Chess move
E se eu te contasse tudo
Você me chamaria de louco?
Porque baby, eu sou uma estrela negra, estrela negra
Meu coração nasceu do fogo
Eu perdi o amor há mil anos
E ainda assim, não consigo encontrá-la
Dark star - Jaymes Young
O mapa na nossa parede tem uma nova rota traçada que não segue nenhuma do exército vermelho, branco ou Nonsense. A rota até o Vale das Lágrimas precisa ser alterada porque cruzar o caminho da Nadia pode ser mais mortal do que essa guerra, e feita de uma forma rápida para não tentarem nos interceptar quando souberem o que fizemos.
— Precisamos esconder esse mapa. — Cain diz olhando para ele sorrindo orgulhoso, sorrio em resposta.
— Você acha que conseguimos ir em um único dia mesmo? — Pergunto soltando o mapa da parede, Barbie está dormindo com a cabeça apoiada no colo da Babel, Abel também já dormiu a algum tempo.
— Nós teríamos chegado a Blanchess mais rápido se tivéssemos vindo na frente com os cavalos. — Caleb responde se espreguiçando. — Precisamos que você e Abel façam contato com os seus logo, só assim nós vamos saber do que eles são capazes.
— Nós podemos ir de carona com vocês. — Babel murmura. — Da casa do Dormouse seguimos com algum outro.
— Avisarei ao Toby sobre. — Cain suspira. — Afinal, sairemos de lá com mais gente também.
— Então... — Olho para eles enquanto dobro o mapa. — Estava pensando em ver Maaka, ela deve estar sozinha agora a noite eu gostaria que soubesse o que vamos fazer.
— Ela não vai nos dedurar? — Caleb pergunta desconfiado.
— Você sabe que não. — Cain bufa. — Durante a reunião ela foi a única pessoa que tentou impedir Alethos de nos expulsar, mas por que agora?
— Amanhã todos estarão a cercando, se eu me aproximar vão desconfiar. — Entrego o mapa para Caleb que o guarda no casaco. — Podem descansar, eu vou voltar logo.
— Não faça nenhuma loucura. — Caleb resmunga.
— Não vou. — Cain levanta uma sobrancelha, depois se abaixa para acordar Abel que resmunga e se revira na cama. — Pode deixar ele aí.
— Você que sabe. — Ele olha pra Caleb e pisca. — Só eu e você então?
— Faça isso de novo e eu quebro o seu nariz. — Dou risada e Babel também.
— Só não digo que vocês se amam porque o Toby me mataria. — Ela brinca.
— Eu vou indo e não quero ninguém com o nariz quebrado quando voltar. — Sussurro indo para a porta.
Escuto Cain e Caleb discutindo enquanto Babel ri, subo as escadas em direção ao topo da torre e espero que Maaka nos apoie de verdade. Paro em frente a porta branca e quando levanto a mão para bater ela se abre e Maaka sorri do outro lado.
— Pensei em bater na porta quando subi, mas vocês pareciam animados, não quis atrapalhar. — Ela se desculpa me dando passagem.
— Estávamos tramando algo. — Digo quando entro e me sinto nervosa, mas quando Maaka olha pra mim seu sorriso me tranquiliza.
— Eu sabia que estariam. E de qualquer forma eu consigo escutar vocês e nem estou falando dos meus poderes. — Sinto meu rosto esquentar. — Você sabe que eu vou apoiá-los, claro que sabe, senão não viria aqui agora.
— Obrigada. — Maaka afaga meus cabelos.
— Eu sei que o seu lado só quer protegê-los, mas isso faz eles verem vocês apenas como crianças assustadas brincando de guerra. — A encaro. — Eles não conseguem ver o quão incríveis essas crianças são por isso.
Abraço Maaka que ri e me abraça de volta, se eu pudesse escolher uma mãe com certeza seria ela, me afasto e respiro fundo.
— Obrigada por tudo, mas eu quero te pedir uma coisa, uma coisa que eu não falei para ninguém e só confio em você para isso.
— O que é? — Maaka se abaixa para ficar da minha altura.
— Eu quero contar tudo a Mira. — Maaka aperta as sobrancelhas. — Eu quero ela do nosso lado.
— Você sabe que não vai ser fácil...
— Eu sei! — Digo exasperada. — Mas eu quero tentar, você poderia vir comigo? Só não quero ir lá sozinha de novo.
— Mira é como o gelo, bonita e fria e essa frieza às vezes pode machucar. Ela te afastou, não foi? — Consinto. — Eu vou, mas já aviso que não posso fazer muito.
— Só de estar comigo vai deixar tudo melhor.
Maaka se levanta e descemos pela escadaria em silêncio, invejo seus passos por não fazerem nenhum som enquanto eu tenho que pisar devagar e evitar qualquer estalido, saímos da torre e ela olha para o longo corredor vazio.
— Vamos pelos corredores normais. — Digo, ela levanta uma sobrancelha. — É uma oferta de paz.
— Se você está dizendo.
Caminhamos pelos corredores conversando em sussurros, Maaka ri quando conto do que achamos da festa do chá e de como Maplebell nos mostrou suas transformações.
— Eu fiquei muito feliz quando ela não demonstrou ter os meus poderes. — Ela diz suspirando. — Se Maplebell pudesse manipular o sangue estaria correndo perigo, é uma habilidade muito cobiçada por outros vampiros.
— Só sua família podia manipular o sangue? — Ela consente.
— E agora eu sou a última. — Maaka suspira. — É por isso que me afastar da minha família foi minha única opção, até agora, quero dizer se eu vencer uma guerra o que serão alguns vampiros?
— Quando eu for chefe da Nonsense. — Ela sorri com orgulho antes mesmo de eu continuar. — Vou fazer amizade com todos os vampiros e proteger aqueles que precisarem de ajuda.
— Nós, vampiros necessitados, agradecemos.
Damos risada, mas Maaka se cala repentinamente, congelo de medo de alguém da Nonsense nos ver andando pelos corredores a noite, mas quem vira o corredor a nossa frente é Rosalinda que se assusta também ao nos ver.
— Garotas... — Ela diz com um sorriso nervoso e uma mesura.
Olho para Maaka que consente, certo.
— Estamos indo ver Mira, a senhora não gostaria de ir conosco? — Rosalinda torce as mãos e olha de Maaka para mim.
— Eu não consigo... — Ela admite em um sussurro. — Já fui ao jardim de inverno inúmeras vezes, mas não consigo entrar, não sei o que ela vai pensar ou como vai reagir.
Quando Rosa abaixa a cabeça algumas lágrimas molham seu vestido, engulo em seco e caminho até ela sem saber muito o que fazer, Maaka esteve ao meu lado o tempo todo e foi fácil me abrir com ela, mas Rosalinda ainda parece uma estranha pra mim. Respiro fundo e seguro suas mãos entre as minhas.
— Eu sei como é ter que encarar alguém que ama quando você não sabe o que fazer, seja pelos seus erros ou pelos dessa pessoa. Eu me senti assim quando me reencontrei com o Abel e foi horrível, a pressão, o medo, a vontade de esquecer tudo e recomeçar... — Ela me encara. — Mas nós conseguimos e hoje eu sinto que foi besteira ter tanto medo, o perdão é menos assustador do que parece.
— Obrigada Lilith... — Rosalinda sorri e seca as lágrimas. — Mas ainda não consigo fazer isso.
— Vá conosco então. — Maaka propõe. — Não precisa entrar, deixarei a porta aberta e ficarei de guarda, Mira não vai desconfiar de que estou apenas protegendo a Lilith.
Rosalinda olha para mim e para ela tentando tomar uma decisão, por fim abaixa a cabeça e consente, sorrio apertando sua mão que ainda está entre as minhas. Volto a andar na frente com Rosalinda e Maaka mais atrás, mas não há mais conversas agora.
Quando chego ao jardim de inverno Rosalinda faz uma careta e por um minuto acho que ela vai voltar pelo corredor, mas ela respira fundo e se encosta na parede sem falar nada, giro a chave na fechadura e Maaka sorri abrindo a porta e se encostando no batente, olho para dentro na esperança de Mira estar dormindo, mas ela está parada de braços cruzados, quando me vê sua postura muda e ele fica duas vezes mais imponente.
— Oi... — Sussurro não saindo muito do lado de Maaka. — Eu vim te ver...
— Vocês devem estar ocupados, esqueceram que eu preciso comer. — Mira olha para Maaka e torce o nariz. — O que ela quer aqui?
— Estou apenas de olho. — Maaka mostra as presas ao falar e Mira bufa.
— Se quiser acabar comigo, que faça isso de uma vez. — Ela me mede com o olhar. — Fala logo o que você quer.
— Sabe... — Olho para Maaka em busca de apoio e ela consente. — Nós vamos começar a marchar depois de amanhã, o exército vermelho na frente e supostamente deveríamos ficar em Blanchess. — Sei que Rosalinda está escutando também e espero que ela não nos dedure. — Mas nós não vamos e eu queria saber se...
— Não. — Mira bufa e começa a vir na minha direção, mas para quando Maaka se afasta da porta. — Eu não vou mais me juntar a nenhuma jogada, nem sua nem de Alice, eu cansei de ser usada.
— Não foi isso que eu ouvi... — Olho nos seus olhos azuis frios e tomo coragem. — Você foi uma rainha grande, esteve aqui desde a fundação de Wonderland e duvido que com seu ímpeto você tenha dado o braço a torcer em algum momento, você sempre foi a rainha do seu tabuleiro, não um simples peão. — Ela arregala os olhos no mesmo lugar. — Copas sabia disso e Alice também, é por isso que você continuou sendo rainha de Blanchess, seu povo foi oprimido e diminuído, seu reino se isolou, mas isso não é culpa sua.
— É CULPA MINHA! — Mira congela e depois desvia o olhar, sua aparência é quase fantasmagórica no jardim escuro, com suas roupas e cabelo branco, apenas seus olhos azuis gelados parecem ter vida. — Eu não resisti, eu me aliei a Alice e o que ela fez? Me apunhalou pelas costas assim como eu fiz com os outros, acabou com tudo que eu mais amava, minha família, meu reino, minha... — Mira balança a cabeça. — Eu fiz coisas que não podem ser esquecidas, pessoas morreram, reinos foram prejudicados e não é você que pode apagar isso.
— Não estou pedindo para você apagar o passado. — Sussurro e engulo em seco, essa é minha jogada final como no xadrez. — Estou pedindo pra você aprender com ele e mudar. Rosalinda fez isso, seu reino foi privado e excluído, mas ela conseguiu uma rede de pessoas que a apoiou, Oddville fez o mesmo, o seu reino já está se organizando para a batalha e eles precisam de você com eles. Precisam de uma rainha.
— Eu não posso mais ser uma rainha... — Mira me encara e lágrimas mancham seu rosto. — Eu não posso mais ser nada do que um dia eu fui porque estou quebrada, incompleta, vazia... — Ela soluça e balança a cabeça. — Me tirar do trono foi o melhor que vocês fizeram, agora aproveitem isso e façam sua invasão vou ficar aqui e esperar a guerra acabar, quem sabe Alice vença e acabe comigo já que vocês se recusam a fazer isso.
— Mas...
— Não há "mas" Lilith. — Ela se apruma. — Minhas mãos estão manchadas de tudo que você possa imaginar e eu não vou jogar esse jogo de novo.
Olho desamparada para Maaka e estou quase desistindo, eu sou só uma peça nesse jogo, mesmo que muitas outras me apoiem eu ainda não consigo encurralar a rainha para um xeque-mate. Me assusto com o som de passos e Rosalinda aparece na porta, Mira recua um passo e sua expressão é a de mais puro medo.
— Você não é assim Mira, por que está agindo dessa forma agora? — Rosalinda caminha a passos duros e apesar de sempre ter a visto como uma rainha boazinha, agora eu consigo ver uma rainha tão fria e poderosa quanto Mira. — Você mais do que qualquer um em Blanchess deveria estar agora encabeçando esse plano, você não fez o mesmo para derrubar Copas? Não se aproveitou de suas fraquezas só pelo passado? Pois agora isso também é passado junto com aquele que você queria vingar. E te digo mais aquela menina não é Copas, ela é a Lilith e assim como seus amigos estão tentando nos devolver o que perdemos. — Rosalinda para em frente a Mira e respira fundo. — Você já ficou tempo demais se lamentando no seu reino frio, você que lutou tanto por esta terra não deveria abandoná-la agora. Como Lilith mesmo disse, eles precisam de uma rainha, precisam de você.
Mira olha para mim e depois para Rosalinda, novas lágrimas mancham seu rosto e ela escorrega até cair sentada.
— Eu fiz tudo de ruim para vocês... — Ela diz com a voz entrecortada pelo choro. — Eu virei as costas para as duas e agora vocês estão aqui mais uma vez me importunando! Vocês são tão cruéis! — Mira se encolhe mais e continua chorando. — Eu não mereço perdão nem compaixão das duas, por que vocês não desistem logo?
Rosalinda abre a boca, mas acho que ela não consegue mais dizer nada, o choro de Mira toma conta da sala, suspiro e ando até ela me abaixando, estico uma mão e afago seus cabelos.
— Você se esqueceu de que eu não sou Copas... — Repito pela milésima vez sorrindo. — Você não fez nada pra mim além de ser mal educada. E sabe de uma coisa? Rosalinda te encurralou para mim, você disse que se juntaria a nós se eu te vencesse em uma partida de xadrez, vê? — Aponto para Maaka na porta e Rosalinda atrás de mim. — Cavalo branco, rainha vermelha e uma ex rainha de Copas, acho que isso é suficiente para dizer: xeque-mate.
Mira me encara sem entender e depois acho que compreende o que eu disse, ela revira os olhos e sou surpreendida por um abraço, congelo e depois retribuo. Rosalinda caminha até onde estamos e se abaixa também nos abraçando, sinto algo estranho dentro de mim se agitar, mas não é ruim.
— Você pode mudar ainda, eu acredito em você Mira. — Sussurro me afastando e ela soluça. — E acredito que vocês precisam desse reencontro.
— É a primeira vez em anos... — Rosalinda me encara e também está chorando. — Que as três rainhas estão reunidas...
Penso em responder mais uma vez que não exatamente uma rainha, mas suspiro dando um último abraço nas duas e me levantando, Maaka ainda me espera na porta e quando passo, ela fecha.
— Você fez um bom trabalho. — Ela sussurra e afaga meus cabelos. — Xeque-mate, eu não esperava por essa!
— Ela disse que só nos ajudaria se eu vencesse, acha que ela vai cumprir sua palavra?
— Não sei ainda, talvez não... mas você a venceu e Mira é uma rainha de palavra, mesmo que contra sua vontade. — Gosto que Maaka não mentiria para me enganar pelo menos. — E você fez algo maior do que só vencer, você deu o reencontro e o perdão que aquelas duas precisavam e não conseguiam chegar nisso sozinhas. Foi um ato muito nobre.
Bufo e abraço sua cintura, eu não estava buscando nobreza quando vim aqui, só queria ajuda. Maaka ri e depois não fala mais nada quando fazemos o caminho de volta para a torre branca, não sei o que vai acontecer amanhã quando eu acordar. Talvez Mira esteja de volta ao seu trono ou talvez continue trancada no jardim de inverno, mas independente do resultado eu vou continuar sabendo que fiz tudo que estava ao meu alcance e, como Maaka disse, reuni aquelas duas e isso pode ser maior do que vencer uma guerra.
XXX
Temos um capítulo novo entre nós UwU um capítulo que eu achei particularmente difícil de escrever, revisei e mudei os diálogos dele muitas vezes e não sei dizer que essa é a versão final, porque acho que faltaram coisas, mas é a melhor versão que eu fiz então vou jogar isso na culpa dos meus antigos furos de roteiro e a Fox do futuro que lute para arrumar isso em uma revisão :v
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