𓅂 𝓣𝓱𝓮 𝓤𝓷𝓯𝓮𝓮𝓵𝓲𝓷𝓰 𝓐𝓵𝓹𝓱𝓪
✧══════•❁ 𓅂 ❁•══════✧
#DocedePessego
🍑
Deixem o voto e comentem!
Boa leitura!
Londres, 1861
O tempo havia passado, mas Jungkook jamais se esquecera do dia em que avistou a réplica do anel de corvo que se manteve sob sua posse por exatos dezoito anos.
Estava sentado atrás da mesa ampla de carvalho de seu escritório em Strand e segurava a peça que estampava em alto relevo a face da ave que ele tanto temia. O ambiente claustrofóbico possuía uma nuvem densa de fumaça provinda do novo charuto adquirido em Cuba, em sua última viagem. Tomava conhaque de origem desconhecida e nem se ateve ao fato de que mesmo sendo uma manhã ensolarada de primavera, a sala estava em completa penumbra.
— Doses mínimas de ácido carbólico fariam o trabalho mais efetivo em por fim a sua vida e não deixariam o ambiente empesteado com essa fumaça fétida. — Lorde Archer abriu a porta e entrou no escritório, trazendo consigo uma xícara de chá.
Foi mais rápido do que Jungkook ao tirar-lhe o copo de conhaque recém-servido, antes que o alfa pudesse tomá-lo.
— Hm. — foi tudo o que o beta ouviu como resposta.
— Estou preocupado e a duquesa também está.
— Sou homem feito, não gastem seus tempos preciosos comigo. — respondeu com indiferença e recostou a nuca no encosto da cadeira alta, na tentativa de encerrar o assunto.
— Sim, é um belo exemplar de homem feito que já deveria ter constituído família e gerado filhotes que te exigissem o mínimo de responsabilidade e preocupação em se manter vivo. O que te atormenta, Jungkook? — o beta inquiriu, olhando-o nos olhos.
Nem mesmo ele sabia.
Necessitava com todas as forças encontrar o algoz de seu pai e fazê-lo pagar por suas noites órfãs e frias, contudo ainda havia algo. Um vazio que nada preenchia, uma desolação ao dormir e acordar que nem mesmo as longas cavalgadas com Heólico extinguia.
— É irremediável. Não irei me casar, não tenho talento para uma vida tão caricata assim e não condenaria um ômega a viver ao lado de alguém tão desinteressante como eu.
— Ninguém controla o amor, ninguém sabe quando chega e muito menos quando se vai. Apenas permita-se e deixe que a vida cuide do resto. Saia, vá aos bailes, conheça pessoas. Garanto que lapidará alguma joia rara e inocente escondida por aí, ou até mesmo encontrará algum sapatinho de cristal à procura de seu dono.
— Vocês betas são tão perspicazes, se eu fosse a rainha trocaria todos os alfas conselheiros pela genialidade de vocês. — Jungkook se divertiu, exibindo a exaltação trazida pelo consumo exagerado de álcool.
— Sabe que estou falando a verdade. — Lorde Archer insistiu em seu ponto.
— Não, não está.
O beta percebeu pelo tom seco do duque que era hora de se retirar. No entanto não havia perdido a fé, jamais perderia e em seu íntimo confiava que ainda trocaria cueiros e faria mingau para alimentar os filhotes que ainda viveriam naquele casarão.
E Jungkook, por outro lado, permaneceu inerte, arrependido por ter sido grosseiro com o criado que o aconselhava carinhosamente. Talvez Lorde Archer tivesse razão sobre seus excessos com a bebida.
Talvez estivesse certo também sobre outras coisas.
𓅂
Victória analisava cada detalhe intocado da nova sala de reuniões do recém-inaugurado Palácio de Buckingham, seu novo local de trabalho. Ela pediu para que concluíssem a obra o mais rápido possível assim que Seokjin narrou ter passado por situações constrangedoras no Castelo de Windsor, mas se recusando a dizer o nome do importunador. Dessa forma a monarca concentrou os assuntos políticos em Buckingham e deixou as amenidades como bailes e recepções para o imponente Castelo de Windsor, que também lhe servia de moradia.
E a rainha cedeu, como sempre, aos anseios de seu empregado mais fiel.
— Seokjin! —ela chamou pelo beta. — Quero que aumente o comprimento dessas toalhas de mesa, cubra-lhe totalmente as pernas, não quero alfas distraídos fantasiando com ômegas em meio às reuniões.
A sociedade vitoriana era pródiga em moralismos e disciplina, com preconceitos rígidos e proibições severas. Os valores vitorianos podiam classificar-se como "puritanos", e na época a dedicação ao trabalho, a defesa da moral e os deveres da fé eram considerados valores de grande importância. Certas condições como a preguiça e o vício estavam vinculados à pobreza e o sexo era alvo de repulsa social, uma vez que era associado a paixões baixas e o seu caráter animalesco provinha da carne. Por estas razões, considerava-se que a castidade era uma virtude que devia ser protegida.
— Sim, Majestade. Providenciarei toalhas compridas o mais breve possível. — o beta acatou. — Algo mais? — ele perguntou no mesmo momento em que Jungkook parou à porta da sala.
— Sua Majestade. — o duque de Strand cumprimentou Victória que dispensou Seokjin em um único gesto.
— Creio que está deveras adiantado, duque. Nossa reunião será após o almoço. — seu tom foi de aviso, não estenderia sua manhã com assuntos reais, muito menos antes da sua principal refeição. — A propósito, aceitou o meu convite para se tornar meu conselheiro? — indagou.
— Serei breve — Jungkook respondeu. — e não, não farei parte de seu conselho. — minou as esperanças da monarca de uma só vez.
Tudo que remetia à corte e aos desmandos morais da realeza causava repulsa em Jungkook. Fora criado para ser um alfa de valores críticos e igualitários, dada a relação tão mimetizada que possuía com Magnólia. Passou os últimos dois anos morando em Paris, onde os avanços culturais e sociais caminhavam a passos largos, tornando Londres um lugar monótono e tedioso quanto aos modismos e costumes.
Ele jamais havia pisado no Palácio de Buckingham, não conhecia qualquer conselheiro e batia a bengala impacientemente no piso de mármore, lamentando-se por estar dentro daquele espaço que lhe causava um fio tenso de ansiedade. Tratativas reais ficavam a cargo de Magnólia que mesmo aposentada, ainda participava de algumas reuniões e poupava Jungkook de frequentar aquele ambiente desagradável.
— O que deseja, então? — Victoria demonstrou irritação.
A atmosfera tornou-se pesada e a falta de afinidade entre o duque e a rainha evidenciava ainda mais o quanto aquela conversa poderia tomar rumos indesejados em poucos instantes.
— Encontraram mais um corpo decapitado no meu ducado, uma ômega fêmea. O segundo, apenas nesse mês. — suas palavras ecoaram apreensivas e também demonstravam um sinal claro de revolta
— Ora, achei que o senhor gerenciava bordéis com maestria em Strand, mas vejo que anda falhando. — a rainha foi sarcástica e caminhou em direção às obras de arte ainda envoltas em papel pardo, intocadas, ignorando o alfa.
Jungkook engoliu em seco aquelas palavras ásperas, mas não as aceitou de bom grado. Não aceitaria calúnias infundadas e acusações difamatórias.
— Não gerencio bordéis, majestade — o duque seguiu até ela disposto a não conter as palavras. —, apenas faço o mínimo para que ômegas e betas considerados a escória desse reino, não sofram o tipo de violência mais sórdida e descabida a que são expostos simplesmente por não se adequarem moralmente aos seus princípios deturpados. — sua voz ecoou pela cristaleira, fazendo-o notar que falara em um tom mais alto que o necessário.
Victória sentiu-se ultrajada, absolutamente.
— Isso foi uma afronta, alfa? — ela inquiriu, olhando feroz para Jungkook. — Soou extremamente descortês a forma como se dirigiu a mim.
Não obstante à indignação latente, o desconforto por respirar o ar da realeza e a iminência de seu rut, o duque ponderou antes de continuar aquela discussão. Não chegaria a lugar algum em suas demandas, isso era um fato.
Decidiu baixar a guarda.
— É apenas indignação. — ele ajeitou o chapéu, trocou a bengala de mão e despediu-se com um aceno. — Passar bem, majestade.
Desde que Magnólia havia declinado seu posto de duquesa de Strand e cedido à Jungkook a burocracia maçante daquela região, o alfa prezou por mudanças.
A dupla moral sexual que imperava no reinado vitoriano, abria brechas para um mundo clandestino onde proliferava o adultério e a prostituição. A noite encarregava-se de ocultar os vícios: as regiões mais pobres de Londres aglomeravam-se os bordéis, as salas de espetáculos e as salas de jogos. Nas ruas vendiam-se drogas, sexo e faziam-se apostas. Além disso, havia orgias, espetáculos eróticos, e numa época em que se defendia moralmente que as relações sexuais deveriam ocorrer apenas para fins reprodutivos.
No geral, ômegas vendiam os seus serviços por valores bastante baixos e tinham diferentes nacionalidades. Londres era uma capital em crescimento econômico acentuado e um destino popular para muitos estrangeiros que se surpreendiam ao serem jogados nas sarjetas imundas e reduzidos à escoria, por uma condição moral danosa que já era considerada arcaica por vários reinos pelo mundo.
Com a intenção de refrear a violência e vulnerabilidade social a qual esses ômegas marginalizados estavam expostos, Jungkook decidiu "regulamentar" a prostituição em Strand, cedendo a eles um local para que pudessem realizar seu trabalho e terem um pouco de dignidade, se possível.
Madamme Davaux, uma alfa francesa de cinquenta anos, coberta por várias camadas de maquiagem e detentora de enormes unhas vermelhas, fazia as vezes de cortesã do ducado, possuía alguns bons anos de experiência na mais antiga das profissões e era eternamente grata à Jungkook e Magnólia por ter sido salva das mãos da guarda real antes de ser acusada por prática de prostituição e atos libidinosos pela corte.
Ficou incumbida pelo alfa a tratar e cuidar dos novos ômegas que chegavam à Maison Rouge e cumpria seu papel com afinco e um toque de rigor.
— Camille! Bonjour chéri! — a alfa entrou no quarto das ômegas e chamou pela garota. — Vienez ici, Jungkook virá hoje!
Durante a época de colheita de girassóis em Newbrook's Farm, Jungkook e Magnólia ficavam a maior parte do tempo em Strand, devido a alergia mortal que a duquesa tinha daquelas flores. Ele sempre achou intrigante o fato de Magnólia plantar vários hectares de girassóis todo ano, mesmo sendo irremediavelmente avessa a eles. Mas havia uma explicação bastante plausível:
"Girassóis eram as flores preferidas do meu falecido marido, as planto em memória dele, mesmo que a cada ano a colheita me aproxime de seu encontro." Ela sempre debochava de si mesma.
O fato de não poder permanecer em NewBrook's Farm, forçava Jungkook a passar seus ruts na Maison e por mais que fosse o dono de cada tijolo que compunha as paredes daquele local, pagava em dobro todas as vezes que solicitava os serviços das moças e rapazes que trabalhavam ali.
Não possuía preferências e não escolhia quem quer que fosse para satisfazer-lhe. Seus desejos carnais e seus sentimentos românticos não tinham ligação alguma, eram completamente independentes e na medida em que o tempo passava, ele percebia que essas emoções se distanciavam ainda mais.
E apreciava em demasia poder controlar as sensações e se abster de afetos.
Camille se levantou abruptamente e nem mesmo arrumou a própria cama após o aviso de Mme. Davaux. Correu para o quarto de banho, levando consigo a valise e uma pequena mala com encomendas trazidas por ela da França, uma de suas últimas viagens.
Desceu correndo as escadas do grande salão que contava com um pequeno bar, uma pista de dança, que servia de palco para as apresentações noturnas e ao centro do ambiente, estofados em tons chamativos e intensos, serviam conforto aos clientes.
A garota exigiu que trouxessem água quente e gritou com uma das camareiras por motivo desconhecido e sem importância. A simples iminência da chegada de Jungkook dava a ela um rompante de prepotência e arrogância que nem mesmo Mme. Davaux compreendia.
— Meu alfa chegará em breve e ainda não me trouxeram a água quente! Inúteis! — Camille gritava pelos corredores e recebia olhares recriminadores e despeitados.
— Essa insuportável acha que o duque nutre algum sentimento por ela. Tão tola. — Dara, uma das ômegas do local, manifestou-se com desprezo.
— Deixe-a, o tempo tratará de colocá-la em seu devido lugar. Vá, você também precisa se arrumar. — Mme. Davaux ordenou, ainda observando a ansiedade desnecessária de Camille para receber Jungkook.
E o duque não demorou muito a chegar, prezava pela pontualidade inglesa e tinha assuntos importantes a tratar com a dona do local.
— Madamme Davaux. — ele a cumprimentou com um beijo na bochecha, não usual pelos modismos, mas praticável entre os dois, por carinho e respeito.
— Bienvenue, alfa! Já pedi para organizarem seus aposentos, em breve poderá se recolher. — saudou com o sotaque carregado e disposição única enquanto ajeitava o chale vermelho em seus ombros.
Havia uma suíte ampla nos fundos do cabaré que fora designada exclusivamente para as estadias de Jungkook nos seus três dias em rut. O quarto ficava trancado e apenas Mme. Davaux e ele possuíam as chaves, exigência feita em razão de sua personalidade bastante reservada.
— Obrigado. — ele foi guiado até o bar e servido pela senhora com um copo de conhaque e gelo.
— Como foi com Votre Majesté? — a mulher sentou-se ao lado dele e indagou apreensiva.
— Improdutivo como sempre. — Jungkook disse frustrado. — Temo que estejam caçando pessoas por aqui, higienizando as sarjetas da pior forma possível e vil.
— Prostitutas. — corrigiu-o. — Estão caçando prostitutas, deliberadamente.
— Hm. — foi reticente e sabia que Mme. Davaux estava certa. — E por quê? Qual o interesse em capturar e decapitar ômegas?
Após um longo suspiro e olhando para as camareiras que organizavam o local, a mulher não conseguiu encontrar respostas para a pergunta de Jungkook. Se manteve pensativa, preocupada com a segurança de seus funcionários. A mulher não explorava dos serviços sexuais que eles prestavam, sua renda provinha do ingresso para os shows do cabaré e das bebidas servidas no bar. Ela tinha princípios que não a permitiam usufruir do dinheiro das garotas e garotos que trabalhavam diretamente com sexo, por ter passado situações extremas quando chegou a Londres. Condenava o proxenetismo, pois acreditava que os funcionários eram donos de todo o dinheiro que advinha do usufruto de seus próprios corpos.
A conversa entre eles foi interrompida por uma estridente e impertinente Camille.
— Alfa! — ela gritou antes de se pendurar no pescoço de Jungkook, fazendo-o perder o equilíbrio do banco alto do bar.
— Camille. — Jungkook respondeu absolutamente reservado, retirando o braço da garota de cima de seus ombros e se inebriando com o cheiro de cereja mesclado ao perfume forte de sândalo.
Recordou que estava no inicio de seu rut e se envergonhou de suas reações corporais incontroláveis.
Jungkook era avesso a sentimentalismos e manifestações exageradas de carinho, principalmente com as moças e moços da Maison. Jamais deu esperanças à Camille, mas a garota insistia de uma forma insolente em tratá-lo como alguém íntimo, até mesmo como um noivo.
Seu lobo era extremamente solitário e triste por permanecer tanto tempo sem um parceiro ao qual pudesse compartilhar sentimentos mais profundos e a mínima possibilidade de manter contato carnal com um ômega o tornava extremamente irracional.
E Jungkook sabia disso, oferecia a carne para sua fera, mas a privava do amor.
Despediu-se de Mme. Davaux com um aceno e foi guiado até as escadas por Camille que se apresentava excepcionalmente sensual, com um vestido de decote profundo que deixava metade de seus seios para fora e uma ampla fenda que expunha as coxas bem torneadas cobertas por meia calça de renda preta com cinta liga.
Ela o puxava pela mão, fazendo questão de rebolar e olhar com desprezo para as outras pessoas que estavam nos corredores, levando Jungkook como um troféu para sua coleção.
Parou à porta e enfiou a mão no bolso da calça do alfa, procurando as chaves do quarto.
— Nem entramos e já está animado? Terei trabalho com meu lobão. — ela disse, tocando seus lábios vermelhos nos dele.
— As chaves estão no bolso no paletó. Não faça cena. — ele se irritou com o costume pouco cortês da moça, repreendendo-a.
Compreendendo o aviso do alfa, ela foi rápida em abrir a porta dos aposentos e guia-lo até a grande cama que ficava ao centro. Jungkook capturou com as costas das mãos uma gotícula de suor que escorreu por sua testa, evidenciando o início da febre.
Ele desabotoou o paletó e retirou a pequena e fina caixinha de metal do bolso interno, para desgosto de Camille. E no momento em que desatava o cinto da calça, teve as mão dela sobre as suas, impedindo-o de continuar, terminado ela de abaixar-lhe as vestes e não demorando a iniciar os estímulos que provocaram uma ereção gradativa no alfa.
— Me dê seu nó ao menos uma vez. Me dê o contato de sua pele. — ela pediu com a voz manhosa, parando os estímulos com a mão, abocanhando-o com desejo.
— Já sabe minha resposta, não sei por qual motivo ainda insiste nisso. — Jungkook retirou-se da boca da ômega, causando um barulho oco de sucção um tanto erótico, mas que não o afetou.
Deleitava-se com Camille de comum acordo. Ele deu as cartas e deixou claro que não existiria nada além de desejo carnal entre os lençóis em que se deitavam.
Não havia espaço para nada que fosse próximo do amor.
Jungkook segurou a capa fina de tripa de carneiro que havia retirado da pequena caixa e a ajustou em seu membro agora plenamente estimulado e ereto, deitando-se confortavelmente na cama.
— Venha. —chamou Camille para si, usando um tom cordial por fim.
O temor em relação às doenças venéreas tinha uma importante justificativa: os recursos terapêuticos eram muito pouco eficientes. Doenças como a sífilis eram praticamente incuráveis. Indivíduos contaminados caminhavam para morte, sempre rodeados por preconceito e pela monarquia londrina coberta de todo moralismo pedante, isolava e jogava à condenação social todo e qualquer súdito que contraísse a doença.
Dessa forma um criativo beta artesão local teve uma idéia: costurou na forma de uma bainha anatômica um ceco de carneiro e obteve, assim, uma capa protetora para a genitália dos machos.
Jungkook usava desse item e havia orientado Mme. Davaux a comprá-los com o intento de proteger a saúde das moças e moços da Maison Rouge.
Prezava por consciência social e cuidaria para que todos debaixo de sua regência no ducado tivessem acesso, garantias e liberdades asseguradas, na medida do possível.
𓅂
— JinJin! Venha, estou morrendo!
Edward chamou o beta aos cochichos, abrindo apenas uma fresta na porta. Estava esperando que o valete chegasse para auxiliá-lo com as vestes, como fazia toda manhã.
— O que houve? Por que está nu? — Seokjin entrou nos aposentos intrigado pela falta de roupas do príncipe logo pela manhã. — Não me diga que tem algum ômega debaixo daqueles lençóis! — o beta repreendeu.
— Não, JinJin, escute. É muito mais sério, é uma questão gravíssima! — Edward estava a pouco de derramar lágrimas, tamanha a sua apreensão.
O príncipe mantinha os genitais cobertos com as mãos e parecia febril, trêmulo, agora encostado à porta que acabara de fechar. Definitivamente aquela atitude não era condizente com o tão falastrão e despojado monarca.
Seokjin empertigou-se.
— Desembuche, alfa! Não tenho o dia todo para suas traquinagens! — disse irritado.
Em resposta à exigência do beta, Edward afastou as mãos e deixou as vergonhas expostas com o intuito de receber algum auxílio para sua proeza inusitada.
— Pelos Deuses! O que é isto? — Jin gritou, tapando a boca em perplexidade.
— Eu estava um pouco entediado após o café e usei o anel de guardanapos para...
— Basta! Poupe-me de sua narrativa pervertida! Faltou-lhe mais palmadas na infância, a rainha foi muito complacente com você! — o beta externou sua raiva aos gritos. — O que quer que eu faça? Que segure com minhas mãos e arranque esse anel daí em um único golpe?
— Ele está roxo, irá necrosar! Ajude-me, por favor! — o choro do príncipe tornou-se real e o carinho genuíno de pai que Jin nutria por ele foi suficiente para que o beta cedesse ao pedido.
— Troquei seus cueiros quando você era um bebê catarrento e chorão, Edward! Eu deveria deixá-lo se tornar o eunuco da corte, estamos realmente precisando de um! — Seokjin ainda bufava ultrajado pelo pedido insólito do príncipe e o estapeava os ombros com fúria.
— JinJin... — o rapaz perdia as forças enquanto ajoelhava frente ao beta com as mãos postas em súplica. — A morte é mais honrosa do que perdê-lo. — apontou para o membro inchado devido ao torniquete que o anel de guardanapos causou em sua base.
Seokjin ainda pensava numa solução à distância para aquele imbróglio, algo que não exigisse o contato de suas mãos, principalmente. Abriu as gavetas do móvel de cabeceira e encontrou imediatamente o que procurava.
— Tome! Passe uma quantidade razoável e deslize o anel para fora. — entregou o pequeno frasco de óleo de rícino para o príncipe e prosseguiu. — Deite-se com as costas na cama para aliviar a pressão. — puxou o alfa pelos braços e o guiou até a cama. — Agora ande! A rainha o está esperando!
O fato era que os dias de Seokjin não poderiam ser mais movimentados sem a presença de Edward em sua vida. Havia salvado o príncipe sem talento algum para a monarquia incontáveis vezes, o tinha criado como um filho, um amado filho e estaria por ele em qualquer situação.
Até mesmo ali, com um anel de guardanapos preso em sua genitália.
𓅂
Depois de ter avistado o anel de corvo no dedo de um aristocrata, Jungkook decidiu progressivamente passar a frequentar as casas de jogos em Westminster, na intenção de rever o dono da joia. Alfas daquela monarquia tinham o hábito rotineiro de encerrar seus dias em casinos e prolongar a noite em bordeis, tendo como garantia de perpetuação de seus costumes sórdidos, a chancela dos ômegas incapazes de manifestar qualquer desapreço pelas atitudes desprezíveis de seus maridos.
Ao mesmo tempo em que se aproximava a passos calculados da convivência com a aristocracia, crescia também a necessidade de se tomar ciência sobre as decisões monárquicas. Ele havia sido orientado por Magnólia a participar de reuniões esporádicas do conselho, apenas como ouvinte. E assim ele o fez.
Mas já estava a um passo de se arrepender.
— Sabem — Jungkook disse com pungente ira cobrindo-lhe a face. — , a realeza preza tanto pela moral e bons costumes, ômegas são ensinados desde cedo a falar o melhor latim, ensinam-lhes música clássica, pintura, costura e como se portarem elegantemente à mesa e o que mais me intriga é que toda essa educação esmerada e tradicional não lhes sirvam pra muito, já que todos eles tem o triste destino de se casarem com alfas tão medíocres quanto vocês. É de fato uma pena.
A calorosa discussão se iniciou após o barão de White Hall sugerir que ômegas não deveriam sair desacompanhados de casa, pois esse ato afloraria a curiosidade deles diante a situações imorais que pudessem presenciar nas ruas, dado o crescente distúrbio social e pobreza nos arredores de Londres.
No entanto Jungkook discordava veementemente.
— Já ocorreu-lhe alguma vez em sua inútil vida perguntar aos ômegas se estão satisfeitos em ter suas liberdades cerceadas como se fossem vítimas enjauladas em um cativeiro? Responda-me, barão! — usou sua voz de alfa, fazendo a cristaleira atrás de si tilintar com a vibração poderosa do som.
— Acalmem-se, cavalheiros! — a rainha tentou conter os ânimos. — Temos prioridades a tratar! — ela esfregou as têmporas, manifestando uma dor de cabeça que evidenciava as preocupações que cresciam feito massa de pão em suas mãos.
O conselho estava desfalcado naquela tarde, Namjoon, Jisung, Jackson e mais três representantes não puderam comparecer por motivos que Victória desconhecia. Era o primeiro dia de Jungkook como ouvinte na reunião e já fora responsável por exaltar os ânimos dos poucos presentes com sua personalidade marcante.
Do outro lado da cidade em um local ermo, os membros da BlackCrow se reuniam. Namjoon havia mudado vários acordos entre os atravessadores e alterado deliberadamente o valor das cotas do grupo, o que veio a causar descontentamento entre os homens.
— Não estamos concordando em várias coisas. — Jackson disse, com a voz repleta de ressentimento.
Namjoon estava mudado. Não era mais o mesmo alfa obstinado a conquistar todo o poder para si e isso preocupava em demasia os membros da organização.
— Apenas acho que deveríamos nos camuflar, esquecer esse anel que na verdade eu nem uso mais. — o duque de Westminster falou com pungente desinteresse. — E tem outra coisa: Victória é suficientemente poderosa para ser destituída por alguns poucos alfas anarquistas como nós.
— Você pretende dissolver a BlackCrow? Receio não ter entendido seu propósito e acho que todos nós temos as mãos sujas de sangue o suficiente para não sairmos ilesos dessa. Precisamos nos apoiar. — por incrível que pudesse parecer, Jisung era o mais sensato dali.
— Você possui as mãos sujas de sangue, conde. Apenas você. — Namjoon o corrigiu. — Mas isso não importa, cada um de nós foi responsável por algo que nos trouxe até aqui e tivemos uma importância real dentro da BlackCrow.
Os homens nada disseram perante aquela afirmação que não condizia em nada com a firmeza austera do líder e antes que alguém pudesse se manifestar, Namjoon continuou.
— Seguiremos com nosso acordo sobre os impostos e vamos esquecer as utopias quanto à conquista do reino. Estamos há dezoito anos nisso e nada mudou. Esqueçam o anel, ou continuem usando como um suvenir, para mim tanto faz. — ele se levantou da cadeira do bistrô sujo e mal frequentado, concluindo: — Preciso ir, tenho um compromisso inadiável.
A perplexidade diante à fala descompromissada e indiferente do alfa foi naquele momento deveras reveladora. Não obstante ao fato de que todos eles faziam parte daquela organização e estava enrolados até o pescoço em face de seus crimes, Namjoon sabia sobre tudo.
E se na ocasião ele declinava de seu posto como chefe supremo da BlackCrow, consequências inesperadas surgiriam, indubitavelmente.
Os senhores sentados à mesa, nada disseram entre si. Apenas acompanharam com o olhar, o duque de Westminster seguir para o coche alugado que o esperava a certa distancia dali.
E mesmo tendo a visão deturpada pela lonjura, Jackson foi capaz de reconhecer a passageira que aguardava por Namjoon.
Sobressaltou-se ao certificar-se que suas suspeitas se concretizavam: a mulher ruiva fora decisiva na mudança de planos do duque e com certeza absoluta, constatou, manipulava novos caminhos que não incluiriam os membros da organização.
Guardou os pensamentos para si, mas não deixaria nada disso em vão.
✧══════•❁ 𓅂 ❁•══════✧
Oi, tudo beimm? Vamos conversar.
A era vitoriana foi de fato um divisor de águas na história da Inglaterra, mas não romantizem, por favor, existia segregação social intensa, trabalho e exploração infantil, condições degradantes para as classes mais baixas e machismo absurdo, como estou relatando no decorrer dessa história. A arquitetura e avanços tecnológicos são os pouquíssimos pontos positivos que devemos relevar. O culto à moralidade e valores "puritanos" deturpados pelo machismo, reduziam as mulheres a simples seres dispensáveis na construção intelectual da sociedade e será justamente aí que quero chegar, além de oferecer um ômega que irá romper a "bolha" segregacionista, quero colocar na mente de vocês a noção de igualdade, quero voltar no tempo e "reparar" erros históricos, na medida do possível, dentro do nosso mundinho imaginário.
Essa fanfic é pura ficção com toques históricos, mas essa pulguinha que estou colocando atrás da orelha de vocês é bem real. Estudem, leiam livros, busquem informação, descubram o que nos trouxe até 2021 enquanto sociedade e o quanto ainda devemos melhorar!
Jungkook não é "cafetão", não ganha dinheiro com a profissão dos híbridos da Maison Rouge, ele apenas tirou todos os trabalhadores sexuais em condições precárias e de violência das ruas. Boa parte das mulheres vitorianas se prostituíam por falta de condições, havendo também as que faziam por vontade própria, então o que eu trago aqui é apenas um fato histórico.
Não há menores explorados sexualmente nessa fanfic, os híbridos da Maison Rouge são trabalhadores sexuais, acima de dezoito anos.
A questão moral e visão de cada um a respeito de trabalho sexual não será pauta de discussão aqui, até porque desde 2002, a prostituição está no rol das ocupações brasileiras e é reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego como atividade profissional restrita aos maiores de dezoito anos. É claro que existem pontos críticos nessa conversa, mas eu não vou além, não aqui nessa fanfic. Assim como eu disse lá em cima, leiam se informem e não sejam levianos ou critiquem algo sem algum embasamento teórico acerca do assunto.
Gente e o preservativo de tripa de carneiro? Vou perguntar para o Jungkook se era desconfortável, na verdade o Jimin vai fazer iss-👀
Nas minhas pesquisas não encontrei muita coisa sobre os homens vitorianos usarem preservativos com frequência em suas relações extraconjugais, mas a difusão das doenças venéreas naquela época era bastante alta, haja vista que os homens adúlteros transavam com prostitutas que também eram expostas a essas ISTs. Coloquei essa informação a título de curiosidade e para que vocês pudessem perceber as preocupações do Jungkook quanto a saúde coletiva.
Jungkook Presidente 2022!🇧🇷🇧🇷
Tiro as referências e utilizo, além de pesquisar em artigos, esse livro aqui como fonte. Essa obra conta em detalhes os modos, a arquitetura, a vida social e vários costumes vitorianos.
RANDALL, Rona. A Model Wife: 19th century style.
Gostaram?
Me peçam algum spoiler aqui👉
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top