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Fiquei um pouco receosa. Estava com um baita medo de ser demitida, afinal, tinha sido grossa com ele um pouco antes do início da reunião e confesso que tinha me arrependido amargamente. Quero dizer, tive motivos, mas comecei a me arrepender de ter sido arrogante. Pensei um pouco mais e depois me lembrei que ele precisava sair logo após a reunião, então, provavelmente tinha alguma tarefa a mais para mim. Era o que eu mais esperava. Quem sabe ele até já tivesse esquecido.
— Obrigada pela ajuda. Vou deixar vocês a sós — A mulher da limpeza disse.
Estava mentalmente implorando para a mulher não ir embora, porque se eu fosse demitida precisaria de uma testemunha e não pensaria duas vezes em processar Shawn e Diana por serem como são.
O Sr Mendes esperou a mulher fechar a porta para começar a conversa.
— Sente-se.
Antes de me sentar desliguei o ar-condicionado da sala para ter a certeza de que minha não gelava pelo frio do ambiente e não por outro motivo. Isso acontecia muito quando eu me assustava com certas situações.
— Está com frio? — Ele olhou para os minhas mãos que sem eu perceber, estavam tentando aquecer meus braços.
— Um pouco, mas isso não é importante nesse momento. Pode começar quando quiser.
— Bom, conversei um pouco com meu pai sobre Diana...
— E...?
— Ele não vai demitir nenhum funcionário no momento, como foi dito na reunião, o número de funcionários é baixo em relação aos outros prédios. Espero que você entenda que não podemos nos dar o luxo de perder ninguém agora, é mais complicado do que você pode imaginar.
Meu alívio era visível, eles não demitiriam nenhum funcionário, o que significava que meu emprego estava intacto. A notícia ruim era que o de Diana também.
— Eu já imaginava. Era só isso?
— Não. A empresa vai te dar um cheque com um certo valor que, acredito eu, cobrirá os danos que Diana lhe causou até agora. Não quero que pense que medidas não serão tomadas, espero que você entenda que nossa empresa não deixa esse tipo de comportamento passar em branco. Cameron e outros funcionários também serão remunerados pelos danos dela.
— E por que eles não estão aqui? — Perguntei.
Sabia que ele só estava me pagando para ficar de boca fechada.
— Porque você é a minha secretária, não eles.
— Não gosto de pensar que sou propriedade dos outros — Falei.
Naquele momento eu me praguejei mentalmente. Parecia que eu estava implorando para perder o emprego.
— A Srta sabe que eu poderia te demitir por desacato nesse exato momento, não sabe? — Ele perguntou sorrindo — Assim como eu poderia ter feito quando recebi aquela ameaça.
— Me desculpe. Não penso antes de falar.
— Eu poderia, mas não vou. Pelo menos por enquanto. Mas espero que você se lembre que já estamos acostumados a ter uma secretária diferente por semana e que não seria difícil te substituir.
Não seria difícil me substituir, mas como ouvi falar era difícil manter uma secretária por mais de duas semanas.
— Certo — Levantei e caminhei em direção à porta — Temmais alguma coisa que o Sr. queira me dizer?
— Sim. Eu reconheço que fui um idiota quando disse que não seria a última vez que te veria nua. Peço desculpas por isso e não tocaremos mais nesse assunto. É seu direito ficar com raiva, mas peço que se me desculpar não toque no assunto. Seria melhor para nós dois se Diana pensar que você me odeia.
Fiquei feliz por ele ter reconhecido sua atitude grosseira e no fundo esperava que ele tivesse percebido isso sozinho.
— Contanto que isso não aconteça de novo, águas passadas. Temos mais algum assunto pendente?
— Não. Mas preciso que você faça um favor para mim — Ele disse andando até onde eu estava.
— Tudo bem, o que posso fazer para te ajudar?
Shawn não respondeu de imediato, ficamos calados por bastante tempo, até que eu resolvi quebrar o silêncio.
— Sr Mendes, tem uma papelada de contratos naquela mesa e eu preciso separar cada um deles. Poderia me liberar?
— Espera, só mais uma coisa.
Ele se aproximou de mim e no mesmo instante eu entendi o que ia acontecer. O mais estranho de tudo era que eu não fazia nada para impedir que aquilo acontecesse. Estávamos tão próximos que eu pude sentir sua respiração, e isso fez com que meu corpo se arrepiasse por inteiro. Nossos corpos estavam em menos de cinco centímetros de distância, e quando sua boca estava quase encostando na minha, me bateu uma onda de juízo e eu me afastei.
— Não sei o que você quer mas comigo não é assim que funciona, chefe — Falei me afastando.
Em seguida abri a porta e fui até o elevador, deixando-o sozinho na sala de reuniões.
Agradeci mentalmente pelo compromisso que impedia o Sr Mendes de ficar na empresa dividindo a sala comigo. Seria constrangedor, e eu ainda estava em choque pelo que tinha acabado de acontecer. Eu basicamente tinha rejeitado um cara rico, bonito e poderoso, estava me perguntando qual era o meu problema, mas por um lado eu achei que tivesse tomado a decisão certa, porque algo me dizia que ele era daquele jeito com todas as outras funcionárias que já tinham passado por lá e talvez seja esse o motivo de elas não ficarem.
Enquanto fazia meu trabalho completamente estressada, deixei as folhas de contratos caírem da minha mão diversas vezes enquanto xingava o meu chefe mentalmente.
— Foca no trabalho, Lauren — Falei para mim mesma.
Focar trabalho não foi nada fácil durante o restante do meu tempo. Eu estava com a cabeça em outro mundo. Um mundo que Shawn Mendes tinha acabado de me proporcionar, estava totalmente perdida nos meus pensamentos.
Ele tinha acabado de me pedir desculpas por ser totalmente inconveniente e em menos de dez minutos tinha feito de novo.
Ouvi batidas de leve na porta e torci para não ser Diana. Não queria que ela descobrisse nada do que tinha acontecido.
— Entre!
Sorri ao ver Cameron.
— Está feliz por me ver?
— Na verdade, estou feliz por não ser Diana.
— Com certeza não seria Diana, ela já foi embora faz tempo, assim como metade dos funcionários.
— O que? — Falei olhando meu celular.
16:37.
— Estou um pouco distraída, acabei perdendo a noção do tempo.
— Eu vim aqui porque vi o seu carro no estacionamento, achei que o Sr Mendes estava te segurando até agora.
— Nem poderia, ele saiu assim que a reunião terminou — Falei olhando para a tela do meu celular que estava acesa, indicando que eu havia recebido uma nova mensagem.
— Enfim, eu queria saber se a nossa comemoração ainda está de pé...
— Claro que está. Dessa vez ninguém vai arruinar — Respondi com uma falsa animação. Eu realmente não lembrava mais dessa comemoração e agora não estava tão empolgada assim.
Na verdade, a única coisa que vinha na minha cabeça era a imagem da boca do meu chefe quase encostando na minha, me deixando confusa. Não entendi se estava com raiva por ele ter tentado ou por eu não tê-lo beijado.
Bom, com a cabeça atolada de trabalho eu não conseguiria chegar à conclusão alguma. Comecei a juntar minhas coisas com pressa.
— Vamos? — Cameron perguntou.
— Claro.
[...]
Ao chegar em casa, a primeira coisa que eu fiz foi avisar para Ashley que nós sairíamos com Cameron naquela noite, e ela mostrou ter mais interesse do que eu.
— Querida, seu celular está aqui em cima da mesa e da próxima vez que ele vibrar eu vou arremessá-lo na parede — Ashley gritou.
Levantei e fui pegar, não tinha dúvidas de que Ashley o jogaria na parede se tivesse chance.
— É só um celular, Ash — falei tomando o aparelho de sua mão.
Três novas mensagens.
Cameron: Acabei de receber um cheque com o pagamento dos danos de Diana
Cameron: Você recebeu também?
Lauren: Não, o Sr Mendes não disse quando eu vou receber'
Lauren: Não esquece de hoje à noite
A terceira mensagem eu havia recebido ainda quando estava no trabalho, mas havia me esqueci de ver, então resolvi abrir.
"Você ainda será muito mais do que minha secretária. Lembre-se disso. S.M"
Eu não acreditei no que li. Não perguntaria onde ele tinha conseguido meu número, ele era meu chefe, provavelmente tinha contato com todos os funcionários.
O que quase aconteceu hoje não vai acontecer de novo e eu não vou ser nada sua, lembre-se disso.
Não era a melhor resposta, mas com o sangue fervendo foi o que eu consegui responder.
Ele tinha mesmo feito aquilo? A confiança dele era algo irritante para mim.
Em um minuto obtive outra resposta.
"Estava falando sobre a empresa, promoção e seu desenvolvimento, Srta Portman. Sou responsável pelo que digo, não pelo que você entende"
Eu sabia que tinha um duplo sentido naquela mensagem, conseguia captar de longe, mas senti meu rosto ficar vermelho de vergonha. Provavelmente ele estava sentado no sofá chique da casa dele rindo da minha cara, embora soubesse exatamente o que tinha feito.
— Que cara é essa? — Ashley perguntou.
— Nada, a mesma de sempre.
— Ah tá.
Fiquei distraída por um segundo e foi o suficiente para Ashley tomar o celular da minha mão e correr pro quarto, me deixando trancada do lado de fora.
— ASHLEY, ME DEVOLVE AGORA!!
Ela abriu a porta e saiu do quarto com uma cara séria.
— Tá legal. O que aconteceu de verdade?
— Se quiser mesmo saber terá que me devolver o celular.
— Aqui está. E eu juro que não mandei mensagem para ninguém — Ela disse rindo.
— Ashley, me diz que você não fez isso...
— Talvez eu tenha feito.
Puxei o celular da mão dela com bastante violência. Pequenas coisas que Ashley fazia me deixava com raiva. Eu não tinha nada a esconder dela, mas odiava invasão de privacidade.
— Foi só uma mensagem. Você vai me agradecer depois.
— Você não vale o chão que pisa — Falei enquanto procurava a tal mensagem que ela tinha mandado pro meu chefe.
— Nem adianta, eu apaguei a mensagem assim que foi enviada e você não terá uma resposta. Me agradeça depois.
Olhei o backup automático e estava desativado, não teria como saber que mensagem era. A não ser que perguntasse a quem recebeu.
— Te agradecer? Ashley, eu vou te matar. Você mandou mensagens para o meu chefe, sabia que eu posso ser demitida?
— Ele te deseja, não vai te demitir antes de passar pelo menos uma noite com você.
— Ele não vai passar.
— Por que não? Você disse que não quer saber de relacionamento sério, essa é a sua chance.
— É, minha chance de quê? De ser alvo de mais boatos? Você sabe o que as pessoas dizem quando uma mulher de classe média se relaciona com um milionário?
Ela não respondeu.
— É exatamente essa fama que eu não quero ter. Não sou interesseira e ao contrário do que os boatos já dizem, o único dinheiro no qual estou interessada é o do meu próprio trabalho. E olha que eu merecia um salário de pelo menos quinhentos mil por aguentar aqueles dois e chegar em casa e ter que aguentar você — Falei.
— Eu não me importaria.
— Eu me importo e foi por isso que eu não deixei que ele me beijasse hoje. Poderia ter deixado, mas agora sei que fiz o certo.
— Você não está me dizendo que não deixou ele te beijar, está? — Ela perguntou enquanto me olhava incrédula.
— Não deixei e não vou deixar. Ele é só mais um riquinho idiota e arrogante. Em um minuto me trata como secretária e no outro me trata como se eu não fosse ninguém, depois tenta me beijar. Se pelo menos ele tivesse arrumado um clima de verdade... Mas nem isso soube fazer.
— Você queria seduzir o chefe e está conseguindo. Isso é uma conquista, portanto, se arrume, nós temos muito o que comemorar.
[...]
Assim que encontramos com Cameron, fomos juntos até o "karaokê" e Ashley, como sempre, foi a primeira a sumir.
Cameron e eu curtimos juntos na pista de dança enquanto conversávamos sobre coisas aleatórias.
— Vou pegar bebidas, qual você vai querer? — Perguntei pro Cameron em cima da música alta.
— A mais forte de todas.
— Fica aí, eu já volto — Falei me distanciando e caminhando até o balcão.
— Eu ainda não te conheço, você vem sempre nesse lugar? — O bartender perguntou.
— Ainda bem que eu não te conheço, que cantada ridícula — Revirei meus olhos, esperando que ele visse o nível do meu tédio — Na verdade, você foi péssimo e acho que é exatamente por isso que a gente nunca vai se conhecer melhor.
— Te vi sozinha e não resisti — Ele disse sorrindo.
— Pois deveria ter resistido. Economizaria o vexame.
— Ela não está sozinha, está comigo — Escutei a voz do Sr Mendes atrás de mim e me perguntei se eu estava no meio de um pesadelo.
Não achava possível que todas as coisas esquisitas resolvessem acontecer comigo no mesmo dia.
— Eu quero dois drinks, os mais fortes que você conseguir fazer — Falei ignorando-o totalmente.
Como ele sabia que eu estaria lá?
— Me desculpe pela cantada idiota, não sabia que ela estava acompanhada — o bartender respondeu ao Sr Mendes.
— Você não me deve desculpa nenhuma — Shawn disse e o cara sorriu — Você deve se desculpar com ela.
O rapaz esquisito me olhou, agora como quem me odiava.
— Desculpa — Ele se desculpou mas ainda não me olhava nos olhos, típico — Os drinks são por conta da casa.
— Depois daquela cantada, é o mínimo que eu mereço.
Pelo menos algo de útil ele sabia fazer.
— Por acaso você está me seguindo? - Perguntei assim que o bartender saiu.
— Não, você disse que estaria aqui, então eu vim.
Droga, Ashley.
— Se está aqui por minha causa, pode ir embora. Minha prima que enviou a mensagem, você veio aqui por engano.
— Só vou embora se você me expulsar.
— Eu não posso te expulsar de uma propriedade que não é minha — Falei pegando os drinks que o garçom colocou na minha frente — Então, vai embora se quiser ou arruma um jeito de se divertir, mas não conte comigo.
Ele tomou um dos drinks da minha mão e bebeu de uma só vez.
— Não se preocupe, vou me divertir bastante — Ele disse.
Me afastei dele e voltei para onde o Cameron estava dançando e entreguei sua bebida.
— Cadê a sua?
— Adivinha? Shawn Mendes está aqui e tomou a minha bebida em um gole só.
— Você contou à ele que estaríamos aqui? — Cameron perguntou gritando.
— Não, mas sei quem contou.
— Ele nem vai lembrar que nós estamos aqui. Pergunte pela empresa as histórias sobre as vezes que ele vai nesses lugares, uma melhor do que a outra. Agora vem, vamos dançar — Ele disse me puxando para a pista de dança enquanto ria de algumas lembranças de Shawn, provavelmente bêbado.
Eu não estava ali para gastar minha noite com o meu chefe. Tinha ido para descontrair com minha prima e meu amigo, não deixaria que o trabalho ou alguém da empresa estragasse a minha noite.
[...]
Passamos bastante tempo naquele lugar, e eu tentei me divertir o máximo possível, para não estragar a noite de Cameron e Ashley, então, dei o meu melhor sorriso e continuei fingindo que não estava desconfortável com o meu chefe me olhando do outro lado do estabelecimento. Estava até me forçando a acreditar que a situação era confortável, mas não era.
— Você já cansou? — Ashley perguntou enquanto dançava.
— Um pouco.
— Recupere as energias, nós vamos daqui para outro lugar, acabei de conseguir umas entradas ótimas, você vai amar.
— E por que eu faria isso? Estou muito bem aqui.
— Não, não está. Ideia do Cameron, ele acha que você não está confortável por causa do seu chefe. A propósito, me desculpe pelo que eu fiz, acho que errei em convidá-lo.
— Errou mesmo, e eu estou muito bem aqui, já disse.
— Tem certeza?
— Por que eu mentiria para alguém que já está muito mais do que bêbada e que amanhã não vai lembrar de nada do que eu disser?
— Eu não sei, mas já que você quer ficar então eu vou dançar até o dia amanhecer e cancelar com o cara que me deu as entradas grátis.
— Boa sorte com isso — Gritei enquanto ela saía.
Olhei a hora pelo tela do meu celular e me assustei ao ver o quão cedo era. Parecia que eu estava ali por dias.
— Deixa eu guardar isso — Cameron disse tomando o celular da minha mão.
— Cameron, esse é meu celular e eu preciso dele.
— Você teve essa ideia de vir para cá comemorar, mas tudo o que está fazendo é fingindo que está confortável aqui. Tem certeza que não quer ir para outro lugar? — Ele perguntou. Para alguém que me conheceu à um mês atrás, ele me conhecia melhor do que minha própria prima.
— Quem disse que eu não estou me divertindo? Só não estou bêbada igual à vocês. Ainda.
— Ótimo. Então vamos, você verá o que é diversão de verdade — Ele disse me jogando no lugar onde minha prima estava. Eu não tinha outra escolha à não ser dançar e rir do que rolava.
Depois de ver Cam e Ashley bebendo todas eu achei que era minha vez de fazer o mesmo e esquecer que o Sr Mendes estava ali.
— Eu vou no banheiro, na volta eu trago algo para vocês. Só me esperem aqui - Cameron nos disse.
Estávamos dançando enquanto esperávamos Cameron voltar quando de repente a música do local parou e todas as luzes se acenderam, formando uma onda de vaias.
— O que está havendo? — perguntou um cara com um sotaque britânico que estava do meu lado praticamente a noite inteira.
— Alguém deve ter se envolvido em brigas — Falei alto enquanto as vaias cresciam cada vez mais.
— É, agora eu estou vendo - O rapaz alto respondeu — Tem um playboy enfiando o nariz onde não é chamado.
— Playboy? Nesse lugar péssimo? — Perguntei rindo.
— Sim, olha lá — Ele respondeu me dando espaço para ter uma visão melhor.
Um dos caras que estava brigando era forte, alto e parecia estar com vontade de matar alguém. E essa vontade pareceu crescer, pois ele deu o primeiro soco. Mas o tal playboy ainda não estava no meu campo de visão.
— Ainda bem que não é o Cameron — Falei enquanto tentava ter a visão do cara que estava apanhando — Consegue me dizer quem é o outro cara?
— Eu já o ví algumas vezes no jornal, não sei o primeiro nome, mas acho que o segundo é Michaels. Isso mesmo, Sean Michaels ou algo parecido.
— Tem certeza? — Perguntei assustada.
— Sim, saiu nos jornais que ele estava procurando uma assistente a alguns meses atrás e... — Eu nem esperei o homem terminar de falar e saí empurrando todos para ter a certeza de que o rapaz estava enganado.
Infelizmente o cara estava certo. Quando tive a oportunidade de chegar mais perto, vi Shawn Mendes cambaleando pelo local após ter levado alguns socos na cara e o grandão já estava pronto para bater mais quando eu e mais duas mulheres interferimos na briga.
— Chega! Ele já entendeu — Falei alto enquanto me aproximava mais.
— Com todo respeito, você não tem nada a ver com isso, nós temos um assunto a tratar, então faça favor de sair da frente minha frente se não quiser apanhar com ele — O cara alto e forte gritava.
— Não! E eu só saio daqui se ele for junto.
— Ele não vai sair daqui enquanto não levar uma boa surra. Você está defendendo mas nem sabe o que ele fez, sabe? — Ele estava se aproximando cada vez mais do Sr Mendes e eu tentava não encará-lo por muito tempo.
— Não me interessa o que ele fez, se quiser bater nele, terá ter que me bater primeiro.
Não tinha ideia de onde vinha toda essa coragem, mas algo fez ele recuar, com certeza não era medo de mim. Ele andou de um lado para o outro, estava totalmente irritado e gritando o tempo todo. Quando olhei para trás, vi que Shawn tinha mais meia dúzia de defensores e entendi o motivo do homem para recuar.
Bastou eu dar um pequeno espaço para ele me ultrapassar e dar outro soco na cara do Sr Mendes. Gritei de horror e susto, minhas pernas tremiam e eu só consegui imaginar que ia começar a apanhar também.
— Agora vocês podem ir. Mas que fique bem claro, ele só escapou por sua causa, eu não bato em mulheres e se eu voltar a vê-lo outra vez, vai ser uma situação complicada pra ele.
— Você não vai vê-lo outra vez, te garanto! — Falei.
Eu deveria agradecer ao grandalhão por não estragar o outro lado do rosto do Sr Mendes, assim eu tinha para onde olhar, já que o lado em que ele levou vários socos estava pingando sangue.
— Você tem que levá-lo daqui agora mesmo! — dos seguranças disse enquanto praticamente nos jogava para fora.
— Ah, agora você aparece? — Gritei com o segurança, sem pensar.
Tentei desviar meu olhar do rosto de Shawn, mas teria que falar com ele em algum momento. Ele estava com o nariz ensanguentado e com o olho esquerdo inchado, talvez não tinha enxergado direito quando estendi a mão à ele.
– Me dá a porcaria das chaves — Pedi ainda com a mão estendida, mas ele me ignorou.
— O que você fez? Acha que eu pedi para você se intrometer? Eu poderia acabar com aquele cara — O Sr Mendes disse.
— Depois de morrer e reencarnar? É, talvez. Me dê a chave do carro.
— Olha só. Eu não preciso de mulher nenhuma se intrometendo na minha vida.
— Além de babaca é meio machista — Falei baixinho.
Por um segundo eu pensei em chamar o grandão para acabar o meu chefe de uma vez por todas, quem sabe ele calaria a boca e aceitasse que eu tirei ele de uma missão suicida e pensasse um pouquinho em aceitar a minha ajuda.
— Olha só, eu tô tentando te ajudar. Se você quiser morrer, tudo bem, eu chamo o cara e ele te bate até a morte. Agora se você quiser viver, me dê a porra das chaves e me deixa te levar pra casa — Estendi a mão mais uma vez e ele me negou novamente.
" Ok" pensei " Vai ser do jeito difícil."
Percebi que um de seus bolsos estava mais volumoso do que o outro e coloquei a mão para pegar as chaves.
— Está me roubando?
— Estou tentando salvar a porcaria da sua vida e evitar um acidente.
— E eu estou em perfeitas condições para dirigir.
— Está mesmo. Bêbado e com a cara toda socada, foi exatamente isso que o Detran sugeriu — Ironizei — Quer saber? Nem vou fazer isso por você. Estou pensando em qualquer pedestre inocente que teria a infelicidade de cruzar seu caminho.
Fiz um esforço para lembrar do modelo do carro dele, provavelmente ele não falaria.
— É aquele preto ali — Ele disse enquanto fazia uma cara de dor.
Aos poucos ele começou a ceder, até tinha dito facilmente o endereço de sua casa, o que estava muito estranho, cheguei a pensar que ele tinha me dado o endereço errado.
Quando finalmente chegamos, eu tentei não fazer cara de chocada com a beleza do imóvel.
— Achou bonita? — Ele perguntou fazendo careta outra vez.
— Não.
Estava na cara que eu tinha mentido.
— Espera até conhecer meu quarto. Especificamente minha cama.
— Estou começando a achar que era uma boa ideia ter deixado você morrer lá mesmo — Falei irritada.
— Eu só estou brincando e me exibindo, foi uma cama cara, sabia?
Respirei fundo enquanto tentava não me irritar com aquele homem. Já era insuportável sóbrio, bêbado então...
Enquanto ele abria a porta eu observava o resto, da parte de fora. O Jardim parecia ter tido manutenção há minutos atrás de tão lindo e bem cuidado. Havia um chafariz enorme de cada lado do caminho pedras e eu tinha certeza que duas câmeras estavam escondidas ali, uma em cada um.
Shawn chamou minha atenção, mas eu estava distraída com outra coisa.
— Entra.
— Ouviu isso? — perguntei.
— Não, o que?
— Acho que você deixou cair alguma coisa. Mas está muito bêbado pra perceber, é claro — Falei enquanto entrava e fechava a porta.
— E eu acho que eu quebrei o meu braço quando caí por cima dele.
— Escuta, vai tomar um banho gelado e depois você volta aqui com o kit de primeiro socorros, eu faço alguns curativos, vou embora e tudo volta ao normal.
Ele se convenceu mais rápido do que eu pensei, subiu sem ao menos reclamar e quando estava pronto me chamou.
Subi até o seu quarto e ele tinha razão, era com certeza a melhor parte da casa. Entendi o motivo de ele se orgulhar da cama, ela com certeza custava o equivalente a doze vezes o meu salário.
— Eu avisei que o quarto era bonito — Ele disse. Não pude deixar de notar que ele estava usando apenas uma bermuda na parte de baixo, estava pronta para cobrir meus olhos caso fosse necessário.
Seu corpo era bem definido, resultado de anos de academia. Pensei em como seria se eu tivesse toda aquela disposição para cuidar de mim mesma.
— Desculpe. Quer que eu coloque uma blusa? — Ele perguntou, me fazendo perceber que ainda olhava para o corpo dele.
Eu não sabia se antes de chegarmos na casa ele se fingiu de bêbado, ou se o banho frio realmente fez efeito, no momento ele parecia completamente em sã consciência.
— Não... quer dizer, eu não ligo. Só vim fazer os primeiros socorros e depois vou embora.
Voltei a olhar para o rosto dele e percebi que não estava não ruim quanto parecia antes. O sangue que antes estava ali, deixava a impressão de que tinha mais hematomas, me enganei ao pensar que tinha um corte no lábio.
— Sei... — Ele disse enquanto se sentava na cama e eu pegava o kit que ele havia deixado em cima de uma mesinha — Eu vi que você estava olhando, tudo isso é resultado de muito treino. E só pra constar... Você também tem o corpo bonito, estamos quites.
— É, já ouvi isso antes, muitas e muitas vezes. Agora vamos fazer isso logo, eu preciso ir pra casa.
— Só levei dois socos, não precisa de tudo isso. Me dá uns remédios e fica tudo certo — Ele disse na maior tranquilidade.
Havia pelo menos dois cortes perto da sobrancelha, mas tirando isso, concordei com ele que um remédio resolveria o caso do inchaço no olho.
— Senta direito, eu vou limpar isso.
— Não entendo.
— Para não infectar, idiota. Agora pare de se mexer.
Quando terminei de limpar, tirei as luvas e saí de perto dele. Estava bem focada em sair o mais rápido possível daquele lugar.
— Adeus!
— Espera, nem vai me deixar te agradecer?
— De nada. Então, acho que já posso ir— Respondi enquanto colocava meus saltos nos pés novamente.
Percebi que ele estava próximo demais e queria me afastar, porém não queria demonstrar que, naquele momento, ele me intimidava, então mantive a postura.
— Você sabe que se a Diana descobrir de algum jeito que eu vim parar aqui, ela vai tentar acabar comigo de todos os jeitos, não sabe? — Perguntei olhando em seu rosto.
— Quer fazer valer a pena?
— Desculpe, não entendi.
— Se ela vai acabar com você, que seja por uma boa e verdadeira razão — Ele disse se aproximando para me beijar. E eu desviei.
— Eu tenho que ir pra casa — Falei e em seguida comecei a descer as escadas e no mesmo instante me arrependi, estava mentalmente me praguejando por não ter beijado meu chefe.
Parei no meio das escadas e repensei.
Se Diana queria uma guerra, era assim que começaria. Eu não tinha nada a perder e não tinha medo dela. Um dos caras mais poderosos do país estava me desejando e eu tinha certeza que isso não ia não acontecer outra vez.
Voltei para o quarto e encontrei o Sr Mendes sentado no mesmo lugar.
— A Srta esqueceu alguma coisa? — Ele perguntou formalmente, fazendo com que eu quase mudasse de ideia. Quase.
—!Na verdade sim — Falei me referindo à minha bolsa que estava na mesinha.
— Aqui está — Ele disse levantando para me entregar a bolsa — Mais alguma coisa?
— Sim.
— O que a Srta deseja?
Eu sabia que me arrependeria mais tarde. Mas no momento, não me importei. Meu pai sempre me dizia para fazer as coisas que eu tivesse vontade sempre que elas estivessem no meu alcance, afinal, no futuro eu poderia não ter as mesmas chances. Era melhor me arrepender de ter feito do que de não ter feito.
Segui meus instintos e fiz exatamente o que queria.
— Desejo que você me beije, agora mesmo!
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