as mãos em punho, uma rainha idiota que não viu além dos títulos como a Nonsense não nos vê como nada além de crianças.
— Ter uma escolha foi o que me fez mudar de lado, ficar ruim se vocês assim acreditarem, mas apesar de tudo, Alice nunca nos fez assumir papéis idiotas.
— Ah ela fez algo pior. — Cain sussurra. — Ela dividiu sua loucura com vocês. Te deu falsas oportunidades, se fosse algo de verdade você não estaria aqui isolada em Blanchess, se você tivesse importância estaria na corte de Heartsplains. Você teve uma escolha, mas essa escolha não te tirou de um molde e quando você menos percebeu estava aqui de novo. — A Chapeleira o encara e vejo compreensão naqueles olhos vermelhos que não parecem tão cruéis agora. — Alice te enganou talvez até mais do que Copas, porque com ela não existe conversa, não existe acordo, não existe liberdade. — Ele suspira e cruza os braços.
— Se um dia você colocar a coroa, faça algo bom. — Ela sussurra olhando pra mim.
— Não sou eu que vou colocar a coroa. — Dou de ombros e sorrio para Cain.
— Então talvez tenha alguma liberdade no futuro, não sei, sempre sou enganada por palavras mesmo. — Ela ri e uma lágrima solitária escorre pela sua bochecha pálida.
Sem nenhuma deixa ou outra palavra trocada, Jaken dá corda em Doll e mais nostalgia me faz lembrar de como tudo isso começou. A música baixa começa a tocar e quando termina ela abre seus olhos de vidro vermelho.
— Oh, então você é a do lado de lá e menos humana do que eu, que ironia. — A Chapeleira ri, Maaka se afasta dela e é como se todos dessem um passo para trás involuntariamente. — Seja rápida.
Doll se levanta com graciosidade e dá alguns passos até seu reflexo que levanta a cabeça para olhar pra ela, a boneca e sua versão humana se encaram por alguns segundos onde só os cliques suaves da porcelana podem ser escutados.
— Você lutou bravamente. — Doll sussurra com sua voz baixa. — Mas pode descansar agora Daphne.
Daphne ri e suas mãos se soltam da cadeira, ela abraça a cintura da boneca e as duas são envolvidas por uma luz fraca que diminui cada vez mais e quando some de vez Doll está parada sozinha, ainda com articulações de boneca, mas que não parecem tão frágeis assim, seus olhos piscam encarando os próprios dedos e ela gira no lugar procurando pela chave que antes ficava no seu pescoço.
— Eu estou... viva de novo? — Ela pergunta se virando para Bankotsu e Jaken.
Os dois a abraçam e sorrio feliz com esse reencontro. Talvez Daphne não fosse uma pessoa ruim, ela só seguiu os caminhos errados. A porta da sala se abre e o momento caloroso é apagado quando meu sangue gela vendo quem está entrando no recinto acompanhada por suas damas de companhia. Mira sorri e bate palmas chamando a atenção de todos.
Nadia saca uma espada da lateral do corpo e Gareth recua, Bankotsu puxa Doll para longe dela e Mira ri.
— Que belo reencontro. — Ela brinca apoiando uma mão contra o peito. — Eu estou emocionada.
— Não pense que porque seu cão de guarda se foi nós vamos pegar leve com você. — Nadia rosna.
— Quanta hostilidade. — Ela balança a cabeça. — Eu disse que eles iam reagir assim.
Nadia pisca e olha para Rosalinda que parece envergonhada de vir depois da entrada teatral de Mira, Maaka suspira e cruza os braços, quando sou encarada pela carranca da general dou de ombros.
— Eu estou do lado de vocês. — Mira revira os olhos. — Só quis esperar a comoção passar. De qualquer forma, alguém precisa cuidar da fronteira onde o exército branco vai ficar e quem melhor do que sua rainha para fazer isso, não é mesmo?
Não sei o que Mira planejou com sua entrada, mas tudo que ela consegue são olhares confusos e raivosos, suspiro, acho que nosso momento de paz não durou tanto assim.
XXX
— Por que eu não estou surpresa? — Fox pergunta apoiando o rosto nas mãos.
— Deveria? — Marcel rebate.
Mira está em pé em frente ao trono enquanto eles estão sentados na escada, Charles não está aqui e Mira não pareceu nada feliz em rever seu antigo cavaleiro branco.
— Foi uma grande surpresa quando a rainha disse que iria nos ajudar. — Opalina diz animada.
— Nunca quisemos que ela fosse tirada de nós. — Pérola suspira.
— Ela não pode ser presa de novo. — Marfim balança seus cabelos brancos.
— Acho que eu não vou. — Mira sorri apoiando as mãos na cintura. — A menina demorou dias para me convencer a fazer alguma coisa, dêem esse crédito a ela e outra, alguém que conhece o reino e os exércitos tem que ficar na fronteira.
— Não sei... — Nadia resmunga. — E se você resolver nos atacar por trás?
— Eu não seria idiota a esse ponto. — Mira resmunga ofendida.
— Será mesmo? — Ângelus dá de ombros.
— E você? Vai se fingir de morto de novo? — Mira provoca.
Respiro fundo e olho para Barbie que dá de ombros, Babel e Caleb estão de pé atrás de nós, Cain e Abel sentados no chão, não queríamos estar aqui nessa discussão boba de adultos.
— Eu garanto que Mira não fará nada. — Rosalinda intervém. — Até propus que ela fosse conosco, mas ela pode ser afetada pela febre do pólen.
— Há anos que não saio do reino. — Mira suspira. — E vocês não podem adiar mais um dia, não quando sabem que Alice já está esperta.
— Nisso ela tem razão. — Ângelus suspira. — Não podemos perder tempo com apenas Mira querendo ajudar, temos que agradecer esse milagre.
— "Apenas Mira". — Ela bufa. — Não sou um peso morto.
E Mira sabe que vamos fazer nossa própria invasão o que eu considero outro ponto positivo, já que ela não vai nos impedir, respiro fundo pronta pra entrar nessa discussão.
— Mira vai poder nos ajudar. — Começo com o óbvio e Nadia se vira irritada comigo. — Vim desde o começo tentando trazê-la para nosso lado, não foi uma decisão imprudente.
— Exato, ela se esforçou. — Mira zomba.
— Mira é tão útil quanto Maaka ou Galahad. — Cain me ajuda. — Ela sabe liderar o exército branco e estará conosco, mais um par de olhos, não é?
— Nem cem mil pares de olhos segurariam vocês... — Marcel resmunga.
— Deixe as crianças... — Mira balança a cabeça. — E veja bem, ambos os cavaleiros mais experientes vão com vocês, eu sou a terceira opção.
— É? — Pergunto, Mira me olha chocada. — Desculpa, não ouvi nada a respeito de você lutar.
— Assim você me ofende. — Ela bufa.
Mira sobe o lance de escada com rapidez e vai até uma portinha atrás do trono, ela passa os dedos por ela que se destranca e a abrindo ela tira uma coroa translúcida com pedras brilhantes.
Penso que ela vai colocar a coroa, mas se virando para mim ela a segura com uma mão e a coroa se enrosca na mão dela, levanto as sobrancelhas, a coroa se alonga até virar uma lâmina furta cor delicada e longa, olho admirada.
— Uma espada mágica forjada em sangue de um príncipe amaldiçoado parece boa o suficiente pra você? — Ela brinca.
— Quem era o príncipe? — Cain pergunta.
— Vou contar essa pro Tobias... — Abel provoca e Cain o empurra. — Você não entende uma brincadeira não?
— Um príncipe loiro irritante. — Ângelus responde dando de ombros.
— Ele era bom. — Mira olha pra espada com ternura. — E salvou meu reino, agora tenho a oportunidade de usar essa espada para algo bom também.
Pisco ainda admirando a lâmina, ter uma arma só sua deve ser bom, fazer história com ela, como a espada de Caleb ou o chicote do Cain, mas também existem espadas ruins como a Vorpal...
— E então? — Mira recomeça.
Alethos suspira e troca um olhar com Marcel, eles parecem se entender mesmo sem palavras e depois olham pra Nadia que cruza os braços.
— Por mim tudo bem Mira ficar. — Maaka se manifesta.
— Estou com o cavaleiro branco. — Gareth sorri.
— Não vejo mal. — Aolon dá de ombros.
— E você? — Mira solta a espada que volta a se transformar em uma coroa.
— Tudo bem. — Nadia bufa. — Mas se algo acontecer, eu avisei.
Mira sorri e coloca sua coroa, os membros da corte branca começam a sussurrar e depois os da guarda vermelha. Ela revira os olhos e balança a cabeça olhando para mim e Rosalinda depois.
— Vamos lá vocês duas, as três rainhas reunidas e sem se odiar é um evento único. — Mira sorri. — Deve ser celebrado.
Sinto meu rosto esquentar e apoio as mãos nos ombros de Cain, mas ele se afasta e me olha de cara feia.
— Ela disse rainhas, não futuro rei. — Ele provoca em um sussurro.
— Se você vai ser rei eu posso ser o príncipe? — Abel sussurra também.
— Você é o substituto caso o rei morra. — Caleb resmunga. — Não um príncipe.
— Ele pode ser príncipe se eu quiser. — Cain rebate.
Começo a rir quando meu pulso é puxado e Mira sorri me segurando e levando para o centro do salão em frente ao trono, ela se afasta e puxa Rosalinda também que parece tão desconcertada quanto eu.
— Vamos Blanchess dêem uma salva de palmas para a Rainha de Copas! — Mira levanta meu braço e eu gostaria de sumir quando todos no salão batem palmas, até mesmo meus amigos e Fox e Marcel. — Uma salva de palmas para sua Rainha Branca, agora no caminho certo. — Mira sorri orgulhosa das palmas. — E por último, mas nunca a menos importante, Rainha Vermelha! — Bato palmas para Rosalinda também e observo quando Mira abaixa sua mão e a puxa pra um beijo, me engasgo.
— EU DISSE QUE ELAS ERAM AMANTES! — Abel grita fazendo as duas se separarem.
Dou risada e aproveito enquanto Mira está gritando com ele para voltar pro meu lugar, é bom ter as rainhas reunidas, mas não quero toda essa atenção pra mim, acho que realmente não nasci para a coroa só para salvar o reino com a minha teimosia.
XXX
Mais um capítulo perto da guerra finalmente -q e temos aqui muitas referências a Cave Bestia nas falas da Mira e do Ângelus 🥺 que ainda está no wattpad, mas logo menos vai virar ebook então corre pra aproveitar 👀
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