𓅂 𝓣𝓱𝓮 𝓡𝓸𝔂𝓪𝓵 𝓑𝓪𝓵𝓵 𝓟𝓽. 1

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#DocedePessego
🍑

Deixem o voto e comentem!

Boa leitura!

A primavera londrina oferecia uma das mais belas paisagens para a estação mais romântica do ano, florescendo e colorindo a cidade por todos os cantos. O baile, marcado para o final de semana, trouxe famílias dos mais distantes reinos para a confraternização e por esse motivo as ruas estavam bastante movimentadas.

— Está sentindo-se bem, Jimin? — Hyejin manifestou preocupação genuína. — Achei bastante precipitado a condessa ter trazido você para o chá de Lady Jane depois do que houve.

— Eu estou bem, obrigado por se preocupar. Calista tem me alimentado além do suficiente e até ganhei peso. — riu do próprio comentário — Só não sei como vai ser quando eu me casar e meu alfa pedir por filhotes, provavelmente eu não serei capaz de gerá-los.

O tom que Jimin usou ao dizer aquelas palavras poderia ser traduzido em resignação. Passou os últimos dias em repouso absoluto, recuperando as energias que lhe foram drenadas pela forte hemorragia causada pelo uso tão prematuro e indiscriminado de supressores, tendo plena consciência de que provavelmente não poderia gerar filhotes. Não se abalou com a possibilidade, até animou-se, já que o fato poderia afastar os alfas de seu caminho.

Enquanto permaneceu em convalescência, teve a visita indesejada da condessa diuturnamente, instruindo-o quanto aos arranjos do baile e dos eventos que o precedia. Lembrou-o, inclusive, de que o barão de White Hall havia manifestado interesse definitivo em tomar-lhe como esposo e que ele deveria esconder de seu futuro marido a sua infertilidade.

— Não consigo me conformar com isso, quase nenhuma família medica seus ômegas com supressores, não são seguros! — a preceptora disse indignada. — Ainda precisamos estudar seus efeitos colaterais que não são poucos, inclusive.

— Talvez algum dia eu consiga fugir para a França e estudar em Sorbonne, poderei me tornar um médico e aprender melhor sobre os supressores, ou mesmo um pintor, ainda não me decidi. — Jimin falou com a seriedade de um calouro recém-matriculado.— Na verdade, posso ser os dois, obviamente, assim como Leonardo DaVinci. — concluiu orgulhoso.

— Jimin, ninguém nesse mundo merece ter alguém com a alma tão pura quanto a sua. Você se sente tão otimista mesmo nos piores cenários. — Hyejin sorria encantada com a ingenuidade do ômega. — Sabe que é praticamente impossível para ômegas serem aceitos em universidades renomadas, apenas alfas podem se tornar doutores.

Ele ignorou o comentário da moça, não queria que sua última esperança fosse anulada.

— Preciso planejar minha fuga, Hyejin. Agora que tenho quase vinte anos, papai permitiu que eu saísse com Calista para o mercado e existe uma pequena loja de livros velhos bem ao lado, então enquanto ela compra os produtos, eu fico folheando os livros. — ele confidenciou em voz baixa. — Estou terminando de ler Robinson Crusoé e me sinto inspirado a seguir seu caminho.

— Jimin! — a moça colocou a mãos na boca para camuflar a eloquência da palavra. — Ele permaneceu exilado e sozinho por 27 anos! Numa ilha deserta! — Hyejin estava indignada. — Me ouça, você irá conhecer um alfa especial, você será bem tratado, então não perca as esperanças. — o consolou como se tentasse fazê-lo esquecer do assunto.

Jimin apenas girou a cabeça para o lado oposto, sentindo-se incomodado com a certeza tão absoluta de Hyejin sobre o seu futuro fadado ao fracasso. Obviamente ele não seria bem tratado e nem conheceria uma alfa especial, concluiu mentalmente, puxando o tecido liso de suas luvas.

— Não tenho como escapar, mamãe já disse que irei me casar com o bode velho. Eu preciso fugir antes da noite de núpcias o que significa que tenho uns dois meses para planejar.

Hyejin não reagiu à afirmação de seu pupilo. Sabia que qualquer plano possível não seria suficiente para livrá-lo de seu destino.

A anfitriã da tarde colocou um fim ao silêncio da dupla, cumprimentando-os formalmente. Lady Jane era uma ômega viúva, toda sua riqueza provinha da exploração de jazidas de diamante no continente africano e por esse motivo, ela ostentava joias confeccionadas com muito requinte e de valor inestimável.

— Park Jimin, eu presumo. — ela perguntou cordialmente, esboçando um sorriso, mas com curiosidade no olhar.

— Sim, é um prazer estar aqui, duquesa. — Jimin respondeu com suavidade, levantando-se rapidamente.

— Você tem uma beleza além do usual, Park Jimin. Uma pele tão macia... — ela o segurava pelas mãos e a textura fina da luva de seda que o ômega usava, permitia a sutileza do toque. — mas seu cheiro... não consigo identificar.

Jimin sentiu um pouco de constrangimento com a proximidade da mulher que o analisava minuciosamente, mas não era como se estivesse a repelindo, apenas precisava de um pouco de espaço.

— Eu... eu não tenho cheiro tão marcante e uso óleo de rícino para hidratar minha pele, talvez seja por isso que não pareça tão evidente. — usou uma desculpa qualquer para sair da situação embaraçosa.

— Oh, tem razão, óleo de rícino é uma ótima camuflagem para o cheiro. Venha, quero que conheça alguns ômegas, o baile está próximo e você precisa fazer amizades. — ela o segurou pelo braço e continuou: — É lastimável que Yerin, a duquesa de Sussex não esteja aqui, ela está com o mal venéreo — cochichou as últimas palavras. — Enquanto a cidade continuar tomada por prostitutas, estaremos em perigo constante.

Jimin não compreendeu certamente o comentário de Lady Jane e se manifestou genuinamente.

— A duquesa se relaciona intimamente com prostitutas?

Talvez se ele tivesse ofendido a anfitriã com os piores xingamentos, o efeito de sua frase teria sido menos ultrajante.

— Que horror! — Lady Jane parou imediatamente e Hyejin segurou o riso, mordendo os lábios. — Mas é claro que não!

— Pois então não se deve culpar as prostitutas pelo adoecimento da duquesa e sim o alfa com quem ela é casada. — Jimin respondeu prontamente deixando a mulher diante de si sem palavras.

A capacidade argumentativa de Jimin crescia de acordo com o número de livros que lia e era diretamente proporcional a vontade absurda de adquirir conhecimento que fosse o bastante para que ele pudesse manifestar suas convicções, mesmo sabendo que seria repreendido ou até castigado pelos pais. Os livros despertaram em si um desejo de conhecer o mundo, descobrir novos horizontes e perspectivas, contudo havia a barreira intransponível da cultura de segregação de classe genética que obviamente jogaria seus planos por terra.

E o seu futuro casamento com o barão dificultaria imensamente o alcance de seus objetivos.

Após uma hora sentado ao lado de ômegas fúteis e sem qualquer ambição além de um casamento com algum alfa da aristocracia, Jimin comeu escondido seu terceiro pedaço de bolo de nozes, enchendo a boca com um bocado do doce, pedindo aos céus para que sua mãe não percebesse.

Mas aquele dia não estava sendo de tanta sorte.

— Park Jimin, se você comer mais alguma migalha do que seja, eu o proibirei de se alimentar até a manhã do baile! Como acha que caberá em seu vestido se come feito uma draga? Não me envergonhe! — Dahye cochichou em seu ouvido, segurando-o forte pelo punho.

E Jimin nada respondeu. Apenas continuou mastigando e apreciando os pedaços de nozes que se desmanchavam em sua boca, em claro sinal de que já não ligava muito mais para o que sua mãe pudesse fazer para reprimi-lo.

Sua única motivação era fugir assim que casasse e viver bem distante dali.

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A cabana era um dos locais onde Jungkook sentia-se mais vulnerável sentimentalmente, afinal era ali que ele se permitia chorar nos últimos anos. Levou consigo uma garrafa de hidromel e alguns charutos que se bastassem por dois dias, tempo que ele levaria para consertar o telhado da rústica habitação. Havia caçado no trajeto de ida, e o animal abatido era suficiente para saciar-lhe a fome pelo tempo previsto.

O local não era revestido de luxo algum, muito pelo contrário, não possuía o conforto de Strand e nem ao menos a dimensão dos cômodos amplos do casarão de NewBrook's Farm. O pouco espaço era divido em uma pequena cozinha, com uma mesa simples de carvalho que dava acesso à sala, a qual Jungkook não havia se preocupado em colocar nem um simplório sofá. Uma lareira modesta com algumas toras de madeira que serviriam com lenha, era a única decoração do local. Um lance de escadas seguia para o andar de cima, onde havia um quarto tão minimalista quanto o restante da habitação. Havia somente um tapete ao chão e uma tina vazia, usada para o banho.

Entretanto essa ausência de conforto era facilmente explicada pelo real motivo que levavam Jungkook a frequentar o local: seu rut. Desse modo, como ele costumava a passar o cio em sua forma lupina quando não estava em Strand, qualquer apetrecho de necessidades exclusivamente humanas não se fazia necessários.

E estar ali, em sua forma completamente diferente do lobo negro e solitário, o fez repensar sobre a falta de itens domésticos quando ele procurou por um copo para servir-se de hidromel e encarou a realidade.

— Hm. — resmungou, sacando a rolha da garrafa amendoada e tomando um grande gole do líquido potente.

Andou de um lado para o outro, fazendo o salto de suas botas de montaria ressonar no piso de madeira empoeirado e continuou reflexivo.

Puxou um charuto do bolso do paletó, sentou na cadeira e acendeu o objeto, inalando profundamente a fumaça.

— Nada mal. — regozijou-se jogando a cabeça para trás, expirando a fumaça.

A sua estadia na cabana seria provavelmente entediante, mas clara intenção ali era tornar o local mais habitável, já que não planejava passar tanto tempo ao lado de seu futuro marido. Ansiava por vingança e não deveria afeiçoar-se ao filho do assassino de seu pai. Coletaria informações que julgasse úteis, aproximaria de Jisung e o faria confessar diante de si e sucumbir aos seus pés.

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— Hoje iremos provar o vestido! Estou ansiosa porque obviamente seremos notados e muito requisitados! — Dahye falou apenas para si mesma à mesa, mesmo tendo sentados diante de si, o conde e Jimin que se mantiveram em um silêncio sepulcral.

Jisung se estava completamente alheio, mastigando uma garfada de bolo branco sem muito requinte, tendo alguns pedaços do alimento voando pela mesa. Jimin apenas observava seu prato com cinco uvas verdes e uma pequena maçã, suplicando internamente para que seus pais não o notassem na mesa. Contudo, o movimento suave do garfo fisgando a uva foi o suficiente para seu pai lhe dirigisse um olhar indiferente e começasse um pequeno sermão.

— Você está com vinte anos e não podemos mais esperar ou as boas oportunidades desaparecerão como fumaça. — o conde disse com a boca ainda cheia.

— Sim, conde, Jimin tem plena consciência disso, eu mesma o instruí. — Dahye se gabou.

— Pois bem, o barão de White Hall manifestou interesse definitivo em se casar com você. Amanhã você irá ao baile e seguiremos os costumes de cortejo e dentro de dois meses faremos o casamento. Está feito. — Jisung sentenciou e Jimin sentiu o ar lhe faltar por um momento.

Sem nem ao menos esperar por uma reação do filho, o conde se levantou e saiu da sala de jantar sem mesmo olhar para trás.

— O barão é um alfa de renome, vem de família tradicional e herdou um império. Você será o ômega mais invejado da baronia, irá oferecer chás semanais e obviamente eu estarei ao seu lado para cuidar de toda a organização, afinal eu sou a melhor anfitriã de Norwich. — Dahye falava atropelando as palavras. — O barão gosta de luxo e fartura e pelo que já pesquisei prefere ômegas que sejam bastante cuidadosos com o lar, então saiba que irei inspecionar você com olhos de lince. — concluiu tentando parecer engraçada.

Sentindo-se completamente desconfortável e ansiando desesperadamente por sair daquela mesa e se trancar no quarto, Jimin se manifestou:

— Mamãe...— ele olhou com um sorriso forçado para a condessa — já que sabe tanto sobre as posses e gostos pessoais do barão e estima tanto pela riqueza e herança que ele possui, não deveria ser você a se casar no meu lugar?

Ele não esperou pela reação que saberia ser exacerbada diante à sua pergunta e levantou-se rapidamente, subindo as escadas com pressa e trancando-se em seus aposentos.

E chorou.

Entretanto não se permitiu afundar em tristeza. Precisava ser forte, frio a ponto de não se abalar, pois havia um plano de fuga em sua mente que precisava se arquitetado com racionalidade, não poderia errar.

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Jungkook voltara de NewBrook's Farm há dois dias e ainda estava deitado sob os lençóis macios de seda em sua enorme cama de casal no casarão de Strand. Lorde Archer ficou incumbido por Magnólia a buscar sua roupa de baile no alfaiate naquela manhã e ajudá-lo a acertar algum detalhe que talvez pudesse se fazer necessário.

E ele estava absolutamente sem nenhuma preocupação quanto ao evento do próximo dia.

Girou para o outro lado da cama e seu corpo nu foi exposto sutilmente à brecha de luz que atravessava timidamente pela fenda da cortina.

Estava entediado.

Sentou-se na cama e estalou o pescoço, ficando de pé em seguida e indo até o toalete para iniciar sua higiene matinal.

E assim que retornou ao quarto, ainda de toalha, Lorde Archer bateu à porta.

— Alfa, você será o mais requisitado da noite e sem sombra de dúvidas, posso dizer com propriedade que poderá ser até mesmo confundido com o príncipe. — o beta disse genuinamente assim que o duque abriu a porta.

— Você e Mag tem o péssimo hábito de me comparar com Edward, às vezes penso que é um tipo de ofensa. — Jungkook fez piada com o comentário do outro e riu.

— Sem falsa modéstia, é raro um alfa de seu porte ainda solteiro, terá todos os olhares e sobre você. — Lorde Archer continuou a falar enquanto abria o pacote com a indumentária.

— Sabe que não consigo me revestir com prepotência e é bem provável que eu seja um desastre amanhã.

— Eu soube que a duquesa ensinou-lhe alguns passos de dança, acho que está bastante empenhado. — surgiu um sorriso malicioso nos lábios do beta naquele momento.

— Só não quero parecer um paspalho. — a resposta do duque foi tímida.

Jungkook recebeu ajuda para vestir todas as peças de seu terno de gala e o trabalho de alfaiataria caiu-lhe como uma luva. Lorde Archer ajeitou a gravata e alisou os ombros do paletó, girando o corpo do alfa para que olhasse no espelho.

— Um príncipe! — deu o veredito.

— Me contento em ser apenas Jeon Jungkook, mas nada mal. — disse rindo e surpreso com o ar imponente que carregou estando vestido daquela forma.

— Não quero parecer invasivo, mas a condessa me disse que está à procura de um casamento. Confesso que rezei um rosário por sete dias para agradecer por essa graça.

— Parecia tão impossível assim?

— Um caso perdido.

Os dois riram de seus próprios comentários e Jungkook aproveitou o clima amistoso e descontraído para perguntar.

— Sabe que tenho experiência precária no trato com ômegas da aristocracia e Mag já me adiantou que existem alguns tantos rituais que devo seguir, mas confesso que não me lembro de metade deles. — o duque sentou-se na cama e Lorde Archer entendeu que aquela seria uma conversa longa.

— Me diga em que posso ajudar. Entendo bem de costumes e etiquetas, como já deve presumir. — ele se sentou ao lado de Jungkook que parecia um pouco acanhado.

— Bom, apesar de sermos de classes genéticas diferentes, temos a condição de sermos machos em comum, então minha pergunta está ligada a parte prática da coisa, se é que me entende.

— Oh sim, a noite de núpcias. Já esteve com ômegas intocados antes? — Lorde Archer foi objetivo.

— Não.

— Você apenas se relacionou com ômegas já vividos? — sua curiosidade foi aflorando aos poucos.

— Sim.

— E por um milagre não existe nenhum filhote seu abandonado por este mundo? — as respostas de Jungkook abriam brechas para novas perguntas e o beta estava realmente interessado em fazê-las.

— Eu uso proteção, nunca fiz sexo sem estar... — fez uma breve pausa — coberto.

— Oh, sim, compreendo bem. Acho até bastante salutar esses recursos alternativos para prevenção de doenças. As façanhas sexuais dos alfas contribuíram para a disseminação de doenças venéreas e as classes menos favorecidas sempre pagam o preço.

Jungkook quase entregou que na verdade não havia interesse algum de sua parte em tocar o ômega e retirar sua pureza, mas precisava saber como ocorria a noite de núpcias para que pudesse planejar melhor sua forma de agir.

— O fato é que eu ouvi dizer que a família do ômega estará esperando pela nossa marca na manhã seguinte como prova da consumação do casamento. Existe algum local específico para ela?

— A marca é feita geralmente no pescoço, mas povos antigos como os primeiros alfas costumavam marcar seus ômegas no punho. Hoje em dia, as marcas no punho são consideradas arcaicas e até mesmo mal vistas por algumas famílias. — o beta explicou e Jungkook permaneceu focado em um ponto qualquer do quarto, pensativo.

— Entendo. — economizou na resposta. — Bom, espero que eu consiga encontrar algum ômega que queira se casar comigo e o resto se ajeitará naturalmente, suponho.

— Sim, alfa. — Lorde Archer segurou-lhe o ombro. — Você se sairá muito bem, apenas seja você mesmo. O ômega que se casar com você terá sorte, muita sorte. — encorajou por fim.

— Eu aprecio imensamente seu apoio. — Jungkook agradeceu e levantou-se em seguida — Preciso resolver alguns assuntos agora e provavelmente voltarei ao anoitecer então avise Magnólia que irei jantar com ela. Ah, Yoongi também virá, prepare um quarto para ele.

— Deixarei tudo ao seu gosto, alfa. — Lorde Archer acatou e andou até a porta.

— Eu não tenho dúvidas quanto a isso, obrigado.

Já adequadamente vestido para sair, Jungkook pegou o chapéu e a bengala e resolveu ir a pé para seu destino: A Maison Rouge.

Andava com a mente atribulada o bastante, refletindo sobre cada detalhe de seu plano que se iniciaria no próximo dia e para abstrair um pouco seus pensamentos, decidiu que precisava de uma bebida forte e um pouco de deleite carnal.

Pela última vez, como uma despedida de solteiro.

Entrou pela porta dos fundos, afinal o recinto não abria para o público antes do entardecer. Jungkook, porém tinha livre acesso por motivos óbvios.

Bonjour monsieur! — foi recebido por Mme. Davaux, surpreendida. — Não esperava uma visita tão cedo. Sente-se. — ela ofereceu uma das cadeiras do bar. — Brandy? — puxou dois copos pelo balcão e Jungkook acenou positivamente, aceitando a bebida.

— Na verdade, vim me despedir.

Pardon? — a alfa piscou seus olhos carregados de maquiagem e demonstrou incredulidade ao ouvir aquela afirmação.

— Irei ao baile de primavera e tenho a intenção de me casar. — foi direto.

— Oh, isso foi absolutamente inesperado. — ela segurou firme o copo e tomou um gole generoso de sua bebida.

Jungkook respirou fundo. Não abandonaria aqueles ômegas a própria sorte, nem mesmo passou pela sua cabeça em algum lapso de segundo em desistir deles.

Mas não frequentaria o local com tanta assiduidade.

— Quero que saiba que tudo continuará como antes. Vocês estão protegidos aqui e não pretendo fechar este lugar. — tentou demonstrar conforto em suas palavras.

— Continuará vindo como um cliente? E se por acaso a família de seu ômega descobrir que você gerencia um bordel, estará correndo risco de sofrer um processo e até mesmo ser preso! — as preocupações de Mme. Davaux eram reais.

— Isso não me preocupa, sinceramente. Apenas quero garantir que vocês estarão protegidos e vivendo suas vidas. Reforçarei a segurança, inclusive.

— Tenho acompanhado os movimentos das ruas e me parece preocupante o caos que provavelmente irá se instalar. Pobreza, violência, a precariedade dos serviços de saúde... tudo está se deteriorando, Jungkook.

— Eu sei, também estou vendo tudo com pessimismo. A rainha está se perdendo em fantasias de um mundo perfeito que ela mesma criou e estamos sucumbindo. — ele concordou com a mulher. — Mas não desistirei de tentar pedir por soluções no conselho, Victoria precisa ouvir!

— E eu ficarei orando aos céus para que ela ouça. Enfim, não tomarei seu tempo, terá um baile amanhã e é certo que há muito a se planejar. Chamarei Camille para atendê-lo. — Mme. Davaux se levantou da cadeira, mas foi interrompida pelo duque de seguir adiante.

— Na verdade eu gostaria de me encontrar com Rupert, ele está disponível? — ele perguntou e recebeu um olhar curioso diante às suas palavras.

— Achei que tinha preferências por fêmeas, alfa. — a mulher jogou seus olhos maliciosos na direção de Jungkook que se manteve firme.

— Não tenho preferências, Camille é uma profissional que sempre atendeu minhas expectativas, mas não é exclusiva. — ele foi breve.

— Irá causar uma guerra aqui se Camille souber que a dispensou, mas seus desejos são uma ordem.

A gerente do local mal havia terminado de falar quando o cheiro forte de sândalo preencheu o ambiente e fez Jungkook torcer o nariz.

— Meu alfa! — a ômega gritou, correndo por entre as mesas do bar vazio e expondo seu corpo nu que o fino penhoar de seda não conseguiu cobrir. — Por que não me avisou que o duque viria, não estou pronta! — ela usou um tom ríspido e de arrogância incomum.

— Irei chamá-lo. — Mme. Davaux disse baixo para o duque, saindo do local e prevendo o caos.

A garota agarrou Jungkook pelo pescoço e beijou-lhe a face, quebrando algumas regras antes acertadas entre eles, deixando-o incomodado com a abordagem.

— Camille, pare. Não vim vê-la. — ele soltou gentilmente os braços dela de seu pescoço e se levantou, esquivando de suas investidas.

E antes que ela pudesse argumentar sobre a recusa do duque, Rupert surgiu no salão.

O ômega estava vestido com um sobretudo verde de algodão e seu cheiro suave agradou imediatamente o olfato de Jungkook.

Camille, em contrapartida, permanecia sem entender o que havia de errado.

— Boa tarde, duque. — o rapaz cumprimentou cordialmente, transparecendo a jovialidade de sua personalidade.

Jungkook ofereceu um leve sorriso em aprovação e deu os primeiros passos para fora do ambiente.

— O que ele está fazendo aqui? — a garota inquiriu aflita, encarando o alfa.

— Vamos, Rupert. — Jungkook a ignorou e andou para as escadas com seu escolhido.

Assim que foi possível entender com clareza que havia sido rejeitada, Camille avançou com voracidade em direção às costas de Rupert, mas foi segurada por Mme. Davaux com firmeza.

— Nem pense nisso. Volte para o seu quarto e permaneça lá até a segunda ordem e não se atreva a me desobedecer. — suas palavras saíram em um tom grave o bastante para não serem ignoradas. — Jungkook não é propriedade sua, é apenas um cliente que requisita seus serviços e paga por eles. Vá, suba!

E assim Camille correu até os primeiros degraus, exalando ira e lágrimas pesadas pela dor aguda da rejeição.

— Ele é meu, somente meu, para sempre meu! — gritou no quarto vazio, arremessando um vidro de óleo corporal na janela, que estilhaçou-se em mil pedaços.

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— Tae, eu quero que você fique ao meu lado por todo o tempo em que estivermos no baile.

O tão aguardado dia de gala havia chegado e toda Londres estava em polvorosa com a iminência do evento, as ruas cheias, restaurantes lotados e o clima ameno da primavera exalando a aura festiva e única daquela ocasião.

Mas Jimin era o único que não se encantava.

Não entrou na sofisticada loja de vestidos onde sua mãe pediu encomendas caríssimas, preferiu sentar-se com Taehyung num dos bancos da praça charmosa de Saville Row, a rua da moda de alta costura londrina.

— Sim, não sairei do seu lado, nem quando o bode velho vier pedir sua dança. — o beta prometeu genuinamente.

— Não me lembre desse alfa asqueroso. — pediu, ajustando o sunbonnet em sua cabeça. — Eu não vou me casar com ele, prefiro tomar veneno de rato.

Taehyung ficou em silencio, não sabia aconselhar Jimin e não queria dizer algo que pudesse piorar a sua tristeza frente ao destino a qual o amigo estava fadado a enfrentar.

— Que tal irmos para o quarto de Calista hoje à noite depois do baile? Podemos contar histórias e jogar cartas, faz tempo que não fazemos isso.

Jimin nem sequer olhou ou compartilhou da euforia do amigo, permaneceu quieto, reflexivo. Não queria envolver Taehyung em seu futuro plano de fuga, contudo sabia que não era capaz de realizá-lo sozinho e o beta era astuto demais, seria de grande ajuda incluí-lo em sua façanha.

— Tae... — respirou fundo, procurando as palavras certas — pretendo fugir assim que me casar e preciso de sua ajuda para realizar meu plano.

— Fugir? Para onde? — o garoto se sobressaltou.

— Fugir de barco, para longe de Londres, longe dessa vida que não quero viver. — ele foi objetivo na resposta.

— E irá para onde? Como irá viver sem dinheiro, onde irá dormir?

As preocupações do beta eram genuínas e fizeram Jimin refletir por um momento. Percebeu que de fato não seria simples e nem praticável fugir com a roupa do corpo, precisava elaborar com maiores detalhe seus intentos.

— Terei o tempo do noivado para pensar sobre todas essas demandas, posso roubar dinheiro do papai, ou até mesmo do meu noivo. Apenas não sei como fazer, tenho que pensar melhor.

— Jimin, de onde você tira essas ideias? Está agindo como um criminoso! — Taehyung mesclou sua incredulidade entre riso e espanto.

— Só não quero ser um refém dos desejos dos outros. Não quero me casar, não quero viver como os ômegas vivem! Quero ser livre! — haviam lágrimas se formando nos cantos de seus olhos — Hoje é meu aniversário e não irei ter um bolo porque não posso engordar para caber no vestido horroroso que mamãe encomendou. — recolheu uma gota fujona com o dedo indicador e se calou, desmoronaria se continuasse a falar sobre seus sentimentos.

— Eu sinto muito por tudo isso. — Taehyung se solidarizou. — Temos realidades tão diferentes, mas ao mesmo tempo os nossos anseios parecem iguais. Eu nunca tive um bolo de aniversário, nem mesmo sei quando é o dia exato que devo comemorar, mas eu acho que seria o dia mais feliz da minha vida se eu ganhasse um. Então teoricamente nós dois ficaríamos felizes ganhando um bolo de aniversário. — o comentári foi genuíno e inocente.

— Me desculpe se pareci insensível, você teve uma vida difícil que eu nem posso imaginar.

— O que eu quis dizer é que a felicidade depende apenas do ponto de vista da realidade que cada pessoa vive. Não é uma regra a ser seguida, não há uma cartilha explicando o passo a passo. Você quer ser feliz fugindo da sua casa quando eu apenas consegui ser feliz morando lá. Somos opostos e ao mesmo tempo iguais, não é curioso? 

— É desastroso, Tae. Deveríamos ser todos iguais, ter os mesmo direitos e condições. — Jimin falou, lamentando a tristeza que poderia ser sentida no olhar do amigo.

A poucos metros dali, Dahye saía da loja acompanhada do valete que levava consigo os pomposos vestidos que usariam na noite de gala. Ela permanecia em estado de graça como se fosse aquele seu baile especial, como se fosse a anfitriã da noite.

Jimin pediu para voltar a pé com Taehyung e sua vontade fora concedida graças ao bom comportamento que ele dispensara à mãe pela manhã. Resolveu usar como estratégia a boa convivência com a condessa pelo menos até a hora do baile.

No entanto assim que chegou em casa, sua paz acabou.

— Calista! — a condessa gritou pelos cômodos. — Sirva sopa de ervilhas a Jimin e lhe dê três mirtilos de sobremesa, ele não pode se alimentar em demasia, o vestido está ajustado milimetricamente à sua cintura e não seu estômago deve permanecer vazio.

— Sim, condessa. — a criada respondeu à ordem e discordou em pensamento.

Ela piscou para Jimin que devolveu um sorriso fraco, entendendo com clareza que as ordens de Dahye não seriam cumpridas.

— Vá, Jimin. Precisa se alimentar agora, as estilistas chegarão dentro de uma hora e levará tempo até que elas consigam deixá-lo pronto. Precisamos estar no castelo às cinco da tarde para o chá de apresentação. — ela disse já subindo as escadas.

— Nossa, é impressionante como a condessa gosta de aparecer mais do que os lustres da Abadia de Westminster! — Lily chegou na cozinha debochando da condessa e fazendo os presentes rirem do comentário.

— Fale baixo, ela pode estar em qualquer lugar, como uma mosca varejeira! — Taehyung cochichou e prolongou o bom humor do ambiente. — A propósito minha roupa de gala é muito bonita, quase posso ser reconhecido como um beta rico.

Na verdade a roupa dos criados que acompanhavam os ômegas na noite do baile era composta por uma camisa branca simples, calça de algodão marrom e suspensórios. O conjunto era finalmente decorado por uma boina também marrom e botas de material barato, sintético ao couro. As vestes dos criados eram de responsabilidade da família a qual ele iria acompanhar e sempre seguiam essa regra de corte e costura padronizada.

Dahye passou algumas orientações a Taehyung com aspereza e até ameaçou o pobre garoto caso algo desse errado naquele dia. Ela o instruiu a acompanhar Jimin por todos os espaços e ordenou que ele não falasse com ninguém além da família Park.

E após sentar-se para comer o banquete que por certo Calista havia preparado escondida dos olhares da condessa, Jimin sentiu seu peito congelar ao ouvir a voz de sua mãe chegando à cozinha.

— Calista me sirva um pouco da sopa de ervilhas também, irei comer com Jimin. — ela puxou a cadeira para sentar-se e Calista respirou aliviada por não ter sido pega com o prato farto nas mãos.

Comeram em absoluto silêncio e quando terminaram o escasso almoço que não fora o suficiente para saciar-lhes a fome, os dois subiram para o início da sessão de beleza, a contragosto visível de Jimin.

— Ah, querido... seus olhos parecem duas gigantes safiras, mas sem brilho algum. Precisamos mudar isso para hoje à noite. — a estilista falou para Jimin em tom de pena assim que ele sentou-se em frente à penteadeira.

E ele pouco se importou.

Pentearam seu cabelo e cortaram alguns centímetros. Maquiaram seu rosto, retiraram suas roupas.

E nenhuma daquelas pessoas perguntou se estava de seu agrado.

O tempo passou e ele nem percebeu.

— Deixe-o apenas com as roupas de baixo, eu terminarei de ajudá-lo a se vestir. — Dahye ordenou abrindo a porta — Pedi para que fizessem chá, desçam, já será servido. — usou uma voz melosa, claramente falsa para falar com as estilistas.

O vento fresco que entrava pela janela, fez Jimin cruzar os braços em frente ao corpo coberto apenas pela camisola fina de seda e uma ceroula que lhe deixava exposta metade das coxas.

Sentia-se incomodado na presença da mãe.

Dahye andou pelo quarto, observando o vestido dourado de Jimin posto com cuidado em cima da cama, perto dos sapatos de mesma cor. O garoto olhava para ela em dúvida, não conseguindo prever seus próximos passos.

— Jimin, eu gostaria de ter uma conversa séria com você. — ela pegou o corset ao lado do vestido e se aproximou lentamente do filho.

Ela girou o corpo de Jimin e passou a peça pela sua cintura, começando a amarrar os primeiros cordões.

— Sabe que sempre tivemos tudo, uma mesa abastada e reservas financeiras. — Jimin manifestou um ruído gemente, não pelo consentimento ao que a mãe dizia, mas sim pela força com que ela apertou o primeiro laço da peça encorpada em sua cintura. — Mas infelizmente preciso recolher meus orgulhos e dizer a você com todas as palavras que estamos falidos.

— Falidos?! — o jovem ômega exclamou estupefato.

— Sim, seu pai usou nossas posses em jogos e apostas. Descobri hoje pela manhã, quando um banqueiro bastante irritado bateu à nossa porta. — ela deu mais um nó na vestimenta.

— Mas... o papai tem um emprego, ele trabalha para a rainha, então podemos viver com esse dinheiro e...

— Não é suficiente! — a arrogância nata da condessa surgiu inesperadamente, interrompendo a fala de Jimin. — Como farei para comprar meus vestidos, joias? E as festas? Preciso ser impecável!

— Arrume um trabalho! — ele pensou no óbvio e Dahye se irritou, apertando ainda mais o laço.

— Está louco? Perdeu completamente o juízo! Sou a condessa de Norwich, não uma criada! Tenho nome a zelar! — ela respondeu ultrajada.

— Então por que está me dizendo essas coisas? O que posso fazer? Nem ao menos me deixam sair pelo portão, não tenho como conseguir dinheiro! — Jimin se irritou com aquela conversa.

— Você sairá noivo daquele baile hoje. — a voz da condessa surgiu afiada como uma navalha e Jimin girou o corpo espantado. — O nosso futuro está em suas mãos ou seu pai será preso por inadimplência. — ela secou uma lágrima que escorreu pelo seu rosto. — Quer vê-lo na cadeia? Vamos definhar, terei de colocar todos os empregados na rua e seremos rebaixados à classe média. Quer ver seus pais humilhados assim?

A confissão extremamente urgente de Dahye fez Jimin estremecer pela possibilidade terrível de ver Calista, Lily e Taehyung largados à própria sorte, sem um lar.

Sua mãe jogou em suas costas uma responsabilidade que ele jamais imaginaria que ela fosse delegar. A conversa com Taehyung surgiu em sua mente e ele sentiu-se extremamente culpado se o amigo fosse despejado na rua.

Um balde gelado de decepção, frustração e inércia atingiu sua cabeça como uma avalanche que certamente o enterraria para sempre numa vida de submissão e subserviência ao lado de um alfa repugnante que o trataria como um simples objeto.

Estava perdido, declarou a si mesmo enquanto seu corpo escorregava devagar pela parede fria do seu quarto.

E a duquesa apenas o observou.

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Cheguei! Estão bem?

Essa família do Jimin é o puro Chernobyl!

Sunbonnet: chapéu de sol, muito usado na era vitoriana.

A parte II vem antes do Natal!

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