Livro dois - Planos infalíveis são quentes.

Camila dormiu melhor aquela noite que em muito tempo. O suave sopro de chuva no telhado era como uma canção de ninar calmante, e ela se sentia quente e preguiçosa com Lauren deitada ao lado dela, podia sentir a respiração da namorada se combinando com a dela em um breve som de ninar.

O rosto de Lauren se enterrou no peito da namorada, e suas pernas emaranhadas e as cobertas em torno delas fazia uma bagunça terrível. A menor se moveu para levantar e Lauren choramingou em seu sono, puxando Camila mais perto em uma tentativa de mantê-la na cama. Com muito cuidado ela saiu do aperto da jogadora e levantou, catando suas roupas jogadas pelo chão do quarto enquanto vagava até o banheiro para tomar banho. Quando saiu, Gracie a esperava na porta do banheiro.

— Está com fome, princesa. – Balbuciou com a voz aguda, coçando a orelha da cadelinha, pegando-a em seu colo. A cadelinha deu um latidinho e lambeu o rosto de Camila. – Precisa fazer silêncio, ou a Lauren vai acordar e você sabe como ela fica quando não dorme bem.

Ignorando o que sua dona tinha acabado de dizer, o cãozinho deu outro latidinho. Camila abriu a porta do quarto, ainda com Gracie em suas mãos e vagou até a pequena cozinha. Depois de alimentar a cadelinha ela rapidamente retirou os ingredientes que precisava para fazer um bolo rápido de leite, que era o favorito de Lauren.

Estava no meio da receita quando a porta da frente da casa abriu e Mike entrou tropeçando na cozinha, o cabelo escuro parecendo um ninho de pássaros, ele estava usando um conjunto de moletons da Sonserina.

— Bom dia, ninõ. – Camila brincou, e ele girou em torno de si procurando Camila. – Como está sua garganta?

—Dói. – Ele admitiu com a voz rouca. – Mas eu já me sinto melhor.

— É por isso que não se deve ficar se beijando na chuva.

O garoto sorriu ao ouvir a provocação. Ele ainda podia ouvir o som suave das gotas de chuva no telhado da casa de Will, enquanto beijava os lábios de Millie. Suspirou, era praticamente impossível pensar nela e não suspirar.

— Tire esse sorriso bobo dos lábios, Romeu. – Camila deu um tapinha em sua cabeça. – Sente-se, vou fazer um café para você.

— Eu posso ajudar com isso. – ele ofereceu, tropeçando até a cubana.

— Se não incendiar a casa.

— Eu sou um profissional em fazer bolos de caixinha, me respeita.

— Como está o namoro? – Ela perguntou casualmente, observando o garoto habilidosamente mexer a massa.

— Bem, não é exatamente um namoro. – Ele admitiu, e então fez uma careta. – era meio sobre isso que eu queria falar com a Lauren.

— Sobre o seu não-exatamente-namoro? – Camila sugeriu, com um sorriso provocador, colocando a chaleira no fogão. – Suas bochechas ficaram rosadas... Eu to só zoando. O que houve?

— O pai dela quer conversar comigo. – Mike congelou por um milissegundo, Camila lembrava bem do tal homem, e de como ele tinha sido desagradável. – E isso é algo imenso, ele me odeia, mas parece que está odiando menos, acho que ele ficou com pena do que aconteceu comigo.

— Isso é legal, mas eu acho que você tem motivos para temer.

— E você não está me deixando mais tranquilo agora.

Lauren acordou com uma cama vazia e franziu o cenho imediatamente, os braços tateando, procurando o calor do corpo de Camila. Abriu os olhos, piscando para adequá-los a luz, levantou e fez sua higiene matinal, rapidamente colocando os óculos no rosto antes de sair do quarto. A visão que a saudou quando ela entrou na cozinha fez Lauren se derreter fisicamente.

O cabelo ainda estava preso em um coque bagunçado, fios castanhos voando de um lado para o outro e ela estava usando uma de suas camisas de banda, enquanto tomava café de frente o seu irmãozinho. As pernas bronzeadas, escapavam pelo que restava da blusa e se ela fechasse os olhos um segundo podia sentir a maciez que tinham quando ela as tocava.

Camila sorriu quando Lauren se aproximou atrás dela, envolvendo seus braços em torno da namorada. Ela deu um beijo suave no topo da cabeleira castanha.

— Bom dia, amorzinho. – Lauren murmurou com a voz levemente rouca, e Camila virou-se para beijar sua boca e então não consegue impedir de pensar em como Lauren é linda de perto, os lábios rosados, os detalhes do rosto e olhos tão verdes e quentes.

— Por que está me olhando assim?

— Porque eu te amo.

— Eu também te amo.

Ela sorriu e sentou-se ao lado de Camila, seu irmãozinho balançou a cabeça e sorriu, quando Lauren lhe deu uma cotovelada provocativa.

— Ora, ora, que surpresa te ver aqui, achei que já tinha se mudado para a casa de Millie Bobby Brown.

— Dramática. – Camila provocou-a. – Não ligue, Mike, sua irmã está totalmente com ciúmes e vai piorar quando souber das novas.

— Que novas? – Lauren ergueu a sobrancelha encarando os dois.

Mike parou de tomar seu chá e virou para a irmã mais velha.

— O pai da Millie quer conversar comigo no fim de semana, acho que ele quer me conhecer e tentar confiar em mim... – O garoto coçou a orelha – Ou ele quer me matar e isso é só um plano pra me atrair até lá.

Lauren parou a torrada que planejava levar até os lábios no ar e suspirou, buscando apoio em Camila que estava com um arzinho divertido.

— Uau. Você é muito jovem, para... quero dizer. Namorados? Tipo namorados? – Lauren lamentou confusa com o que tinha acabado de ouvir. – eu... Camila eu acho que preciso da sua ajuda.

Antes que ela pudesse continuar, a campainha tocou e Lauren levantou para abrir, e Alycia se revelar. Sua prima estava usando seus pijamas surrados de Friends e tinha um riso debochado no rosto amassado pelas horas de sono.

— Eu senti o cheiro de bolo e vim participar desse banquete. – Disse ela empurrando a prima pelo ombro e foi direto a mesa. – Bom dia Cuba, bom dia, pivete.

— Levante do meu lugar, Evans. – Lauren arrastou-a pelo ombro, tirando a prima do seu lugar. – Vaza.

— Nossa como você é rude. – Alycia continuou de bom humor. – Tenho certeza que quando Camila está...

— ALYCIA! – Ela riu do gritinho afetado da prima.

— Eu não ia dizer isso, por que vocês sempre pensam o pior de mim?

— Por que da sua mente só saem coisas desse tipo.

— Estou mortalmente ferida – Zombou da prima dando uma mordida generosa no bolo. – Isso aqui está uma delicia, Cuba. Voce tem certeza que não se apaixonou pela prima errada?

— Eu acho que preciso pensar melhor...

— Uhhh, agora a Lauren vai me expulsar da família. – A loira manteve o tom provocativo na voz.

— Agora eu tenho certeza que ela vai. – Camila continuou brincando.

— Calem-se vocês duas! – Lauren cruzou os braços em torno dos seios, ficando emburrada. – Temos assuntos mais importantes para tratar.

— Quais assuntos?

— Mike vai conversar com o pai da namorada no fim de semana. – Disse Camila.

— Uau, isso é grandioso, outro dia que trocava suas fraldas sujas de xixi. – Ela fingiu secar as lágrimas e colocou a mão dramaticamente no peito. – eu to emocionada, pirralho.

— Você nunca trocou as fraldas dele. – Lauren resmungou.

— Mas eu ficava te incentivando a fazer, é a mesma coisa, deixe de ser ranzinza.

Camila ficou observando os primos se provocando, enquanto tomava seu café. Sentia cada dia mais próxima aquela família, isso só lhe causava medo porque em dois meses, aquilo tudo seria deixado para trás.

A briga entre eles foi interrompida pelo som do celular de Lauren tocando várias vezes ao seu lado na mesa. Em um gesto automático, Camila leu na tela brilhante o nome de Troy surgindo na tela. Ela sabia que a namorada e ele conversavam praticamente todo dia sobre o caso da Ally, e foi exatamente esse motivo que a deixou ansiosa quando a namorada levantou e foi atender o celular em seu quarto.

Foram minutos intermináveis que ela queria dizer algo, mas impedida pela presença de Mike o máximo que podia era trocar olhares nervosos com Alycia que mantinha a mesma expressão ansiosa no rosto.

Minutos depois ela reconheceu o toque suave da mão de Lauren em suas costas, e o olhar vagando em uma expressão enigmática entre ela e Alycia.

Mike franziu o cenho.

— Eu conheço essas caras, – Ele suspirou, levantando da mesa. – Vocês precisam tratar de assuntos que não posso ouvir. Eu odeio vocês... espero que saibam disso.

— Nós também te amamos, niño.

Ele resmungou qualquer coisa e saiu, esperaram ansiosas o som da porta batendo e então Camila e Alycia viraram para Lauren prontas para quando ela soltasse a bomba que estava descrita em cada linha do seu rosto bonito.

— Era o Troy, parece que ele conseguiu que mais duas garotas que sofrerem abuso na mão do Rodgers, assinassem o documento.

—Isso é fantástico! Estamos perto de vê-lo atrás das grades, é isso?

— Na verdade, será um pouco mais complicado que isso Alycia. – Ponderou ela. – Ao que parece, assim como aconteceu com a Ally, essas duas garotas deram queixas dele, mas não resultou em absolutamente nada. O processo foi arquivado por falta de provas. Novamente é a palavra delas, contra a dele.

— Como assim? Esse cara não pode ficar impune. Eu tenho certeza que ele usa as ligações que tem para se safar, isso explica o motivo do Simon Cowell nunca ter se incomodado com o que aconteceu com a Vero, mesmo sendo absolutamente estranho uma aluna e promessa do time juvenil simplesmente parar de frequentar as aulas.

— Vocês acham que Simon pode saber dessas acusações e estar em silêncio por ter o rabo mais preso que o Tyrone?

— Tudo é possível. – Camila concordou. Pensando friamente, aquela era a teoria mais possível. – O Professor Cowell sofreu um processo por desvios de verba a alguns anos, mas, nada foi provado. Pode ser que o Rodgers saiba a verdade e usou isso a seu favor.

— Novamente, não podemos provar nada.

— Isso é frustrante, – Lauren reagiu batendo as mãos contra a mesa. – Parece que ele sempre escapa, falta isso – Lauren ergueu os dedos simulando a distância. – E esse desgraçado sempre dá um jeito de escapar.

— Precisamos de provas, provas concretas. – Alycia retrucou balançando a cabeça – Algo que sua influência não possa negar. Um escândalo que estremeça qualquer plano para minimizar o fim. Se algo assim for parar nos jornais, outras garotas provavelmente denunciarão e ele não poderá fugir.

Elas pensam um instante. De perto parecia ainda mais difícil, como armar para alguém que parecia estar sempre um passo a frente de todo mundo?

— Temos que admitir que esse canalha foi perfeito do começo ao fim, e a menos que ele tenha feito mal a uma celebridade, parece que ele ficará impune. – Diz Camila.

Alycia travou ao ouvir Camila, as engrenagens do seu cérebro funcionando a pleno vapor. Então o pensamento seguinte iluminou sua mente como fogos de artifício. Como ela nunca tinha pensando nisso? Um riso surgiu nos lábios da loira a medida que o plano formava-se em sua cabeça.

— Nós temos uma quase celebridade bem aqui. – Disse ela.

— É mesmo? E quem seria essa pes... – Lauren calou-se entendendo ali onde sua prima queria chegar. – Voce é um gênio. – Murmurou.

Camila arregalou os olhos castanhos, quando tomou ciência do que elas duas falavam.

— Não! Nem pensar, você não vai se colocar nisso, Lauren.

— Camila...

— Nada de Camila, não tem cabimento, Lauren!

— Camz, pense... – Sua namorada segurou o seu rosto e aproximou em direção ao seu, agora pensando com mais clareza que antes. – Ele tem algum tipo de fascínio por mim, tenho certeza que nunca tentou nada porque lhe faltou oportunidade. Tudo que eu preciso é dar a ele essa oportunidade e então...

— Lauren, esse cara é perigoso, eu não tenho um bom pressentimento quanto a isso.

— Babe, eu sei que você se preocupa, mas é o único jeito. Em quatro meses voaremos pra longe dessa cidade, você acha justo com todas as novas garotas que virão depois de nós, se submeterem a presença de Tyrone Rodgers durante os anos mais importantes de suas vidas? Quantas Allys e quantas Veros mais ele produzirá?

Ela odiava quando Lauren estava tão certa, não havia o que debater, estava sendo egoísta por tentar impedi-la de ajudar outras pessoas, colocando-a contra a parede para ir negar sua essência, quando Lauren sempre tentou ser justa e esse era o grande motivo do seu amor por ela, porque amava de todo seu coração como ela defendia as coisas com paixão as coisas que acreditava.

— É uma grande loucura. – Lamentou-se.

— Eu só vou fazer, se você estiver ok com isso, Camila.

— Você sabe qual é a resposta, Laur, eu jamais te impediria de ajudar essas pessoas, mas eu tenho medo. – Admitiu, acariciando o rosto da namorada. – Só preciso que prometa que vai tomar cuidado, que vamos todos nos cuidar... Não posso perder mais ninguém.

E lá estava tudo mais uma vez: o barulho do medo, a canção do universo. Um mentiroso teria negado tudo. Mas alguns de nós não querem passar a vida feito mentirosos. Lauren mordeu o lábio e assentiu.

— Eu juro que tentarei.

Abril ainda está no começo, mas já é possível notar como a paisagem antes dominada pelo tom monocromático do branco do inverno lentamente dá espaço ao colorido vivido da primavera. As praias ainda não estão cheias de turistas, mas os jovens já se sentem prontos para andar em seus skates e surfistas para pegar uma onda nas águas geladas do mar.

Alycia contemplou a rua movimentada por vozes naquela manhã de domingo, a irritante sensação de ter tudo e no momento seguinte, a falta de algo inexplicavelmente maior do que sua capacidade de se auto suprir. Ela enfiou a mão no bolso da calça pensando o que deveria fazer naquele dia, talvez convidar alguém para sair, ou quem sabe dar uma festinha. Mas por sorte ou azar, Camila se aproximou dela e qualquer decisão ficou para depois.

— Você demorou. – Disse ela, virando para encarar a amiga. – Estava fodendo, né?

— Você é uma escrota sabia? – Há um sorrisinho que surge no cantinho dos lábios de Alycia quando ela escuta aquilo, mas não é um sorriso feliz de fato. Ela sabe que Camila está brincando, mas se perguntou se aquela era a visão que todos tinham dela. Se é a visão que Sophie tem dela.

— O que aconteceu? – Camila perguntou com o cenho franzido. – Você de repente ficou quieta demais.

— Não é nada, vamos? – Tranquilizou a amiga, não queria que Camila achasse que tinha lhe magoado. Ela só estava um pouco sensível.

Abriu a porta do carro para a amiga e acenou para que ela entrasse.

— Desculpa por te tirar de sua corrida. – Camila continuou se desculpando – Você sabe como a Lauren é, ela acha que devo me preocupar sobre Dax Mulligan, estou com medo de amanhã ela aparecer com uma dupla de seguranças. – Ela riu.

— Lauren está certa. Enquanto não soubermos o que o desgraçado do Dax está planejando é melhor não arriscar. Ele foi humilhado, expulso do time, expulso da escola. Ninguém passa por isso e fica tão quieto por tanto tempo.

— Como está sendo a vida de solteira? – Camila perguntou depois de um certo tempo.

— Boa. Até eu acordar pela manhã. – Lamentou-se ainda sem olhar Camila. – Acho que voltei a procurar a pessoa certa nas erradas.

— Todos nós fazemos isso em algum momento. – murmurou Camila. Quando Alycia pensou que o assunto tinha morrido, ela acrescentou: – Se tem tanta certeza que ela é pessoa certa, porque você não conta isso a ela?

Alycia queria responder a amiga que sentia vontade fazer isso o tempo todo, de ir na casa de Sophie e bater a sua porta, implorando por uma nova chance. Mas já tinham se passado quatro meses, quatro meses é tempo suficiente para que a raiva se dissipe, ambas agora estavam confortáveis. Nem todo relacionamento termina da maneira que esperamos que termine. O motivo é que nem todo mundo se sintoniza conosco da maneira que nos sintonizamos. E isso é independente do amor, isso é a parte que nos faz vulneráveis.

Ela apertou o volante, engolindo o bolo que se formou em sua garganta.

— Não é tão simples, Cuba.

— Mas também não é tão complicado. Vocês se amam, Alycia. Isso é algo invariável e não depende do fluxo da raiva das duas, depende da sua vontade e claro coragem. Joe foi um entrave, mas vocês podem superar isso, olhe pra você... A garota que nunca quis ter compromissos estava pensando em mudar de país, para ir atrás da garota que ama. Você não é diferente de mim ou da Lauren, você só precisa fazer o que tem vontade.

— Você tem razão, o que não nenhuma surpresa, já que você é tipo um gênio, mas eu sinto que estou sempre correndo atrás, – Camila franziu o cenho. – Eu sei o que você está pensando, que meio que eu mereço pelo passado, mas estamos vivendo o presente, não é? Até quando o passado ditará o nosso futuro?

—Até quando vocês deixarem. – A voz de Camila era tranquila, e ela usou a mão livre para acariciar o ombro da amiga.

— E o que eu deveria fazer? Ela nem ao menos aceita me ouvir, parece que eu sou radioativa.

— Rapte ela. – Camila balançou a cabeça para a expressão que ameaçava surgir no rosto da amiga. – Eu estava brincando, não faça isso, é crime. Eu to falando sério, não!

— Eu não estava pensando em raptar ela, – Alycia sorriu maliciosamente e deu de ombros, freando o carro na porta da casa de Camila. – mas quem sabe se você trouxesse ela pra mim?

— Não vou me meter nisso.

Alycia desviou o olhar franzindo o cenho para o carro que parou um pouco a frente delas. Observando pouco depois um homem usando paletó descer do carro segurando uma enorme caixa amarela.

— Quem é o Ross Geller?

— É o Dr. Benson, o advogado que está ajudando minha mãe com os assuntos da Sofia. – Camila explicou, também estranhando a presença do homem aquela hora do dia em um domingo.

— E então você vai me ajudar com Sophie, ou eu vou precisar raptar ela?

— Eu não to acreditando nisso.

— Qual é, Cuba? Você meio que me deve essa, eu fiz o possível pra juntar você e a Lauren.

— Isso é chantagem.

— Isso é uma troca de favores.

— A Lauren tem razão, você é um terror, – Com um meio sorriso ela piscou para a amiga. – o que eu preciso fazer? Lembrando que só vou te ajudar pra não te ver ir pra cadeia.

— Te ligo mais tarde para te contar o plano.

De repente, uma coragem eufórica se lançou sobre ela. Estava apostando sua última ficha no jogo do amor.

Do outro lado da cidade, lançada em uma cama de lençóis do Homem-Aranha a mente de Sophie Turner transitava em um local semelhante.

No começo, esperava que Alycia Evans viesse atrás, com aquela paixão desesperada que te faz perder o ar, mas com o tempo, parecia muito mais confortável viver sem ela. Sem a pressão de namorar alguém como ela. Entenda, nem tudo se resume a beleza. Autoestima vai além de se olhar no espelho e se ver bonita com uma modelo da Vogue, autoestima tem muito mais a ver em se olhar no espelho e se ver poderosa como a Beyoncé.

Algo dentro dela não estava mais encaixando. Como se a balança que subiu, não fosse mais capaz de descer.

Infelizmente, não se sentia capaz de abrir mão de Alycia. Abrir mão das expectativas mentais quanto elas duas. Em breve, distantes, em breve, novas vidas. Mas existe uma parte de Sophie que se lamentava por todos os planos que fizeram. Em suas memórias Alycia e ela terminariam a faculdade, casariam, comprariam uma casa na Califórnia e teriam um bebe. Seriam uma família de novela, ignorando completamente tudo que se colocasse contra elas.


Excluindo o fato que essa vida perfeita sucumbiu a primeira tempestade. Derrubando suas expectativas com a habilidade que uma criança mimada derruba o castelo de areia.

Deve ser por causa expectativas que ela, pelo menos, uma vez por dia abre a galeria da nuvem do seu celular para olhar as fotos que tiraram, ou continua usando o moletom que ela esqueceu em sua casa, ou sorri sozinha quando lembra do sorriso, e do cheiro que o corpo de Alycia tinha.

— Tudo bem? – O rapaz deitado ao seu lado perguntou, trazendo ela de volta a realidade. – Você ficou distante.

Sophie não lembrava seu nome, começava com a letra T. Um encontro marcado pelo Tinder, no quarto da república que ele divide com alguns amigos. O sexo foi bom e exclusivamente isso. Ela não queria que ele ligasse novamente e ele olhava pra ela com cara de quem ligaria.

— Eu preciso ir embora. – Disse ela, levantando e catando suas roupas encostadas na cadeira.

Pensou nisso também, não teve aquele fulgor de sair arrastando as roupas, tropeçando em moveis, ela simplesmente as retirou e dobrou colocando sobre a cadeira. Como se estivesse simplesmente fechando um acordo.

— Mas já? Achei que ficaria...

— Desculpe, eu realmente preciso ir.

E de fato ela foi, sem dar tchau ou nem ao menos se despedir do rapaz, apenas saiu do banho e foi direto a porta de saída. Vagou de volta pela calçada, usando sua camisa surrada da fênix negra e uma calça jeans que faz tudo combinar com seu cabelo ruivo brilhante ao sol, enquanto toma sorvete e repassa os motivos que levaram ela a agir igual Alycia. Sim, aquele era um comportamento totalmente condizente com sua ex-namorada. Sugando das pessoas o que lhe agradasse e depois indo embora sem deixar nada.

Quando dobrou a esquina da sua rua, viu Camila parada nas escadas da sua casa, enquanto observa Lady cavar buracos na grama. Ela ergueu os olhos e abriu um de seus sorrisos solares, levantando os polegares para a amiga. Sophie se aproximou e sentou ao lado dela nos degraus da escada, recebendo um beijo no rosto em seguida.

— Está ai muito tempo?

— Não. Seus pais e o Nico foram abrir o Dropship, e me pediram pra ficar de olho na Lady enquanto você não chegava, ela está a minutos fazendo isso.

Sophie sentou ao lado da amiga e ficaram alguns tempo repetindo o gesto de observar o Husky Siberiano cavar buracos aleatórios no jardim.

— Como foi o encontro?

— Sexo. – Respondeu a ruiva sem emoção.

— Só? Tipo, somente?

— Ele tentou ficar abraçado depois, mas eu fui embora. Eu nem lembro seu nome, Mila.

— Isso é cruel.

A ruiva soltou um risinho de desdém e Camila sabe que é o momento de jogar suas cartas na mesa.

— Quero fazer uma surpresa para a Lauren. – Sophie girou para a amiga, feliz por, pelo menos, pra ela estar tudo dando certo no amor. Camila merecia mais do que ninguém esse amor que traz paz. – E preciso da sua ajuda.

— Tenho pouca habilidade como stripper.

As duas gargalham por longos minutos daquela piada da amiga e toda a tensão que Sophie sentia apertar seu peito foi se dissipando tranquilamente, Camila se aconchegou ainda mais na amiga, jogando os braços em volta do pescoço dela.

— Do que você precisa, Mimi?

— Preciso que me ajude a planejar uma surpresa para a Lauren, mas... – Propositalmente Camila interrompeu a frase e fingiu sua melhor expressão de lamento. – eu não sei como te pedir isso, Sophie.

— Pare de enrolar e diga de uma vez.

— O grande problema é que você tera que ir até a casa dos Evans comigo.

Sophie olhou para a amiga como se ela tivesse acabado de sugerir que as duas matassem alguém.

— Evans? Os pais de Alycia Evans?

— Não exatamente na casa deles, mas na casa de hóspedes que a Lauren está morando.

— Qual a possibilidade de eu me encontrar com Alycia Evans?

— Contando com o fato que eu meio que ouvi ela dizer a Lauren que tinha um encontro? Zero. – Sophie ergueu as sobrancelhas, queria do fundo do coração não reagir daquela maneira ao saber que Alycia e ela faziam a mesma coisa. Mas o ciúme não é exatamente o sentimento mais racional. – Desculpe, eu não quis...

— Tudo bem, Mimi. Está tudo bem, eu realmente não dou a mínima.

— Isso é um sim?

— É. Desde que você a deixe bem longe de mim.

— Eu te garanto.

— Fico tão deslocada aqui. – confessou Sophie assim que elas cruzaram o portão principal. – Parece que ela está em todos os cantos.

As ruas já estão totalmente escuras, Camila contou com a ajuda total de Dinah para enrolar Sophie o máximo que conseguiu na casa da garota sob a desculpa que precisava de algumas coisas emprestadas da líder de torcida.

— Juro que não vou demorar. – Prometeu com um sorriso, caminhando em direção ao ladrilho que levava a casa de hóspedes.

Uma única luz está acesa no cômodo, e mesmo do lado de fora, enquanto Camila enfiou a mão no bolso e os olhos de Sophie foram direto a janela suspensa do quarto de Evans, ela travou sentindo o cheiro característico do perfume de Alycia. Está em todos os cantos, ansiando para buscar algo que distraísse a sua mente, ela notou o carro de Lauren parado na garagem.

A ruiva arregalou os olhos com a constatação.

— Que horas você disse que a Lauren chegava? – Perguntou ela, virando para a amiga, que segurava a porta aberta.

— Eu não disse. – Murmurou Mila, com um risinho travesso. – Entre...

— Camila o que-

A frase ficou travada no meio do caminho porque sua melhor amiga literalmente a empurrou para dentro do imóvel. Tropeçando para dentro e tentando se equilibrar para não cair, ela só teve tempo de ouvir o baque da porta e em seguida o barulho inconfundível da fechadura sendo trancada.

— Filha da pu...

Boa noite, ruiva...

Sophie girou lentamente encontrando o motivo de todos seus problemas parada diante de uma luz baixa do que parecia ser uma vela. Sua boca caiu impactada, primeiro porque Alycia estava linda, usando um vestido preto de alcinha, com o torço coberto pelos cabelos loiros, e segundo porque ela estava literalmente trancada com a ex namorada.

— Camila! – Ela girou a fechadura com raiva gritando. – Eu juro que eu vou te matar.

— Não adianta, você está trancada aqui. Comigo.

— É claro que isso tinha que ter dedo seu. – Ralhou. – Eu nem acredito em como eu fui burra, eu vou matar vocês duas!

— Foi a única forma que encontrei da gente se ver sem interrupções, apenas você e eu.

— Me trancando aqui? – Ela agarrou um pequeno objeto de decoração e atirou em direção a ex-namorada que recuou no momento exato.

— Você enlouqueceu?

— Me entregue a chave.

— Eu não tenho a chave. – Ela parou diante a mesa.

— Deus, você é uma praga, um carma! O que você quer?

— Quero conversar, eu já disse.

— Conversar? – Zombou, exasperada. – Você nunca quer só conversar, você sempre apela.

— E você nunca resiste.

— Isso é uma idiotice, me entregue a chave, Alycia. – Insistiu, agora desesperada. – Eu não to brincando.

— Eu não as tenho comigo.

— Eu vou gritar até seus pais virem me tirar daqui, assim eles vão saber que você é uma louca, inconsequente e narcisista!

— Pode gritar. – Ela sorriu tranquilamente passando de frente a sombra da vela que ornava a mesa. – mas duvido que eles possam te ouvir do teatro...

— Eu te odeio. – Sophie travou quando Alycia parou perto demais dela. – Saiba disso.

— Por que você está com tanta raiva de mim? – Sophie travou sentindo o toque dos dedos frios contra a pele quente das maçãs do seu rosto. Ela sempre saberia onde tocar.

— Porque eu te odeio. – Alycia riu ao enxergar exatamente o oposto naqueles olhos azuis.

— Nós duas sabemos que isso não é verdade, você está desistindo. Está caindo na armadilha de desistir, apenas porque parece mais fácil. Não é assim que o amor funciona. Nunca é fácil pra ninguém. Ainda não sacou isso?

As coisas que realmente importam não são fáceis. Os sentimentos de alegria são fáceis. A felicidade, não. Dizer que você é amigo de alguém é fácil. Ser um amigo de verdade, não. Namorar é fácil. Se manter na relação, não. Flertar é fácil. Amar, não.

— Eu te amo, ruiva. – Ela engoliu o bolo que ameaçou travar sua garganta, a medida que se emocionava. – Eu te amo, eu sempre vou te amar. Eu estou aqui porque diferente das outras vezes, eu não quero deixar que você vá, eu quero que você fique e eu vou lutar pra isso.

Uma fina lágrima escorreu dos olhos verdes, contrastando com a lágrima idêntica que caiu dos olhos azuis de Sophie.

— Eu também te amo. – Agora ela entendia. E é como se isso fosse o que precisava entender para fazer todas as outras coisas que já sabe fazerem sentido. – mas a gente meio que nunca encaixou, Al.

— Não somos peças de lego, Sophie. Nem tudo precisa se encaixar certinho, mas vezes as coisas se moldam.

— Voce sabe que não é tão fácil assim, nossas vidas estão mudando. Países diferentes, vidas diferentes, escolhas diferentes. O que será diferente dessa vez?

— Dessa vez eu to fazendo a escolha difícil. Das outras vezes ficar junto era a parte fácil. Dessa vez eu escolho a parte difícil, amar é difícil, todos os defeitos e problemas diários, mas eu escolho me moldar a você, se você quiser se moldar a mim, é tudo uma questão de escolha, Sophie. Eu escolho você, você me escolhe também?

Elas eram como grandes chamas que produziam calor com intensidade para destruir hectares e hectares sem sair do lugar. A resposta sempre esteve na intensidade, a mesma que fazia suas mãos suarem e até em gestos inconsequentes como aquele de lhe trancar em uma casa apenas para conversar.

Alycia tinha razão, de jeito nenhum elas eram legos. A ruiva constatou isso quando sentiu a aproximação suave dos lábios contra os seus, e o simples roçar daquela boca macia sobre, provou mais do que ela precisava para entender que ali era o lugar onde quis estar desde o começo. Nenhum outro lugar antes, e nem depois.

— Eu te amo. – Sussurrou contra aquela boca, porque parecia que nenhuma demonstração de afeto seria suficiente para aplacar a saudade. E a fagulha que faltava para elas se acendeu um instante. – Eu sempre vou escolher você.


De repente a roupa queimava sua pele, de repente, quatro meses de distância pareciam quatro anos. Elas se abraçaram e as mãos vagando, enquanto tropeçavam sem muito controle, até serem impedidas de caminhar pela mesa de jantar, que no momento pareceu uma ajuda oportuna do destino.

— Eu estava com tanta saudade. – Alycia murmurou, segurando Sophie ela cintura girando seu corpo com habilidade antes de lhe colocar sentada na mesa. O corpo pálido foi iluminado pelos tons amarelados da vela que outrora serviria para um jantar que ficou esquecido. – Você é tão perfeita. Tão bonita.

Sophie escorregou as mãos pelos ombros de Alycia, escorregando as mãos pela alça do vestido, e sorriu ao sentir Evans se afastar apenas um pouco para deixar o material cair no chão, sorrindo para ela, enquanto começava a erguer sua blusa também. Arrependeu-se de usar calças tão justas, mas Alycia tinha uma habilidade acima da media para retirá-las e logo estavam nuas em um torpor de gemidos e beijos cheios de saudade.

Lambendo os lábios, Alycia rodou sua língua em volta do mamilo antes de sugá-los com força que certamente deixariam marcas no dia seguinte, suas mãos acompanharam seu movimento como se quisesse redescobrir aquele corpo que ela reconhecia como o seu.

Sophie passou o polegar por cima dos lábios de Alycia provocando-a.

— Eu amo seus lábios – Ela sussurrou calorosamente, observando seu dedo arrastando-se sobre a sua extensão macia. – Eles são tão lindos. Tão macios. Eu quero eles em mim. Me devorando.

— Eu vou devorar você. – Ela rosnou, inclinando seus quadris para a ruiva, ganhando um gritinho de prazer, enquanto empurrava sem cuidado nenhum a ruiva em direção a mesa, abrindo sua perna se inclinando sobre seu corpo, sentindo seu cheiro de lavanda.

Eu nunca mais quero outra pessoa. Alycia pensou e foi o último pensamento coerente que teve antes de se curvar em direção a namorada, para dar em forma de carinho o que ela já tinha dito com palavras.

A brisa da manhã iluminava a casa quando Alycia abriu os olhos. Ela estava jogada no sofá onde tinham terminado a noite, algumas horas antes. Mas a sensação de vazio ao notar que estava sozinha se assemelhou a um golpe fisico. Sophie tinha ido embora.

E, num estalar de dedos, o universo fica errado. Num estalar de dedos, toda a grandiosidade parece encolher feito uma bola e flutuar para longe do seu alcance.

Eu sinto, mas ela não sente. Ou eu sinto, mas ela não vai sentir.

Ela ergueu-se, tentado conter o fluxo de lágrimas que já ameaçavam cair dos seus olhos e é exatamente nesse momento que a porta do banheiro se abriu e uma deusa de cabelos vermelhos saiu.

— Que cara é essa? – Ela brincou caminhando até ela e franziu o cenho. – Você estava chorando?

— Eu... pensei que tinha ido embora. -- Seu emocional estava tão em cacos que ela não tinha motivos para fingir que não.

Sophie se inclinou para frente, beijando sua testa e descendo até beijar sua boca.

— Eu não vou mais te deixar. – Ela fechou as palmas das mãos e beijou os lábios da namorada. – eu te amo, eu sempre vou te amar.

Alycia podia ver como Sophie e ela estavam misturadas agora. Se vê com quinze anos o rosto cheio de arrogância por saber que era adorada por todos. Se vê beijando Sophie sem ela esperar; Sua primeira vez no seu quarto; Sophie se declarando pra ela e ela rindo de como aquele sentimento lhe parecia patético; Sophie indo embora depois de descobrir mais uma de suas traições; os tempos maravilhosos que estiverem juntas; aquele momento no quarto.

Um casalzão desses merecia um aesthetic também.

Olá, depois de anos e anos de sumiço, enfim teoria ganhou mais uma att. E dessa vez um capítulo menos pesado que os outros, porém com informações importantes sobre o desfecho que está cada dia mais próximo.

Sophie e Alycia foi um shipp que vocês abraçaram tanto quanto camren, então eu achei que seria necessário um capítulo voltado a elas. Ainda que a participação da Camila tenha sido muito importante.

Vejo vocês em breve.

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