𓅂 𝓣𝓱𝓮 𝓦𝓮𝓭𝓭𝓲𝓷𝓰
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#DocedePessego
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Deixem o voto e comentem!
Boa leitura!
Embora pudesse envolver certa afeição, o casamento era um negócio muito claro para a classe média tanto quanto para a nobreza. Especialmente entre os burgueses e aristocratas, esse acordo envolvia um contrato lavrado em cartório, especificando as obrigações financeiras de ambas as partes. Esse contrato podia, inclusive, prever a comunhão parcial de bens.
No dia da assinatura do contrato de casamento, o alfa deveria enviar à casa do ômega uma corbelha: um cesto de palha trançada e forrada com cetim branco que continha certa quantidade de presentes, a maior parte heranças de família, que simbolizavam sua aceitação na nova casa.
Na cesta iam rendas brancas e coloridas que pertenciam à família do alfa, bem como joias passadas de geração em geração ou novas. Frascos de perfume, leques, tecidos finos, xales, estolas, bombonnières e bibelôs valiosos também a compunham. Por fim, um livro de orações para a missa de casamento e um saco de moedas de ouro que o ômega deveria distribuir para a caridade. Geralmente era montada com certa antecedência e cuidado pela família do alfa e entregue ao ômega.
Entretanto dada as circunstâncias tão urgentes e complexas, Jungkook se encontrava bastante apreensivo, segurando uma carta com o brasão dos Park e andando de um lado para o outro na sala de estar em Strand.
— Algo grave ocorreu, a assinatura do contrato estava marcada para daqui a dois meses e o conde simplesmente me envia uma carta dizendo que devo comparecer em Norwich para seguir com os trâmites?
Magnólia e Lord Archer apenas observavam a impaciência do duque e não opinaram absolutamente. A tensão no ambiente impedia a expressão de quaisquer palavras que não fossem sumariamente pertinentes.
Porém a falta de respostas fez Jungkook irritar-se. Ultimamente seus dias estavam extenuantes, sentia-se demasiadamente cansado sem motivo aparente e nem ao menos ânimo para beber e jogar ele dispunha. Noites em claro passaram a ser rotina assim como as dores de cabeça, que nem as melhores técnicas de alquimia de Lorde Archer conseguiam dar jeito.
— Me digam o que devo fazer! Estou a ponto de ter um colapso nervoso! — ele retirou o lenço da parte interna do paletó e secou o suor que escorria pela testa, proveniente do início de seu rut.
— Pois bem. O primeiro passo é se acalmar. — Magnólia levantou-se, igualmente aflita — Vá tomar um banho frio enquanto eu e Lord Archer montamos a corbelha, tenho cestos de palha na dispensa e o restante dos itens não será difícil arranjar.
— Eu ainda nem entreguei o anel de noivado para o ômega... — Jungkook sentou-se e colocou a cabeça entre os joelhos, exausto — Voltarei para Newbrook's Farm hoje e passarei meu rut na cabana, voltarei apenas na véspera do casamento. Preciso me encontrar com o ourives antes de ir para Norwich e pedir aos céus para que o anel esteja pronto.
O alfa detestava estar fora de controle. Odiava com todas as suas forças os imprevistos, sentia-se completamente ansioso quando algo novo lhe ocorria sem prévio aviso ou possibilidade.
A rotina era definitivamente o que ele estimava.
— Há algo especial que queira colocar na corbelha? Algo que o ômega aprecia? — Lorde Archer indagou com cuidado.
Jungkook mais uma vez ficou sem respostas. As palavras morriam em sua garganta enquanto ele tentava recobrar algum momento em que Jimin pudesse ter falado sobre um hobby ou até mesmo sobre sua cor preferida.
— Eu nem sei mesmo a cor preferida dele, beta. — ele se rendeu, esfregando as têmporas já doloridas.
— Oh! — Lord Archer se espantou.
— Sim, eu fracassei. O mais honroso de minha parte seria dizer ao conde que não tenho capacidade de me casar. Aquele ômega não merece um alfa como eu.
O tom de Jungkook soou melancólico e causou estranheza em Lorde Archer e Magnólia que apenas se entreolharam e permaneceram mais uma vez em silêncio.
Entretanto a duquesa pressentia algo errado em toda aquela situação, mas decidiu guardar suas indagações. Haveria o momento certo para questioná-las.
Contudo soluções imediatas precisavam ser tomadas.
— Alfa, ouça. — ela sentou-se ao lado dele e o segurou pelos ombros — Devemos pensar com racionalidade e o certo a ser feito agora é ir até Norwich assinar o contrato. Desistir do casamento a essa altura trará consequências irreparáveis, você perderá clientes, será lembrando como o alfa sem caráter. — ponderou.
A mente de Jungkook fervilhava. Queria a tão sonhada vingança, mas o caminho até alcançá-la estava exaustivo e bastante espinhoso. Não previu os percalços assim como Yoongi o alertou e ver o plano saindo dos rumos previstos, o trazia uma sensação de medo e impotência.
Estava sentado, acuado no grande sofá da sala de estar, não se parecendo em nada com o duque frio e de poucas palavras que as pessoas conheciam.
Voltou sua mente para Park Jimin. Não poderia ser tão cruel ao envolver um inocente em suas tramas.
Precisava se mostrar mais interessado naquele noivado, precisava demonstrar um pingo de afeto ao seu futuro esposo desavisado.
Relembrou o dia em que foi pego pelo ômega tocando piano e a lembrança da face completamente maravilhada dele lhe veio como uma brilhante ideia luminosa no meio da escuridão.
— Piano! — ele exclamou — Jimin gosta de piano!
— Quer dar um piano ao ômega? — Magnólia espantou-se.
— Não! Bom, eu tenho algumas partituras que ganhei de um amigo quando passei uma temporada na Polônia, são prelúdios que ele compôs em homenagem a uma ômega a qual se apaixonou, mas não fora correspondido. O nome dele era Chopin, nós nos conhecemos numa taberna e ele me presenteou com as partituras.
— Dará ao ômega uma canção feita em meio à desolação de um coração partido? Não parece romântico. — a duquesa ponderou.
— Ele nem ao menos sabe da história e me ouviu tocar quando estive em sua casa pela primeira vez. Ele se emocionou bastante, então acho que é um presente a altura. — Jungkook deu de ombros, expressando apenas o mínimo de satisfação por ter conseguido pensar em algo útil.
— Certo. Agora vá se arrumar enquanto preparamos a corbelha. — a duquesa disse, e foi prontamente ouvida.
E Jungkook seguiu para seus aposentos tentando retomar seus próximos passos um tanto desvirtuados pelos imprevistos.
Agiria mais naturalmente.
Encenaria o esposo apaixonado e evitaria mais problemas.
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Jimin havia passado a noite em claro, chorando copiosamente. Sentia-se culpado por ter sido displicente ao ponto de ser pego pela mãe e principalmente pelas palavras dolorosas que ouviu dela. O desprezo vindo por parte de Dahye era quase que palpável embora ele não conseguisse compreender os motivos. Como uma mãe pode não amar seu próprio filhote? Suas memórias voltaram a sua infância e o sentimento de proteção e carinho dados a ele com tenra idade vieram quase que em sua totalidade dos braços e colo quente de Calista. Não havia lembranças de passeios e brincadeiras em família. Seu pai nunca o havia segurado nos braços, ou mesmo brincado do que quer que fosse com ele.
Girou o corpo para o lado oposto da cama e recordou-se de todas as vezes que fora repreendido por absolutamente nada.
Seu peito doeu com as constatações.
Aquela era sua família.
Merecia proteção e carinho, não havia pedido para vir ao mundo.
Não era justo.
Ouviu a porta ser destrancada e não se mexeu, sabia quem estava chegando.
— Você nem ao menos provou a comida que eu trouxe mais cedo, não pode continuar assim. — Calista se manteve em pé ao lado da cama, impositiva.
— Calista, você confia em mim? Você é a única pessoa que eu tenho. — ele sussurrou a pergunta, quase suplicando e se ajoelhando na cama.
A beta suavizou a expressão prévia de repreensão e amansou o semblante, seguindo até a beirada da cama e convidando Jimin para um abraço.
— É claro que eu confio em você, meu raio de sol. Eu nunca tive dúvidas da sua palavra. Mas saiba que eu também não o abandonaria se realmente tivesse acontecido.
— O quê? Eu e o duque? Nunca! Eu jamais faria isso! — ele se sobressaltou quase atropelando as palavras e se desfazendo do abraço, o que fez Calista rir do ato.
— Seu noivo foi intimado a vir hoje. Ele assinará os papeis do casamento junto a você. — ela revelou consternada.
— Calista, por favor, explique toda a situação ao duque, não quero que ele pense que menti para forçar o casamento, é tudo menos isso!
— Então porque escreveu aquele bilhete? O que você tinha de tão urgente para dizer ao duque que até mesmo o fez perder o sono? — a pergunta era necessária, pois apesar de tudo, o contexto precisava ser esclarecido.
— Eu me expressei mal, na verdade eu queria dizer a ele que sou infértil, não poderei gerar seus filhotes. — ele sentou sobre as pernas, atitude que o fez parecer ingênuo, mesmo dizendo algo tão sério.
— Pela Santa Caridade! — Calista tapou a boca em espanto — Graças aos Deuses vocês não se encontraram! Jimin, não abuse da boa vontade de seus pais, eles querem esse casamento como ninguém e estão mobilizando a alta sociedade para o evento que será o maior da temporada. Você sabe melhor do que eu que a duquesa é inescrupulosa, não tente mais nada até que esse casamento seja concretizado, prometa-me!
— Sim, eu prometo. — disse baixo, sabendo não haver alternativas, infelizmente.
Tinha quase que a absoluta certeza que qualquer lugar fora daquela casa que o abrigou por toda vida era o melhor lugar para estar.
Mesmo ao lado de um alfa desconhecido e frio.
E antes que Calista pudesse partir, ele deixou um ultimo recado:
— Diga a Tae para me perdoar, sei que ele deve estar com medo, mas eu prometo que farei tudo para que ele não seja maltratado ou que volte para rua.
— Direi, agora levante-se e se alimente, não pode ficar assim. Virei buscá-lo se o conde ordenar, então fique de prontidão — Calista avisou e saiu do quarto com o coração partido pela situação tão delicada imposta ao ômega pelo destino.
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Jungkook estava sentado na desconfortável cadeira do escritório de Jisung, batendo um dos pés freneticamente no chão enquanto segurava a corbelha enfeitada por Lorde Archer e Magnólia em seu colo.
O ambiente de cores pesadas maximizava a sensação claustrofóbica e o cheiro suave de pêssego e baunilha, fazia seu alfa triste e melancólico se contorcer dentro de seu peito e aumentava a sua febre ante ao rut iminente.
— Olá duque, imagino que saiba o motivo pelo qual está aqui.
O conde deu a volta na mesa, mas não se sentou. Abriu a gaveta e tirou de lá um cachimbo e um punhado de tabaco, causando surpresa em Jungkook, que nunca presenciara um típico londrino fazendo uso de tal objeto. Entretanto dispersou seus pensamentos, voltando o olhar para outro ponto do ambiente e respondendo a pergunta feita por Jisung.
— Para assinar os papeis, presumi pelo recado que me enviou. Apenas não entendi o caráter de urgência.
— Não entendeu? — Jisung o encarava com olhos penetrantes enquanto raspava um pouco do tabaco e colocava no cachimbo — Talvez esse bilhete o refresque a memória.
Deixou o objeto que manuseava na mesa e tirou do bolso do paletó o bilhete amassado entregando-o a Jungkook que o leu com o cenho franzido.
— Ainda não esclareceu muito. Poderia ser mais objetivo?
As palavras do duque foram o estopim para que Jisung perdesse a compostura e com um único tapa forte na mesa, chegasse ao ponto daquela conversa.
— Somos dois alfas adultos com esperteza capaz de identificar brincadeiras de mau gosto e definitivamente alguém está brincando aqui. Meu filho estava escrevendo esse bilhete ontem de madrugada e planejava enviá-lo a você hoje, na primeira hora do dia, porque não estava conseguindo dormir tamanha ansiedade em lhe ver. Você profanou Jimin, tirou-lhe a pureza antes do casamento, você foi desleal, alfa! — gritou enraivecido, a saliva respingando nos papéis espalhados pela mesa.
Jungkook devolveu o olhar horrorizado e em resposta ao ultraje, levantou-se.
— Isso é mentira! Nunca toquei em Jimin! Nem ao menos lhe segurei as mãos! — ele usou a voz de alfa deliberadamente, seu sangue fervendo ante as acusações infundadas.
— Então me explique o conteúdo da carta, ou melhor, Calista, traga Jimin até aqui! — e o conde gritou mais alto.
Calista se desesperou com o chamado do patrão, estava aguardando o momento para servir o chá e ainda não havia conseguido conversar a sós com Jungkook para passar-lhe o recado de Jimin.
Precisava pensar em algo.
Ela segurou a bandeja que estava em cima da mesinha lateral próximo a porta do escritório e adentrou a sala.
— Desculpe, conde, mas Jimin não está vestido adequadamente, será necessário alguns minutos para que eu o ajude a se aprontar. — ela avisou, tremendo tanto que era possível ouvir o tilintar das xícaras na bandeja.
— Que seja, o duque provavelmente já viu além das ceroulas. Ande! — ele foi ríspido na resposta.
Necessitando de atitude imediata, Calista se aproximou de Jungkook na intenção de servi-lhe o chá enquanto ia buscar Jimin.
E no momento em que segurou a xícara de louça para entregar ao duque, uma brilhante ideia lhe surgiu.
— Olha o que você fez, beta! — Jisung repreendeu assim que viu o líquido flamejante cair no paletó impecável de Jungkook que se levantou imediatamente devido a quentura da bebida.
— Me desculpe, duque, me perdoe! Venha até o lavabo, irei ajudar a limpar!
E olhando diretamente nos olhos do duque, mesmo sendo uma atitude sumariamente proibida para os criados, Calista piscou um olho em sua direção, deixando claro que havia algo que precisavam conversar.
Jungkook por sua vez, compreendeu o código, mas não entendeu a mensagem.
Deixou-se ser guiado por Calista até o lavabo.
— Ouça, duque. Jimin não teve intenção alguma de acusar-lhe de nada, tudo foi um grande mal entendido, ele apenas quis escrever-lhe um bilhete, mas a condessa o pegou de madrugada no escritório e a desgraça foi feita. — ela começou as explicações enquanto ajudava Jungkook a retirar o paletó molhado.
— Mas então o que Jimin queria me dizer?
— Jimin é um garoto muito sonhador, ele é inteligente, diferente dos outros ômegas. Ele tem vontade de conhecer o mundo, de estudar como os alfas. Ele está trancado no quarto até o dia do casamento, está chorando muito com medo de que o senhor ache que ele quis o acusar de algo.
Jungkook se compadeceu da dor de Jimin.
Um sentimento pouco utilizado por ele.
Compaixão.
— Jimin apenas queria lhe dizer que estava grato pelo passeio e que apreciava sua companhia. Porém ele se sente tímido demais para dizer pessoalmente. Acredito que ele tenha sido infeliz ao usar as palavras no bilhete e soou romântico demais, ele lê muitos livros que sua preceptora traz e... — Calista tapou a boca com as duas mãos e arregalou os olhos com a própria confissão.
— Calista, eu não sou um alfa arcaico como os outros, fico feliz em saber que Jimin amplia seus conhecimentos com leitura contemporânea e não apenas a bíblia e livretos da igreja. — Jungkook a confortou, segurando-a pelos ombros. — Eu pensei que o havia aborrecido no passeio, fui um pouco grosseiro, não tenho muito jeito com noivados. — ele se explicou, coçando a cabeça, assumindo suas falhas. — Mas então, o que vamos dizer ao conde?
— A verdade. Que Jimin apenas queria dizer-lhe que estava grato, mas não soube usar bem as palavras. — ela limpava a mancha com um pano de algodão e já não parecia tão ruim como antes.
— Sim, busque-o e o vista adequadamente, não quero constrangê-lo ainda mais.
As confissões de Calista somadas às outras péssimas impressões que Jungkook havia tido daquela família se intensificaram após aquela conversa. A dor forte no peito, seu alfa se revirando em seu peito como se quisesse tomar decisões próprias, em nada o fazia ponderar naquele momento.
Ele respirou fundo, agarrou o paletó e se recompôs, voltando ao escritório ao mesmo tempo em que Calista subia as escadas para buscar Jimin.
Assim que entrou novamente no escritório, seus olhos giraram diante da presença desnecessária.
— Olá, duque. Veio honrar seus compromissos. — o olhar da condessa era de escárnio.
— Nunca agi como se não fosse fazê-lo. — ele respondeu com indiferença.
E sua vontade de se casar parecia multiplicar cada vez mais naquela manhã ao ver o quanto aquela família era miserável.
Faria duas vinganças, decretou.
— Pois bem. — Jisung interrompeu a iminente troca de farpas ajeitando as folhas do contrato em cima da mesa.
Em meio à tensão, os passos de Jimin e Calista se fizeram audíveis dentro do ambiente e o aroma inebriante vindo do ômega, quase fez Jungkook correr para fora dali.
Pigarreou e afrouxou a gravata em seu pescoço, não conseguindo aliviar a inquietação. Sentia o peito rasgar, desconhecia completamente aquela sensação. Seu alfa era obrigado a permanecer no limbo da indiferença, jamais lhe foi permitido ter qualquer conexão com um ômega e Jungkook lutava com toda sua força para que ele jamais se rendesse aos seus instintos.
Com um movimento suave de cabeça, olhou para Jimin que estava com um vestido bege bem simples, os olhos inchados e uma curiosa marca de sangue envelhecido no canto da boca. A brisa matutina que vinha da janela aberta passou pelos cabelos dourados do ômega e foi capaz de provocar uma reação de fúria em seu alfa, que suplicava cuidar daquele ser aparentemente tão frágil e ferido.
— Então vamos ao que nos trouxe até aqui. — Jungkook se aproximou com brusquidão e pegou a caneta da mão do conde, assinando com força demasiada o papel timbrado do condado de Norwich.
Após dar firmar o contrato, ele se virou e direcionou a caneta a Jimin, que ainda mantinha a cabeça baixa e manifestou apenas um agradecimento quase inaudível em resposta.
— Está feito. — Jisung analisou o contrato assim que o filho o assinou e o guardou dentro de um envelope.
Seguindo com os trâmites, Jungkook retirou o anel de noivado do bolso do paletó e abriu a caixinha de veludo, retirando um solitário de diamante extremamente raro dali.
Aproximou-se de Jimin e o segurou pela mão esquerda.
— Desculpe, não houve tempo suficiente para dar-lhe o anel de noivado. — ele tremia vergonhosamente ao passo em que colocava a joia no dedo de Jimin.
Do outro lado da mesa, a condessa mantinha os olhos arregalados, fixados no ponto reluzente na mão de Jimin. Se esperassem mais algum tempo naquela situação ela provavelmente soltaria algum som que transparecesse sua fúria.
— Um diamante roxo! É tão precioso e raro, Jimin! — Calista segurou-lhe a mão e elogiou o acessório.
Jimin também deixou-se perder no brilho da joia. Nunca havia visto nada tão delicado e brilhante que pudesse chamar de seu.
Aquele anel era um presente.
Sentiu por um momento um fio de alegria que foi externado por um sorriso leve no canto da boca.
E Jungkook o observava, alternando entre a razão e o instinto selvagem de seu alfa.
— A partir de hoje vocês são ômega e alfa pela lei do reino e no final de semana serão ômega e alfa pela lei de Deus. — Jisung leu os avisos aos presentes — Jimin voltará aos seus aposentos e no sábado de manhã nos encontraremos na Abadia de Westminster para a cerimônia. Tenha uma boa tarde, duque. — ele declarou, despedindo-se.
Antes que Jimin pudesse sair do recinto, Jungkook deu um passo largo até ele e o tocou gentilmente o braço.
— Jimin, olhe para mim. — ele segurou o ômega pelo queixo e girou levemente sua face de modo que pudesse ver claramente a ferida.
Tanto Jisung quanto Dahye ficaram hesitantes com aquela atitude.
— Eu gostaria de saber o motivo pelo qual Jimin está ferido na face? É uma ferida recente inclusive.
O duque recebeu o silêncio como resposta. E era o que bastava para tirar suas próprias conclusões.
— Hm. — ele exclamou afirmando com a cabeça e dando certeza às suas dúvidas — Calista, arrume as malas de Jimin, o levarei para casa comigo.
— Isso é uma afronta! — Dahye gritou. — Já não é o bastante profanar meu filhote antes do casamento oficial?
Jimin apenas arregalou os olhos, a visão ficando turva mais uma vez.
Até quando passaria por tantas situações constrangedoras como aquela?
E os olhos de Jungkook pareceram queimar em brasa assim como seu peito.
— Afronta é ver o ômega sendo agredido dentro do próprio lar, simplesmente porque você acha que tem direitos sobre ele, condessa. Mas sinto em dizer que agora que temos os papeis assinados, Jimin é um Jeon, não é posse sua mais! Sabe que posso fazer disso um rumor bastante interessante nas esquinas de Londres que se perpetuará por anos, não sabe? — Jungkook endereçou seu olhar a ela e se aproximou — O que me diz de: A condessa que agride o filho por diversão! Ou seria por outro motivo? Talvez inveja?
As palavras acusatórias do duque surpreenderam o conde até mais do que a condessa. Dahye fervia por dentro, sendo desmascarada na frente de todos.
— Vamos acalmar os ânimos! — o tom de Jisung era amistoso envolto a tensão imediata — Estamos todos felizes por essa união, creio que poderemos seguir como o combinado. Em breve terá seu ômega, não se desespere. — riu do comentário jocoso que fizera, deixando o duque ainda mais indignado.
— Jimin não é um objeto de posse! Parem de tratá-lo dessa forma!
Jungkook ainda procurava manter a coerência de suas faculdades mentais e Jisung precisou atravessar a mesa e segurá-lo pelos ombros de modo a controlar seus ímpetos um tanto violentos.
— Terá minha palavra que Jimin será bem cuidado a partir de agora até a data da cerimônia, não se preocupe com isso, meu caro. — o conde deu um leve toque em seu peito, reafirmando o compromisso.
No entanto não era claro que ele falava a verdade, absolutamente.
— Jimin, a escolha é sua. Quero que fique claro que você terá conforto e segurança em Strand se vier comigo, dou minha palavra. — Jungkook insistiu, olhando o ômega nos olhos.
No entanto o ômega já deixava escapar as lágrimas. Não sabia o que fazer, não conseguia tomar decisões tão repentinas e não tinha certeza sobre as consequências de cada uma delas. Não conhecia Jungkook, não sabia do que ele também seria capaz.
Olhou para o pai que mantinha a face firme quase que ordenando para que ele ficasse.
Então optou pelo que já conhecia.
— Eu... eu... ficarei aqui, duque. — respondeu olhando para baixo, um tanto constrangido e envergonhado.
Jungkook suspirou, o tom de voz frágil do ômega instigando seus instintos primitivos, seu alfa suplicando para que ele tocasse novamente naquela face macia e doce, que o tomasse em seus braços.
Que o protegesse.
Ele tentava se desvencilhar do instinto selvagem de sua fera, que há tempos não despertara.
Mas retornou a realidade, precisava ser forte.
Jamais tocaria aquele ômega.
Era uma promessa.
Sacudiu a cabeça e secou pela última vez a testa suada.
— Pois então será feito. — decretou contrariado — Calista, quero que acompanhe o ômega, sirva seus pratos preferidos e cuide para que seus dias até a cerimônia seja de tranquilidade e descanso. Ficarei ausente por quatro dias, e o esperarei na porta da igreja, como combinado. — olhou para Jisung e concluiu. — Estamos de acordo, conde?
A essa altura, a evidencia de seu rut não era mais segredo a ninguém.
Deveria ir embora o quanto antes ou alimentaria sua fera com carne fresca naquela manhã.
— Sim, duque. Estamos de acordo.
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Taehyung e Lily já haviam brigado algumas vezes e quase derrubaram a corbelha no chão ao tentarem disputar os melhores doces e chocolates que estavam lá dentro. O beta era o mais afoito, nem ao menos mastigava as guloseimas e as engolia num único bocado.
— O duque Jeon é muito legal, você fez um bom casamento! — ele elogiou, desembrulhando mais um docinho.
— Taehyung pare de comer, deixe pelo menos um para o dono dos presentes! — Lily repreendeu, retirando a caixa da frente do beta que conseguiu içar mais um docinho com a ponta dos dedos.
— Podem comer, já provei alguns. — Jimin avisou sem prestar muita atenção nos amigos. Seu foco central estava num papel rústico que continha notas musicais e um recado no verso:
"Esta é a canção que me ouviu tocar na primeira visita que fiz a sua casa. Treine mentalmente as notas, temos pianos em Strand e assim que chegar poderá toca-la."
Sentiu uma onda de conforto percorrer-lhe a nuca e sacudiu a cabeça, tentando dispersá-la.
Fora realmente o duque quem escrevera aquele bilhete?
Conhecia a caligrafia dele e obviamente a escrita era de próprio punho.
Havia tantas dúvidas.
Achou curiosa a forma como o duque quis protegê-lo de sua família abusiva e esboçou um pequeno sorriso ao lembrar-se das palavras acusatórias dele contra sua mãe.
Queria poder ter a coragem de falar tudo isso a ela.
Agora ele era o ômega-duque de Strand.
Por certo haveria alguns benefícios.
— Tae, agora eu sou um duque, vou levar você para morar comigo. Garanto que o duque Jeon não ira se importar. — ele disse animado.
— Mas você sabe que eu preciso da aprovação dos seus pais, acho que eles não irão permitir.
— Eles não têm que permitir nada, não pertenço mais a eles.
— Você pertence ao duque agora.
A ideia de liberdade era realmente efêmera.
Será que ele sempre seria de alguém e nunca dele mesmo?
— Você acha que o duque se casou comigo porque realmente gosta de mim? — Jimin quis saber, parecia começar a se importar com a resposta.
— Por que ele se casaria se não gostasse? — Tae não entendeu o motivo da pergunta.
Contudo para Jimin esse fato ainda não estava claro.
Havia uma densa nuvem de incertezas e dúvidas.
— Hoje ele estava tão protetor e o cheiro dele estava muito mais forte que o normal, parecia que ele tentava me confortar de alguma forma.
— Alfas fazem isso com seus ômegas, é apenas instinto. — o beta respondeu mastigando o décimo docinho e dando de ombros.
— Mas nós não temos uma marca, eu ainda não sou ligado a ele dessa forma.
Para cada resposta, surgiam-se dezenas de perguntas.
— Por falar em estarem ligados, sábado será seu casamento e sua noite de núpcias. — Lily disse com um sorriso sorrateiro nos lábios — Você verá o alfa sem roupas! — ela tapou a boca com as mãos sem controlar a risada envergonhada.
— Não me lembre desse detalhe, já estou em pânico! Pedirei a ele para que apague as luzes e vou garantir que meus olhos fiquem bem fechados.
— Ah, Jimin, não seja tolo. O duque Jeon é tão bonito, deve ser bastante agradável vê-lo com as vergonhas à mostra!
— Lily! — foi Tae quem repreendeu.
— Parem já ou eu mandarei vocês dois para fora daqui! — Jimin gritou — Vamos, agora que posso sair de casa, quero ir até a livraria comprar um livro finalmente.
Ele aproveitaria cada minuto da liberdade limitada que lhe fora concedida.
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Na densa floresta de NewBrook's Farm, o grande lobo negro bebia água no riacho próximo a cabana. Jungkook achou prudente ceder aos pedidos de sua fera ou compadeceria a dor lancinante que ela lhe causava.
Porém não ficaria fora da cabana por muito tempo e nem caçaria, já que há algum tempo aquela área estava sendo constantemente tomada por caçadores de alces o que poderia levá-lo a tomar um tiro e ser morto antes que pudesse retornar a sua forma humana.
Lavara consigo um cordeiro suficiente para alimentá-lo por três dias.
Já lhe bastava.
Mas nem tudo era baseado em saciar suas vontades primitivas por sexo naquele momento de solidão extrema.
Seu corpo permanecia inerte na improvisada cama de palha e seus pensamentos não tinham endereço algum. A febre era pior quando estava em sua forma humana, era uma resposta mal criada de seu alfa condenado ao relento dentro de si.
Sentimentos desconhecidos povoavam sua alma e ainda faltavam dois dias.
Se ao menos tivesse levado consigo uma garrafa de hidromel, as coisas não pareceriam tão deploráveis, pensou.
Mas por que ele estava tão desolado se amava a solidão?
Por que a noite tão escura e vazia trazia medo e angústia como nunca antes?
Buscaria as respostas adentrando mais uma vez na longa noite em claro.
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A cerimônia de casamento podia assumir várias formas. Famílias mais tradicionais, ou desejando demarcar seu poder na sociedade, podiam optar por grandes cerimônias religiosas, com vários convidados, decoração rica e um padre ou bispo de renome. Dependendo das inclinações políticas ou religiosas, um casal poderia optar por uma união realizada apenas no civil, mais discreta e para um número menor de convidados.
Sendo aquele século tanto um período de afirmação do liberalismo como de exaltação do fervor religioso, muitas famílias optavam por uma cerimônia religiosa. A maior parte desses casamentos acontecia no período da manhã, antes ou próximo ao meio-dia.
O noivo ômega deveria entrar obrigatoriamente vestido de branco — costume estabelecido pela rainha Victória em seu casamento —, com véu e uma grinalda de flor de laranjeira, que simbolizava a pureza assim como um enorme buquê de flores . Era conduzido pelo pai até o altar e escoltado por duas damas-de-honra, e suas amigas que faziam as vezes de madrinhas. Após a missa e bênção, ômega e alfa trocavam a aliança matrimonial.
A prática do beijo, mesmo na testa, era desencorajada. Logo após a cerimônia, ainda na igreja, os noivos receberiam os cumprimentos de amigos e parentes, dos quais apenas os mais velhos podiam beijar a testa do ômega em sinal de consideração. A Rainha Matilda recebeu um beijo na fronte do Duque de Sussex, mas não foi beijada pela esposa, a Rainha Victória. Os vitorianos consideram demonstrações públicas de afeto, especialmente entre as classes genéticas, como falta de decoro.
Esperava-se que a família do ômega pagasse pela cerimônia e pela recepção, caso houvesse uma.
A recepção deveria ser realizada na casa do ômega e deveria ser preferencialmente um almoço ou café da manhã. Bailes de casamento só eram comuns entre os muitos ricos e a própria Rainha Victória teve um café-da-manhã como recepção de seu casamento, criando uma tendência entre a aristocracia.
Após a cerimônia, o casal deveria esperar os convidados de pé no local da recepção. Os convidados eram conduzidos ao salão pelos padrinhos do alfa e cumprimentavam o casal novamente.
O casal era servido sentado, mas todos os outros convidados eram servidos em pé, a menos que houvesse espaço para disponibilizar mesas para todos. O bolo branco e o brinde com champagne eram obrigatórios.
Os casamentos urbanos costumavam ter apenas um dia ou noite para a recepção, enquanto os casamentos rurais ainda preservavam antigos costumes de dois ou três dias de celebrações. No caso dos casamentos urbanos, o ômega deveria permanecer com seu vestido de casamento até a hora de uma verdadeira inovação daquele século: a lua-de-mel.
Após a cerimônia e recepção, o casal podia partir em lua-de-mel, se tivesse meios para isso. As viagens de núpcias à Itália já eram populares, mas outros destinos, como a Noruega ou a França, também eram bastante procurados. Na Inglaterra, o casal deveria sair em viagem de núpcias logo no dia seguinte ao casamento, enquanto na França era considerado de mau gosto partir tão cedo, devendo os noivos iniciarem a viagem somente seis ou oito semanas após o casamento. As viagens de lua-de-mel começaram a se difundir após o casamento da rainha, pensadas como uma maneira de dar mais intimidade ao casal longe da família e dos compromissos sociais. Também eram bastante solicitadas as viagens para hotéis elegantes de Paris.
Ao retornarem da viagem de núpcias, o alfa deveria cruzar a porta da casa com o ômega no colo, para evitar que ele tropeçasse, o que era sinal de má sorte no casamento.
Era sexta-feira, véspera do casamento.
Já devidamente orientado por uma quantidade de estilistas enviados por Magnólia a mando de Jungkook, Jimin estava sentado em seu quarto, esperando que desembrulhassem os vários vestidos de casamento vindos da Itália especialmente para ocasião.
Todos os dias pela manhã, desde que assinaram os papéis do casamento, Jimin recebia uma cesta de frutas e pães e algumas flores as quais ele não fazia tanta questão. Estava se alimentando adequadamente sem restrições, ainda que sendo fulminado pelos olhares acusatórios de sua mãe, que mesmo a contra gosto, organizava todos os preparativos com maestria e perfeccionismo.
Jungkook pediu a Magnólia que orientassem as estilistas para que vestissem rigorosamente o ômega da forma como ele desejasse e não opinassem em contrário.
E pagou um bom punhado de libras para isso.
— Duque, o que acha desse vestido rendado, o cetim é bastante leve e combina com o tom de sua pele. — uma das estilistas perguntou, mas Jimin demorou a perceber que as palavras foram direcionadas a ele.
Duque?
Então ele era um duque agora.
— Ah.. eu não gosto de rendas, prefiro algo liso e cinza, completamente neutro. — disse, confundindo a senhora de meia idade, acostumada com vestidos tão elaborados e extremamente tradicionais para aquela ocasião.
— Bom, podemos atendê-lo prontamente, só espere alguns instantes. — ela pareceu um pouco nervosa com o pedido inusitado e então chamou a assistente para um canto do quarto.
Jimin olhava para a penteadeira tomada por maquiagens e acessórios embora não sentisse mais tanta aversão àqueles objetos. Talvez o fato de ser obrigado a usá-los sem vontade foi o verdadeiro motivo para o ódio e não a existência deles em si.
Foi retirado de suas divagações com um leve toque nos ombros cobertos por um fino robe de cetim amarelo.
— Como vai o noivo mais lindo desse reino? — Hyejin surgiu em sua frente segurando mais uma das diuturnas cestas de café da manhã — Calista me pediu para trazer isso. — e entregou-a a Jimin.
— O duque tem mandado essas cestas toda manhã desde que assinamos os papéis. E ordenou para que eu escolhesse meu próprio vestido de casamento. Acha que posso ser um pouco ousado? — ele se divertiu com a possibilidade
— Diga "meu marido" — a moça falou com um sorriso debochado — Você está casado, Jimin! E com um alfa bonitão! Agradeça eternamente por sua sorte.
— Ainda não tenho certeza se tive sorte, mas pelo menos esta semana tem sido tranquila. — ele riu.
— Sim, você está com a aparência ótima, a casa está mais arejada, as flores dos canteiros desabrocharam também... por acaso sua mãe morreu?
— Vaso ruim não quebra, Hye. Mas ela me deixou em paz por exigência do alfa, estou até saindo de casa, inclusive comprei um livro ontem pela primeira vez.
— Ah, isso é perfeito! Qual livro? — ela arrastou uma cadeira e se sentou ao lado de Jimin, curiosa no assunto.
— Se chama O Capital, peguei um jornal escondido no escritório do papai e parece que está havendo mudanças políticas em alguns países, especialmente na França e as classes menos favorecidas estão sucumbindo nas mãos dos grandes detentores do poder. Eu gostaria de entender melhor esse assunto. — ele cochichou.
— É um livro recém-publicado, ainda não li, mas garanto que é algo que perturbe bastante o sono dos alfas, tenha cuidado.
— Sim, o lerei durante a madrugada e vou escondê-lo debaixo do colchão. — os dois riram das palavras dele.
E de fato Jimin sentia-se feliz. Por mais que houvesse medo do futuro incerto ao lado do alfa, seu coração estava em paz. Sair daquela casa ao qual fora criado encarcerado por longos vinte anos era como um grito de liberdade, mesmo que talvez fosse aprisionado em Strand.
Mas deixaria para pensar em seus próximos problemas apenas quando de fato eles vierem.
— Eu realmente acho que você será muito feliz, meu amigo. Apenas não se esqueça de mim. — Hyejin lhe estendeu a mão, emocionada.
— Você tomará chás comigo todos os dias, é uma promessa! Agora venha ver como vou me vestir.
E em meio a abraços e choros, Jimin seguiu para a cama com Hyejin ao lado, porém sentiu falta de um acessório obrigatório na composição do traje de casamento.
— Creio que está faltando uma peça na combinação. — ele revirou novamente os panos, e as ceroulas e não encontrou o que procurava.
— Ah, o corset? Foi uma ordem expressa do duque de Strand. Você não o usará. Na verdade, nós nem ao menos trouxemos um. — a mulher disse com pesar.
Jimin massageou a própria testa completamente sem reação.
— Eu deveria acordar agora, antes que me iluda ainda mais! — sacudiu a cabeça, falando baixo consigo mesmo — Entendo, eu realmente não faço questão alguma dos corsets, obrigado. — respondeu para a estilista cordialmente, ainda se recompondo de mais um choque.
— Você realmente fez o casamento dos sonhos, Jimin! — Hyejin bateu palminhas.
E assim que Jimin experimentou seu vestido de casamento, os olhares surpreendentes e estupefatos lhe deram a certeza de que havia escolhido certo. Tratou de retirar rapidamente a peça para que fosse devidamente lavada e engomada e também pelo fato de que poderia ser visto por sua mãe antes da hora apropriada.
Queria chocá-la em meio a uma grande plateia.
Despediu-se das estilistas e foi até a cozinha contar sobre a prova do vestido para Calista.
Mas obviamente o dia não poderia continuar perfeito e ele teve o caminho obstruído por Dahye que o observava ao longe.
— Estou fazendo o melhor de mim para que esse casamento seja um sucesso, meu querido. Apenas faça sua parte sendo um bom ômega. — ela o segurou pelo braço, mas não apertou.
— Eu serei um bom ômega, mamãe, não se preocupe. — ele afinou a voz, quase num tom infantil que irritou a condessa ao extremo.
— Quero que se lembre de uma vez por todas, eu não aceito devolução. Assim que o duque perceber que você não tem serventia alguma, lhe deixarei definhar na sarjeta, não pisará nessa casa novamente! — ela olhava para os lados sorrateiramente, como uma ave de rapina.
— É muito mais digno viver na sarjeta do que ao seu lado, mamãe. — Jimin puxou o braço, se desfazendo do contato e saindo dali.
Não permitiria que ela acabasse com sua paz naquele dia.
Nunca mais.
𓅂
Ao cair da noite, o som das ferraduras de Heólico ressonaram no alpendre do casarão de Strand, assustando os moradores da residência.
Jungkook desceu desajeitado do garanhão, dando-lhe um tapinha suave no flanco, agradecendo pela corrida.
— Você é o melhor, garotão! Meu único amigo. — as palavras pareciam um pouco desconexas e os movimentos do alfa seguiam mais lentos que o normal dado o teor etílico exacerbado em suas veias.
Magnólia apenas observou pela janela o estado deplorável de seu pupilo, com grande preocupação.
— Achei que não voltaria para honrar seus compromissos. Sabe que horas são? — ela perguntou irritada.
Havia preparado o terno do alfa e lustrado impecavelmente os sapatos dele. Marcou o barbeiro e mandou trocar todas as roupas de cama e cortinas de NewBrook's Farm, para a noite de núpcias.
Cuidou dos mínimos detalhes.
Não era justo com ela o duque ser tão relapso naquela ocasião.
— Creio que os convidados ainda não chegaram à igreja. Boa noite para a belíssima duquesa de Strand. — ele segurou-a pela mão e depositou um beijo ali.
— Está fedendo a cachorro molhado, se tivéssemos bodes em NewBrook's Farm com certeza eu diria que estaria cheirando a eles também. — ela puxou a mão com rispidez e entrou em casa novamente, sendo seguida por Jungkook que expressava um sorriso zombeteiro.
— Sempre tão graciosa. — ele continuou a galhofa.
Jungkook não foi mais confrontado embora já tivesse consciência de que não havia agido decentemente e achou prudente seguir para seus aposentos. Estava com dois botões da camisa abertos e a bainha para fora da calça, parecendo um verdadeiro boêmio.
Sentou-se em sua cama e retirou o charuto já pela metade do bolso, acendendo-o.
Não havia o que comemorar.
Apenas queria sair de seus pensamentos.
— Por que eu tenho a sólida impressão que tudo parece improvisado? Que você na verdade não está movido pela paixão arrebatadora e o anseio natural de construir uma família? Para sua informação Lorde Archer também compartilha da minha preocupação. — Magnólia abriu a porta e jogou as palavras no sólido ambiente, em sinal de indignação.
— Eu já disse a vocês para que não perdessem seus preciosos tempos se preocupando com a minha vida miserável. — ele suspirou resignado, inalando a fumaça densa do charuto.
A duquesa foi até ele impositiva, querendo mais respostas, tentando fazê-lo reagir.
— Por que você se sente assim, Jungkook? A cada dia que olho para você vejo a vida se esvaindo de seus poros.
— Olha, Mag, eu devo minha vida a você, mas... — ele tentou encerrar o assunto, contudo foi interrompido abruptamente.
— Sim deve! Mas eu não vejo você mover um palmo para manter-se vivo. Nunca o vi tão moribundo, a barba por fazer, os cabelos tão desalinhados. Peço aos céus e a Divina Caridade que o ômega consiga entrar em seu peito e quebrar os muros que cercam seu coração.
— Bobagem. — ele negou com a cabeça, curvando o canto da boca, tom insolente voltando à tona.
E suas palavras silenciaram Magnólia por alguns instantes. Havia tanto a ser questionado, mas obviamente a condição atual de Jungkook não permitia o uso adequado de retórica.
— Quer saber a verdade, duquesa de Strand? Esse casamento é um favor que estou fazendo a Jimin, estou livrando-o da família desprezível a qual ele teve a má sorte de nascer. — Jungkook levantou-se, testando o equilíbrio antes de dar o primeiro passo.
— Do que está falando? — e ela se sobressaltou.
— Meu casamento é uma farsa, são apenas negócios. — ele se aproximou da duquesa e olhou-a nos olhos. — E sobre todas as palavras que você me disse, só errou em uma coisa: a vida já esvaiu dos meus poros.
O hálito etílico misturado ao tabaco dava a real aparência indigente tanto do corpo como da alma de Jungkook naquele momento enquanto ele seguia para o toalete.
Lorde Archer não foi solicitado para ajudá-lo com o banho, sabia que não seria bem vindo se tomasse a iniciativa por conta própria e sendo assim, apenas preparou água quente e toalhas novas.
— Não se preocupe, ômega. Farei tudo como o combinado.
E finalmente ele adentrou a tina repleta e afundou a cabeça na água.
𓅂
O esperado dia do casamento havia chegado e a Abadia de Westminster já contava com quase todos os convidados. A decoração em tons pasteis e flores da primavera davam o ar de requinte e sofisticação dignos da alta sociedade londrina e Dahye recepcionava todos com o ar petulante e vitorioso de quem tinha certeza que triunfara.
— Jimin agora é um duque com muitas posses e eu como mãe que prezo pelo conforto e bem estar do meu filhote, não poderia fazer menos do que isso. — ela se gabava para os convidados a todo momento.
Não passou muito tempo até que Jungkook chegou com Magnólia, Lorde Archer e Yoongi. Ele aparentava estar completamente recuperado da péssima noite, agradeceria o beta pelo chá intragável que o fez tomar antes do café da manhã.
Trocara poucas palavras com Magnólia, a vergonha nem ao menos o permitiu encará-la.
Seguiu até o altar e acenou para os convidados de longe. Repassou cada instrução, não poderia errar mais, afinal.
Percebeu a movimentação do coral e assim que a música começou a tocar, avistou Jimin de braços dados com o pai na porta de entrada.
Mas algo lhe causou estranheza.
— Shakespeare é tão passional, por que estão permitindo que toquem a Marcha Nupcial num casamento católico tradicional? — Jungkook comentou com a duquesa que estava ao seu lado.
— Talvez a rainha não seja tão coerente em suas ideologias, agora preste atenção no noivo. — Magnólia cochichou de volta, apontando para a entrada da igreja.
E Jungkook fez o que ela havia pedido.
Observou Jimin em sua totalidade. O longo véu lhe escondia a face, mas a caminhada firme do ômega segurando o braço do pai, dava a entender que não havia nervosismo ali.
O vestido extremamente simples num cetim de tom acinzentado era completamente fora dos padrões e para completar a ousadia, Jimin segurava um rosário de madeira maciça que caia por suas pernas, seguindo o mesmo compasso de sua caminhada.
Os convidados pareciam um pouco surpresos e era possível ouvir os burburinhos e fofocas a respeito das vestes do ômega.
Jungkook curvou o canto do lábio e esboçou um leve sorriso.
O ômega era realmente diferente.
Quis rir ainda mais ao ver sua sogra boquiaberta, mal se sustentando em pé diante a audácia do recatado filhote.
Ele cuidaria para manter Jimin longe dela até que o dia terminasse.
Assim que se aproximaram, Jisung passou a mão do filho para Jungkook que ofereceu um sorriso em cumprimento.
— Você está lindo. — o duque falou baixinho assim que se ajoelharam na frente do altar e o bispo deu inicio ao cerimonial.
Durante os minutos que se passaram, Jimin não conseguia se concentrar em nada ao redor. Sentia-se estranhamente confortável ao lado do alfa, do seu marido.
Contudo não conseguiu dizer uma só palavra a ele até as juras de amor de eterno.
"Na saúde e na doença"
"Na alegria e na tristeza"
Quase gargalhou quando o bispo começou a dizer a frase e se perguntou quem havia escrito um discurso tão mentiroso como aquele.
Analisava as pinturas sacras nas paredes da imponente igreja e tentou encontrar o motivo pelo qual não se permitiam bebês sem roupa na rua, se todos os querubins ali representados estavam com as vergonhas de fora.
Estranho.
E mais estranho ainda era sentir-se bem num dia em que ele imaginou que seria o pior de sua vida.
Não sabia se agradecia o alfa pelo fato de ter tido liberdade para escolher o próprio vestido de casamento, ou se realmente o duque se importava com seu sentimento de gratidão.
Alfas eram frios e agressivos.
Ele deveria ter cuidado.
Mas no momento em que receberam os cumprimentos do bispo ao final da cerimônia, num rompante de coragem desconhecido, Jimin finalmente agradeceu:
— Obrigado.
— Sim? — Jungkook abaixou-se para poder ouvir com clareza.
— Eu disse obrigado.
— Não tem pelo que agradecer. A propósito, gostei bastante do vestido que escolheu, estava especialmente bonito e original, mas conversaremos melhor hoje a noite, sim? Não vamos gerar mais burburinhos do que o suficiente. — provocou uma leve risada em Jimin com o tom de voz usado para tecer o comentário.
Jimin acenou com a cabeça, se tentasse falar provavelmente desafinaria algumas oitavas, dado o nervosismo que ainda persistia.
O alfa realmente pareceria não ser como os outros.
E provavelmente não seria tão ruim ser um ômega casado.
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O anel de noivado.
O rosário que Jimin entrou segurando na igreja. Ele é bem grande.
Como vocês estão?
Esse capítulo é transição para a vida de casal dos jikook... o que será que vem aí?
Entendam que o Jimin é todo soltinho e corajoso para umas coisas e um frangote para outras, isso é culpa dos traumas de infância. Conviver com aqueles pais é sucumbir no inferno!
Próximo capítulo é a continuação da recepção de casamento e a noite de núpcias... 👀
Alguma teoria?
Enfim...
Estou indo, não nego, volto quando puder!
Beejo^^
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