Charade

Eles sabem que devem me ligar quando quiserem estourar

Doce como um pouco de mel, mas eu sempre dou duro

Eu não gosto do drama, mas vou terminar o que você começou

Estou me certificando de que você receba o memorando, sim

Eu te encontrarei em qualquer nível, sim

Independente, não preciso de ajuda

Subestime-me e você estará jogando sozinho

Tomboy - Destiny Rogers

No começo seguimos em silêncio, não queria separar nosso grupo, mas o que o Cain disse faz sentido e seremos mais úteis causando algum dano a Alice. A covarde que só usa os outros pra nos atacar porque ela não tem coragem de sair da sua fortaleza e nos enfrentar, se um dia eu julguei Copas agora não sinto tanta raiva dela já que tenho outro foco para odiar e esse não sou só eu.

— Você deve tá tramando uma vingança, por que não implorou pra ir com o Cain depenar o pássaro JubJub?

— Não é hora de piadinhas. — Caleb censura Abel.

— Não, ele está certo, eu queria ir depenar aquele pássaro, mas vocês precisam de uma menininha pra proteger suas costas. — Espero ter soado como uma brincadeira.

— Uma menininha que é maior e mais forte do que o irmão mais velho esperto, mas não mais do que eu. — Abel se gaba, sorrio aliviada.

— Vai ser bom ter você aqui também. — Caleb resmunga, não preciso me virar para saber que ele está vermelho porque Abel ri. — E você é a melhor atirando.

— Ora obrigada se estivesse de saia faria uma mesura pra você. — Caleb grunhe. — Mas deixando as brincadeiras de lado, lá dentro devem ter atiradores e se virarmos um alvo fácil?

Olho para trás, Caleb e Abel trocam um olhar antes de rir, paro apoiando as mãos no quadril.

— Está tudo bem Lily, o jardim não é vigiado. — Caleb me tranquiliza, agradeço o escuro do túnel porque acho que nunca escutei ele me chamando assim. — E com o exército vermelho cercando a entrada a tensão maior deve estar na fachada do castelo.

— Mesmo que eles esperem por um ataque nosso, duvido que deixem mais do que um guarda por lá.

— O esquema de segurança do jardim é muito bom. — Ergo as sobrancelhas.

— Que esquema de segurança? — Olho para os dois. — Ninguém disse nada sobre isso.

— É fácil depois que você decora. — Abel dá de ombros. — Pegar a chave, beber do frasco, abrir a porta e puf voltar ao tamanho normal.

— Isso... acontecia no livro, então é real? — Olho de um para o outro esperando uma brincadeira. — É real?!

— Por que não seria? — Caleb aperta as sobrancelhas.

— Crianças do outro lado. — Abel debocha, reviro os olhos.

Acho que levei tudo muito a sério até agora e os últimos acontecimentos não foram os melhores, mas eles parecem querer amenizar o percurso, então vou parar de ser chata e aproveitar um pouco a companhia.

XXX

Saímos da árvore TumTum quando o sol está a pino, primeiro me choca um pouco a árvore conseguir nos levar para dentro dos muros do castelo e segundo o pátio aberto me faz engolir em seco, seremos um alvo fácil se eles errarem e tiver alguém de guarda desse lado.

— Primeiro temos que nos certificar de que o caminho para os estábulos está aberto. — Caleb sussurra. — Depois atravessamos para o jardim.

— Fácil, fácil. — Abel cantarola e anda na frente.

Olho para as janelas, acho que se estivessem de olho em nós já teria soado algum sinal, engulo em seco e passo o rifle para minhas mãos checando as balas enquanto ando, Taylor me deu mais antes de sair e elas estão presas em uma bolsa lateral na minha cintura. Andamos pelo pátio encostados nas paredes externas do castelo até uma virada, não há nenhum portão ou guardas barrando a longa alameda que vai até a parte de trás do castelo.

— Eles vão vir de onde? — Sussurro.

— O estábulo está a uns dez minutos daquela virada. — Caleb aponta para o final da alameda. — Mas acredito que com o Toby eles vão saltar do estábulo e parar aqui onde estamos.

— É uma vantagem ter o Toby no grupo, mas também é ter euzinho aqui. — Abel aponta para ele mesmo e sorri, suspiro.

— Nosso grupo é ótimo e sabe o que seria melhor? Quanto antes acabarmos mais rápidos saímos desse pátio exposto.

— Chata... — Abel resmunga voltando pelo caminho que viemos. — Era pra você animar o grupo, não fazer o papel do Cain.

— Às vezes alguém tem que assumir esse papel. — Rebato olhando para cima, as janelas vazias e o silêncio me deixam mais apreensiva do que quando estávamos dentro do castelo.

Voltamos pela parede e a cada passo eu não consigo deixar de olhar para os lados. Isso é muito suspeito, quero dizer, como o Caleb que sempre foi paranóico pode achar tudo bem andar bem embaixo dos olhos dos nossos inimigos? Talvez isso tudo seja estranho ou talvez eu ainda esteja assim por causa de Yue, não me lembro de ter ficado tão apreensiva nem quando andava pelos corredores secretos de Blanchess, mas nosso plano já teve uma falha e eu espero que não tenham outras não se elas forem levar a vida de mais alguém.

Quase esbarro em Abel quando ele para, estamos de frente para um muro enorme de pedra, levanto uma sobrancelha.

— Pensei que já estivéssemos no jardim. — Sussurro.

— Vem cá. — Caleb sorri e estende sua mão, levanto uma sobrancelha, Abel revira os olhos e me dá passagem. — Isso também estava no livro?

Ele me puxa e é só quando me aproximo dele que noto a portinha que não alcança nem meus joelhos, me abaixo usando sua mão de apoio e olho por um coração na porta, arregalo os olhos, é o jardim mais lindo que eu já vi na minha vida inteira.

— É como o livro! — Deve ser a terceira vez que eu repito isso, me afasto e procuro pela mesa. — Mas pra entrar é igual também?

— Isso nós veremos. — Abel anda até a lateral do muro de pedra onde uma mesinha de três pernas nos espera.

É uma mesa simples de tampo de vidro e pernas de ferro, me abaixo um pouco e pego o frasco, deve ter menos que um gole para cada aqui dentro.

— E bebendo isso nós diminuímos e depois? — Olho para eles, eu já vi muita coisa estranha, mas isso ainda não entra na minha cabeça.

— Entramos e comemos um bolo que nos faz crescer, fácil. — Abel pega a chave e faz uma mesura. — Primeiro as damas, claro se ela não for uma covarde.

Bufo e olho o interior do frasco, acho que não tenho opção, mesmo se estiver escrito veneno nele. Dou um gole e passo para Abel que faz o mesmo e Caleb termina o líquido transparente ali dentro.

Espero olhando para as janelas do castelo, eu não deveria sentir um gosto estranho? Uma queimação no estômago? Continuo olhando para as janelas quando a mais baixa parece mais próxima, olho para cima procurando por algo e quando olho mais uma vez para a primeira janela ela está ficando mais baixa. Solto um gritinho.

— Estamos crescendo! — Sussurro puxando Abel que está mais alto do que eu. — É uma armadilha!

— Não é uma armadilha... — Caleb resmunga e olha as janelas. — Ok, talvez seja.

Já estamos quase na altura das janelas do segundo andar, olho para o muro e um pensamento louco vem à minha cabeça.

— Me levanta.

— Que?! — Abel guincha.

— Me joga pra dentro do jardim, você disse que lá dentro tem algo que pode nos diminuir, me levantem que eu puxo vocês de cima do muro.

— Isso parece loucura... — Caleb olha nervoso pro castelo.

— É isso ou virarmos alvo fácil! — Rebato.

Caleb resmunga, mas se abaixa fazendo uma escada com as mãos, apoio meu pé direito ali e dou impulso, Abel se abaixa e subo nas suas costas, assim fica fácil tocar a borda do muro. Puxo meu corpo pra cima agradecendo o treinamento da Nonsense e lá estico minha mão para Abel, Caleb o ajuda a subir mesmo que nosso tamanho já seja quase o mesmo do muro. Com Abel lá em cima nós dois puxamos Caleb e sem conseguir mais me equilibrar caímos para dentro do jardim.

XXX

Nosso tombo não é rápido como eu pensei que seria pelo nosso tamanho, quando enfim caímos demoro a entender que não estamos dentro do jardim como deveríamos, mas em uma sala fechada e sem janelas que apesar de enorme nos faz ficar apertados no chão, Abel se senta e Caleb resmunga se agachando.

— Agora vai me dizer que isso não é uma armadilha? — Resmungo me escorando na parede para levantar. — Vão nos prender aqui até o quê? Alice vir nos pegar?

— A gente pode pisar nela... — Abel levanta também e a sala fica mais apertada.

— Deve ter uma saída... — Olho em volta, a única coisa além das paredes, do teto e do chão que eu vejo é uma caixinha pequena demais. Me abaixo com esforço e a pego.

Abro a caixinha de madeira esperando por um frasco que possa nos fazer diminuir, mas o que encontro é um bilhete. Preciso levar o pedacinho de papel em frente aos olhos e me esforçar para ler.

— "A bebida errada no cálice foi farta.

Seu corpo está grande demais para o casulo, pequena lagarta.

Então me diga antes que parta:

Ao embaralhar, qual a probabilidade de tirar um ás ao puxar uma carta?"

Ótimo, pegamos um enigma que só o Cain poderia resolver e agora vamos morrer porque ninguém aqui usa a cabeça pra nada além de se meter em encrenca. — Abel resmunga, o teto começa a se aproximar cada vez mais rápido.

— Um baralho tem 52 cartas e quatro delas são ases... — Caleb sussurra. — 52 dividido por 4 não é?

— Você alguma vez já estudou matemática? — Abel rebate.

Olho para o papel minúsculo, não é uma conta matemática. "Pequena lagarta" não deveria estar aqui a toa, quando Alice recita o poema para a lagarta azul ela o diz errado então a resposta não pode ser exata, não pode ser matemática!

— São quatro ases... — Sussurro, os dois ficam quietos, tenho que abaixar a cabeça que já começa a ser pressionada contra o teto. — Em um baralho de 52 cartas, mas... — O que o Cain faria? — A probabilidade de eu puxar um ás enquanto alguém embaralha não é matemática! — Abel e Caleb olham para mim como se eu tivesse enlouquecido, mas eu não sinto que estou sendo mais pressionada contra o teto, vamos lá Lilith você consegue continuar afinal você é uma criança como a Alice do livro era, como Charles escreveu. — O enigma diz "ao embaralhar" logo se alguém não parar de embaralhar eu nunca vou saber, por isso a resposta é nenhuma.

— Isso não faz sentido! — Abel guincha.

Respiro fundo pronta para começar com outra baboseira sem sentido quando me sinto em queda livre, assim que a sensação horrorosa passa estou no meu tamanho normal de volta, olho para os dois que parecem tão chocados quanto eu, sorrio e meu sorriso vira uma gargalhada.

— Você conseguiu! — Caleb ri também.

— Acho que podemos tirar o título de gênio do Cain. — Abel brinca. — Mas não temos muito tempo pra ficar aqui comemorando, se tinha uma armadilha pode ser que já saibam que estamos aqui.

Minha alegria se abala um pouco, mas balanço a cabeça, ainda temos que esperar a primeira equipe vir do estábulo e provocar um surto de alergia em alguns guardas.

Uma porta agora é visível em uma das paredes, Abel ainda está segurando a chave que pegou do lado de fora, ele a coloca na fechadura e a gira e finalmente eu consigo entrar no jardim.

XXX

Quando saímos no jardim agradeço por não ter diminuído porque mesmo do meu tamanho normal as flores são maiores do que eu, olho para cima e respiro fundo, meu nariz coça e eu espirro, entendi o estrago que a febre do pólen pode causar.

— Isso é um sinal para colocar as máscaras. — Abel cantarola, ele tira sua máscara branca do bolso e a amarra no rosto. — Espero que os outros se lembrem de usar as máscaras antes de chegarem aqui.

— Agora, onde ficam as flores falantes? — Pergunto amarrando minha própria máscara.

— Não é difícil de achar, são as maiores e mais coloridas que você verá. — Caleb responde colocando sua máscara também.

— Então vamos lá? — Abel pisca pra mim.

Suspiro, sim, vamos lá para mais um ato do nosso plano e espero que dessa vez não tenha truques nem armadilhas, não sou a melhor em enigmas.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top