Livro 2 - Epitáfio



Com os braços esticados enquanto tem seu sangue retirado por uma enfermeira robusta, passa um filme pela cabeça de Lauren Jauregui. Os primeiros passos no futebol, os primeiros títulos, a primeira derrota, os dias de dieta, as horas na academia, os sonhos grandiosos que começavam a se concretizar...

Tudo que fazia pelo futebol tinha dela seu esforço máximo, nunca precisou fazer uso de qualquer substância ilegal. Era por isso que estar naquela sala gelada, sendo rastreada não lhe causa a menor sensação de conforto, na verdade Lauren estava aterrorizada.

O que quer que estivesse acontecendo naquele momento amedrontava Lauren. Tyrone ou Teodore Bunds, jamais a acusaria de algo se ele não pudesse provar. Ele estava se vingando dela, retirando dela tudo que mais amava na vida. Ela podia sentir isso em seus ossos.

— O resultado sai em dois dias. – A mulher com feições carrancudas assinou o documento de qualquer jeito e entregou nas mãos de Lauren.

Sua tia a aguardava do lado de fora com sua expressão de advogada carrancuda, enquanto digitava no celular. A postura se converteu em um afago carinhoso e abraço na sobrinha. Nem mesmo a advogada tão estóica e profissional se deixava surpreender com a face de absoluta derrota de Lauren.

— Vai ficar tudo bem. – Ela sussurrou em apoio. Lauren passava longe de acreditar naquilo. Nada ficaria bem. Tentou sorrir em agradecimento, mas os músculos do seu rosto pareciam congelados para sempre expressão.

— Como eles podem acatar a acusação de um assassino estuprador? – Desabafou com lágrimas nos olhos assim que entraram no carro. – Como?

— Lauren. – Lisa começou. – Toda acusação deve ser investigada. Ele foi seu treinador durante um ano, e os exames atestaram positivo.

— Eu não usei nada daquilo! – Sempre que Lauren precisava ouvir sobre os malditos exames uma raiva potente sufocava seu corpo.

— Eu sei. E eu acredito em você, mas isso não quer dizer que ele não deu um jeito de indiretamente fazer você consumir. Água, suco, energético, parece fantasioso, mas é provável. As próximas semanas serão duras, você terá que ser forte, mais do que tem sido até agora.

— O que quer dizer com isso? – Murmurou com os olhos verdes arregalados.

— Eu já estou começando a trabalhar com a possibilidade de você ser condenada. – Lisa suspirou ainda de olho na pista. – Precisamos tentar atenuar a pena, você tem um histórico perfeito em campo é jovem. Dentro de seis meses você estará de volta.

— Ele é o criminoso e eu sou a condenada? Voltar para o quê? Minha carreira, tudo pelo que eu lutei vai acabar! Acha que algum time contratará alguém que foi condenado por doping? Eu recebi uma ligação da marca de esportes que me patrocina, eles me deram uma semana para me explicar ou o contrato será cancelado. Meu contrato com o Barcelona e a bolsa de estudos foram suspensas até o julgamento... Minha carreira, e tudo pelo que vivi por toda minha vida estão ruindo diante dos meus olhos.

Ela precisou parar para respirar e secar as lágrimas que escorriam pela sua face.

— Você não pode perder a esperança.

— Esperança? – Lauren repetiu com uma voz jocosa. – Tudo que restou para mim é isso? Esperança.

Camila abriu os olhos notando a cama ao seu lado vazia, assim como vinha acontecendo todas as noites. Ela ergueu o corpo, piscando quando a luz azulada do computador incomodou sua vista. Lauren estava parada diante da mesinha do seu computador relendo o processo de acusação. A namorada lia e relia aquelas páginas dia sim dia não, Cabello começava a cogitar a ideia de Lauren ficar obcecada.

Camila levantou e foi até Lauren, passou as mãos na pele descoberta das suas costas.

— Mi amor? – Chamou com a voz doce e Lauren retirou os óculos de leitura. Por debaixo das lentes ela viu surgir enormes olheiras de quem não dormia bem a vários dias. – Você precisa dormir, Lo. São três da manhã, temos provas amanhã... – aconselhou.

— Eu não estou com sono. – Respondeu Lauren, em um tom distante.

— Tem dois dias que você não sai dai... – Tentou usar seu tom mais doce para evitar que Lauren entendesse sua preocupação de outra forma.

— Tá tudo bem comigo.

Jauregui simplesmente não conseguia olhar diretamente para Camila, então a cubana colocou a mão em seu rosto, obrigando-a a lhe encarar e murmurou:

— Posso fazer um chá e uma massagem e dep...

— Não. – Lauren cortou-a. – Vá dormir Camila, eu vou ficar bem.

— Mas...

— Não! – repetiu, dessa vez aumentando seu tom, algo que vinha se repetindo sempre. E embora ficasse magoada com cada vez que Lauren tinha explosões de raiva, Camila tentava ignorar e não começar uma briga, repetindo para si mesma o quão difícil era para Lauren lidar com tudo aquilo.

Os últimos dois dias haviam sido de longe os piores, desde a morte do seu pai. O amor, a devoção e a adoração da cidade havia caído por terra. Restava apenas o escárnio e os olhares dubitativos. Lauren não tinha o direito de errar e mesmo que ela e os amigos mais próximos de Lauren acreditassem cegamente em sua honestidade, quase ninguém na cidade pensava assim.

Agora, alguns até questionavam se Tyrone Rodgers, ou qual fosse o nome do homem, havia cometido mesmos seus crimes ou se tudo não passou de um plano maquiavélico de Lauren para manter o uso hipotéticos de anabolizantes ocultos. Por mais absurdo que isso soasse, havia gente acreditando nisso. E naquela manhã Lauren foi obrigada a trancar suas redes sociais.

O motivo? As leoas haviam entrado com uma reparação de danos perante a liga de futebol. As finais que as lobas conquistaram com tanto esforço agora estavam suspensas até Lauren ser julgada. Camila nem imaginava o que passava na mente de Lauren, ou o dano que isso causaria na sua vida pessoal e profissional.

Mila beijou o canto dos lábios de Lauren, acariciando a testa um pouco suada e então escorregando a mão para secar uma lágrima que rolava dos olhos verdes.

— Lauren, eu te amo. – Disse ela, já em lágrimas também. – Eu te amo tanto, tanto...

— Você está infeliz?

— Eu estou infeliz em te ver infeliz. – Respondeu ainda acariciando seu rosto. – Me mata ver você assim e não poder fazer nada.

— Minha vida está acabando...

— Não. – Camila a aproximou do seu rosto com uma urgência amorosa. – Díos mio! Não diga isso, sua vida está apenas começando. Você ainda pode seguir Lo, independente do futebol, independente de tudo. Vamos embora dessa cidade em breve. Tem uma vida para você, comigo...

— Camila. – Lauren fungou profundamente afastando suas mãos. – Esse é seu sonho, viver em uma universidade. Isso foi o que você sonhou para você. Isso não é a vida que eu quero... Eu nasci pra jogar bola... É o que eu faço desde que aprendi a andar...

— Eu sei, eu só... Lo, você precisa começar a tentar a olhar vida por outro prisma, outras possibilidades... Talvez, e Deus sabe o quanto eu quero estar errada, pelos próximos meses você não possa jogar futebol.

A postura de Lauren mudou imediatamente. Ela girou a cadeira, deixando Camila parada falando com o nada.

— Vá dormir, Camila.

— Lauren...

— Por favor, apenas me deixe em paz!

Lágrimas quentes estão derramando e um soluço ocasional de choro engasgado prendem em sua garganta quando Camila deita na cama. Apertou seus olhos tomou uma profunda respiração e se deixou adormecer.

Dá próxima vez que abriu os olhos, Camila ainda estava sozinha na cama, mas o dia já havia amanhecido. O lado de Lauren estava perfeitamente arrumado e mesmo que tenha um sono agitado, ela sabe que a namorada não dormiu na cama, não tem seu cheiro familiar em nenhum lugar. Ela se perguntou se teria sido melhor se tivesse ficado com Lauren a noite. Se tivesse tentado fazer algo diferente do que vinha fazendo.

Colocando um pouco de vontade na tarefa de levantar, Camila se ergueu indo diretamente para a cozinha. Ficou surpresa ao ver, Alycia Evans sentada no banquinho da cozinha, mas não há nenhum sinal de Lauren.

— Bom dia. – Mila sussurrou e Alycia assentiu em resposta.

— Pizza gelada para o café, hoje. – A loira comentou fazendo graça – Espero que o queijo dessa coisa não esteja radioativo. Por mais que meus olhos verdes sejam maravilhosos, não quero que nasça um na minha testa.

— Você é tão... – Se interrompeu e então sorriu sacudindo a cabeça.

— Linda? – Ela completou dando uma piscadinha para a amiga.

— Irritante.

— Essa era a segunda coisa que eu diria. – Camila revirou os olhos e empurrou ela pelo ombro.

Havia algo incrivelmente suave na personalidade de Alycia Evans que Camila inveja. Não existia pânico no mundo que fosse capaz de derrubar seu bom humor.

Mila coçou a nuca, soltando alguns fios do coque de cabelos castanhos parada diante da geladeira aberta. Desde que praticamente tinha se mudado para casa de Lauren, havia aprendido a fazer receitas cada vez mais elaboradas. Usava a desculpa que estava se preparando para morar sozinha, mas a verdade era que ela gostava muito do clima de família. Ou era ao menos assim que sentia antes de tudo.

— Eu posso fazer algo rápido. – Disse alto analisando os ingredientes. – Merecemos pelo menos uma café da manhã digno. Temos provas complicadas hoje.

Alycia balançou a cabeça.

— Está bem. Nada pode ser pior que essa pizza que foi comprada em 1999. – Riu e Camila foi obrigada a rir também. – Sério, o queijo está verde.

— Isso é nojento. – Camila bufou e depois continuou catando ingredientes para fazer panqueca e falando – Ela estava aqui quando você chegou?

— Sim. – Ela suspirou. – Acho que ela foi correr ou algo de tipo. Ela não me disse muitas palavras.

— Ela não tem sido muito eloquente comigo também. – A cubana disse tristemente – E quando ela responde é apenas para ser grosseira ou se culpar. – Mila suspirou engolindo um bolo na garganta. – Lauren está me afastando, de todas as formas. Tem três dias que ela não olha nos meus olhos, ela sequer me beija...

— Lauren nunca foi boa em expressar seus sentimentos. – Alycia tentou justificar se aproximando. A loira colocou uma mão no ombro da amiga que fazia seu máximo para não chorar. – Ela vai se trancar nesse casulo e tentar nos afastar, porque na mente dela está nos poupando de algo. É uma fase dura, mas precisamos ser fortes para passar por ela juntas. – Concluiu.

Camila soluçou, cansada de segurar suas lágrimas e Alycia abraçou seu ombro em um carinho desajeitado. Um dos braços dela está sobre a mesa, mas o outro se fixou ao redor da amiga agarrado-a firmemente.

— Você é uma boa amiga, Al. – Camila disse, ainda agarrada em seu ombro. – Sophie tem muita sorte em ter você...

— A sortuda sou eu.

O barulho da porta abrindo, foi como uma navalha jocosa do destino cortando o memento inofensivo entre as amigas. Lauren retirou os fones de ouvido e travou diante do sofá, com a boca entreaberta e os olhos semicerrados.

Em outros tempos aquela cena não causaria nada além de piadas e comentários sem ressentimentos, mas os tempos eram outros. E Camila sabia bem disso, por isso tratou de dizer algo, ou, pelo menos, tentou:

Assim que Cabello abriu a boca, Lauren estendeu a mão para pedir silêncio a namorada.

— Eu vou sair pra que vocês continuem... Não precisam se incomodar com minha presença.

— Lauren, – Alycia começou – Qual é? Não seja ridícula! Estamos só conversando. Olha como você está, olha quem você está se tornando. Eu juro, eu juro que entendo que o futebol é tudo pra você, mas nós ainda estamos aqui. Ainda estamos aqui com você...

Jauregui nem ao menos esboçou qualquer tipo de reação aquela frase, dava pra perceber que nada que elas dissessem naquele momento faria diferença. Pelo contrário, sua postura endureceu e ela franziu o cenho, enquanto ela encarava as duas com uma intensidade não planejada.

— Vocês não entendem.

— Então explique... – Foi a vez de Camila tentar.

Lauren nem deixou que ela terminasse a frase, afastou-se e com um riso irônico deixou o cômodo.

— Espere. – Alycia segurou o ombro da amiga, impedindo que ela fosse atrás de Lauren. – Eu sei que você quer fazer isso, mas é melhor deixar ela sozinha.

—Mas...

— Cuba, não tem nada que possamos dizer que faça a Lauren se sentir melhor no momento e eu sinto que as coisas vão descer mais um pouquinho nos próximos dias.

— Do que você está falando? – Camila virou para a amiga, limpando as lágrimas com as costas das mãos.

— Eu ouvi mamãe comentando ontem ao celular, provavelmente com meu tio Mike que o caso é bem difícil. Lauren é uma atleta famosa no circuito nacional, eles vão querer dar exemplo.

— Não! Respondeu, baixinho, erguendo os olhos e mexendo nos cabelos, nervosa. – Porra... Ela ainda tem tanta esperança...

Pensar nisso, colocar aquelas palavras na sua cabeça e perceber que logo, logo Lauren não poderia fazer o que mais amava só deixou Camila mais infeliz.

— Mas, pelo menos, eu tenho boas notícias. – Alycia continuou.

— Sobre? – Camila perguntou, apenas para não ficar em silêncio. Ela estava totalmente desinteressada.

— O gato que ri, está sob nova direção... – Cabello piscou ainda sem entender.

— Do que você está falando, Al?

— Eu fiz o que disse que ia fazer. Tirei aquele jornaleco das mãos de Louise D'Champs.

— Quê?

— Ela expôs Lauren para todos e eu tirei dela aquele jornal de quinta.

— Ela deve estar surtando. – Camila disse com satisfação. – Nada menos do que mereça. Ela tem muita sorte por eu não poder encostar um dedo nela.

— Ela que se foda, ninguém mexe com minha família e sai impune.

De alguma forma, a jornalista de quinta ficou sabendo quase que automaticamente do processo que Lauren estava sofrendo. E como já era de se esperar, Louise D'Champs fez questão de lançar uma nota extensa de acusações e mentiras sobre Lauren, entrevistando até Lorena Trump, para fazer jus as acusações. Foi dela a culpa maior por toda raiva que Lauren sofria pelos corredores do colégio. Ouvir aquela notícia contribui em quase nada para melhorar seu humor, mas era bom saber que, pelo menos, daquele problema ela estava livre.

— Como você conseguiu isso? – Camila perguntou desconfiada. Por anos o pai de Louise havia limpado a cara dela pelas mentiras que inventava.

Alycia sorriu travessa, antes de responder.

— Lembra que rolavam uns boatos sobre Simon Cowell ter participado de negócios escusos com Tyrone Rodgers? Bem, era verdade. Parece que eles estavam envolvidos em desvios de verba para merenda e superfaturamento de produtos esportivos. Você precisava ver a cara do desgraçado quando eu o visitei...

— Uau, você foi perfeita! Porém, tirar Louise é um remédio fraco pra uma doença maior. Um corrupto vai continuar na direção. Não posso esquecer que ela foi omisso todos esses anos com aquelas garotas abusadas.

— Calma, pequeno gafanhoto. Simon Cowell ficará naquela cadeira por pouco tempo. – Disse Alycia. – Se eu mostrasse todas as minhas cartas poderia terminar sem nada. Ele me deu o que eu queria tirando Louise do jornal do colégio. – Camila arregalou os olhos. Sua boca caia à medida que Alycia contava seu plano. – O que ele não sabe é que eu tenho contatos que já estão prontos para soltar uma pequena nota no rádio local, assim que o próximo ano letivo começar. Não quero que o julgamento da Lauren e tudo sobre Tyrone Rodgers crie uma cortina de fumaça para o bastardo se esconder. Vamos ver se ele vai conseguir se manter na incólume quando todos souberem que não passa de um ladrão.

Ao final do relato ela estava orgulhosa demais da amiga para pensar com coerência, então disse a primeira coisa que passou pela sua mente.

— Você já pensou em ser detetive? Seria das boas.

— Bem, – Alycia levou uma mão dramaticamente ao peito e pigarreou de maneira teatral. – Eu sou muito gostosa para ser policial, aquelas roupas bregas não fariam jus a esse corpinho. Porém, eu posso ser stripper.

— Não. Essa vaga já é minha...

As duas caíram no riso e por alguns segundos pareceu mesmo que existia normalidade naquelas vidas.

Ops! Esta imagem não segue as nossas directrizes de conteúdo. Para continuares a publicar, por favor, remova-a ou carrega uma imagem diferente.

Os olhos verdes expressivos choravam tanto que a pele branca da garota se encontrava vermelha. Estava tudo acabado. Ela podia sentir dentro de si que tudo pelo que tinha lutado havia escapado de suas mãos.

Uma vida de vitórias e glórias havia se resumido a nada. Nãos mais estrela de futebol, não mais Barcelona, não mais seus sonhos para ser a melhor jogadora do mundo. Era o réquiem de seus sonhos.

Quando aquele juiz com o olhar sisudo, que praticamente nem olhou em seu rosto, pediu pra que ela ficasse de pé, dentro dela uma luz iluminou-se e a levou direto a primeira vez que ela lembrava-se de ter jogado bola. Em como a relva ao redor da sua chuteira e o esforço e sempre ser melhor foram combustíveis para a pessoa que ela era. Vencer estava no seu sangue, mas no momento que ele proferiu sua sentença, ela sabia que estava também acabado para ela.

"Concluímos que Lauren Jauregui é culpada pela acusação. Fez uso de Terbutalina, um conhecido diurético, o que causou ganho considerável em seu desempenho na prática esportiva. Apesar de não ter denúncias anteriores a essa sentença, o júri entende que seu nome traz um peso maior que o crime em si e pretende aplicar uma pena justa, porém punitiva. Lauren Jauregui está suspensa de qualquer atividade esportiva pelo período de doze meses a contar do dia de hoje. Cumpra-se integralmente o despacho"

A voz ainda brandia em seus ouvidos horas depois da sentença. Trancada em seu quarto ela ouviu batidas durante toda noite, vozes conhecidas tentando lhe dar um segundo de conforto, mas apenas ela sabia o que estava perdendo e o que perderia.

Ela aproximou sua mão do objeto e esperou sentir a superfície gelada, mas foi a palma da imagem que encontrou a dela. O susto a fez recuar, incrédula. Ela sentira o contato quente e macio daquela mão, e só então conseguiu chegar à conclusão de que ali realmente tinha outra pessoa.

O quarto estava abafado, escuro e frio, seu coração batia em um ritmo dolorido, como se estivesse quase rompendo suas costelas. Sua respiração estava acelerada e o suor ensopava sua roupa.

Lauren não sabia bem quanto tempo passou sentada no chão do seu quarto, mas foi tempo o bastante para as suas pernas adormecem e o sol morrer na janela e madrugada se anunciar. Ela levantou suas mãos esfregando os olhos, tentando limpar a visão distorcida. Seu corpo inteiro estava afundado em exaustão, os efeitos posteriores de sua dor.

Tudo estava tão esmagador e desgastante. Lauren sabe que isso é uma prova, e ela não vai conseguir lidar se continuar ali. Mas também não sabe de onde vai tirar força e vontade para sair dali.

Lauren liga para seus pais, é a primeira vez que faz isso em um ano. Sempre eram eles a ligar. Pelas suas vozes na linha estavam dormindo. Ela não espera seus questionamentos antes de dizer a dizer a falta que eles fizeram no momento mais difícil a sua vida.

Mas também sente-se aliviada quando os ouve falar sobre como o mundo é um lugar bonito e que nada a impede de conquistá-lo e engoli-lo inteiro novamente. Ela chorou silenciosamente quando eles a chamaram de Lauren Michelle, mesmo sabendo que ela odiava ser chamada assim.

"Venha ficar conosco na França, Lauren."

É a última coisa que seu pai diz, antes de desligar a ligação e ela sabe que é um convite que vai mudar sua vida.

Lauren envolveu seus braços trêmulos em volta do corpo e gentilmente bateu sua cabeça contra a porta atrás dela uma vez, duas vezes, três e depois quatro vezes. Esfregou suas mãos para cima e para baixo seus braços na mesma quantidade e, em seguida, tomou a mesma quantidade de respirações profundas.

Lauren sentia falta dos seus pais de verdade.

Não seria uma mudança para sempre.

Camila entenderia.

Camila esperaria?

Ela fechou seus olhos, enrolando-se em seu corpo escorregando em posição fetal em uma fraca tentativa de acalmar o ritmo cardíaco frenético enquanto pensava em uma decisão.

Jauregui viu, uma pequena claridade surgir pela porta e pés ansiosos subjugando o silêncio um pouco depois. A silhueta de cabelos desgrenhados surge, e por um segundo Mike apenas observa sua irmã. Há em seus olhos uma dor sobre o novo que Lauren sabe que ele nunca havia provado. Mike via Lauren como alguém capaz de fazer qualquer coisa, vê-la ao chão tão destruída desvanecia aos seus olhos aquela figura.

— Vai ficar tudo bem. – O irmão sussurrou e ela ouviu o som deslizante, sabia que ele estava sentando ao seu lado. Pouco depois sentiu os dedos finos e ansiosos capturando sua cabeça e apoiando contra sua perna. – Vai ficar tudo bem. – Ele repetiu gentilmente, enroscando os dedos em seus fios.

— Mike... – Ela o chamou com um fio de voz.

— Eu acho que vou passar uns dias com nossos pais. – Ela presumiu que o silêncio do menino era porque ele exigia explicações e ela seguiu. – Eu não vou conseguir ficar aqui.

— E eu?

— Você tem algo aqui, você sabe disso. – Ela disse a cada segundo tendo mais certeza da decisão. – Algo que você nunca teve antes.

— Não fale como se você também não tivesse. Você tem a Camila, a Alycia e seus amigos. – Ela assentiu, lembrando-se que mal podia olhar para elas sem se afogar em culpa por ser tão egoísta e fraca. – Laur... Você é minha família. Eu vou para onde você for.

— Eu sei, mas eu realmente preciso ficar só por algumas semanas. Eu preciso me reencontrar e infelizmente isso não será aqui.

— Vai nos abandonar? É isso? Ama o futebol mais que nós?

— Não. – Ela respondeu com um sorriso triste. – Não existe nada que eu ame mais que vocês. Eu vou voltar. – Prometeu.


Estavam paradas uma de frente a outra, assistindo aquela valsa de olhares que deveria dizer algo. Lauren sempre gostou de como seus olhos e o de Camila conversavam entre eles, mas naquela manhã ela podia sentir em como estavam distantes quase em outra sintonia.

Loving you, I thought I couldn't get no higher. Your November rain could set the night on fire, night on fire

Camila respirou fundo, sentindo o perfume de Lauren invadir seus pulmões. Delicadamente ela tentou gravar na mente todas sensações que sentia, mas era uma atitude meio boba da sua parte. Lauren estava marcada em cada parte do corpo dela, em suas roupas, em sua alma.

But we could only burn so long. Counterfeit emotions only run skin deep

— Nunca pensei que chegaríamos a isso – Camila sussurrou, fungando. Ela ainda custava acreditar. – Mal podemos conversar. Olhe pra você... Tem meia hora que está aí parada buscando dentro de você coragem para me dizer algo que eu sei dentro de mim vai nos matar.

Know you're lying when you're lying next to me, next to me.

— Camz...

How did we get so far gone? I should know by now. You should know by now. We should know by now

— Não me chame assim! – Camila desencostou da cômoda e sentiu as pernas fraquejarem. A cubana respirou fundo outra vez porque ela estava a um passo de ficar histérica, e isso não ajudaria ninguém.– Não ouse usar esse tom para dissimular a verdade. Eu não sou criança.

Something's gotta give, something's gotta break, but all I do is give, and all you do is take.

Queria ouvi-la dizer. Precisava escutar a confissão partindo dela. A mala feita no canto da cama e como Alycia e Mike pareciam desolados aquela manhã quebrou ela. Quebrou mais ainda saber que ela seria a última a saber. Lauren estava deixando-a e não teve a consideração de dizer antes.

Jauregui se aproximou, parando diante dela, como se de repente uma barreira tivesse sido colocada impedindo uma de tocar a outra.

— Camila – Sussurrou ela, muito baixo. – Eu decidi algo.

Something's gotta change, but I know that it won't.

Antes de Lauren concluir uma lágrima quente rolou pela face da cubana.

— Eu pensei muito sobre tudo; sobre o que estou vivendo, o que quero viver e.... – Lauren tentou se aproximar e então interrompeu ação, porém continuou falando – Eu vou passar um tempo com meus pais na Holanda.

No reason to stay is a good reason to go.

As palavras tiraram todo o ar dos pulmões de Mila. Ela sentiu os olhos formigarem e riu nervosamente. Seus lábios se abriram e fecharam várias vezes. Camila sabia que ela precisava encontrar algo para dizer, mas sua boca simplesmente não respondia aos seus comandos.

— Você não pode estar falando sério. – Ela disse finalmente.

I have never heard a silence quite so loud. I walk in the room and you don't make a sound...

— Eu sinto muito – Lauren respondeu. – Mas não posso mais. Eu não quero mais magoar você. Eu estou sem diretriz, eu perdi tudo.

You're good at making me feel small.

— Você perdeu o futebol... Eu ainda estou aqui. Não é suficiente?

If it doesn't hurt me, why do I still cry?

— Você sabe que sim. – Lauren suspirou um pouco, mas baixou os olhos envergonhada para seguir falando. – Eu só não tenho motivos para ficar aqui, nesse momento.

É quase involuntário, o sorriso que aparece no rosto de Camila, antes dela arrematar:

Não ter um motivo pra ficar, é um bom motivo para ir.

— Eu não queria te magoar.

If it didn't kill me, then I'm half alive.

— Você está fazendo isso exatamente agora! – Camila admitiu amargamente. – E todos nossos planos? Tudo que você e eu construímos. É nada?

How did we get so far gone?

— Eu estou fazendo isso tudo, exatamente porque eu quero viver isso tudo com você.

— Você está fazendo isso, porque a última coisa que está pensando é em mim ou em nós. Eu deixaria tudo por você – Camila confessou, e a maior fechou os olhos, mordendo o lábio inferior para conter um suspiro de dor. – Não me importaria com nada. Mas a ironia disso tudo é que você não faria o mesmo.

— Você tem direito de me odiar, mas não diga essas coisas...

— Fico feliz com sua autorização. – Ironizou a garota, secando agressivamente os olhos. – e quer sab-

Camila não conseguiu terminar sua frase porque sua boca foi fechada pelos lábios macios e familiares de Lauren atacando os dela com fome. Camila fechou os olhos sentindo a maciez e quentura daquela boca contra a sua mais uma vez. Segurou-lhe o rosto entre as mãos, afagando as bochechas escorrendo as mãos até seus cabelos sedosos. Queria gravar no tato aquelas sensações.

— Você não vai me perder – prometeu Lauren, quebrando o contato de suas bocas. – Por favor, me dê esse tempo...

Camila não respondeu, apenas apertou-lhe mais contra seu corpo.

— Por favor... Você não vai me perder. – Jauregui repetiu, obrigando Camila olhar em seus olhos.

— Eu estou perdendo você, Lo. Todos os dias eu estou te perdendo, e Deus me ajude, mas eu não posso fazer nada. É você quem está me afastando...

— Desculpe... – Os olhos verdes brilhavam em um contraste de lágrimas que Lauren tentava segurar.

Camila largou a mão da namorada e dentro de si sabia mais que tudo que precisa deixá-la ir. Ela simplesmente chorou. Chorou por tantas razões, razões que ela nem acreditava que faziam parte da sua vida.

Sentiu falta do pai.

Sentiu falta de Lauren.

Sentiu falta dela mesma.

Desejou mais do que qualquer coisa que pudessem voltar. Voltar para quando as coisas estavam tão certas. De volta a um tempo de amor e felicidade.

Então ela se perguntou se certas coisas valiam a pena. Ou se essas coisas apenas se encontram porque é tudo uma justificativa para uma separação destinada a acontecer. Como se para passar para o próximo nível algo precisasse ser tirado de você naquele instante.

— Eu preciso ir. – Disse secando as lágrimas. – Preciso estudar para a prova de amanhã. – tentou trazer normalidade a sua frase. Mesmo que não existisse nada de normal ali.

— Camila...

— Não me peça pra ficar aqui e fazer amor e depois ter que ver você ir embora. – Lauren apertou sua mão contra a dela. Camila pode sentir que ela estava trêmula.

— Eu só queria ficar mais um pouco com você. – Lauren disse, e Camila sentiu a pele pálida roçar fazer um carinho em seu rosto. – Mas eu entendo... Eu te amo garota cubana. Por favor, acredite que vou voltar.

No reason to stay is a good reason to go, is a good reason to go...

Camila passou quarta feira trancada em seu quarto e só no fim da tarde Alycia e Sophie conseguiram lhe convencer a sair. Uma chuva fina caía sobre a cidade e coincidia com a partida de Lauren a dois dias. A tela do celular acendeu mais uma vez e o nome de Lauren surgiu. A caixa de notificações estava cheia de mensagens e ligações não respondidas. Ela estava a evitando e não sentia vergonha por fazer isso.

Foi só no fim da tarde que Alycia e Dinah, as duas pessoas mais insistentes que Camila conhecia conseguiram tirá-la de casa. Era sexta e os concluíntes haviam se juntado para uma festa de matar em uma dessas mansões de luxo na costa sul. Evans como não poderia deixar de ser estava a frente da organização da festa.

Só a menção de festa já deixava Cabello apreensiva e cansada, mas aquela era literalmente sua última semana como estudante do ensino médio. E também, ela havia prometido a Dinah e Sophie que não mudaria o cronograma que elas fizeram juntas três anos antes, para quando estivessem dando adeus a Santa Clarita.

Fora que as amigas estavam se esforçando para animá-la. Compraram para ela uma raspadinha rosa que pinta a língua em uma loja de conveniência. Cada uma delas tomou um gole, para ver quem ficaria com a língua mais rosa. E ao ver Dinah e Alycia brigando para ver quem tinha ficado com a língua mais tingida, ela se sentiu bem melhor.

— Nem acredito que em breve vamos ser adultas, bitches! – Dinah gritou euforicamente, enquanto batia outra foto.

— Tecnicamente você vai continuar adolescente. – Camila corrigiu a amiga, apenas para zoar. – você nem pode comprar bebida ainda, Dinah.

— Não seja chata, – Dinah empurrou-a pelo ombro. – eu já posso comprar cigarros.

— Mas você não fuma. – Cantarolou Alycia e continuou – Eu não acredito que vocês duas vão morar juntas em Nova York. – Seus pais têm muita coragem de deixar duas loucas soltas em NY.

— Imagine o que eu diria dos pais da Sophie que praticamente autorizaram você de morar com ela. – Dinah rebateu, implicante. – em Londres! Tudo nessa frase está errado.

— Eu sei que vocês duas vão morrer de saudade da gente.

— Isso eu não posso negar, dessa cidade de merda. Mas especialmente de Nico, Sophie e você. Jamais imaginei minha vida sem que.... Porra eu estou ficando dramática. Desculpe... Sorriam. – Dinah tentou dissimular o desabafo, mas Camila notou a loira delicadamente secando algumas lágrimas.

O clima no carro mudou imediatamente. Aquela desabafo da amiga não havia sido em vão. Ela mesma tinha vontade de dizer às pessoas que amava o quanto que elas fariam falta o tempo todo.

— Comecei o ano ansiosa para acabar e agora eu só quero que o verão passe bem devagar. – Admitiu Alycia. – Ainda temos dois meses para ficarmos juntas.

Mila pensou que talvez a partida de Lauren estivesse deixando-a pessimista, mas algo gritava dentro dela que as coisas não seriam daquela forma. Ninguém disse mais nada, a cubana encostou o rosto no vidro gelado e ficou parada de frente a janela observando o céu. Uma fina chuva caia do céu e o mar agitado se chocava contra a costa em um vai e vem poderoso.

As condições climáticas podem representar tantas coisas. Mas não era a parte ensolarada feliz que atraia Camila, era o tempo e o silêncio e a quietude suspensa entre um dia de sol e uma tempestade. Era ali que a vida acontecia. Nos curtos momentos ainda entre feliz e triste. Chuva e sol.

São nesses espaços que as decisões são tomadas, as lágrimas são apagadas. O tempo não importava realmente. Quem precisa de tempo quando você pode apenas olhar nos olhos de alguém e apenas saber que tudo ficará bem. A chuva vai acabar e o sol vai brilhar e a vida simplesmente vai acontecer.

— Chegamos, garotinhas. – Alycia anunciou e Camila arregalou os olhos com a quantidade de luzes piscando naquele lugar e a mansão apoteótica logo atrás.

— Você disse que era uma pequena festa. – Dinah deu um tapa no braço de Alycia. – Isso está parecendo o feriado de 4 de julho. Normani vai me matar!

Normani havia viajado aquela manhã para fazer testes no New York Flash's. Camila estava torcendo muito para que desse certo, mas não poderia pensar que não havia nada que ela odiasse mais naquele momento que o futebol. No que dependesse dela, nunca mais pisaria os pés em um estádio em sua vida.

— Aí... – A loira esfregou o lugar atingido e riu – Eu não disse nada. Cinco anos que você me conhece e ainda não aprendeu que eu não faço nada pequeno? É tudo grandioso!

Era tão estranho imaginar que apenas dois dias Lauren estava ali, e agora não mais. Em como a vida simplesmente provava o tempo todo que ninguém controla os eventos que vão sacudir suas vidas. Ela estava assustada e solitária pela primeira vez em muito tempo. Lágrimas indesejadas começaram a fazer os olhos castanhos de Camila arderem.

— Mila? Você vai ficar ai? – Erguendo os olhos, Camila notou que as amigas já estavam fora do veículo encarando-a com expectativa.

Cabello saiu do carro e penetrou estabelecimento que já estava cheio com conhecidos e colegas da faculdade. Sophie e Nico esperavam as amigas numa parte reservada da sala, protegidos do vai e vem e da bagunça que se formava em todos os cantos da casa. O imóvel era enorme, da sala ampla uma extensa escada liberava acesso para os andares superiores onde muito provável os alunos aproveitavam para liberar toda a tensão sexual eterna que festas, álcool e jovens é capaz de produzir.

— Eu estava morrendo de saudade. – Sophie murmurou com uma voz melosa, puxando Alycia Evans para um beijo pegado bem do seu lado.

— Procurem um quarto. – Dinah provocou o casal e Alycia quebrou o beijo para responder.

— Será que devo contar o dia que encontrei você e Normani fodendo sobre o freezer d-

— Não! – Dinah tapou a boca de Alycia, corando vivamente. – Cale essa maldita boca, Evans.

Mila sorriu para as amigas e encostou-se na parede gelada atrás dela, até que notou Nicholas Turner do seu lado.

— Bem-vinda de volta ao clube dos observadores dessas duas. – Nico brincou estendendo um copo de bebida para a amiga. – É melhor beber, – ele a analisou com os olhos cinzentos, sem piscar. – tudo bem?

— Sim. – Nico não pareceu crer, mas não contestou sua afirmação. Ela se perguntou se todos conseguiam ver em seus olhos que ela não estava nada bem.

— Um brinde a nós então, princesa.

— Um brinde! – Declarou antes de virar de uma vez toda vodca em seu copo.

Toda a falsa sensação de comodismo causado pela bebida desapareceu quando, minutos depois, Camila reconheceu uma figura do outro lado da copa.

— O que essa garota está fazendo aqui? – Bradou sem tirar os olhos dela. Louise D'Champs que também havia notado-a agora devolvia os olhares com risinhos irônicos.

— Oh... – Alycia gemeu olhando para o mesmo lugar que Camila. – Eu não pude excluí-la da festa. Infelizmente o irmãozinho babaca dela é da organização. Eu tentei de todas as formas...

— Deveria ter me avisado.

— Você não viria. – Alycia se justificou. – Vamos ficar bem longe dela, ok? – Alycia fez um biquinho se curvando diante de Camila, apoiando as mãos em sua perna. – Não vá embora. Por favor? Por mim? Não mereço?

Camila suspirou e assentiu, tentando sorrir para Alycia.

— Não merece não, mas eu vou ficar. Por vocês.

— Beba, Mimi. – Sophie empurrou mais bebida para as mãos dela. – Vamos curtir um pouco de felicidade líquida só por essa noite.

Camila encarou o copo cheio de cerveja. É, ela ia precisar de toda felicidade líquida do mundo para suportar aquela noite. O que ela não sabia é que precisaria também para suportar o que aconteceria depois dela.

Na pista de dança algumas horas e muitos shots de tequila depois, muito alegre por conta do álcool circulando quente em seu sangue, Camila se balançava no ritmo da música que pouco importava. A festa havia diminuído muito a quantidade de pessoas ao redor, ainda que muita gente continuasse ali. Alguns, não exatamente de pé. Pela sala vários já estavam jogados uns sobre os outros, pelo gramado e em qualquer lugar que pudessem deitar.

— Mila? – Dinah chamou a amiga, sacudindo-a pelo braço – Você está bem? Você sumiu!

— Eu estou beeem. – Cabello respondeu se afastando dela. – Por que você não está bêbada?

— Já você está mais que isso. – A loira colocou a mão no ombro da amiga. – Garota, acho que é hora de ir pra casa.

— Não! – Camila se afastou de Dinah novamente. – Eu estou bem, Chee. Estou bem mesmo, por que está tão chata?

— Mila, é sério. Todos já estão indo e o Nico bebeu um demais, ele tá tipo tendo uma crise ou algo assim. É hora de ir pra casa Cinderela, antes que você vire uma abóbora...

— Eu não quero ir agora.

— É sério, se acontecer algo com você a Lauren vai me matar.

— Não fale o nome dela. – Camila tapou a boca de Dinah com as mãos, jogando um pouco de bebida no rosto da loira. – Se a Lauren se importasse comigo. – Camila apontou para o próprio peito se desequilibrando. – Ela estaria aqui... Eu quero que aquela cretina se foda.

— Mila... – Dinah tentou mais uma vez, segurando seus braços.

— E-eu preciso de mais um drink – Mila disse, soltando-se loira e mergulhando novamente na parte mais movimentada da festa.

Dinah andou pelas pessoas amontoadas por todos os lados tentando encontrar Camila, enquanto evitava conhecidos bêbados querendo puxar assunto. Quando revirou todos os cômodos e aceitou que a amiga estava, provavelmente, se escondendo dela foi para o exterior.

— E então? – Dinah ouviu assim que chegou ao pátio. – Encontrou?

Dinah reconheceu a voz de Alycia assim que saiu, a loira estava encostada em seu carro observando Nicholas Turner, morto de bêbado, com o rosto do lado de fora do carro dos pais, enquanto Sophie lutava para dar água ao irmão.

— Sim, – ela suspirou – mas ela está bêbada e não quis vir comigo. Ela correu de mim, você acredita?

— Porra, o que vamos fazer? – Alycia disse apreensiva.

— Eu não sei, não podemos deixá-lo assim e nem Camila.

— Eu levo Dinah e Nico para casa, baby. – Sophie sugeriu, se aproximando das duas. – Você fica e leva Camila para casa.

— Tem certeza? – Alycia perguntou. – Eu posso levar vocês e voltar pra pegar Camila.

— Não. – Sophie deu um beijinho no rosto da namorada. – Você bebeu bastante, é melhor que fique, encontre Camila, e chame um Uber para levar vocês duas. Eu não posso chegar em casa sem Nico e nem ficaria tranquila sabendo que ela estaria aqui sem ninguém.

— Tudo bem. – Alycia concordou. – me avise quando chegar.

— Você também. – A ruiva beijou a boca da namorada mais uma vez. – Nada de álcool, por favor.

— Eu te amo. – Declarou Alycia selando suas bocas.

— Eu te amo mais.

— É sério, eu te amo de verdade.

— Você está bêbada.

— De amor por você. – Ela deu uma piscadinha para Sophie.

— Vá atrás da minha amiga, conquistadora barata.

Dentro da festa Camila tentava localizar em um torpor bêbado e culposo qual era o caminho menos tortuoso para seguir. As escadas diante dela pareceram tão íngremes quanto o monte Everest para sua coordenação motora. Mas ela queria ficar só um momento.

E como bêbada ela não costumava tomar decisões acertadas, subiu as escadas, segurando bem firme no corrimão. Não sabia pra onde ia, mas sabia que chegaria há algum lugar.

De longe, os irmãos D'Champs notavam com atenção a sua tentativa patética de não cair da escada. Louise D'Champs deu um riso irônico, reagindo ao desejo que sentiu que a cubana simplesmente caísse daquela escada e quem sabe quebrasse a perna.

Lado a lado os irmãos eram muito parecidos, quase como se fossem a mesma pessoa. Os olhos castanhos esverdeados, os cabelos castanhos escuros. A mesma belíssima estrutura física e proeminente falta de caráter.

— Alguém bebeu demais hoje. – Comentou maldoso Ryan D'Champs.

— Bêbada e sozinha. – Disse a mais velha. – Os amigos foram embora.

— Não totalmente só, – Corrigiu ele. – Alycia Evans ficou como guarda-costas. – Ele franziu o cenho com uma expressão de nojo para Camila subindo os últimos degraus. – Eu nunca engoli essa vadia, nem quando ela namorava o Nash Herrera, piorou quando ela se tornou namorada da arrogante da Lauren Jauregui.

— Cambada de gente irritante. – Louise desabafou. – Eu tenho certeza que ela tem algo a ver com o jornal ter sido tirado de mim.

— Tem justificativa. – Ryan riu com escárnio. – Você expôs a namoradinha dela ao ridículo, de maior estrela da cidade há nada.

— Fiz meu papel de jornalista. – Rebateu ela. – prometi a minha fonte que o faria.

— Tyrone Rodgers. – Ele disse desagradavelmente e a irmã abriu a boca para se defender, mas o irmão mais novo não deixou. – Eu ouvia suas conversas com o professor... Eu sei de tudo.

— Você leu meus e-mails? – Ela rosnou. Seu irmão era um bastardo desgraçado.

— Todos.

— Todos? – Ela murmurou para o irmão, olhando freneticamente para os lados. Se alguém suspeitasse dela... Ela estaria na cadeia antes de piscar os olhos.

— Exatamente – Ele deu um golinho em sua vodca – Foi você quem contou pra ele do plano das garotas, e ele prometeu pra você que se ficasse quieta te daria um furo jornalístico dos grandes e contatos para uma vaga em Yale. O que você não contava é que ele não fosse apenas lunático o desgraçado era um criminoso assassino.

— Eu me arrependi, ok? – Louise respondeu ficando amuada. Lembrar disso as vezes mexia com ela.

Sim, ela jamais imaginou que as coisas iriam tão longe. A única coisa que desejou foi provar ao pai que podia ser tão boa quanto Ryan. Não esperava que fosse tudo se tornar uma bola de neve. No fim, ficou sem a vaga em Yale e sem o jornal.

— Tudo culpa dessas desgraçadas, elas tiraram o jornal de mim, eu sei disso. – Gritou.

— Esqueça esse jornaleco, Louise. Se tiraram algo de você, tire algo delas... – Ryan deu de ombros. – É assim que eu faço.

— Tirar o quê?

— A coisa boa de pessoas como nós, é que não temos laços com ninguém. Pessoas como elas, tem algo a perder porque amam de verdade pessoas aleatórias.

— Seja direto, Ryan.

— Não seja burra... Não vou deixar elas te humilharem, vou te oferecer as armas certas para ter o que quer.

— O que é isso? – Louise perguntou ao ver o irmão retirar um comprimido do bolso da jaqueta.

— Eu chamo o chamo de goodnight, goodgirl. – Ele riu. – Uma pequena coisinha que um amigo químico meu me dá. Deixa as pessoas mais soltas.

— Soltas?

— Soltas. – Repetiu ele com um sussurro maldoso. – Eu acho que apenas a vontade para fazer o que elas tem a fazer em seu íntimo.

— Isso se chama outra coisa.

— Se é tão honrada, foda-se.

— Não... – Louise impediu ele de devolver a droga ao bolso. – Você tem razão. – Do nada, o plano clareou sua mente. – Apenas de um jeito de fazer Alycia Evans beber isso e vamos ver o que a sorte fará por nós hoje a noite.

— Eu tive uma ideia melhor. – O rapaz disse, jogando a cápsula dentro do copo de vodka. – Vamos dar um pouco para Camila Cabello e Alycia Evans e ver o que elas tem vontade de fazer em seu íntimo.

— Te vejo logo. – Louise sorriu vendo o irmão subir as escadas em direção ao segundo piso, logo no momento que Alycia Evans ia em direção ao bar.

Camila tentava abrir a porta do quarto, mas suas mãos deslizavam com uma negligência bêbada pelo material da chave. Ela suspirou, descarregando um chute contra o material que doeu seu pé.

— Inferno!

— Eu posso fazer isso por você. – Ela virou assustada ao ouvir uma voz grossa atrás dela. Reconheceu de imediato, Ryan D'Champs.

Mesmo tão bêbada, Mila conseguia sentir que a aproximação dele não significava nada bom. Arrumou a postura encarou ele.

— Eu estou legal. – Ryan não se moveu. Ele tinha um arzinho arrogante que lembrava muito sua irmã, mas era diferentemente mais perigoso. – Não precisa.

— Tudo bem, – Ele disse, mas não saiu do lugar. Camila empurrou novamente em vão a porta e Ryan agiu. – Segure minha bebida que eu te ajudo a abrir essa droga, Cabello.

Camila suspirou sabendo que quanto antes pudesse se livrar daquele idiota faria bem para ela. O que a Camila bêbada não se lembrou foi do risco de confiar, mesmo que por meros segundos, em alguém como ele poderia causar.

Encostou-se na parede branca e ficou de longe observando de o rapaz usar o ombro largo para empurrar até conseguir abri-la.

— Prontinho. – Ele se afastou, fazendo uma reverência a porta.

— Obrigada, eu acho... – O rapaz não se moveu. – Agora você já pode ir, Ryan.

— Camila... – A garota olhou para trás, irritada. – Eu nunca fui com sua cara.

— Foda-se, D'Champs. – Cabello murmurou, virando o conteúdo da bebida em sua mão todo de uma vez. – Babaca. – Sussurrou, mas ele não ouviu.

Ryan já se encontrava descendo as escadas. Descendo as escadas assobiando e com as chaves do quarto em mãos.

Alycia foi interceptada pelo irmão de Louise D'Champs, de frente ao bar. Já havia virado toda a casa, mas nenhum sinal de Camila. Ela tentava digitar uma mensagem enquanto tomava goles curtos de sua cerveja. Contrariando o pedido crucial de Sophie.

O caos guardado em um copo de cerveja quente.

— Evans. – Gritou Ryan, balançando os braços de gorila diante dela. – A festa está maravilhosa, você nunca decepciona.

— Obrigada. – Ela forçou um riso, voltando a olhar para a tela. Em segredo ela sonhava com o dia que daria um soco naquele rosto arrogante dele.

— Podemos levar um papo?

Alycia colocou o seu copo com cerveja de volta ao bar e Ryan pediu o mesmo para ele.

— Ryan eu adoraria, mas agora eu estou ocupada, ok?

— Você está procurando alguém? – Ele fingiu interesse enquanto brincava com seu copo.

— Sim. – Respondeu ela, impaciente.

— Camila Cabello?

— Você a viu? – Alycia tinha uma súbita chama de interesse nos olhos.

— Eu ajudei ela. – Ryan nem completou a frase antes das mãos de Alycia irem diretamente a gola da sua blusa. – Calma... Eu só fiz um grande favor.

— Se tocou em um fio de cabelo dela eu te mato!

— Calma ai, Mulher Maravilha Que tipo de pessoa pensa que eu sou? – Ele continuou com o tom irônico. – Sua amiguinha está a salvo.

— Eu não confio em você.

— Tudo bem. – Riu. – se não está acreditando, é só conferir. Terceiro quarto, segundo andar.

Alycia enfim soltou ele. Odiava ficar vulnerável, mas precisava conferir.

— Evans, – ele a chamou e Alycia voltou quase que imediatamente. – você esqueceu seu copo, não vai querer que alguém coloque algo aí, vai?

— Com pessoas como você por aí? Acho que não. – Ela virou todo conteúdo em um só gole, jogando o copo aos pés do rapaz.

Burra. – Ryan murmurou, vendo Alycia subir as escadas.

Antes de abrir a porta Evans encostou o rosto na porta tentando ouvir algo. Mas o silêncio reinava ali em cima. Ela entrou no cômodo e após se acostumar com a escuridão, encontrou Camila parada diante da janela. Evans suspirou aliviada.

— Você está bem? – Disse ela indo até a garota.

— Está tudo tão colorido. – Camila meio riu, meio gemeu. – você está tão colorida.

— Precisamos ir pra casa, Cuba. – Tocou o ombro da garota. – Se ficarmos mais dois minutos, Sophie vai me matar.

— Não seja chata, Al – Camila sorveu um longo gole de vodca, puxando o braço da garota com força. – Dance comigo?

— Cuba! – Alycia tentou parar, mas foi esticada. Sua cabeça ficou zonza.

— Apenas dance...

Camila a puxou novamente, fazendo a distância entre seus corpos diminuir até se aproximar da inexistência.

— Não está tocando nada. – Fechou os olhos, ficando mais zonza. Primeiro achou que fosse por culpa da bebida, mas a sensação piorava a cada segundo.

– Acho que meu rosto está derretendo. – A cubana gemeu olhando para o teto.

— Do que você está falando?

— De nada, apenas dance comigo.

— Tudo bem, mas depois dessa dança, vamos embora, ok?

Camila sentiu sua mente piscar, como se alguém tivesse acabado de bater uma foto em seu cérebro. Luzes e vozes piscando dentro da sua cabeça. A imagem de Alycia piscava em um torpor confuso de flashes a medida que ela se balançava. Ela tentou abrir a boca dizer algo, mas sua língua enrolou na boca, fechou os olhos e se apoiou no ombro.

— Eu estou bem. – Camila murmurou segurando o rosto próximo ao de Evans que continuava de olhos fechados.. – Você... – Ela piscou novamente, – você se parece tanto com Lauren... Deixe eu ver seus olhos, sim?

— Camila... – Alycia clamou, algo dentro da sua cabeça implorava pra que ela se afastasse. Que fossem embora.

— Deixe eu ver seus olhos. – Pediu novamente e a voz rouca fez ecos na sua cabeça.

Ela abriu os olhos e Camila trouxe seu rosto para mais perto.

— Eu senti tanto sua falta, Lo. –

Lo? Uma voz gritou novamente na sua cabeça.

Ela não era Lo.

— O que você disse?

A última coisa que Alycia sentiu foi o toque suave de lábios macios em sua boca. Tudo que ela pensava era em como aquilo era errado, mas seus braços flácidos não tiveram força para afastá-la, pelo contrário parecia que algo mais forte que ela dominava suas ações.

Com calma, ainda que estranhando a textura daquela pele ela foi subindo mais suas mãos por aquele corpo.

Dentro dela algo batalhava e ela perdia a batalha.

PARE...

NÃO PARE...

Um gemido fraco e trêmulo escapou por entre os lábios entreabertos de Camila. Ela tentou afastar a amiga, mas suas mãos a traíram e ela a trouxe para mais perto.

— Eu estava com tanta saudade... – Camila continuou falando para o que quer que ela estivesse vendo.

E com uma lentidão torturante, beijou o pescoço de Alycia passando a língua pelo ponto de pulso e sentindo o gosto da pele fervente em sua língua.

— Lauren... – Ela gemeu e o mundo caiu.

— Eu... Eu não sou a Lauren!

Ela não era Lauren!

Não era aquela boca que ela queria beijar. Não havia nada, nem desejo, nem carinho...

Nada...

Suas mãos afrouxaram o aperto contra Camila e caíram para o nada. Ela a afastou, dessa vez segura de suas ações. Cambaleou sentindo seu corpo ceder a uma tremedeira que derrotou suas forças Os flashes agora não eram bonitos e seu coração parecia que ia sair pela boca a qualquer momento.

  Camila tombou diante dela e Alycia tentou por um segundo a ajudar, mas suas forças também sumiram e as luzes deram lugar a escuridão.

  Camila abriu os olhos ela sentia sua cabeça martelando como se milhares de furadeira automáticas girassem ao mesmo tempo. Afastou a perna, pensando se deveria voltar a dormir ou se os pais de Dinah se incomodariam que ela passasse o dia deitada.

 O sol entrava pelas cortinas abertas, a claridade queimava a retina. E a ressaca matava sua vontade de sair do quarto da amiga pelos próximos mil anos. Pensar no quarto de Dinah deu a ela um reconhecimento que ela parede pintada de branco e o pufe rosa que nunca fizeram parte da decoração. Então Camila precisou se erguer, e foi aí que ela teve dimensão do que estava para acontecer com sua vida.

Suas roupas estavam espalhadas pelo quarto, nua ela dividia a cama com uma pessoa que não era Dinah. Seu desespero só aumentou quando a figura do seu lado levantou, e teve a mesma reação de espanto desesperada que ela.

Alycia recuou sem saber o que dizer, também estava nua. Suas roupas também estavam espalhadas pelo quarto. Pouco depois ela desistiu de prender o choro e começou a chorar incapaz de dizer uma só palavra. Camila ficou alguns segundos controlando-se para não gritar, para não amaldiçoar quem estava condenando-as aquele trágico final.

Por que mesmo bêbada ela sabia que o que aconteceu naquele quarto significa o final. O epitáfio de tudo. Porque mesmo que estivesse ainda tendo o entendimento do que havia acontecido, sabia que Lauren teria que saber daquilo.

Bêbada ou não... Era claro que havia traído a namorada. Com sua prima. A namorada da sua melhor amiga.

— Não, não, não. – Camila reagiu ao pensamento. Implorou ao vento, enquanto tentava esconder. – Por favor me diga que isso não aconteceu, Al... Por favor diga que não é tão óbvio quanto parece ser.

— Eu não lembro de nada... Eu... Eu não sei...

—Não!

Alycia escondeu o rosto por trás das mãos, tentando calar o grito de Camila dentro da sua cabeça, porque parecia muito real que o pesadelo estava apenas começando.

Tudo está começando a fazer sentido que eu sei.

Quase 9000 palavras depois...

Olá gente. Ufa 300 anos depois eu atualizei e chegamos ao ponto mais importante de teoria até aqui... Nem sei como estou me sentindo em relação ao iminente fim dessa história, mas eu sei que ela precisa ser terminada quanto antes. Desculpem por fazer esperar, mas ontem eu precisei fazer uns relatórios da faculdade e já acabei de madrugada...

Desculpem pelas desculpas também... Sei que vocês estão ansiosos pelo fim, mas eu prometo que as duas próximas postagens de teoria serão de capítulos duplos, eu também tô ansiosa para terminar.

Sei que terminamos bem confusas, mas, o próximo capítulo será bem esclarecedor e óbvio que eu sei que vocês querem saber qual será a reação de Lauren e Sophie quando descobrirem o que "aconteceu"!

Ah antes que os espertinhos de plantão venham dizer que nenhuma droga causa esse tipo de reação. Alucinógenos são assim chamados por um motivo. O LSD é um alucinógeno, ou seja, é uma substância capaz de alterar a percepção daquele que faz seu uso. Essa alteração faz com que o usuário seja capaz de ver, sentir e ouvir coisas que não são reais. EXPLICADO? ESPERO QUE SIM!

Ah, antes que eu esqueça, coloquei uma fic nova no meu perfil. Ela é bem legal e tem elementos de terror, estilo stranger things e scream queens. Então se vocês quiserem dar uma lida no prólogo e dar uma conhecida nos personagens, tá no meu perfil. To panfletando essa história em todos os cantos, porque eu estou apaixonada por ela!

MAIS UMA COISA, PARA MINHAS LEITORAS DE PROFANOS: EU SEI QUE VOCÊS QUEREM ATT E VAI SAIR ANTES DO FDS!

BJOOOOOOOOOOOOOOOOO

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top