Checkmate

Venha e perca-se na terra do coração

Você vai esquecer quem era antes

Desista, você pode ter tudo na terra do coração

Entregue-se porque você está pronto

É um final feliz, ninguém sai daqui se sentindo triste

Temos tudo o que você quer

Nós podemos realizar seus sonhos

Tom Walker - Heartland

Maaka já foi a muito tempo, Daphne deve ter saído ao raiar da aurora e me sinto como se estivesse novamente naquele sótão no Vale das Lágrimas, mas ao invés de estar atrás de um sofá empoeirado estou atrás de uma parede branca e quem vem aí não é meu irmão e sim uma rainha amargurada e que me odeia.

Barbie costurou roupas novas para mim com roupas de Maaka, estou parecendo um menino mais do que nunca, não dormi bem, com certeza estou com olheiras e meus cabelos bagunçados e sujos, espero que isso tudo contribua para eu parecer o Cain.

— E se ela não vir... — Sussurro de novo, estou segurando um punhal branco. — E se forem para outra sala?

— Lilith, você está parecendo o Cain de verdade agora. — Barbie sussurra. — Ela vai vir pra cá.

— É e talvez vocês estraguem tudo conversando. — Babel resmunga.

Bufo e volto a ficar quieta, mas a apreensão me toma de novo, olho para cima onde a enorme janela de vidro está aberta para um céu cinza e escuro, eu sei que aqui é sempre inverno, mas será que nunca faz sol? Talvez eu devesse ter ido para Queensland com o Toby, afinal, lá é quente... Meus pensamentos são interrompidos quando escuto passos, e sei que dessa vez são de verdade.

A porta é aberta com esforço, ela deve estar trancada a anos, nós viemos pelos corredores secretos. Escuto o som de saltos e percebo Babel e Barbie tensas também.

— Por que aqui? — Uma voz mais aguda que a de Maaka indaga. — Eu não piso nesse jardim a anos.

— Desde que Alice invadiu seu reino. — Maaka responde em um sussurro.

Silêncio. Nenhum dos dois fala nada, mas os passos voltam, alguém anda até o outro lado da sala.

— O que você quer afinal? — Mira indaga, engulo em seco. — Está se aproveitando que a Chapeleira não está aqui para te colocar na linha?

— Mira, escute. — Maaka para, quase grito de raiva. — Alice te domina a anos, domina Blanchess, nós deveríamos ser um dos maiores reinos, mas somos apenas escravos dela, não há alegria para seu povo. Aliás, que povo? Ela reduziu o reino a poucos eleitos que podem trabalhar nesse castelo, sem realeza, sem súditos, somos menos que peças.

O silêncio toma o quarto novamente, eu nunca tinha pensado por esse lado, mas faz sentido quando tudo que eu vi pelos corredores secretos foram servos e guardas, não tem povo, não há um reino em Blanchess.

— Quer me acordar agora? — Mira diz com desdém. — O que eu podia ter feito eu já fiz, não tenho mais nada pelo que lutar, vai ser sempre assim. — Ela para de novo. — Alice vai fazer de tudo para irmos a Heartsplains nos juntar ao exército de Espadas e Ouros, depois vai fazer o mesmo com Rosalinda e vamos arrumar uma briga que não queremos, nós fugimos da Terra não para voltar a ela, mas você acha que nossas opiniões importam?

— Então não dê sua opinião, resista.

Mira bufa e uma cadeira é puxada, passos andam mais um pouco, deve ser Maaka. Noto que minhas mãos estão tremendo e suadas, então as esfrego no short branco.

— Não é fácil, imbecil. — Mira recomeça. — Temos um exército e o que? Vamos lutar contra a maior guarda de Espadas e aqueles palhaços de Ouros?

— E se tivéssemos Queensland?

— Quem vai unir os reinos e liderar essa revolução? Você? — Mira ri. — Admita Maaka você nunca foi um general, seu marido era, você só ficou para se proteger, pra fugir do que quer que estivesse te perseguindo.

— Eu fiquei para proteger minha família. — Maaka diz firme. — Achei que você me entenderia.

— Você foi apenas um covarde.

Sinto a raiva subir e quero sair daqui agora mesmo, quem ela pensa que é? Maaka se sacrificou pelo bem da sua filha, ele nos ajudou e é bom. Agora vejo como Mira se deu bem com Ângelus, ambos são iguais, presunçosos, arrogantes e não se importam com ninguém além deles mesmos.

Minha raiva se torna confusão quando Barbie se levanta e sai a passos firmes, Babel faz menção de puxar ela, mas a seguro. Escuto Mira arquejar e a cadeira é arrastada de novo, depois caí no chão.

— O que é isso? — Ela diz, prendo a respiração. — De onde essa menina veio?

— Eu sou Barbie. — Babel aperta os lábios em uma linha fina. — Na verdade Barbary Guildford.

— Uma menina da Terra! — Mira exclama. — Onde você a conseguiu?

— Eu vim aqui. — Barbie diz. — Porque não sou só uma menina da Terra, eu sou sua filha. Sou a Lírio Branco.

Me arrasto um pouco mais para perto do final da parede, Babel faz o mesmo. Mira não diz nada, nem Barbie ou Maaka.

— Como você veio parar aqui? — Mira pergunta devagar, ela não teve nenhuma reação com a Barbie? — Você não veio por fora, nunca teria chegado viva através da neve.

— Eu a trouxe. — Babel diz e se levanta me puxando junto.

Me debato, mas ela é mais forte, saio de trás da parede branca e é a primeira vez que vejo Mira de verdade. Ela é alta, mas seus ombros são curvados, o rosto fino não é mais tão belo quanto nas memórias, tem olheiras e rugas nos cantos dos olhos e boca, ela ainda parece jovem, mas muito cansada. Seus cabelos brancos estão curtos e seus olhos escuros se arregalam.

— Uma joker... — Ela diz e depois se vira para mim e sua boca se curva em uma careta.

— Sim. — Babel ergue o queixo. — E eu trouxe os dois aqui, eu vim da Terra porque me juntei aos humanos que Alice quer caçar e eu trouxe eles comigo, estamos aqui para criar o motim que você disse que não aconteceria.

Mira se endireita e anda devagar até nós com classe e elegância, os olhos fixos nos meus, fecho a cara e aprumo os ombros.

— E eu sou Cain Maurêveilles, o reflexo do Jaguadarte. — Digo o mais firme que consigo. — Eu estou aqui para reclamar o lugar que sempre foi meu, a coroa que é minha por... — Mas sou interrompida por um tapa na cara, sinto minha bochecha esquentar e levanto a cabeça novamente a encarando.

— Você mente mal, Copas. — Mira diz com nojo.

Babel olha para mim sem reação, respiro fundo e relaxo os ombros sorrindo.

— Realmente. — Respondo, ela sorri. — Você me pegou.

— Está me dando a outra face? — Dou de ombros e ela gargalha se afastando, olho para Maaka que está de olhos arregalados. — É isso? Como você conseguiu essas meninas? Essa é a sua revolução? — Ela pergunta para Maaka e abre os braços, seu casaco peludo seguindo o movimento. — Vocês vão o que? Me prender aqui e assumir os exércitos?

— Sim, nós vamos. — Digo com raiva, não preciso fingir mais nem ficar escondida. — Porque você é uma covarde que se escondeu atrás dessas paredes, você podia ter lutado e se libertado só que preferiu se esconder, Maaka não fugiu mas você sim. — Mira me olha com raiva, ergo a cabeça. — E eu vim da Terra para reclamar o trono, não para mim, mas para meu irmão. Alice roubou coisas demais de nós, de mim e de você. Está na hora de alguém se virar contra ela e não é você quem vai fazer isso.

— O que me tornei? Recebendo sermão de uma garotinha! — Mira se joga em outra cadeira. — Você acha que é fácil, sua burra? — Continuo a encarando com raiva. — Somos só um exército pequeno, volte com seu irmão para o seu lado e fuja de Alice porque é você quem ela quer.

— Que ela venha me encontrar então. — Bato o pé contra o chão. — Que venha diretamente até mim, não aguento mais ter que esperar para vê-la, porque ela está sempre escondida e protegida, como você. — Respiro fundo. — E se for preciso eu vou tomar seus exércitos, vou levá-los a Heartsplains e entrar, subir por aquele palácio transparente e falso e encarar Alice. — Aponto o punhal branco para ela. — Com ou sem exércitos eu vou encará-la.

Mira bate palmas e isso me deixa com mais raiva, Maaka pigarreia e se mexe pela primeira vez, Barbie me olha abismada e Babel admirada. Nada do que eu fiz foi planejado e tudo que eu fiz desde que cheguei aqui foi planejar, talvez eu não seja boa em seguir meus próprios planos, afinal eu não sou o Cain.

— Lindo, Copas, lindo! Como a porca que veio antes de você, cheia de ideias, cheia de planos, mas no fim o que você vai fazer se não se esconder? Copas fez isso, por que você faria diferente?

— Eu não sou Copas, sou Lilith Maurêveilles. — Respiro fundo. — Eu não vou seguir os passos dela! — Odeio não saber seu nome, odeio que a chamam de Copas na minha frente, quem era você de verdade? — Eu vou fazer diferente, estou aqui para tirar Alice do poder por duas pessoas, não, eu estou aqui por muitas pessoas porque eu tenho quem defender, pessoas que me amam e confiam em mim para isso e eu não vou fugir, vou lutar por elas. Essa é a minha luta e eu não vou fugir, Mira.

— Não é uma luta de Copas, nós ou vocês. — Babel responde. — É uma luta de toda a Wonderland, você mesma disse a Maaka que não queria voltar, se Alice voltar vai causar uma guerra que os humanos não estão prevendo, vai destruir o mundo deles e o nosso também, Wonderland já não é a mesma desde que ela assumiu e você sabe disso.

Mira bufa e vira o rosto, eu não pensei que ela seria tão infantil. Cruzo os braços e só então percebo que estou tremendo de raiva, suspiro e levanto a cabeça.

— Nós vamos agora, você fica aqui. — Digo.

— Por que não me mata logo? — Ela questiona.

— Porque esse é meu jeito de fazer as coisas. — Sorrio.

— Os exércitos nunca vão seguir... isso. — Ela diz com desprezo.

— Maaka é o melhor general que temos e você vai pagar sua língua. — Mostro a língua e me viro para sair.

Quando passamos pela porta olho para todos os lados esperando estar cercada por guardas, mas não há nenhum aqui, Maaka tranca a porta e solta o ar pela boca.

— Você foi incrível. — É a primeira coisa que ele me diz, pisco surpresa.

— Eu só sai falando o que tava na minha cabeça, fui totalmente impulsiva e contra o plano que bolamos.

— Mas conseguiu calar a boca dela. — Babel sorri. — Você foi realmente incrível! Mas ainda temos coisas a fazer, vamos voltar para a torre.

— Você não acha que ela consegue achar as passagens secretas? — Barbie pergunta.

— Se conseguir, ela não vai muito longe. — Babel dá de ombros. — Mas nós temos que ir por elas.

Consinto e ali no corredor vazio nos separamos de Maaka, nossos próximos passos vão ser decisivos para o que vamos decidir fazer nesse pequeno motim.

XXX

Quando chegamos na torre ele já estava sentado na sua cama branca, ainda calçado com suas botas, o que me diz que Maaka deva estar tão nervoso quanto nós. As conversas no caminho até aqui foram praticamente nulas e o frio na minha barriga aumentou a cada passo.

— E se eles não me seguirem...? — Maaka aperta as sobrancelhas. — E se Mira tiver razão e ninguém me ver como general, mas sim se voltarem contra mim? Eu vou ser duplamente morto.

E dizendo isso ele se atira na cama escondendo o rosto, suspiro e troco um olhar com as duas que dão de ombros.

— Não vão fazer isso... — Começo. — Você é um grande general, só não teve oportunidades de liderar porque a Chapeleira roubou seu posto, já pensou que eles podem odiá-la?

Maaka não responde, suspiro e vou até a mesa dele, abro o caderno branco, talvez Cain tenha algo que possa nos ajudar aqui. Começo a folhear quando as palavras saltam, franzo as sobrancelhas e depois arregalo os olhos lendo rápido, antes que a mensagem desapareça:

— Rosalinda decidiu que estávamos ficando para trás. — Barbie e Babel se aproximam. — E com a Chapeleira indo até Heartsplains uma hora ou outra algum mensageiro vai vir até Queensland e antes que isso aconteça ela resolveu agir. — A mensagem some e engulo em seco esperando a próxima parte. — Estamos marchando agora mesmo para Blanchess... — Meu queixo cai, mas me recomponho para continuar lendo. — E em quatro dias estaremos aí, então façam o trabalho ser mais fácil e conquistem logo esse exército.

— Sem pressão... — Babel diz irônica.

— Quatro dias... — Repito, as últimas palavras somem na página.

— E um e meio até a Chapeleira voltar. — Barbie pontua.

— Estamos correndo contra o tempo. — Me jogo na cadeira branca e acolchoada. — Queria poder matar ele.

— Cain te mataria. — Babel ri.

— Não o Toby. — Suspiro. — Precisamos ser rápidos, ou não vamos conseguir tomar o exército até a chegada de Queensland, temos que começar o plano para pegar a Chapeleira.

— Temos um exército para tomar.

Paro e me viro para trás, Maaka está sentado na cama, ele se apruma e se levanta vindo até nós, sua expressão agora é determinada.

— Vou juntar todos e fazer um anúncio, tentar incitar o motim. — Ele continua. — Não posso ficar chorando quando temos coisas a fazer.

Ficar chorando, aperto as sobrancelhas e me viro para o caderno. Cain está vindo, ele vai demorar três dias para chegar aqui, está largando sua vida para trás e dando tudo de si nessa empreitada. Eu ainda tenho a chance de voltar para casa e quando estiver lá ainda vou ser só a Lilith, mas enquanto estou aqui eu posso ser mais do que isso, eu posso mudar as chances que temos de motim, de derrotar Alice. Respiro fundo.

— Chame os homens e diga que tem um anúncio a fazer. — Me viro para os três. — A Rainha de Copas vai falar com eles.

Vejo a expressão dos três ir de incredulidade para choque e eu espero não me arrepender das minhas decisões agora.   

XXX

CAPÍTULO MENSAL POSTADO E COM AS COISAS ESQUENTANDO HEHEHE ainda só um esse mês, mas já consegui fazer muitas anotações pra sair do bloqueio criativo,  desenrolei o que tava bloqueada e reli Alice também fé que mês que vem volto aos posts normais 🙏 e agora também começa *oficialmente* a terceira parte *fogos de artifício* 

(se eu disse isso em outra parte ignora, porque essa é que é :v) 

Cada vez mais perto do final kkkcrying mas é isso, teorias? Dores? Reclamações? Estou aceitando nos comentários hehehe

Enfim vejo vocês mês que vem ✨


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