Capítulo 34

  Costumam dizer que após a tempestade vem a bonança. 

  No caso da meteorologia isso aconteceu. O céu cheio de nuvens negras foi substituído por um céu azul e um sol tímido que espreita, escondido atrás de um par de nuvens claras e dispersas.

  Já no meu caso, a tempestade aumentou ainda mais. Agora que a batalha terminou e os meus músculos arrefeceram, sinto dor por todo o meu corpo. Dor essa que não chega nem perto de doer tanto como a morte do Jack, bem como de todo o medo que me paralisa. O meu lado volk parece estar a desenvolver-se a uma velocidade assustadora. Já não confio nas minhas emoções. Tenho medo de mim mesma.

— Acho que está bom. Ninguém nos verá aqui.

  Ao ouvir o Cameron, todos paramos de andar. 

  A Francesca morreu, levando com ela todos os volks que por aqui vagueavam. Sem mais nada que nos prenda, estamos prestes a voltar para o nosso mundo.

  Os guardiões estão divididos em duplas, para carregarem os corpos dos guardiões que morreram na batalha. Corpos esses que estão, provisoriamente, envoltos em sacos do lixo pretos. Não é o modo mais digno de tratar pessoas que morreram de forma honrada, na luta pela segurança de pessoas inocentes, mas de momento é o possível. 

  Ao todo, morreram quatro guardiões, sendo a Andreza um deles. Poderia ter sido pior, mas ainda assim, são mortes de pessoas que tinham família e amigos. Pessoas que têm gente em casa à sua espera, e que, por sua vez, tudo que irão receber é uma notícia triste e uma indemnização em dinheiro, que não ameniza em nada a tristeza da perda de um ente querido.

  Quem merecia estar num desses sacos do lixo, mas não está, é o Victor. O homem coxeia, ao lado do senhor Smith e do Thomas, que o impedem de fugir. Fora os numerosos hematomas superficiais, ele encontra-se tão saudável e desprezível como sempre. Mas com uma diferença, agora toda a gente o vê pela pessoa que realmente é e será feita justiça à moda humana.

  A Taylor também se encontra connosco. Achei que ela merecia saber por mim que o Bradley morreu, então fui a casa dela há umas horas atrás. Ela chorou, mas percebeu que foi melhor assim, afinal, o seu namorado morreu assim que foi transformado. Após me informar, bastante mais feliz e aliviada, de que já não era suspeita do desaparecimento do namorado, uma vez que polícia encontrou imagens de segurança de uma loja onde ele aparecia, ofereceu-se para nos acompanhar e despedir-se de nós de vez.

  Então aqui estamos, prestes a abrir um portal para sair deste mundo, ao qual prometemos não voltar. 

  Aproximo-me do Cameron, que me dá a mão. Entrelaço os meus dedos nos dele, e sorrio, antes de fechar os olhos.

  Embora já sejamos capazes de abrir o portal sozinhos, isto continua a ser algo nosso. Foi a primeira coisa que nos uniu. Assim sendo, preferimos fazê-lo em conjunto. 

  A nuvem de tristeza que me possuiu parece desvanecer-se ao sentir a energia do portal, que, mesmo sem o ver, consigo perceber que está a surgir por entre as palmas das nossas mãos. Sinto-me subitamente mais quente, um quente bom, nada comparado com a sensação de ter o meu sangue a ferver de raiva.

  Assim que o portal está no seu tamanho máximo, as pessoas começam a passar. Eu e o Cameron ficamos a observar, atentos.

— É lindo. — a Taylor fala, aproximando-se de nós.

— Por acaso sou, é um facto. — sorrio, ao ouvir o Thomas falar, quando passa por nós, entrando no portal.

  A Taylor revira os olhos, mas não esconde o sorriso.

— Ele passou o caminho todo até aqui a flertar comigo. — ela fala. — Como é que uma pessoa segura um criminoso e flerta ao menos tempo?

— O Thomas é um rapaz multifacetado. 

  Todos nos rimos, até o Cameron. Parece que os últimos dias que ele tem passado com o Tom contribuíram para que a relação que ambos melhorasse consideravelmente.

— O Jack ia gostar de estar aqui. — a loira fala, após algum tempo.

  O meu sorriso desfaz-se e sinto-me novamente a ser agarrada pelas garras da nuvem negra de infelicidade. A minha atenção volta-se para o chão, fugindo aos olhares atentos deles.

  Também gostava que o Jack estivesse aqui. Ele queria tanto ver um portal...

   Após o fim da batalha, coloquei aquilo que penso serem as cinzas do Jack numa caixa. É mais algo simbólico do que propriamente real, uma vez que as cinzas dele e de outros volks devem se ter misturado com todo o vento e água. Mas será o única forma corpórea que a mãe do Jack terá dele. Forjamos um atestado de óbito - os guardiões são surpreendentemente bons a falsificar documentação e arranjar desculpas para mortes por volks - e fizemos com que tudo chegasse até à mãe do meu amigo, alegando que ele morreu num incêndio. 

  Parte-me o coração não estar lá para ela. Não estar presente para a ajudar com o luto do seu único filho e nem sequer comparecer ao seu funeral, no entanto o senhor Smith recomendou-me que não o fizesse. Que iria atrair atenções e o que melhor era irmos embora de vez. 

  E é isso que estamos a fazer.

  Vendo que eu não vou responder, e sabendo que é um tema sensível, o Cameron muda de assunto. 

  Assim que a última pessoa passa pelo portal, a conversa cai inevitavelmente num silêncio de antecipação. 

  Esperei tanto por este momento, mas agora que chegou, não quero ir. 

— Estás pronta? — o meu namorado sussurra, de modo que apenas eu consiga ouvir.

  Assinto, embora nem eu acredite realmente nisso. Custa-me deixar este mundo pela segunda vez, afinal, foi aqui que cresci. Este mundo é tão meu quanto o outro. 

  No entanto, a nossa permanência aqui não resultou em nada mais do que tragédia atrás de tragédia. Muita gente inocente sofreu por nossa causa, por isso temos de ir. Este mundo já está em segurança, agora temos de voltar para o nosso mundo com magia, aquele que realmente precisa de nós. O mundo ao qual realmente pertencemos.

****

  Apoio apenas os dedos do pé no chão, enquanto o meu joelho saltita freneticamente para cima e para baixo. Estou tão nervosa que sinto as palmas das minhas mãos suarem.

  Assim que os nossos pés pousaram neste lado, foi uma autêntica confusão. 

  Após ser examinado por um médico, o Victor foi preso preventivamente, uma vez que se acredita que ele é sem dúvida um arguido com perigo de fuga. Os seus advogados de defesa alegam que, enquanto não for presente a julgamento, ele não pode estar preso, porém ainda não conseguiram convencer nenhum juiz a libertá-lo. Para já. No entanto a justiça é lenta. Só o interrogam de vez em quando, então ainda não conseguimos descobrir nada sobre o seu plano ou o possível paradeiro da outra pessoa em quem ele usou o meu ADN e o do Cameron.

  Os funerais com honras de estado aos guardiões mortos também já aconteceram. Todos tiveram direito a uma cerimónia pomposa, com caixões cobertos pela bandeira nacional a serem levados por carruagens puxadas por cavalos. Todos, exceto a Andreza. O corpo da rapariga foi entregue à família, que tratou do funeral da rapariga. Ponderei ir, mas achei que seria hipócrita da minha parte, uma vez que parte de mim não sentiu nem um pingo de pena pelo que lhe aconteceu. Se ela tivesse sido bem sucedida, neste momento poderia ser eu a estar num daqueles caixões. 

  Mas, falando de coisas mais animadoras, a Emily e o Alexander estão finalmente juntos! A incerteza em relação ao que o futuro lhes reserva permanece - o Alec não põe a hipótese de vir a deixar de ser guardião para, um dia, vir a ser um príncipe Consorte do reino e tampouco a Emily, que já se conformou com a ideia, coloca a hipótese de abdicar do seu estatuto real -, porém ainda falta algum tempo para que qualquer um deles tenha de tomar uma decisão que mude as suas vidas, então aceitam viver um dia de cada vez, sem pensar demasiado no que virá a acontecer. Afinal, como o Alec, com os seus pensamentos negativos, tanto diz, podem acabar daqui a uma semana, logo não há necessidade de se preocuparem com o dia em que a Emily assumirá o trono.

  Aos poucos tudo retoma a normalidade. O universo está um pouco mais seguro dos volks, restando apenas este mundo para salvar. Quero e sinto que devo ajudar nisso, mas para isso tenho de terminar os meus estudos na academia. Só falta um ano (uns sete meses, na verdade), logo está quase. 

  Ou estaria, caso me deixassem voltar.

  O ano escolar começou em setembro, altura em que era suposto eu ter voltado para este mundo e ser uma aluna aplicada. No entanto isso não aconteceu. Quando voltei, já o primeiro semestre de aulas tinha terminado. O segundo está agora prestes a começar e eles já não estão dispostos a aceitar novamente a minha candidatura. 

  Embora seja a diretora da Academia, a Elena não tem voto na matéria, uma vez que os restantes membros da comunidade escolar consideram que ela é parcial, por ser minha tia. Assim, todos os que têm direito a opinar sobre o assunto encontram-se do outro lado da porta à minha frente, numa reunião cujo o tema principal é o meu futuro académico. Primeiro os membros do Conselho, agora coordenadores e até alguns professores... Começa a tornar-se um hábito toda a gente opinar sobre mim e aquilo que posso ou não fazer.

— Calma... Vai correr tudo bem. — o Cameron puxa as minhas pernas com delicadeza para cima das suas. O movimento faz com que o meu rabo deslize na cadeira até para mais perto dele e deixe de tremer. Apoio a minha mão nas suas costas, entre os ombros e o pescoço.

— Acho que desta vez foi a gota de água. 

  O tremelique das minhas pernas foi substituído pelo remexer inquieto dos meus dedos. Sinto as minhas unhas arranharem o ombro do meu namorado, enquanto sobem e descem na zona, no que deveriam ser apenas carícias. Ou as camadas de roupa de inverno estão a fazer um excelente trabalho para que ele não sinta, ou, caso ele esteja a sentir, não faz nada para que eu pare. 

— É normal que eles causem todo este alarido, têm regras e não podem deixar que os outros alunos pensem que se tu as podes quebrar, todos eles podem. Mas acredito que vão cair em si e perceber que só têm a ganhar em permitirem que voltes à Academia.

  Há umas semanas atrás iria facilmente acreditar nas suas palavras. Mas não hoje. Não depois de ver a que ponto pode chegar a minha falta de autocontrolo.

— Mas... E se não tiverem? E se na verdade eu for um perigo ambulante?

  A minha voz baixa instintivamente de tom. O Cameron sorri, sem perceber o meu medo.

— És ligeiramente irresponsável, mas tens melhorado... — ele brinca, enquanto apoia a sua mão na minha bochecha, com carinho. — Não és um perigo... Aliás, já ajudaste várias pessoas.

  Abano a cabeça. 

— Tenho de te contar uma coisa... — coloco as minhas duas mãos em concha, à volta da sua, e pouso-as no meu colo. Algo no meu comportamento faz o Cameron arregalar ligeiramente os olhos, num estado de alerta e atenção extrema.

— O quê?

  Respiro fundo, numa tentativa de reunir toda a coragem possível para falar sobre isto. Tenho evitado fazê-lo, com a esperança que, se ignorar o assunto, as coisas irão voltar ao normal. Mas é demasiado perigoso fazê-lo. 

— Sabes a nossa ligação com os volks? — começo, a medo. Ele assente. — Acho que a minha está a ficar demasiado forte...

  Ele remexe-se na cadeira e inclina-se para mais perto de mim. A sua voz sai num sussurro tão baixo quanto o meu, quando volta a falar.

— O que é que aconteceu?

— Eu tenho-me passado completamente. Tu viste o que eu ia fazer ao Victor... Nunca tive tanta dificuldade para controlar a minha raiva como agora. Eu... eu fico cega...

— É normal, ele tentou matar-te e por causa dele o Jack morreu...

— Também mas...Mas não é só isso... Quando estava no esgoto com a Francesca ela incentivou-me a consumir a alma de um homem...

  O seu rosto fica ainda mais sério, tenso.

— Fizeste-o?

— Não. Mas queria muito... — a minha voz sai num murmuro envergonhado. Não me orgulho nada da sensação de desejo que senti na altura. — Alguma vez te sentiste assim?

  Ele nega, em silêncio.

— Acho que não... Por vezes também sinto muita raiva mas nada assim. — tapo o rosto com as mãos. Tive esperança que o Cameron também sentisse algo parecido. 

  Ele pega-me nas mãos e, com os dedos apoiados gentilmente no meu queixo, faz com que volte a olhar para si. 

— A Sophie disse que sentíamos as emoções a um nível redobrado, como os volks. Talvez tenha sido isso que sentiste... 

— E o homem? 

— Nunca estive numa situação dessas, nunca tive essa pressão para me alimentar de alguém... Mas é como dizem, "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". Talvez seja apenas uma consequência da tua convivência tão de perto com eles. É difícil conviver com alguém e não apanhar os seus hábitos.

— Cameron... Eu quis matar alguém... Não estamos a falar apenas de um mau hábito de deixar um pacote de leite vazio no frigorífico. É mais complexo que isso. 

  Vejo o seu peito subir e descer, enquanto ele respira fundo. 

— Prometo que te vou ajudar a compreender o que se passa. Contaste isto a mais alguém? — nego com a cabeça. — Ótimo. Mesmo que o Victor já não seja uma ameaça, ainda há muita gente que nos vê como aberrações. Vamos encontrar uma solução, prometo, mas sem eles! 

  Os seus lábios depositam um beijo quente na minha testa. Solto um sorriso agradecido e encosto a minha cabeça no seu peito, sentindo os seus dedos acariciarem o meu cabelo. 

— Mas talvez fosse boa ideia voltares às consultas com a Jenna... — ele murmura. — Tem acontecido muita coisa nos últimos tempos, acho que te poderia fazer bem...

  Já tinha colocado a possibilidade de voltar a encontrar a Jenna, a psicóloga que me acompanhou quando matei a Abby e acharam que, por ser a minha primeira morte, eu precisava de ajuda para lidar com o assunto. Na época protestei, mas rapidamente percebi que eles tinham razão, eu precisava de ajuda. Tal como preciso agora. 

— Obrigada. — murmuro, antes de unir os meus lábios com os do Cameron.

  O momento é cortado quando ouço uma tosse forçada. Sigo com o olhar na direção de onde vem o som, encontrando a Elena com a porta da sala de reuniões aberta. 

— Rebekah, podes chegar aqui, por favor?

  O Cameron solta os braços que me envolvem e lança-me um sorriso encorajador. Levanto-me da cadeira e caminho até à sala, onde me sento na ponta da mesa, encarando as inúmeras caras conhecidas que se encontram sentadas ao longo da superfície de madeira.  Surpreendo-me ao encontrar o senhor Smith numa das cadeiras. Ele não faz parte da direção da academia, nem sequer vivia cá...

  Contenho a minha vontade de fazer questões, não é o meu momento de falar.

— Rebekah, como sabes estivemos a discutir o teu futuro na Academia. Ainda não tomamos uma decisão, uma vez que antes gostaríamos de te ouvir. — é a professora Kleiner quem fala, com um sorriso. Ela foi a primeira professora que tive, quando cheguei à Academia, e embora fosse um pouco aborrecida uma vez que a sua aula era teórica, sempre gostei dela. — Julgo que tens noção que as tuas atitudes têm consequências. Um guardião deve ser alguém responsável, que luta pela segurança dos outros. Não nos podemos dar ao luxo de tomar decisões irrefletidas. Durante a tua curta permanência pela Academia já perdoamos várias atitudes menos corretas da tua parte. Entraste mais tarde, devido ao teu bom desempenho nas provas de admissão permitimos que saltasses um ano, ignoramos várias faltas injustificadas que deste... — ela inúmera, levantando um dedo de cada vez. — E mesmo assim terminaste o segundo ano do curso. Este terceiro ano devia ser crucial para percebermos que tipo de guardiã serias... Prometeste que iras fazer tudo da melhor forma, no entanto desapareceste. Como deves compreender não podemos tolerar este comportamento. O que seria se todos os teus colegas agissem como tu? 

  Abro a boca para falar, mas volto a fechar assim que um novo professor começa a falar.

— Não podemos ter alunos especiais. A Rebekah não é especial. 

  A arrogância do professor que -, talvez por não ter estudado cá no primeiro ano, ou por ter faltado a meses do terceiro - ainda não conheço, faz com que toda a calma que a doçura da professora Kleiner me transmitiu, desapareça. 

— Eu não tenho culpa que a minha vida não seja como a do Harry Potter e os meus vilões não esperem pelo final do ano escolar para me atacar. 

— Rebekah... — é o senhor Smith quem murmura, num claro aviso para me comportar.

  Talvez por confusão, devido à referência que claramente não entenderam, nenhum professor fala, dando-me tempo para recomeçar.

— O que eu quero dizer é que eu não quero, nem penso ser, uma aluna especial. Queria mesmo ter feito as coisas da maneira correta, mas não deu. Como a professora Kleiner disse, um guardião deve lutar pela segurança dos outros, e foi isso que eu fiz. A Francesca estava do outro lado a magoar pessoas... — encaro os rostos dos professores, um a um. Alguns estão sérios, quase como se o problema deles comigo fosse algo pessoal, outros encaram-me com expressões relaxadas, parecendo genuinamente interessados em ouvir-me. — Posso não ser uma aluna especial, mas tenho poderes especiais. Apenas eu e o Cameron conseguíamos ir lá e fazer alguma coisa. Teria ido mais cedo, bem antes das aulas começarem, caso o Victor não estivesse deliberadamente a manter-nos aqui para nos usar, sabe-se lá com que objetivo... 

  A referência ao Victor faz com que várias pessoas desviem o olhar, visivelmente desconfortáveis. Questiono-me se não seriam elas antigos seguidores fervorosos das suas ideias. 

— Eu sei que errei. — continuo. — E entendo que neste momento não mereço que me deem uma nova oportunidade, no entanto acho que deviam avaliar a situação toda. Eu não faltei às aulas e desobedeci às ordens por rebeldia. Eu fiz isso porque era a única pessoa que podia travar a Francesca. Não considero que seja justo compararem-me com os restantes alunos, porque eles não são como eu. Eles não viveram noutro mundo nem têm as mesmas capacidades que eu, logo não podem agir como eu agi. 

  Vejo a Elena sorrir-me, provavelmente orgulhosa com o facto de ter controlado o meu temperamento e falado com educação. Após os últimos acontecimentos, até eu me surpreendo com o meu autocontrolo. Talvez o Cameron tenha razão, talvez tenha sido algo passageiro e impulsionado pela convivência com os volks...

— Muito bem. — a professora Kleiner continua, vendo que não vou dizer mais nada. — Só nos falta ouvir uma pessoa então. O Nathan Smith insistiu que queria dar o seu depoimento. 

  Todos os olhares se focam no guardião, que começa a falar. 

— Obrigada Joanne. — surpreendo-me com o facto dele usar o primeiro nome da professora. Isto significa que eles eram próximos, antes de termos ido para o outro mundo. — Como sabem sou o único guardião aqui que acompanha a Rebekah há mais tempo, fora o pai dela, claro. Tenho acompanhado o seu crescimento e evolução, e sim, ela ainda tem muito que aprender. No entanto, com a idade dela, poucos de nós tínhamos as mesmas capacidades e experiência de campo que ela tem.

— Nós cumpríamos as regras, Nathan. Se ela também cumprisse não teria tanta experiência. — o professor Arthur intervém, com a sua exigência de sempre. Estremeço só de pensar nas suas aulas. 

— É verdade, mas vamos mesmo desperdiçar um talento como o dela por causa disso? Ela própria o referiu... A Rebekah faz coisas que os outros não fazem, por isso será mesmo justo avaliá-la pelas mesmas regras que avaliam os outros? Vocês, que tanto querem proteger os humanos, preferiam que ela estivesse na Academia, a assistir a aulas inúteis enquanto havia gente a morrer? — as suas questões são retóricas, mas ainda assim o senhor Smith faz pausas dramáticas entre elas. Olho em volta, para os professores. Até os mais sérios começam a aliviar as suas expressões faciais, parecendo convencidos pelas palavras do antigo guardião do Cameron. —  Castiguem-na, mas não a ponham fora da Academia. O nosso mundo só irá perder com isso.

  Os meus lábios curvam-se num grande sorriso. Quem diria que um dia seria o senhor Smith a falar bem de mim... 

— Obrigada Nathan. — a professora Kleiner levanta-se da sua cadeira. — Se mais ninguém tiver nada a dizer, podemos avançar com as votações. 

  A sala fica em silêncio. Ninguém parece ter nada a acrescentar. 

— Muito bem. Quem vota que a Rebekah deve permanecer na Academia?

  A minha barriga é tomada por uma forte dor e as minhas mãos voltam a suar. Se isso não demonstrasse o quão nervosa estou, a minha respiração ofegante demonstraria. 

  Conto os braços que se levantam. De quinze pessoas, sendo que nem a Elena nem o senhor Smith podem votar, oito professores votam que sim. A professora Kleiner é uma delas, fazendo-me elegê-la como a minha professora preferida, mesmo que seja aborrecida. Surpreendentemente, até o professor Arthur vota a favor. 

  A professora Kleiner prossegue com as questões. No final, oito pessoas votam a favor, três contra e quatro abstêm-se. 

  O meu sorriso cresce ainda mais, assim que faço as contas mentalmente.

— É oficial. A Rebekah está de volta à Academia. 

— Mas não vamos esquecer o castigo. — o professor que não conheço, e que votou contra, intervém.

— Claro. — a Elena fala, novamente com o seu tom de diretora. — Mais tarde falaremos sobre o castigo adequado. Mas de momento, acredito que tenham aulas para preparar, uma vez que o próximo semestre está quase a começar. 

  Um por um, os professores começam a abandonar a sala. Agradeço à professora Kleiner a simpatia, antes dela se juntar aos outros, do lado de fora.

  O Cameron entra assim que todos os professore saíram, restando apenas eu, a Elena e o senhor Smith. Pelo meu sorriso, ele percebe logo que tenho boas notícias e abraça-me antes que eu diga uma única palavra.

  Assim que nos afastamos, caminho até ao senhor Smith, que se encontra junto a uma das altas janelas. 

— Obrigada por ter ajudado. 

— Achei que devia fazê-lo.

  Vejo-o sorrir e isso faz com que sorria ainda mais. 

— Então... Acha que estou preparada para ser uma Guardiã?

  O seu rosto fica mais sério, mas é apenas uma sombra do mau feitio que ele demonstrava antes. 

— Ainda te falta um ano para terminar o curso.

— O senhor sabe o que eu quero dizer...

  Ele solta o sorriso que tanto lutou para esconder. 

— Estás mais do que preparada. Mas não digas a ninguém que te disse isto.

  Gargalho. 

  Atrás de nós, a Elena mantém uma conversa animada com o Cameron. Há uns dias a minha tia ofereceu-se para ajudar o meu namorado a obter uma licença válida para ele ser guardião. Após tirar o curso de forma ilegal, ele não pode exercer a profissão sem um certificado válido. A isso acrescenta o facto dele ser um dos herdeiros ao trono, caso aconteça algo à Emily ou ela decida abdicar. A família dele - ou pelo menos a sua mãe - não apoia a sua decisão de viver uma vida tão arriscada como a de um guardião, o que não facilita em nada a sua situação.

  Ambos se encontram alheios a nós, mas, ainda assim, quando volto a falar com o senhor Smith, faço-o num tom baixo. 

— Posso começar a chamá-lo oficialmente de tio? 

  Não tenho a certeza da fase em que a relação dele com a Elena está, mas tenho notado que têm estado bem mais próximos. 

— Não.

— Talvez em breve...?

  O Nathan volta a sorrir, com um brilho nos olhos.

— Talvez.

  Olho para a minha mão direita, onde o seu anel de guardião, que ele me deu há uns meses, permanece no meu dedo anelar. É tão largo que me surpreendo com o facto de ainda não o ter perdido. Retiro o anel, relembrando-me da analogia dele ser tão pesado quanto as minhas responsabilidades enquanto guardiã, e entrego-o ao homem.

— Obrigada, mas acho que precisa mais dele do que eu. Para além disso, em breve terei o meu. 

*****

Olá, olá! 😊

Último capítulo oficialmente publicado! Nem me acredito que falta apenas o epílogo!!!

Este livro, como perceberam, termina com um final aberto. É a primeira vez que não dou todas as informações relevantes antes de o terminar, mas teve de ser. O Victor é um osso duro de roer, ainda vai demorar até revelar os seus segredos. Por isso, se querem saber o que ele quer, terão de ler o próximo livro 🤭

Mas digam-me coisas, o que acharam deste capítulo?

A Rebekah finalmente contou alguém sobre a sua raiva/desejo. 

E o Cameron foi um fofo e prometeu ajudá-la. Espero que gostem destas migalhas que romance que vou espalhando 😅

E, que ultrajeee, não a queriam deixar voltar para a academia... Eram eles que perdiam, sejamos sinceros ahah Porque a Rebekah iria arranjar forma de ser uma mercenária que mata mesmo sem licença, já conhecemos a peça ahah

O Alec e a Emily estão juntoooos!! 🥳

Tudo está bem quando acaba bem...

...Ou não? 😈 

Ups...

Vemo-nos no epilogo 🧡

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