Capítulo 2 - parte 2
Assim que se despediram de Caleizu, Conde João e Lady Sigrid fizeram o caminho de volta até a Escadaria Vermelha, e de lá, passaram por um labirinto de corredores e passagens estreitas até chegarem em um pequeno salão, quase nunca usado. A partir daquele ponto, cada um seguiu em uma direção, pois seus quartos ficavam em partes distintas da fortaleza.
Andando de forma furtiva, evitando os guardas e usando nada além do que a luz da lua para iluminar o caminho, no caso de Lady Sigrid, e uma vela, no caso de Conde João, os irmãos chegaram aos seus quartos. Lady Sigrid caiu no sono rapidamente, apesar do ronco baixo de sua ama; Conde João, por sua vez, ficou olhando pela janela, lembrando e refletindo sobre a aventura da noite, antes de se render ao cansaço e ir para a cama.
Na manhã seguinte, Nenúfar fora a primeira a acordar. Bocejando e esfregando seus olhos preguiçosamente, se sentira completamente acordada no momento em que vira dois embrulhos de tecido que só poderiam significar uma coisa: co-mi-da! Alguns segundos depois de tão deliciosa dedução, Nenúfar já havia acordado todas as outras seis crianças.
As coisas que Caleizu trouxera estavam no chão, ao lado da parede e as crianças formavam uma meia lua a sua volta. Da direita para a esquerda estavam Caleizu, Ranya, Igor, Nenúfar, Zínia, Pedro e Berílio.
Caleizu então desatara o nó que unia as duas trouxas e abriu primeiro a maior. Nela, haviam várias frutas, e algumas acabaram rolando pelo chão, mas não foram muito longe, impedidas de seguirem caminho pelas crianças. A maior surpresa foi uma fruta pesada, com tons de verde, amarelo e vermelho e um formato ovalado. Desde que eles conheceram os nobres, chegaram à conclusão de que eles poderiam comer uma fruta diferente todo o santo dia, e que não conheceriam todas. As outras frutas não lhes eram estranhas. Todos conheciam maçãs, pois era uma das frutas mais comuns. Ameixas e goiabas, por outro lado, lhes foram "apresentadas" em outras remessas. Na segunda trouxa havia um tesouro inestimável chamado queijo e carne. Por se tratarem de alimentos caros, Ranya há muito dera a ideia de trocá-los ou vendê-los; o pão e os ovos ficariam com eles, para consumo próprio. No odre havia uma bebida desconhecida; depois que todos colocaram o nariz no gargalo para sentir o cheiro e tentar descobrir o conteúdo, concordaram que deveria ser remédio para o Igor. Na bolsa havia alguns tecidos, que Nenúfar, Zínia e Pedro transformariam em camisas.
E na cesta, estavam algumas ervas curativas. Conde João falara para aquecer uma panela com água, mas para não deixar a água ferver. Depois, era só colocar três ramos (das folhas mais escuras) na panela e cantar " A Balada da Camponesa", o que daria uns 5 minutos e então tirar as folhas da água e beber. E que esse chá era para todo mundo. As folhas mais claras deveriam ser esmagadas até formarem uma pasta, para passar no peito de Igor toda a noite, na hora de dormir.
Após transmitir para todos as instruções de como as ervas deveriam ser usadas, Caleizu se levantara e pegara uma panela para fazer o chá. Enquanto isso, as outras crianças organizavam tudo. Igor e Berílio arrumavam a comida e já separavam o café da manhã, que era composto por um ovo cozido e duas fatias de pão para cada. Ranya embrulhava os queijos e os pedaços de carne, para trocar por cereais (como trigo, cevada e arroz), batatas e cenouras. Nenúfar, Zínia e Pedro separavam os tecidos por tamanho.
Quando o chá ficara pronto, todos se reuniram para o desjejum. Assim como fazia todas as manhãs, Igor orou aos deuses, agradecendo o alimento à deusa da colheita, Qaaddo. O chá tinha um aroma forte e um sabor amargo. Os primeiros goles foram seguidos de caretas, até que se acostumassem com o sabor. Os copos aqueciam os dedos que os circundavam e o percurso que o líquido fazia emanava calor desde os lábios até o peito, onde por fim o calor se dissipava.
Após a refeição, as crianças se separaram. Aqueles responsáveis pela costura se assentaram juntos e começaram a cortar e a costurar. Ranya saíra para fazer a troca de alimentos e Berílio a acompanhou para ajudar, pois pela quantidade de carne e queijo que veio dessa vez, um par extra de mãos se faria necessário. Caleizu, que dormira pouco e Igor, que estava doente, foram se deitar.
Quando voltaram, algumas horas depois, Ranya e Berílio estavam com as bolsas cheias. Os três pedaços de queijo e quatro pedaços de carne foram trocados por batatas, rabanetes, cenouras, ervilhas, cebolas, 3 kg de cevada, 5 kg de arroz e 3 kg de quinoa. Já tendo mais do que o suficiente para o alimento da semana, trocaram o último pedaço de carne por um par de luvas e de meias de lã.
Os alimentos trazidos pela dupla foram guardados e tão logo, começara o preparo do almoço. Pegaram a maior panela que tinham, colocaram água até a sua metade e a colocaram no fogo. Quatro batatas, duas cenouras e uma cebola foram cortadas e colocadas na panela, junto com algumas folhas do rabanete e dois punhados de arroz. As folhas das cenouras foram guardadas para fazer chá ou usar como tempero. Trinta intermináveis minutos depois, a sopa finalmente ficou pronta. As crianças riam e conversavam enquanto comiam a sopa com seus pedaços de pão. Acabada a refeição, tudo fora limpo e organizado.
A manhã dos pequenos nobres, no entanto, fora bem diferente.
Antes mesmo da aurora, os servos da fortaleza já se ocupavam com seus afazeres; os corredores de serviço ficavam cada vez mais movimentados e a cozinha ficava cada vez mais cheia e barulhenta. Assim que os primeiros raios de sol despontaram no horizonte e a abóbada celeste fora pintada de tons alaranjados, os servos adentraram o quarto das crianças trazendo-lhes um pequeno desjejum. Logo em seguida, chegaram seus tutores e iniciara-se a batalha diária de tirá-las da cama. Conde João bocejara muito e mal conseguira abrir os olhos; movimentando-se extremamente devagar, lavara seu rosto em uma bacia com água fresca, trocara suas vestes e comera um pedaço de queijo e algumas castanhas. Lady Sigrid, apesar de ter dormido mais, estava mais sonolenta que o irmão. Depois de chamá-la três vezes sem sucesso, sua tutora tirara suas cobertas e a puxara pelos braços para fazê-la se sentar na beira da cama. Com um pano úmido, limpara-lhe o rosto na tentativa de que a garota despertasse de seu torpor, mas de nada adiantou. Com a ajuda de uma serva, a tutora despiu-a de suas roupas de dormir e a vestiu com um vestido claro cheio de flores bordadas e então a colocou sentada à mesa, ela então esticara a mão e tateara até achar uma fruta. Lady Sigrid não abrira os olhos nenhuma vez durante todo o processo.
Após algum tempo, as crianças saíram de seus quartos e foram brincar. Tinham como brincadeira preferida o esconde-esconde e a melhor parte era se esconder dos seus tutores. Eram os dois contra a fortaleza inteira, já que os servos e os guardas sempre contavam onde eles se escondiam. Foi assim que descobriram a Escadaria Vermelha, a grade de ferro que ligava a fortaleza ao exterior e algumas passagens secretas. Hoje, porém, estavam muito cansados da noite anterior e decidiram ficar olhando para as nuvens e dizer o que elas pareciam. Ficaram brincando assim até que foram chamados para o café da manhã.
Quando chegaram, seus pais já se encontravam sentados à mesa. Eles os comprimentaram educadamente e se juntaram aos adultos. Como não havia visitas, os quatro estavam na menor sala de refeições do local, mas isso não significava pouca comida pois a mesa estava farta. Ali havia mais variedade de comida do que a mesa que fora surrupiada de madrugada. Sir Ricardo falara sobre um novo cavalo para as crianças, Lady Ruti sobre Sigrid precisar de vestidos maiores, Conde João sobre estar ansioso para o seu aniversário e Lady Sigrid sobre odiar as aulas de bordado. Conversaram, comeram, beberam e riram.
Após o café da manhã, Sir Ricardo fora para seu escritório e Lady Ruti mandara chamar mercadores de tecidos. As crianças, por sua vez, foram ter aula. Como o aniversário de 12 anos de Conde João se aproximava, eles pararam de estudar sobre os reis de outrora, a genealogia dos nobres e matemática e passaram a ter aulas de dança. Visto que ambos tinham que lutar contra suas pálpebras que cismavam em ficar pesadas todas as vezes que abriam um livro, essa mudança inesperada foi muito bem vinda. Depois de duas horas ensaiando sem parar, eles fizeram uma pausa para se refrescar e fazer o lanche da manhã. Lady Sigrid tomara sozinha quase toda a jarra com suco de laranja. Conde João, por sua vez, gostava de provar todos os sabores e bebeu suco de melancia, de abacaxi, de uva e é claro, de laranja, para o desgosto de sua irmã. Também comeram bolo de milho e de limão. Quando satisfeitos, voltaram para a aula de dança.
Faltando 45 minutos para o almoço, as crianças foram para seus quartos para se refrescar e trocar de roupa. O almoço fora no mesmo local que o café da manhã. A entrada fora um caldo bem encorpado e o prato principal fora um leitão bem grande, com um molho agridoce maravilhoso. De acompanhamento, haviam batatas douradas, vagens, ervilhas, ovos, arroz e muita salada. De sobremesa, comeram pudim e ambrosia. Com a barriga cheia, as crianças foram para o quarto tirar uma longa sesta.
Sim, eu fiz vocês lerem mais um capítulo de cortar o coração.
Não, eu não faço isso de propósito.
Pelo menos não nesse livro.
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