𓅂 𝓣𝓱𝓮 𝓡𝓸𝔂𝓪𝓵 𝓑𝓪𝓵𝓵 𝓟𝓽. 2

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#DocedePessego
🍑

Deixem o voto e comentem!

Boa leitura!

A decoração estava impecável. O salão, adornado com pratarias e as mais diversas texturas de sedas e estofados, já se encontrava cheio e a banda que regenciaria a música estava a postos para entreter os convidados.

— Estou me sentindo tão deslocado. — Yoongi controlava as mãos trêmulas sentado na mesa luxuosa do salão.

— Você está impecável, Yoongi. Um lorde. — Magnólia elogiou genuinamente enquanto tomava uma taça de vinho branco.

— Magnólia tem toda razão, você está se saindo muito bem Yoongi. — Jungkook levantou a taça e pediu um brinde. — Que possamos aproveitar bem à noite!

— Eu que o diga! — a duquesa se manifestou exaltada e continuou — A propósito, estou esperando que me apresente aos seus amigos, alfa. — ela sacudiu o cartão de baile preso ao seu pulso e fez Jungkook rir com o ato.

E assim que girou a cabeça descontraidamente em reação à galhofa feita por Magnólia, Jungkook avistou numa mesa um tanto distante da sua, o alvo ao qual perseguia.

Park Jisung.

E alguém mais um tanto emburrado, sentado junto a ele.

Analisou com curiosidade os cabelos extremamente dourados do ômega de feição inexpressiva e inexplicavelmente aborrecida. Não tirou os olhos dele, por ora, quis observá-lo um pouco mais, ver como ômegas aristocratas se comportavam.

Percebeu o quanto seu corpo era esguio mesmo estando por baixo do longo vestido e seus modos eram absolutamente refinados.

Teve seu olhar sendo correspondido e então ergueu o copo, cumprimentando o garoto, mas Jimin virou os olhos para outra direção parecendo entediado, não queria ser visto e nem ao menos manter contato visual com quem quer que fosse e Jungkook riu suavemente com a atitude.

— Park Jisung tem apenas um filho? — ele quis saber mais, perguntando à Magnólia.

— Sim, Park Jimin, um ômega de uma beleza rara que poucos conhecem. — ela respondeu. — Convide-o para uma dança, vocês formariam um belo par. — concluiu sem imaginar as intenções de Jungkook.

— Hm. — ele sorveu um pouco da bebida e assentiu. — Estou apenas reconhecendo o território, não quero derrubar mesas por aqui. — disse com bom humor provocado pelas duas taças de vinho seco consumidas desde que chegara.

Do outro lado do salão, sentado a contragosto, Jimin permanecia inerte, desinteressado a qualquer assunto ou pessoa presente no baile. As palavras de sua mãe horas antes do evento lhe trouxeram uma sensação de culpa por pensar em fugir enquanto seus pais e seus amigos passariam por momentos difíceis. Não queria vê-los em situação tão precária, compadecendo também dos pais, mesmo sem estes merecerem qualquer piedade.

— Você quer comer algo, Jimin? — Taehyung colocou fim ao silêncio.

— Não, obrigado. Estou sem fome. — ele agradeceu baixinho.

— Quer ir ao toalete? Posso afrouxar o laço do corset e...

Dahye fulminou o beta com o olhar e ele interrompeu a fala imediatamente.

— Jimin, coloque um sorriso no rosto, está repelindo os alfas. Lembre-se do que conversamos. — a condessa falou em meio a um sorriso falso, ajeitando o enorme chapéu exageradamente decorado com plumas de faizão.

Logo adiante, o conde de Norwich passava por entre as mesas e cumprimentava os alfas com empáfia e prepotência, costume adquirido por convivência diária com Dahye. Parou diante da mesa onde sua fútil mulher e seu filhote estavam, mas não se sentou.

— O barão já está aqui, acabei que tomar um brandy com ele na sala dos alfas e em breve virá cortejar você, Jimin. — Jisung declarou de pé, observando o salão.

Jimin estremeceu.

Certamente teria de dançar com o barão e sentir o toque repugnante de suas mãos.

Sua visão tornou-se um pouco turva, fazendo-o piscar algumas vezes.

— E você será solícito e simpático com seu noivo, não é mesmo? — Dahye afirmou com a voz rígida e complacente ao mesmo tempo.

Não respondendo a mãe e ignorando todas as palavras que ela dizia, sentiu a boca secar como se houvesse drenado toda a água de seu corpo e suspirou profundamente. Mirou adiante e percebeu o par de olhos negros investigativos e penetrantes o analisando novamente. O alfa aparentava ser solteiro, pensou, já que não foi possível ver nenhum ômega ao seu lado.

Desviou das orbes negras e olhou para as próprias mãos cobertas por uma delicada luva de renda e sentiu vontade de arrancá-las e amordaçar sua inconveniente mãe com elas.

Desejava correr dali para bem longe. Fugir pelos campos assim como fez quando era criança. Sentir-se livre, respirar ar puro longe daqueles que o aprisionavam como um animal acorrentado.

Ouviu o anúncio do início do baile pelo toque da corneta e despertou de seus pensamentos.

Uma vez que os organizadores davam a ordem para que a orquestra começasse a tocar, eles próprios eram os primeiros a pisar no salão.

Para a primeira dança, o alfa que houvesse trazido acompanhante deveria necessariamente dançar com ela. Na segunda dança, porém, deveriam se separar, pois não era bem visto que um par dançasse muitas vezes junto.

Viu o alfa misterioso convidar a senhora que o acompanhava para dançar e quis se esconder embaixo da mesa quando notou que alguém se aproximava para pedir-lhe a próxima dança, uma vez que Jisung não cumpriu com a etiqueta e não o convidou como de costume.

— Tae, preciso ir ao toalete! — ele exclamou e empurrou a cadeira para se levantar a tempo de não ser abordado.

Taehyung o seguiu prontamente, pegando-o pelo braço.

— O que houve? Saiu tão apressado! — o beta perguntou desconfiado.

— Vamos para o jardim, preciso de ar!

Desviaram do caminho de origem e passaram pelo corredor bem menos movimentado que dava acesso à área externa de um dos vários jardins do castelo. A iluminação era bastante precária e apenas alguns postes tornavam o ambiente minimamente transitável.

—Quero me sentar. — Jimin avisou. — Na verdade eu gostaria de fugir daqui! — confidenciou com a voz embargada pelo choro.

— Acalme-se. — Taehyung pediu e o conduziu até o banco próximo a um canteiro de hortênsias. — Fique aqui, vou buscar água para você e algo para comer, precisa se alimentar.

Jimin deixou as lágrimas caírem, aproveitando o momento de privacidade enquanto a sombra do beta se desfazia adiante.

Pensando em como faria para pegar água e comida para Jimin sem ser visto pelo conde ou pela condessa, Taehyung seguiu pelo lado oposto do corredor com a intenção de encontrar alguma mesa vazia.

Entretanto assim que passou pela última pilastra do arco de entrada para o salão, foi puxado pelo braço com brusquidão.

— Me desculpe, não quis assustá-lo.

A voz grave e o cheiro de mel e maçã verde trouxeram lembranças especiais para Taehyung. Nunca imaginou que pudesse reencontrar o ômega que fizera seu coração bater com tanta força a ponto de deixá-lo sem ar.

— Eu.. eu.. — ele tentou se desvencilhar, mas sua mão foi agarrada.

— Por favor, não fuja, me diga ao menos seu nome.

O toque era suave. O olhar extremamente acolhedor.

— Eu sou Kim Taehyung. — disse tímido, sem olhar para o rapaz em sua frente.

— Muito prazer, eu sou Min Yoongi. — ele segurou firme a mão do beta para prolongar o contato.

Mas a urgência em querer mais do toque e ao mesmo tempo repeli-lo, fez Taehyung querer se afastar, com o medo do desconhecido tomando-o por inteiro.

— Eu preciso ir agora. Desculpe. — tentou desvencilhar do aperto da mão do ômega, mas não se esforçou o suficiente.

— Me diga apenas como posso encontrá-lo, quero conhecê-lo melhor. — Yoongi quase implorou.

— Sou criado do conde de Norwich, mas não me procure lá. — Taehyung pediu. — Se quiser me ver novamente, peço que me encontre às oito da manhã na segunda, em frente ao Eaton Park. — deu as coordenadas e dessa vez saiu em disparada, deixando o ômega hipnotizado pelo encontro inesperado.

Dentro do enorme salão, já sentado depois de uma dança animada com Magnólia, Jungkook bebeu mais uma taça de vinho num único gole. Procurou pela mesa de Jisung mais uma vez, passando as mãos pelos cabelos negros, recompondo-se.

Repassou o roteiro em mente, afinal não poderia falhar na abordagem.

Respirou fundo para entrar no personagem manipulador e vingativo que precisaria encenar diante do conde de Norwich e seu enigmático filho.

Ajeitou a lapela do paletó ao corpo e preparou-se para levantar.

— Duquesa. — beijou a mão de Magnólia com delicadeza — Preciso fazer negócios. — e girou o corpo rumo ao seu alvo.

Entretanto achou estranho a ausência do ômega ao lado da mãe e encurtou os passos por um momento, a fim de procurá-lo pela pista de dança. Andou por todo o salão inutilmente, afinal não avistou o garoto em lugar algum.

Saiu pelo corredor lateral disposto a procurá-lo pelo jardim, haja vista que ômegas se vestiam com bastante pano e poderiam fatigar-se com facilidade, dada a maratona exaustiva de dança.

Através da penumbra, notou uma silhueta agachada em meio ao canteiro de hortênsias e um leve aroma de pêssego e lavanda que agradou inesperadamente seu refinado olfato.

— Ômega? — chamou baixinho com medo de assustá-lo.

Apavorado pela presença desconhecida e sem nem mesmo olhar para trás, Jimin colocou a mão na boca para segurar um grito de socorro. Estava sem a presença de seu criado e se fosse pego ali, sozinho com um alfa, seria claramente o seu fim.

— Não se aproxime, alfa! — implorou ainda sem olhar para o dono da voz marcante.

O duque acatou o pedido do garoto indefeso, imediatamente. Não havia intenção alguma em causa pânico e medo, queria apenas entender o que estava acontecendo.

— Eu ficarei bem aqui, não precisa temer. — Jungkook suavizou ainda mais o tom.

Enfiou as mãos no bolso e aguardou pela próxima atitude do ômega.

Percebeu que ele estava chorando ao ouvi-lo assuar o nariz.

E fez um breve momento de silêncio.

— Obrigado. — Jimin agradeceu inesperadamente e Jungkook franziu o cenho.

Mas precisava seguir com o plano.

— Estou intrigado, parece algo inimaginável ver um ômega chorando sozinho no jardim do baile de primavera. Além do mais, pude reparar que você ainda não dançou esta noite e não é de bom tom para um alfa permitir que um ômega vá embora sem ao menos uma dança. — Jungkook se gabou por lembrar da instrução dada por Magnólia. — Vocês esperam tanto por esse evento para poderem mostrar seus belos vestidos e conhecer seu futuro marido, está perdendo tempo aqui fora. — apoiou o peso do corpo em apenas uma perna, entediado.

Achando que havia impressionado o ômega, Jungkook aguardou pela sua rendição, mas recebeu um rugido furioso e ultrajado como resposta.

— E o senhor está perdendo o seu falando comigo, por favor, saia! — Jimin ordenou.

Sentindo-se perder a batalha, o duque arriscou sua última cartada.

— Venha, vamos entrar, eu dançarei com voc...

— Acha mesmo que estaria fazendo alguma caridade dançando comigo? Acha mesmo que estou aqui sonhando com um casamento como todos esses ômegas fúteis? Você não sabe nada sobre mim!

Jimin explodiu em choro e jogou por terra todo o resquício de educação e recato tão instruídos por Dahye momentos antes de entrarem no salão. Tinha conhecimento de que provavelmente o alfa presente ali fosse denunciar sua má conduta aos seus pais, mas já havia lançado todos os bons modos ao inferno.

Pularia as grades do jardim e desapareceria naquela noite mesmo, decidiu.

E Jungkook estava imóvel, estupefato.

— Saia ou irei gritar, alfa! — Jimin levantou em meio às hortênsias, a fim de sair ele mesmo dali.

Deu o primeiro passo para fora do canteiro, porém seu sapato ficou preso na barra rendada do vestido e ele se desequilibrou.

Prevendo o desastre, Jungkook agiu com destreza e segurou Jimin, evitando a queda trágica. Agarrou-lhe firme a cintura moldada estruturalmente pelo corset e estreitou Jimin em seus braços.

— Peguei você! — ele disse, tendo seu pescoço abraçado firmemente pelo ômega ainda tomado pelo susto.

Era a primeira vez que Jimin recebia o contato tão próximo de um desconhecido e a sensação era inexplicável naquela realidade. O cheiro marcante de pinus e hortelã exalava uma nota olfativa que Jimin nunca havia sentido antes. Era algo parecido com as narrações dos livros de romance onde o ômega sentia suas pernas fraquejarem diante o cheiro inebriante do primeiro contato com seu alfa.

Não havia um nome para o aroma de Jungkook, havia uma sensação.

Os dois pares de olhos se encararam por segundos e a aflição tomou conta de Jimin, que ficou desconcertado com a beleza de jungkook. Seu corpo reagiu com um arrepio ao toque das mãos firmes em sua cintura e impulsos indescritíveis percorreram por sua espinha.

— Solte-me agora! — Jimin ordenou, mantendo os braços ao redor do pescoço de Jungkook.

— Mas é você quem está me segurando! — o duque se defendeu com um leve sorriso, erguendo os braços.

Ruborizando a face e sentindo extremamente envergonhado pela cena, Jimin se desfez do abraço, desejando desaparecer como um passe de mágica.

Mas não sairia dali sem deixar um aviso mal educado ao alfa.

— Ora, você é tão impertinente! — Jimin fez força para manter-se em pé novamente e então correu para longe dali.

Jungkook ficou para trás com um sorriso incomum nos lábios.

Jimin era completamente o oposto do que ele ouvira sobre ômegas da burguesia. Não havia traços de ingenuidade ou submissão em sua personalidade e o mais curioso era sua aversão a algo tipicamente inerente à sua classe genética:

Casar-se.

Mesmo sabendo que o casamento não era escolha do ômega e sim da família, Jungkook inquietou-se pela primeira impressão que teve de Jimin. Permaneceu por mais algum tempo no jardim, analisando seus próximos passos.

Teria mais trabalho, porém não desistiria do ômega, decretou.

Logo adiante Jimin corria tentando a todo custo se distanciar daquele alfa que lhe causou sensações tão estranhas e mal percebeu o momento em que trombou com alguém.

— Jimin! — Taehyung segurou os ombros do ômega e o encarou.

— Tae, por onde esteve? Temos que voltar, papai deve estar me procurando!

— Por que estava correndo? — o beta tentou espiar através dos ombros de Jimin, mas foi puxado pelo braço.

— Eu estava correndo para te encontrar, já demoramos o suficiente para gerar burburinhos.

— E desde quando você se preocupa com burburinhos? — ele perguntou desconfiado daquela história.

Jimin sentiu-se tentado a contar o ocorrido com o alfa misterioso no jardim, mas preferiu omitir o fato por hora.

Esperaria estar seguro em casa, no quartinho de Calista e embaixo dos cobertores para revelar seu segredo.

— Desde... eu... — gaguejou — ah, e você onde estava? — fez o feitiço ir contra o feiticeiro.

— Eu? É... eu... — o beta foi acometido pela mesma gagueira.

E o ômega entendeu que o amigo também teve um sumiço agitado.

— Conversaremos depois do baile, no quartinho da Calista. — Jimin inquiriu, levando o amigo consigo de volta ao salão de baile.

Naquela altura, Jungkook já havia voltado para seu lugar e sua mente ainda tentava processar os acontecimentos no jardim. Ansiava por saber mais a respeito do ômega assustado e obstinado que encontrara a pouco e entender os motivos que o fazia repelir veementemente um casamento.

— O tempo está passando e ainda não o vi dançando. A filha de Lee Minseok irá inundar o salão com saliva se você não a convidar para dançar. — Magnólia apontou o queixo para a mesa ao lado e era nítido o interesse da jovem ômega em conceder uma dança ao alfa mais elegante da noite.

— Na verdade eu me sinto um pouco inseguro — ele devolveu o olhar para a garota com um leve sorriso —, mas tomarei cuidado em não pisar nos pés dela. — piscou para Magnólia e se levantou rumo ao seu destino.

Deveria manter as aparências e agir naturalmente como alguém que veio se divertir e aproveitar a noite.

Segurou a mão tremula da garota e a conduziu para o centro do salão, aguardando a próxima música.

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— Edward, eu realmente espero que não esteja planejando arruinar a reputação deste reino com seus delírios. Tenho mantido você em rédeas curtas por motivos óbvios. — Victória olhava para o salão cheio, sentada em sua cadeira real, enquanto o príncipe tratava de assuntos não tão apropriados para a ocasião.

— Eu sei, mamãe, mas eu preciso de um voto de confiança! Tenho andado por todos os cantos de Londres e a insatisfação é geral. Sabe que estou me empenhando em perpetuar seu legado, contudo os tempos são outros. — ele parecia implorar para ser ouvido pela rainha.

— Besteira! Se dermos tudo o que pedem, como poderemos dominar? Conquistas precisam vir através de méritos e os ômegas já possuem o suficiente. O que querem mais? A construção social a qual vivemos é uma dádiva divina é um mandamento de Deus que precisamos preservar.

— Você é o poder, não existe escolha para o povo, quando lhes fizerem consciente as injustiças, a não ser se rebelar. — as palavras do príncipe soavam tão específicas e pertinentes que fez acender uma luz vermelha na monarca.

— De onde tem tirado essas conclusões? — ela o fitou com desconfiança e analisou sua face por alguns segundos — Eu te conheço como a palma das minhas mãos e sei que não seria capaz de pensar tão coerentemente assim por conta própria. — cruzou os braços e se ficou a centímetros do rosto do filho. — Vamos, me diga um nome. Me diga quem está o influenciando!

O rosto extremante rosado se enrubesceu ao ser inquirido com eloquência e a única atitude que ele foi capaz de tomar foi desviar os enormes olhos azuis da mira de sua mãe. Não poderia de nenhum modo entregar suas conversas com Jungkook e dizer abertamente que gostaria de ceder mais liberdades as classes inferiores.

— Não há ninguém. — ele voltou a olhar a alfa nos olhos. — Tenho lido alguns livros que chegaram da biblioteca nacional vindos de Paris e achei algumas ideias interessantes.

— Está lendo livros vindos da França... — a rainha manifestou seu descontentamento, negando com a cabeça — A queda da monarquia vinda com a revolução de 1848, jogará a França no limbo das grandes nações, eles estão fracassados!

— Está enganada, mamãe. Os avanços tecnológicos e as ideias sobre industrialização seguem a todo vapor. Luís Bonaparte tem feito um excelente trabalho... — ajeitou-se melhor na cadeira para poder respirar com mais liberdade e abaixou o timbre de voz, como se quisesse contar um segredo — Inclusive, há alguns meses eu soube que uma grande revolta dos ômegas se instalou pelo país e a única forma de controlar a fúria deles, foi ceder alguns direitos.

— Não soube de nada a respeito. — Victória desconversou, pensativa.

— Houve mortes... ômegas são muito bem treinados e pelo que ouço falar nas ruas de Londres, não estamos longe de lidar com algum distúrbio.

Edward permaneceu olhando para a mãe que já apresentava um semblante pesado, reflexo das preocupações inseridas por ele na conversa fora de hora.

— Vá procurar por algum ômega decente, Edward. Está precisando se casar o quanto antes. Veja, o salão está abarrotado e até agora você apenas encheu meus pensamentos com mais preocupações alem das usuais. — ela se levantou e ajeitou o terno de linho dourado, pedindo a mão da esposa para uma dança.

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Assim que chegou à mesa, Jimin foi interrogado pela condessa que ficou furiosa com seu sumiço. Ele alegou que teve uma breve vertigem no toalete e foi levado por Taehyung para tomar um pouco de ar e sua história convenceu a mulher.

Viu o alfa com quem conversara no jardim dançando animadamente no centro do salão e notou a diferença de tamanho entre ele e a ômega com quem dançava. Girou os olhos com desdém.

Parou imediatamente de olhar assim que foi pego por ele.

— Alfa insolente! — praguejou alto.

— O que disse? — Dahye indagou sem entender o que foi dito.

— Eu disse que a água está quente. — mentiu — Taehyung, poderia pedir para que troquem minha taça, por favor? — conseguiu disfarçar facilmente.

E para o completo azar de Jimin, a presença mais indesejada da noite surgiu um tanto desajeitada, o ventre robusto pedindo passagem por entre as mesas, fazendo taças e garrafas tilintarem com o impacto.

Jimin arregalou os olhos e procurou em vão por uma rota de fuga.

Um ar de satisfação e regozijo pairou pela face de Dahye e Jisung.

— Barão! — o conde foi o primeiro a cumprimentar. — Que honra tê-lo conosco.

O convidado nem ao menos se preocupou em acenar para Jimin, embora tivesse o observando ao longe, com lascívia.

— Conde de Norwich! Atrasei-me para o baile, pois precisei fechar negócios na baronia. Sou um alfa muito requisitado, mal consigo administrar minhas posses sozinho, são tantos empreendimentos que às vezes me esqueço que são todos meus. — vangloriou-se.

A condessa deu uma contundente cotovelada na costela de Jimin assim que ouviu o barão falar sobre seus bens, como se o ômega tivesse qualquer mínimo interesse neles.

E com o susto da cutucada exacerbada que recebeu, ele soltou um grunhido choroso.

O barão não perdeu tempo e seguiu para onde Jimin estava sentado e com duas leves batidas no ombro de Taehyung, sinalizou que queria a cadeira do beta para si.

Tendo o olhar fulminante de Dahye o analisando, o criado não teve alternativa a não ser levantar-se e ir se sentar no outro canto da mesa.

Foi quando Jimin quis afundar-se na cadeira.

— Como vai minha formosa flor? — a mão do barão pousou sobre a sua, cobrindo-a completamente.

Jimin não disse nada, apenas esboçou um sorriso no canto dos lábios que tremiam de raiva e repulsa. Todos na mesa o encararam como se esperassem alguma atitude dele diante as investidas inconvenientes do barão.

Entretanto o ômega se manteve alheio a todos em sua volta, o olhar fixo num ponto bem a frente.

Conforme o barão segurava sua mão e apertava seus dedos, seus lábios pronunciavam silenciosamente por ajuda.

— Podemos fazer os proclamas com o reverendo já na próxima semana. — a voz orgulhosa de Dahye reverberava como lanças afiadas na direção de Jimin.

—Antes dos proclamas, precisamos conversar melhor sobre o dote. — o barão fez a menção a qual ninguém esperava para o momento.

O principal papel que um ômega deveria desempenhar na sociedade era o de cuidar da prole e do alfa. Através do casamento, o ômega poderia fazer alianças políticas e financeiras importantes para sua família, salvar uma propriedade comprometida por dívidas e até subir algumas posições na sociedade. Mas, para realizar um bom casamento, havia algumas exigências que o jovem ômega deveria cumprir e a principal delas era o dote, uma determinada quantia em dinheiro, terras, rendas ou mesmo um título de nobreza que ele levava consigo para o casamento e transmitia ao alfa e aos filhos. Mesmo alguns deslizes morais, desde que não muito escandalosos, poderiam ser tolerados diante de um bom dote.

Jimin se animou por um momento, sua mãe havia dito que eles estavam falidos, então era certo que não havia dote algum a ser dado e assim o casamento não poderia ocorrer.

— Não se preocupe barão, já cuidei desse assunto e está tudo arranjado. — Jisung falou tão naturalmente que nenhum sinal de dúvida pôde ser notado em sua voz.

Confuso e cada vez mais acuado pelo corpo grande e invasivo ao seu lado, Jimin encontrou os olhos negros que o encaravam do outro lado do salão.

Jungkook observava a cena na mesa dos Park desde que deixara seu par na mesa ao lado, após uma demorada dança.

Seu alvo era Jimin.

E ele estava sendo apresentado a outro alfa naquele momento.

— Mag, sabe quem é o alfa sentado à mesa com os Park? Não me lembro de tê-lo visto antes. — indagou.

— Aquele é o barão de White Hall, um bom vivant presunçoso que por sorte herdou muitas posses. Não teria prazer algum em conhecê-lo. — a duquesa disse com desprezo.

Depois de um gole no restante do vinho, Jungkook voltou a analisar os acontecimentos adiante e estava cada vez mais incomodado com a forma como Jimin se contorcia para reprimir as investidas do alfa que o acompanhava.

Franziu o cenho e não decifrou ao certo o que o ômega queria dizer-lhe com os lábios.

Os dois permaneceram se encarando por alguns instantes até que o barão se levantou.

— Quero que me conceda a próxima dança, meu crisântemo desabrochado. — ele não pediu como era o costume, apenas segurou firme a mão de Jimin para que ele o seguisse.

E como se sua vida dependesse daquele último gesto de desespero, Jimin , com lágrimas marejando os olhos, fez mímica com os lábios e implorou por ajuda.

— Socorro! — movimentou os lábios pausadamente para que Jungkook entendesse com clareza sua súplica.

Como uma ordem irrefutável, o duque colocou-se de pé e seguiu imediatamente a passos largos e firmes até Jimin.

— Ômega. — ele se curvou diante do garoto e lhe estendeu a mão. — Perdoe-me pela demora, eu estava tratando de assuntos reais com a rainha. A próxima dança já irá começar. — ignorou o barão e guiou levemente Jimin para junto de si.

Contudo, ainda sendo segurado pelo outra mão, Jimin sentiu a presença robusta se destacando entre ele e Jungkook.

— Eu irei dançar com Jimin agora, procure outro ômega para você. — o barão falou ríspido.

— A próxima dança já havia sido combinada entre Jimin e eu, portanto espere sua vez. — Jungkook insistiu.

Para os ômegas que assistiam a cena ao longe, ter dois alfas brigando por uma dança seria um sonho. Mas Jimin parecia um grande pesadelo.

— Pois mostre-me seu cartão de visitas, ômega. Se este alfa realmente combinou, a dança estará anotada! — Thomas gesticulou para o cartão amarrado ao punho de Jimin e exigiu vê-lo.

E novamente os olhares cúmplices de uma mentira se encontraram.

Jimin suplicou por socorro pela segunda vez naquela noite.

— Acho que não compreendeu, barão. — Jungkook usou o tom grave, quase próximo à sua voz de alfa para acuar o outro. — É extremamente desrespeitoso tomar o par de um duque ou contestar a veracidade de algo que eu tenha dito. Jimin dançará comigo.

Desta vez as palavras de Jungkook foram acatadas, absolutamente. A hierarquia era cláusula pétrea para alfas da aristocracia e o duque agradeceu internamente por usar este às na manga.

Sentiu o corpo de Jimin relaxar enquanto o guiava para o centro do salão.

Mas tinha perguntas a fazer.

Segurou a cintura exageradamente fina e sentiu a mão suave tocar-lhe o ombro. Ouviu um quase inaudível "obrigado".

— O que disse? — fingiu não ter ouvido.

— Obrigado. — Jimin subiu uma oitava no timbre e não encarou o alfa.

— Hm.

Seguiram-se alguns segundos de silêncio que poderiam ser contados como gerações.

— Algo me diz que sou seu último recurso, Park Jimin.

A música começou a tocar e foi Jungkook quem guiou o primeiro passo.

E Jimin pisou em seu pé.

Talvez o medo, a pouca sensação de segurança, o pesado vestido ou até mesmo a falta de açúcar no sangue devido ao longo jejum, tenham dado coragem suficiente para que ele tivesse dito a próxima frase.

— Então por que me ajudou? Como sabe meu nome? De onde me conhece? — o ômega mantinha a cabeça abaixada e evitada contato visual.

— Shiuu! — Jungkook girou o corpo, guiando Jimin para que ficasse de costas para a mesa onde Dahye e Jisung o observavam. — está chamando a atenção das pessoas, você precisa ser discreto. — aconselhou.

— Por que fez isso? — Jimin ignorou a fala do alfa e perguntou com discrição.

— Porque o barão estava forçando você a fazer o que não queria e você parecia não ter muitas opções.

— E por que se importa?

— Por que você pergunta tanto? Você chamou minha atenção desde que cheguei. Estava chorando sozinho, não dançou com ninguém, está recusando ser cortejado por um barão de grandes posses... O que há de errado com você, Park Jimin?

Jimin ficou sem resposta. Não entendia o motivo ao qual o alfa diante de si estava tão curioso a seu respeito. Pensou que poderia ser algum truque de sua mãe para testá-lo.

Não deveria continuar ali.

Não deveria se manter tão próximo daquele alfa misterioso.

— Não há nada errado, eu apenas não quero ficar aqui. — Jimin tentou se soltar das mãos do alfa, mas foi firmemente segurado por Jungkook.

— E quer voltar para a mesa de sua adorável família e conceder essa dança ao barão? Você não pareceu muito entusiasmado ao lado dele.

E novamente o pânico tomou conta de Jimin, turvando sua visão. A urgência em desaparecer daquele lugar e se afastar daquelas pessoas o consumindo a ponto de fazer seu corpo tremer.

— Eu quero sair daqui. Não gosto de baile, não quero me casar. — sussurrou em meio às lágrimas, derrotado, sustentando-se na segurança inesperada dos braços de Jungkook.

— Por que não quer estar aqui quando todos os ômegas sonham com um baile? Por que você não quer se casar? — o duque indagou tentando camuflar a face de Jimin por entre os casais animados que dançavam junto à eles.

As palavras de Jungkook foram tão leves quanto a brisa fresca da manhã. Ninguém além de Calista, Taehyung e Lily se importavam genuinamente em saber sobre seus sentimentos.

Aquela nova sensação o apavorou, deveria sair imediatamente dali.

— Eu preciso ir!

Jimin aproveitou o afrouxar das mãos do duque em volta de sua cintura e escapou de seus braços rumo à área externa do salão.

Porém, para espanto de todos os presentes, seu frágil corpo desabou no meio da pista de dança, deixando Dahye estupefata e em choque, com as mãos postas em frente à boca.

Jungkook correu até o pobre garoto desfalecido enquanto todos permaneciam parados.

Sua perplexidade diante à situação grotesca lhe trouxeram mais perguntas que necessitariam de urgentes respostas.

— O que há de errado com você, pequeno ômega?

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O início oficial dos jikook, espero que tenham gostado e desculpem os erros!

É muito difícil escrever, às vezes não me sinto motivada, tenho problemas como todo mundo, mas o carinho que recebo de alguns de vocês sempre me traz energia. Desejo tudo em dobro!

Feliz Natal e obrigada por estarem aqui acompanhando essa história!

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