4

Peguei um pouco de papel toalha e comecei a secar meu corpo, que estava avermelhado na região que o líquido quente havia sido derramado. E por conta do ar-condicionado, eu estava começando a sentir frio. Peguei a blusa do chão e me virei de costas para o meu chefe, tentei colocar a blusa molhada que grudava no meu corpo e enroscava no meu cabelo.

— Você quer ajuda? — O Sr. Mendes perguntou.

— Ajuda? Você não vê que ela está fazendo de propósito? — Diana gritou.

— Olha o que você fez... a queimou sem mais nem menos. Eu já disse que ela não tem nada a ver com aquele assunto e você continua insistindo, assim como fez a viagem inteira. E ainda se acha no direito de gritar comigo?

— Você sabe que faz total sentido. Acha que ela veio pra cá por qual motivo? — Diana gritou de volta.

— Não, não faz! E eu não quero ouvir ninguém nessa empresa falando sobre isso. Fui claro?

Pelo tom de voz dele parecia que ela estava começando a ficar com medo, as coisas estavam fugindo do controle mais rápido do que o pai dele podia imaginar que aconteceria.

— Sim.

— Ótimo. Você - Ele disse para mim enquanto tirava seu paletó —Veste isso aqui até eu voltar.

Diana bufou de raiva, era evidente que esperava outra atitude de Shawn, qualquer outra, menos que ele resolvesse me ajudar.

— Só faltava essa! Vai tirar a roupa e dar pra ela?

— Se for preciso, sim. Não tem condições de ela trabalhar toda suja e eu suponho que você não vai emprestar uma roupa à ela.

— Não vou mesmo.

— Obrigada — Agradeci mas não tive coragem de olhar para a cara dele.

— Não precisa me agradecer. E você, quando eu voltar, espero que já esteja fora dessa empresa, ouviu bem? — Ele disse para Diana e em seguida saiu da sala muito furioso enquanto gritava algo sobre não querer motivos para uma funcionária recente processar a empresa.

Ela esperou ele sair e fechou a porta.

— Você não vale nada. Na primeira oportunidade já tira a roupa.

— Você fez isso. Fazer eu acreditar que a culpa é minha não vai funcionar. Ele também viu o que aconteceu.

— Fez isso de propósito, por causa da nossa conversa de hoje mais cedo. Você é bem mais baixa do que eu pensava.

— Você está me acusando de algo muito sério, Srta Smith — Decidi provocar, já que tudo aquilo estava incomodando, aproveitei para deixá-la desconfortável, claro que nunca chegaria aos pés do que ela tinha feito comigo, mas já era um começo.

— E você está bancando a cínica. Acha que eu não sei o verdadeiro motivo para ter vindo pra cá?

— Eu vim para trabalhar, mas você está me dando um trabalho extra pelo qual eu não sou paga  — Falei enquanto colocava o paletó.

— Eu ainda vou acabar com você. Guarde minhas palavras.

— Com o maior prazer, Srta Smith. Quer que eu anote?

— Acha que eu estou brincando, não é? — Ela perguntou rindo da minha falta de fé — Vai mesmo querer entrar nesse jogo?

— Você não me dá escolhas, Diana. Mas tome muito cuidado para não se enrolar com essas mentiras e acabar se perdendo no seu próprio jogo.

Ela queria dizer algo, mas pensou bem e fechou a boca.

— Já começou perdendo e eu não precisei fazer nada. Está estampado na sua cara, Diana, você deve ter um motivo para fazer o que está fazendo, mas não faz ideia do que precisa fazer para chegar aonde quer. Está atirando para todos os lados porque está desesperada.

Naquele momento ela levantou a mão para me bater.

Não me mexi. E mesmo com um pouco de medo, não demonstrei. Achei que isso faria a mulher desistir e funcionou.

— Vá em frente, mostre que tem coragem.

— Eu vou acabar com você, Lauren. Pode não ser agora, mas eu ainda vou fazer isso — Ela disse antes de me deixar sozinha na sala mais uma vez.

Eu não sabia de onde havia saído tanta coragem, muito menos onde eu acabara de me meter. Mas eu não sairia daquela empresa sem ao menos saber porque eu tinha sido o motivo da conversa deles durante a viagem. Entendia que Diana me via como uma ameaça, mas eu não estava interessada em ser gerente da empresa, não tinha experiência. E de qualquer forma, também não estava interessada em Shawn Mendes.

Peguei mais papel toalha e comecei a secar as gotas de café que respingaram no chão, depois olhei minha blusa que estava em um estado deplorável, parecia até que eu tinha acabado de achá-la no lixo.

Deixei a blusa de lado e voltei a limpar o líquido que Diana tinha sujado, e em pouco tempo o Sr Mendes voltou. Parecia um pouco mais calmo do que quando saiu. Diria que estava envergonhado por tudo o que aconteceu.

— Me desculpe por Diana, ela passou dos limites.

— O senhor não me deve desculpas, ela que é quem deve.

— Tudo bem. Eu procurei um uniforme antigo mas parece que não tinha nenhum no estoque. Acho que você vai ter que ir embora vestida assim — Ele disse apontando para o paletó, me deixando um pouco sem graça. Comecei a corar no mesmo instante.

— Tarde demais para ficar com vergonha, querendo ou não, eu já vi tudo.

Ele poderia ter dito qualquer coisa, mas escolheu dizer algo que não faria com que eu me sentisse menos envergonhada ou com menos ódio da Diana.

— É, isso não está ajudando muito — Falei, tentando parecer um pouco mais controlada do que realmente estava.

— Sem problemas. Vou voltar para o meu trabalho e fingir que isso tudo não aconteceu.

– Eu agradeço.

Voltei para a minha mesa e respondi alguns e-mails importantes para ajudá-lo, afinal, já tínhamos perdido tempo demais com toda aquela cena.

Eu mal conseguia pensar no que tinha acabado de fazer. Provavelmente foi a coisa mais impulsiva que eu já havia feito em toda minha vida e aquilo estava errado, muito errado. Eu não sabia do que ela era capaz e ainda assim, estava jogando lenha na fogueira.

Trabalhar daquele jeito era uma das piores coisas que já tinha me acontecido e além de tudo isso, não teria roupa para ir embora e os olhares dos outros funcionários cairiam todos em mim. Normalmente eu não me importaria com a opinião dos outros sobre o que estava vestindo, mas o que me preocupava era o chefe pensar que quis me mostrar de propósito, quando na verdade, nem tinha pensado nisso. Em qualquer outra situação, isso seria um plano brilhante. Não podia negar que o homem era de fato muito bonito e qualquer outra pessoa teria usado isso como um incentivo para conquistá-lo. Mas não eu. Eu só estava morrendo de vergonha.

Não me sentia exclusiva ou muito diferente de todas as mulheres que tinham passado por ali. Eu realmente só não estava interessada.

E não era pelo fator aparência. A verdade é que quanto mais eu ficava perto dele, mais eu sentia que deveria ficar longe. E isso afastava qualquer pensamento sobre ter interesse nele. Em resumo: eu rezava para não me interessar por ele, porque a situação já era complicada do jeito que estava.

Percebi que estava pensando demais nesse assunto e segurei o riso, aquela seria uma péssima hora para ter um ataque de risos por conta da minha situação.

Shawn deve ter percebido, pigarreou para chamar minha atenção.

– Esqueci de falar, os danos do seu carro serão pagos pela empresa e você pode entrar com um processo contra Diana se quiser, mas por favor, não envolva o nome da empresa. Já estamos passando por problemas com a mídia e estou tentando não chamar tanta atenção. — Ele disse sério.

Eu não tinha contado aquilo para ele.

— Me desculpe a pergunta, mas como ficou sabendo?

— Lauren, se tem uma coisa que você deve saber é que eu sou muito poderoso, tenho meus contatos e eu fico sabendo de tudo.

Não consegui segurar e comecei a rir. Ele tentando me fazer rir para amenizar a situação? Ou será que me achava tão idiota à ponto de não lembrar que tinha pelo menos oito pessoas da empresa no mesmo restaurante em que eu conversei com Cameron sobre o assunto?

— Tudo bem. Obrigada por me fazer perceber que Cameron não sabe guardar segredo — Falei rindo.

— Você é inteligente, Lauren. Pensa rápido demais.

"Ou você que é burro demais." a resposta veio na ponta da língua, mas estava muito focada em tentar parar de rir e manter meu novo emprego.

— É que eu me lembro exatamente o quê e para quem eu digo as coisas.

Ele fez um silêncio de pelo menos três minutos e depois, achou que seria conveniente quebrá-lo.

— Sabe de uma coisa? Te acho um pouco desafiadora. Você sabe, pelo jeito que falou com ela.

Eu deveria ter perguntado para ele se era comum que as pessoas ficassem sempre ouvindo por trás da porta naquela empresa. Mas não podia correr o risco, fui para o lado mais fácil e fingi que não tinha percebido as reais intenções dele com aquele comentário.

— Sou obrigada a me desafiar, não gosto de ficar na minha zona de conforto.

Ele pensou um pouco antes de me responder.

— Trabalhar aqui é um desafio para você?

Para essa pergunta não tinha uma resposta que eu pudesse dar para ele sem me comprometer. Se eu dissesse que sim, talvez ele pensaria que não estava dando conta do serviço.  Se eu dissesse que não, ele podia entender que eu estava na zona de conforto e me enfiaria ainda mais trabalho. E a partir daquele momento não sabia qual rumo aquela conversa tomaria. Pensei em Diana na mesma hora e me dei conta de que o meu maior desafio era aguentá-la por pelo menos um dia.

— Pela sua falta de palavras, suponho que sim. Sabe, eu gosto de mulheres que batam de frente com pessoas como Diana.

— Com todo o respeito possível, eu não sou do tipo briguenta, nem faço parte de nenhuma gangue de briga de rua e acho importante o Sr. saber disso.

Agora foi a vez dele começar a rir. A conversa começou com um carro quebrado e estava terminando daquele jeito, seria hilário se não fosse só mais um teste.

— Você sabe do que eu estou falando, ouvi sua conversa com Diana antes de você sair para ligar pro seu irmão, foi a primeira funcionária que teve coragem de enfrentá-la em tão pouco tempo. Suas palavras a deixaram insegura e isso é até bom, assim ela te deixa em paz por alguns dias. Ou algumas horas, não sei. Ela é imprevisível.

— Brincadeiras a parte, estou gostando de fazer o meu trabalho e não penso em sair daqui. A situação de hoje foi complicada mas acho que vai ficar tudo bem.

Não imaginei que ele tivesse escutado aquela parte específica da conversa. Eu nao deveria estar tao surpresa, já que estávamos na porta da sala e qualquer um poderia ter ouvido. Preferi não falar nada, novamente.

— Pelo que Diana fez ela já deveria estar no olho da rua. Mas infelizmente eu não posso fazer isso, ela faz parte da equipe do meu pai e só ele poderia demití-la. E não se preocupe com as acusações dela contra você, ela fez isso com todas.

— Se me permite dizer, ela é uma pessoa horrível.

— Mas você não. Nem por dentro e nem por fora — Ele disse dando um sorriso e é claro que estava falando do que tinha acontecido antes.

— Me desculpe por aquilo... se bem que a culpa não foi minha.

— Não precisa se desculpar por ficar nua na minha frente. Eu espero que não...

Ele não continuou.

— Desculpa, não entendi. - Eu tinha entendido perfeitamente.

Ele só pensou antes de falar, mas eu sabia exatamente o que viria.

— Merda. Eu não deveria ter dito isso... Me desculpe. Está dispensada, até amanhã.

Peguei minhas coisas e queria sair sem falar nada, mas eu não era esse tipo de pessoa, então voltei e fiquei séria, parada na frente dele até que ele me olhasse.

— Quer saber? Eu não tenho que me desculpar por absolutamente nada. A culpa nao foi minha. E se você sequer pensar em dizer o que estava prestes a dizer, o meu rosto vai ser a última coisa que você vai ver na vida.

Ele se assustou, já que não esperava esse tipo de comportamento de uma funcionária com um chefe e obviamente o arrependimento tomou conta de mim, mas não deixei demonstrar, eu sabia que não era fácil, mas poderia achar outro emprego caso perdesse aquele.

— É uma ameaça?

— Entenda como quiser, desde que me respeite.

— Eu ja me desculpei, não vai acontecer de novo. Está dispensada. Até amanhã.

Naquela hora eu entendi o motivo do rosto dele sempre estar nos jornais seguido de uma notícia ruim. Tinha sido extremamente rude e seu pedido de desculpas não poderia ter sido mais vazio. Talvez ele precisasse de alguém que desse um choque de realidade e o fizesse entender não deve falar o que quer para qualquer pessoa. Precisaria entender também que eu não daria asas à imaginação dele e muito menos daria intimidade para que ele falasse comigo daquele jeito outra vez.

Peguei o carro de Ashley que estava no estacionamento e dirigi rápido até a porta da empresa onde ela trabalhava. Agradeci mentalmente por ter sido liberada mais cedo, assim dava tempo de pegá-la bem antes do combinado. Meu sangue estava fervendo e eu não estava a fim de socializar com ninguém, muito menos explicar o motivo de eu ter ido para o serviço vestida de um jeito e voltado vestida de outro.

Vi que ela estava parada na recepção e buzinei duas vezes para que percebesse minha presença e não demorou muito para que ela se juntasse à mim.

— Achei que você fosse chegar mais tarde.

— É, aconteceu um imprevisto.

— Espera... que roupa é essa?

— Do meu chefe.

— Garota, foi rápida!

O fato de Ashley só pensar em sexo e achar que qualquer contato que eu tinha com o sexo masculino era sobre sexo, me dava nos nervos.

— Não! Diana atacou de novo.

— Você não está vestindo nada além de uma calça e o paletó do seu chefe, agora me diz, onde Diana se encaixa nessa história?

— Podemos chegar em casa primeiro? — Falei, irritada.

— Como quiser.

[...]

Quando chegamos, tomei um banho e fui direto para a cozinha preparar algo para comer.

— Enquanto você tomava banho eu fui fazer algo para te animar, comprei alguns donuts, estão em cima da mesa — Ashley disse.

A minha padaria favorita ficava perto da empresa onde eu trabalhava. Me dei conta de que tomei um banho mais longo do que tinha imaginado.

— Obrigada, estou morrendo de fome.

— Sei... agora que estamos em casa, quer me contar o que aconteceu?

— Acho bom você se sentar, porque a história é longa e estressante.

— Adoro histórias longas, comece quando quiser.

Contei detalhadamente tudo o que tinha acontecido, e ela pareceu adorar as coisas que eu tinha dito à Diana.

— Wow. Espera aí... Você tirou a roupa na frente do seu chefe? - Ela perguntou rindo.

— Não foi exatamente assim.

— Ele gostou do que viu?

— Ashley! Pouco me importa se ele gostou, não era minha intenção ficar descoberta na frente de um cara que eu conheço há poucos dias. Isso nunca aconteceria em normais circunstâncias, você me conhece.

— Eu sei, mas você não é tão santa a ponto de não perceber se ele gostou do que viu ou não.

— Ash, ele não ficou olhando. Mas quando eu disse que ia seduzir meu chefe foi da boca para fora porque tenho raiva de Diana. Eu não queria passar pelo que passei hoje e não era disso que eu estava falando. Você sabe, minhas armas não são essas e depois da nossa conversa de hoje, estou desistindo, ele é um puta de um babaca.

— E a Diana?

— Ele mandou ela sair da empresa durante o restante do dia. E foi aí que ficamos sozinhos, e ele quase disse que esperava me ver daquele jeito de novo.

— Você não me contou essa parte. Não acredito que ele disse isso.

— Nem eu!

— Acho que ele só te mandou embora por que não conseguiria se concentrar no trabalho enquanto você estava vestida daquele jeito. Espero que não se sinta mal por isso.

— Ashley, quer parar? Ele não estava olhando para mim, eu perceberia se isso acontecesse e fico feliz que não tenha acontecido, eu seria capaz de meter a mão na cara dele, principalmente depois do que ele disse antes de eu sair.

— Um constrangimento a menos, mas ainda assim, ele deve ter adorado.

— Odeio quando você fala coisas desse tipo, parece que quer me prostituir.

— Eu devia fazer isso, íamos ganhar uma grana extra. – Ela disse brincando.

— O que ele tem de gostoso, tem de idiota, convencido e extremamente inconveniente, igualzinho à você. Tive que ameaçar arrancar os olhos dele para ver se ele parava. E em todo caso, eu jamais gastaria um centavo para impressionar aquele infeliz.

— Disso eu não tenho dúvidas, mas o que ele respondeu sobre as ameaças, tem chances de ser demitida?

— Não respondeu nada de útil. E se eu for demitida, pelo menos tenho um paletó de aproximadamente dois mil dólares para revender no E-bay.

Rimos bastante e eu continuei me empanturrando de rosquinhas gordurosas. Depois de um dia daqueles, achei eu merecia extravasar.

— Não importa o que ele pensa, você só não pode deixar a Diana sair por cima.

— Enquanto eu estiver viva, ela não vai.

[...]

O mês se passou lentamente, e eu estava tentando sobreviver naquela empresa. Eu e o Sr Mendes não trocávamos outras palavras que não fosse relacionadas ao trabalho, depois do ocorrido, percebi que ele tentava buscar contato visual enquanto estávamos sozinhos, provavelmente tentando achar uma brecha para se desculpar. Pelo menos era o que Cam me dizia durante nosso horário de almoço, estávamos mais próximos, era a única coisa boa que vinha acontecendo durante todos esses dias que se passaram.

Diana esbarrava em mim algumas vezes durante o dia, fazendo sempre as mesmas ameaças e recebendo as mesmas respostas da minha parte.

— Temos uma reunião marcada para hoje à tarde — Sr Mendes disse.

— Em plena sexta-feira?

— Sim. Com todos os funcionários da empresa. Precisamos esclarecer alguns rumores.

Ele estava falando de um rumor entre nós dois que ninguém menos que Diana havia espalhado. E o fato alguns funcionários terem me visto sair da empresa com o paletó do Sr. Mendes ajudou bastante e sempre que eu achava que tinham esquecido, o assunto voltava à tona.

— Obrigada por esclarecer. Já estava me dando nos nervos.

—  Não vou fazer isso por você. Só não quero que o nome da empresa fique na lama por boatos sobre infelizes espalhados por Diana, você, Cameron ou quem quer que seja.

Entendi o que estava acontecendo ali e não suportei. Ele agiu como se eu  tivesse gostando do maldito boato. Não tinha como ficar pior mas eu preferi não responder, a raiva transpareceu no meu rosto, com certeza ele tinha percebido aquilo e, particularmente, demonstrar o meu ódio pela situação era o que eu queria. Faria questão de deixá-lo ciente do quanto estava odiando.

Chequei o horário no relógio e já tinham se passado cinco minutos do meu horário de almoço, mais um motivo para me estressar naquele dia.

— Eu estava pensando em te levar para almoçar, para comemorar. Afinal, não são todas as secretárias que aguentam passar um mês aqui — Ele disse sorrindo.

Como alguém conseguia mudar de humor e de ideia tão rápido?

— Desculpa, você não vai querer ser visto com secretária, isso vai sujar o nome da sua empresa. Eu faço o meu almoço sozinha — Falei seca, mas sem querer parecer mau educada, afinal, não sabia se precisaria daquela oportunidade no futuro.

Peguei o necessário e sai, estava com planos de almoçar sozinha mas acabei encontrando Cameron na lanchonete.

— Que cara é essa? Problemas com o Sr Mendes?

— Ele é um idiota, só isso.

— Fiquei sabendo da reunião de hoje, sabe do que se trata?

— Os rumores que a Diana espalhou sobre o Sr. Mendes e eu, ele vai esclarecer tudo.

— Entendi, ele quer que parem os comentários sobre você.

— Ele não quer que a notícia caia em mãos erradas, acho que é isso.

Tentei encurtar o assunto, mas ele continuava fazendo perguntas.

— Foi isso que ele te disse?

— Foi isso que eu entendi. Mas ele não tem suporte para manter as aparências que quer.

— Como assim?

— No começo, veio falando que queria acabar com os boatos e que não queria que o nome da empresa fosse parar na lama. Algum tempo depois veio me chamar para almoçar com ele para "comemorar" meu primeiro mês de trabalho, mesmo sabendo que ser vista com ele só daria ainda mais motivos para os rumores continuarem.

Cameron riu alto, chamou um pouco de atenção no restaurante e logo em seguida ficou sem graça. Depois disso, voltou a fazer perguntas.

— Ele realmente acha que alguém quer comemorar que está trabalhando naquele inferno?

— É exatamente o que eu estou tentando dizer! Só trabalho porque preciso do dinheiro, não tenho motivos para comemorar nada e se fosse para comemorar estar trabalhando no inferno, eu já teria abraçado o capeta a muito tempo.

Fiz meu pedido e chegou bem mais rápido do que o esperado.

— Salada de frutas? Isso é o seu almoço? — Cameron perguntou.

— Eu estou totalmente sem fome, só vou comer para não passar mal na reunião.

Aquilo era verdade, eu nunca fui de fazer dietas malucas para perder peso ou algo parecido, essa era a função de Ashley, por mais que me deixasse preocupada muitas das vezes e eu me obrigasse a olhar escondido os exames que ela fazia a cada seis meses, queria ter a certeza de que estava tudo bem. Não que eu entendesse muita coisa mas vê-la voltando das consultas sem nenhuma receita me confortava um pouco.

— Eu estou enjoado desde já - Cameron brincou me fazendo rir.

— Está livre hoje à noite? — Perguntei.

— Nossa, Lauren Portman me chamando para um encontro romântico, que surpresa agradável.

Cameron levava tudo tão na esportiva que às vezes, era difícil conversar sério com ele. Mas muitas vezes aquilo era o que me tirava um pouco da realidade e me fazia esquecer o caos do trabalho.

— Deixa de ser engraçadinho, está livre ou não?

— Depende, no que você vai me meter?

— Lembra daquela vez que nós íamos comemorar e meu irmão acabou estragando tudo?

— Perfeitamente.

— Então, já faz um mês que eu estou na empresa, aguentei Diana e Shawn Mendes por muito tempo, não acha que isso merece uma grande comemoração?  — Perguntei animada.

— Nem parece ser a mesma pessoa que reclamou que Shawn não consegue manter uma opinião por muito tempo.

— Ah fala sério, mereço uma folga daqueles dois. E digo outra, se for para comemorar que seja com você, que me aguenta e me ajuda todos os dias.

— Nos vemos lá.

Ficamos conversando por mais um tempo e nem vimos a hora passar, infelizmente era a hora de voltar para o escritório. Fechei os olhos  e respirei fundo por alguns segundos, tentando atrair boas energias para o restante do meu dia.

— Pensei que ia almoçar sozinha Srta Portman.

A lei da atração de boas energias definitivamente não funcionava comigo.

Queria poder perguntar o que ele tinha a ver com minha vida ou se estava me vigiando.

—  Gosto de ter boas companhias para o almoço.

— Está insinuando algo?

— De jeito nenhum. Apenas tentando almoçar em paz, sem boatos, do jeito que nós dois queremos, não é verdade? — Falei — Com licença, vou voltar ao trabalho.

Não dei espaço para mais perguntas ou respostas. Também não acrescentei nenhum outro comentário.

— A reunião no salão principal começa em sete minutos.

[...]

— Em primeiro lugar, gostaria de parabenizá-los. Nas últimas semanas, a nossa empresa ficou em primeiro lugar entre as mais procuradas do ano, o que indica que estamos no caminho certo, mas ainda podemos melhorar —o Sr Mendes falou.

— Sr, estamos indo bem, eu confesso, mas o número de funcionários ainda está baixo se for comparar com as outras filiais.

— Sim, esse é um ponto importante, Johan. Chegamos ao ponto, o motivo de as pessoas não se candidatarem às vagas disponíveis para tais cargos.

— É a imprensa? — Diana perguntou como se não soubesse a resposta e como se ela não fosse o maior problema daquela empresa.

— Exato. E isso só vem piorando de alguns meses para cá. E todos vocês sabem que nenhuma das notícias que sai sobre mim, ou sobre a empresa, são reais, e assim chegamos em um assunto delicado. Vocês devem saber que eu contratei uma nova secretária, a Srta. Lauren Portman — Enquanto ele dizia isso meu rosto corou.

Eu sempre odiei ser o centro das atenções, ainda mais quando o assunto era sobre coisas íntimas. Odiava tanta gente me olhando ao mesmo tempo.

— Está rolando um boato pela empresa e vocês já devem imaginar do que se trata. Vocês estão nos expondo de uma forma que poderia gerar a perda do emprego de cada um de vocês. A questão é que esses boatos são totalmente falsos, e eu serei bem rígido com isso à partir de agora. Quem tocar nesse assunto será demitido e por justa causa. Fui claro?

— Absolutamente Sr — Um homem alto e careca respondeu.

— Reunião encerrada? — Cameron perguntou.

— Mais uma coisa. O salário de cada um de vocês terá um aumento de 2%. Não é muito, mas já é um bom começo e isso foram ordens do meu pai. Agora sim, reunião encerrada — Assim que ele terminou de falar, metade dos funcionários já estava fora da sala e a outra metade queria ficar para puxar o saco do chefe.

Achei engraçado ver a cara de desespero do meu chefe para que todos fossem embora logo, mas sempre tinha um para ficar e falar sobre suas conquistas ou avisar que tinha batido as metas. Alguns até ficavam para agradecer os 2% de aumento, que no meu salário, não faria diferença alguma.

Liguei para os funcionários da limpeza, para vir retirar os copos da mesa e enquanto o Sr Mendes tirava algumas "dúvidas pessoais" dos funcionários que insistiam em ficar, eu ajudei o rapaz que apareceu para fazer a limpeza. Só queria sair dali se tivesse a certeza de que não me encontraria com Diana nos corredores e que ela não estava me esperando na porta da minha sala.

Percebi que o Sr Mendes estava se aproximando e imaginei que ele precisava de ajuda com algo e bom, era para isso que eu tinha sido contratada.

—  Srta Portman, se importa de ficar por mais um minuto? Temos assuntos muito importantes à tratar.

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