Capítulo 2 - parte 1

Caleizu esperou até que seus amigos saíssem de seu campo de visão para então começar a ajeitar os presentes que ganhara. Os embrulhos estavam mais pesados do que os de costume e isso lhe pôs um sorriso incerto nos lábios. Mais peso significava mais mantimentos, porém ele não sabia se conseguiria levar tudo sozinho pelo longo caminho que o separava de sua casa. Tentando ver o lado positivo - como sempre fazia quando um problema ou uma situação ruim se abatia sobre ele ou sobre seus amigos - o menino se concentrava no fato de estar mais forte e saudável, graças aos embrulhos anteriores e, consequentemente, que conseguiria levar tudo de uma única vez. Nem que precisasse fazer algumas paradas pelo caminho, para descansar os braços. Assim como Sigrid, ele amarrou o odre na cintura. Juntou as duas trouxas de comida com alguns nós e as jogou por cima do ombro esquerdo, fazendo com que uma das trouxas ficasse para trás e a outra para a frente, a fim de dividir o peso. A bolsa com os tecidos ficou pendurada no ombro direito e a pequena cesta com as ervas ficou na mão direita. No fim, ele fez sua costumeira caminhada da grande grade de ferro até seu lar sem parar nenhuma vez. No entanto, chegou bem mais cansado do que o de costume.

Seu lar ficava na periferia da cidade. Diferente da maioria das pessoas, ele não morava em uma casa, não conhecia nenhum de seus parentes e não tinha uma boa reputação. O que ele chamava de lar era uma variedade de túneis antigos, dos quais as pessoas que moravam na superfície nem sabiam da existência; sua família era composta por crianças sem lar que nem ele. Chegando na galeria onde as outras crianças se encontravam, foi recepcionado por Berílio, o único que conseguira se manter acordado. Caleizu então começou a colocar o que trazia no chão, enquanto cumprimentava Berílio. Primeiro largou as duas trouxas amarradas, depois a cesta, a bolsa e, por fim, o odre.

- O que que tem aí? - perguntou Berílio apontando para o odre.

- Sei não - respondeu Caleizu. - O combinado era as ervas pro Igor e uns tecidos pra gente fazer umas roupa - enquanto falava, se sentava no chão e cruzava as pernas - isso aí não me falaram o que era não.

- Então abre aí - disse Berílio sem conseguir se conter de curiosidade.

- Tá bom, calma - respondeu Caleizu. Então pegou o odre, o abriu e cheirou o conteúdo. - Hmmm acho que é mais remédio pro Igor - disse franzindo a testa.

- E é pra dar pra ele agora ou a gente espera ele acordar?

- Acho que agora. A gente já dá junto com isso daqui - disse enquanto pegava um frasco com uma tira de tecido marrom em volta e o mostrava para Berílio. - O João falou pra eu fazer o Igor dá um gole nisso aqui, quando eu chegasse aqui. Parece que vai ajudar com as dor que ele tá no peito e nas costas.

Caleizu então se levantou com o frasco em uma mão e com a outra pegou o odre e se dirigiu para onde Igor se encontrava. Colocara um joelho no chão - como um cavaleiro se prostrando perante seu rei - e o chamara com um sussurro. Como isso não se mostrara o suficiente para acordá-lo, Caleizu largara o odre no chão e sacudira de leve o menino a sua frente, o que se mostrara eficaz.

- O que... Que foi? - perguntou um sonolento Igor.

- Nada não - respondeu Caleizu. - Eu trouxe uma coisa que vai ajudar com tua dor - e lhe mostrou o frasco. - Dá um gole nisso aqui - disse enquanto abria a tampa do frasco e a colocava nos lábios de Igor. Após o menino engolir o líquido, Caleizu o tampou e então pegou o odre e o mesmo ritual foi seguido. - Agora volta a dormir - disse por fim.

Como as crianças haviam feito um combinado de só abrirem as trouxas de comida quando todos estivessem acordados, Caleizu e Berílio deram boa noite um para o outro e foram dormir.

Os túneis em que as crianças viviam eram gélidos e, para se protegerem, dormiam sobre tapetes, peles desgastadas e tecidos puídos. Uma pobre barreira entre seus corpos magros e fracos e o frio que vinha do chão. A vulnerabilidade a qual estavam expostos devido à débil defesa que tinham já era exemplificada através de Igor. Nos últimos dias, ele passara de um menino sorridente, brincalhão e cheio de energia para um menino abatido e esmorecido.

O que haverá na continuação do capítulo? Igor melhora com o remédio ou não?

Cruzando os dedos para que fique bom logo.

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