Dezesseis - Bandaid, gols e pedidos inesperados


Quando o primeiro jogo do campeonato chegou, Alexander Maximus, Santa Clarita (e aos olhos de Camila), toda Califórnia estavam em chamas de emoção. Se ela achava a comoção que sua cidade se afundou no dia que Lauren foi anunciada como contratação do time da escola era grande, ela nem podia mensurar em palavras o que estava acontecendo ali naqueles dias que antecederam o primeiro jogo. Parecia que cada palavra que deixava a boca de alguém era "futebol", "Lauren", "Lobas x Leoas".

Seu sábado passou como um foguete em companhia de Brooke Lauren e seu grupo de amigas em mais um evento da faculdade e, (surpresa) até o grupo de amigas estavam ansiosas para o jogo. Até ai tudo bem. Os problemas de Camila começaram, quando em dado momento da noite o assunto acabou indo direto Lauren, mais precisamente, sua beleza incomum:

- Ela é maravilhosa, - Ana Sue, amiga de Brooke, exclamou tomando um gole demorado de sua cerveja. - Colocamos o carro em vagas próximas no Wallmart. Tive que me segurar pra não babar naquelas pernas e a carinha de mal, nem vou mencionar os olhos... um show a parte. Eu não me incomodaria de pedir seu número.

A mesa se tornou uma zona de risinhos de concordância, onde apenas Camila e Brooke pareciam distantes:

- Camila e ela estudam juntas. - Disse Brooke depois de certo tempo. - Tivemos um encontro em uma dessas festas que organizo e ela foi um tantinho arrogante.

Mila tomou um gole demorado da sua cerveja, respondendo com uma careta em seguida. Estava horrivelmente quente. Igual ela se sentiu na noite em questão, quando Lauren a beijou pela primeira vez. Quente como se todo seu corpo fosse material orgânico de alta combustão.

- Você bem que poderia me ajudar, né Camila? Poderíamos sair juntas. Imagine só que legal?

Camila imaginou, e para o seu desespero precisou de mais um gole da cerveja péssima para tirar a cena desagradável e hipotética de Lauren agarrada em Ana Sue da sua mente. Ela não era feia ou qualquer coisa do tipo, só não fazia o tipo de Lauren.

Sorriu forçada antes de responder secamente:

- Lauren tem namorada. - Brooke olha pra ela com os olhos azuis tentando captar qualquer emoção expressiva. Mila não tinha mentido e além do mais, ela não era pombo correio de ninguém. - Quando ela ficar solteira vou cuidar pra que seja a primeira, a saber.

- Pode confiar em mim, vou cuidar muito bem dela e daquele corpinho. - Mila foi à única na mesa a não sorrir para o comentário. Era nojento.

- Vou ao banheiro. - Disse erguendo-se, bruscamente.

Bem, era aquilo. Ela não estava com ciúmes, só era esquisito pensar em uma mulher mais velha saindo com Lauren Jauregui e ainda mais reproduzindo comentários machistas. Quando tentava alcançar o banheiro, Brooke a alcançou com uma expressão nada feliz.

- O que foi aquilo?

- O que exatamente? - Virou-se pra loira com um ar desafiante. Não gostou nada, nada do tom que Brooke usou pra falar com ela.

- Sua atitude... - Respondeu ela como se fosse óbvio. - sobre Lauren Jauregui... A ideia de Ana Sue saindo com ela te deixou irritada, ou eu enxerguei errado?

Mila que nesse momento segurava a porta do banheiro voltou-se com o ar bravo que era sua marca registrada. As sobrancelhas unindo-se enquanto ela tentava engolir a afronta. Se Dinah estivesse por perto diria que aquele era o momento de mudar o assunto, mas a loira não estava ali.

- O quê?

- Exatamente o que eu disse Camila, - o tom da loira amenizou um pouco e ela seguiu. - Foi estranho e me deixou desconfortável.

- Suas amigas fazem comentários inapropriados sobre uma menor de idade e é que você se sente desconfortável?

- Camila vocês duas têm a mesma idade, é apropriado pra você e inapropriado pra ela?

- Não é apropriado pra ninguém, Brooke. - Enfatizou ela.

- Meu Deus, Camila! Não sabia que você ia tão longe apenas porque se incomodou com um comentário da Ana. - Sua voz sai exausta e ao mesmo tempo triste. - Acho que você está com ciúmes dela. - Pontua com um sorriso triste. - Tudo que se relaciona com essa garota tem o poder de tirar de você essa máscara de tranquilidade.

Mila gira em seus calcanhares, pronta pra o enfrentamento final.

- Brooke, vamos deixar uma coisa bem clara, - Mila sentindo seu sangue ferver com aquele joguinho idiota de palavras que pareciam sim ou não alguma coisa. - Não temos um relacionamento sério, logo isso não é exatamente da sua conta. Não estrague isso que nós temos com surtos desnecessários de ciúme.

A loira recuou um pouco, passando as mãos pelos cabelos tentando digerir o tapa de palavras que tinha tomado.

- Eu... desculpe-me...

Mila assentiu muito mais desesperada pra ir embora do que qualquer coisa. E foi assim, que um sábado promissor foi estragado pela presença abstrata de Lauren em sua vida.

Quando a manhã de domingo, dia do jogo, chegou. Mila estava decidida a não sair do seu quarto. Brooke tinha insistido de todas as formas pra ela ir e tentado convencê-la que seria um espetáculo memorável e uma forma de se desculpar por sua atitude dominadora. Sua resposta ainda era não.

Seu tom conclusivo deu certo com Brooke, obviamente ela precisaria que muito mais que algumas palavras pra convencer seus amigos.

Quando eles disseram que estavam indo em sua casa, de alguma maneira Camila já sabia que contra eles a batalha estava perdida. Um pouco antes do almoço os três chegaram vestidos a caráter e com bandeiras do time, Dinah já estava usando seu uniforme e Sophie a todo o momento atualizava suas redes sociais querendo notícias do time.

- Eu não vou! - Resmungou pulando do sofá pra fugir dos amigos.

- Você passou a noite com a Lauren paraguaia, achei que seu humor estaria melhor, Cami! - Provocou Sophie.

- Estaria se ela não tivesse tentando o mesmo que vocês: Arrastar-me pra um estádio lotado, pra ver um esporte que eu detesto.

- Não vamos ficar na parte lotada, Lauren conseguiu ingressos para o setor VIP.

Mila balbuciou sem ter desculpa pra dar. Porra. Por que ela tinha que fazer tudo perfeitamente?

- Bem, eu não quero ter que enfrentar filas. - Retrucou

- Ingressos vips evitam filas. - Devolveu Dinah.

- Diablo! O que es eso? Uma força tarefa?

- Sim! Vá se vestir estamos te esperando pacientemente aqui.

- Eu odeio todos vocês. - Choramingou. - Pois eu vou torcer a favor do time rival.

- Você não seria tão audaciosa.

Mila agarrou várias roupas de uma vez do seu guarda-roupa jogando sobre a cama de uma vez resmungando. Ouviu uma pequena batida e em seguida sua mãe colocou a cabeça para dentro do quarto:

-Tem um minuto, hija?

- Si. - Disse ela, pegando uma blusa baby look branca no meio da pilha de roupas.

Mila podia jurar que sentia quando sua mãe se preparava pra conversar com ela sobre assuntos que ela julgava desconfortáveis. Era sempre o mesmo tipo de abordagem, e tentativas de não invadir o espaço de Camila.

- Pode dizer mamãe, - Começou. - o que aconteceu?

- Então... - Sinu sentou na sua cama, alisando o foro com as mãos. - Aquela moça que você saiu ontem. Vocês estão "ficando"? - Usou aspas pra ilustrar o modelo de relacionamento atual que ela provavelmente não entendia.

Mila virou-se para olhar a mãe. E a expressão suave no rosto de Sinu, mostrou que aquela era apenas curiosidade de mãe. Não deixava de ser surpreendente como ela não fazia julgamentos pela sua orientação sexual e sim pelo caráter de quem Camila estava saindo, fosse homem ou mulher. Estava mais preocupada por nunca ter conversado com Brooke e ter tido sua própria impressão pessoal dela.

- Si, estamos ficando. Quer dizer eu não sei direito se o nome é esse, mas...

- Você gosta dela então?

Era uma boa questão. Gostava de sua companhia no geral, não sabia até onde ia esse sentimento ou se ele realmente ia a qualquer lugar.

- Ela é uma boa companhia, - Respondeu por fim - vou trazê-la qualquer dia desses pra jantar conosco. - Talvez. Depois da noite de sábado ela não sabia o que fazer sobre.

Sinu sorriu satisfeita com o que ouviu.

- Só assim eu terei certeza que é algo "sério".

- Por quê? - Sua mãe se levantou da cama e beijou o topo da sua cabeça.

- Você nunca colocaria dentro da nossa casa alguém que você não goste de verdade. - Sorriu. - Piorou trazer ao seu quarto. É o território da Camila.

Ambas sorriram lembrando-se de quando Camila era pequena e se autodenominou rainha de toda a casa. Ela delimitava a casa em territórios, e seu quarto era o território da Camila, uma área secreta que ninguém estava autorizado a andar sem autorização da rainha. Mila cresceu com essa perspectiva, seu quarto era o seu mundo.

Parando pra pensar, aquela regra tinha sido quebrada com a visita de Lauren. Ou talvez não. Haviam simbologismos em todos os cantos, Camila só precisava enxergar.

O estádio brilhava sobre nervosismo e rivalidades, gritos e risadas, aplausos e provocações. Cada uma das arquibancadas gigantescas estavam cheias de rostos ansiosos, todos prontos para a partida de abertura da temporada.

- Olhem a Dinah! - Sophie apontou quando conseguiram chegar ao anel superior do camarote. Era a melhor vista de todo o estádio, bem do lado das tribunas. Podiam ter uma visão perfeita do campo.

As lideres de torcida de ambos os times alinhavam-se a borda do campo, acenando e sorrindo, dançando no ritmo da música que saia dos alto-falantes. Dinah estava deslumbrante na linha de frente, com os cabelos loiros perfeitos voando a cada movimento acrobático seu. Mila tirou uma foto e olhou orgulhosamente para a fotografia da amiga no ar.

- Eu sabia que você ia gostar. - Sophie murmurou piscando pra a amiga.

A cubana não podia negar que toda hype lentamente a contagiava, as cores, os cânticos. Era tudo tão atrativo que ela estava ficando nervosa com o jogo que nunca começava. Mesmo quando namorava Nash, nunca tinha o acompanhado em seus jogos.

- Até que enfim achei vocês! - Nico reclamou surgindo do lado delas.

O rapaz tinha as mãos lotadas de comidas, bebidas e todo tipo de guloseima que encontrou.

- Trouxe uma camiseta para você Camila! - O rapaz estendeu pra a amiga uma linda camisa azul em suas mãos. - Dei sorte, porque essa é a última. Está tudo lotado.

Mila pegou a camisa bonita nas mãos de Nico. Era azul com detalhes brancos nas mangas e o símbolo da loba bordado do lado do peito. Atrás notou o número 27 gravado, pelo menos não era número 10, provavelmente o número de Lauren Jauregui. Camila tinha ouvido Dinah dizer que o melhor jogador do time usa a camisa dez. 27 estava bom pra ela.

- O time está chegando ao estádio - Comentou Sophie excitadíssima - Vamos!

- Vamos pra onde? - Mila se viu obrigada a perguntar.

- Dinah quer imagens da Normani. - Disse animada. - você sabe o quanto ela esperou por isso.

Sim, Camila sabia.

Desceram rapidamente pelas escadas de acesso e Sophie mostrou uma credencial a um segurança parado na porta. Tudo muito organizado e seguro. Foram recebidas por gritarias e movimentação no setor de baixo do estádio onde ficava a sala de imprensa e os vestiários.

Camila se afastou da aglomeração de torcedores na porta dos vestiários onde seus dois amigos se posicionaram pra conseguir as melhores imagens de Normani. Ela estava a uma distância confortável da confusão, mas ainda conseguia ver a fila de jogadoras indo em direção o vestiário.

Normani parecia uma criança sorridente, cercada por todos aqueles adoradores, ela acenava e sorria o tempo todo. Dinah ia se sentir tão orgulhosa e ciumenta com tantas mãos em volta da sua garota.

Alycia, Vero e ela eram as pessoas mais animadas entre as jogadoras, mandando beijo e gravando com seus celulares. Então a última pessoa da fila chegou, ela era certamente a mais aguardada.

Lauren Jauregui vinha junto com o corpo técnico, e Tyrone Rodgers estava ao seu lado cochichando coisas o tempo todo. Sua expressão concentrada não se alterou quando ela viu aquele mundo de pessoas esperando-a, gritando seu nome. Talvez já estivesse acostumada. Não era uma postura arrogante, no entanto, apenas parecia que nada no mundo podia tirar sua tranquilidade.

Diferente das amigas ela seguiu pelo túnel externo, parando em frente a uma placa enorme de publicidade da Nike. Camila acompanhou com os olhos esquecendo-se do que acontecia a poucos metros dela.

Flashs vindo de todos os lados iluminavam o rosto de Lauren, querendo seu melhor ângulo. Foi a única vez que ela pareceu de fato desconfortável e seus olhos perderam o brilho.

Quando Tyrone dispersou os jornalistas, Mila notou que a jogadora desceu da plataforma e virou-se sorrindo para Michael Jauregui que estava meio escondido entre os repórteres.

O garoto sussurrou algo no ouvido de Lauren que assentiu.

Talvez ela tenha ficado tão distraída prestando atenção em cada coisa que a jogadora fazia, porque quando Lauren desceu da plataforma, e caminhou em sua direção em linha reta, ignorando os microfones que surgiam na sua frente, Camila não soube o que fazer além de ficar em pânico total.

Lauren parou na sua frente, ignorando a multidão que estava a sua volta e inclinou-se em direção ao seu rosto. Mila fechou os olhos sentindo seu cheiro fresco, quase podia ignorar o fato que estavam em um local publico.

Lauren disse baixinho:

- Você pode me acompanhar? - A voz rouca e séria ao ouvido de Camila disparou milhares de relâmpagos pelo seu corpo.

- Sim. - Respondeu a única coisa que passou na sua cabeça. Com aquela voz ela diria sim pra qualquer coisa que Lauren pedisse.

A jogadora pegou seus dedos. O magnetismo imediato explodiu dentro delas. Sem reação Mila apenas deixou que a jogadora a conduzisse me direção a um corredor externo. Sua mente fervilhando em como elas pareciam um casal de filme fugindo da multidão ensandecida de paparazzis. Mila se perguntou se a jogadora podia notar como suas mãos estavam suadas e tremulas.

Elas não pararam de andar até que todas as vozes não passassem de um zumbido:

- Fico feliz que você veio. - Lauren disse devagar, ela virou-se pra Camila soltando suas mãos.

-Sim, bem... Eu não tive muita escolha. - Camila murmurou meio querendo sorrir. - Obrigada pelos ingressos e por ter lembrando-se de mim.

- Não é difícil lembrar de você. - Lauren respondeu descaradamente flertando com ela.

- Então o que você queria falar? - Mila perguntou ansiosa. Precisava aplacar aquela vontade de beijar Lauren. Autocontrole é tudo Camila.

- Na verdade, Mike está ai e eu tenho medo de deixá-lo sozinho sem minha supervisão ou de Alycia. - Lauren respondeu com a voz ficando um pouco insegura - É a primeira vez dele em um estádio sem nenhum adulto perto. Ele me mostrou você meio deslocada, e pediu que eu viesse diretamente.

Camila piscou algumas vezes, ela estava pensando que obviamente Mike poderia pedir aquilo a ela se quisesse:

- Claro! - A cubana respondeu, e Lauren pareceu aliviada. - Claro que fico com ele.

- Não quero te atrapalhar, ou qualquer coisa.

- Não atrapalha, eu adoro o Mike. Pode ficar tranquila com seu jogo, eu cuido dele.

- Você está usando meu número. - Lauren sorriu os olhos brilhando engraçados.

Camila olhou para a jaqueta da jogadora, percebendo que tinha o número 27 estampado na frente e nas mangas.- 27? Achei que o melhor do time usasse o número 10.

- É um número especial pra mim. - Lauren respondeu orgulhosa. - Coisas boas acontecem dias 27. Você não precisa ficar envergonhada por adorar sua capitã, Camila.

Suas bochechas queimaram. Ela mataria Nicholas Turner!

- Nossa como você é exibida. - Mila rolou os olhos, mas sem perder o tom leve. - Você está nervosa? - Ela perguntou mudando o assunto bruscamente.

- Eu não fico nervosa.

- Espero que Impressione sua torcida, capitã. - Mila não sabia porquê disse aquilo, mas ela não podia negar que queria ver se o mito sobre Lauren era real ou apenas palavra.

Lauren assentiu e sorriu docemente.

- Eu tenho treinado todos os dias por isso. - Ela respondeu calmamente, levando as mãos habilmente para seus cabelos fazendo um rabo de cavalo, o que acentuou as maçãs do seu rosto e a linha perfeita do seu queixo. Parecia um bom lugar, para beijar, ou morder.

- Não me olhe assim, Camila. - Pediu com a voz perigosamente baixa. - Porra, você faz idéia do quanto eu preciso me controlar?

A maneira como Lauren disse a frase fez com que o vulcão que fervia dentro de Camila entrasse em combustão imediata.

- Você não precisa se controlar sempre-

Lauren gira bruscamente, levando suas mãos até a curva da cintura de Camila com sua mão boa. A pressão do seu corpo faz os corpos encontrarem apoio na parede. A cubana arfa sentindo a parede gelada contra seus braços:

Jauregui ergue os olhos, como um animal pronto pra atacar sua presa. A intensidade dentro daqueles olhos fez Camila sentir uma química perigosa que escorria por cada terminação nervosa sua e acabava no meio das suas pernas. Não faz sentindo se manter racional.

- Me beije - Pediu com a voz fraquinha, agarrando a jaqueta do time contra os seus dedos.

- Eu estou conseguindo domar você? - Lauren provocou, sussurrando.

Mila tombou a cabeça para trás e sorriu debochada.

- Não foi um pedido. - Ela puxou a jogadora com certa agressividade pra mais perto. - Foi uma ordem.

-Lauren!

A voz de Tyrone Rodgers, colocou um ponto final na interação entre as duas. Elas se afastaram imediatamente, cada uma indo pra um canto suspeito do corredor. O treinador fitou a cena e talvez tenha sentido a tensão que vagava o ar em volta delas.

Tyrone fechou a cara com um ar arrogante, antes de dizer:

- Precisamos de você agora, Lauren!

- Eu-

- Tudo bem, nós vemos mais tarde. - Foi mais ou menos uma promessa. Elas precisavam tratar daquilo mais tarde. - Acabe com elas Lauren. - Completou Mila finalmente.

Os olhos de Lauren se arregalaram de surpresa. Camila ofereceu-lhe um sorriso irônico e confiante.

- Me impressione e eu volto.

- Você vai voltar. - Prometeu murmurando no mesmo tom.

Mila observou Lauren se afastar, enquanto elas compartilhavam um sorriso genuíno em resposta.

Era hora do jogo.

Exatamente 03h50min os rugidos da multidão ficaram mais altos e de cima das arquibancadas o estômago de Camila gelou. Desse momento ela já estava contagiada pela onda que o estádio lotado fazia. Mike do seu lado tremia de ansiedade a cada vez que o estádio rugia, antecipando a chegada do time.

As luzes do estádio foram intensificadas, formando um foco de luz ao redor do portal de entrada. Mila ergueu-se imediatamente com os olhos brilhando.

A voz grave do locutor urgiu sobre a multidão enquanto ele se preparava para começar o chamado do time.

- Verônica Iglesias. Número 1 - O estádio rugiu quando a primeira jogadora passou pelo arco, calçando suas luvas. Mila notou como a goleira não tinha mudado nada no ano que sumiu da escola, talvez estivesse mais magra, mas ainda era a mesma pessoa que ela se lembrava. Vero acenou timidamente para a sua torcida e parou no meio do campo.

Depois de uma onda de jogadoras que Camila não conhecia bem, a voz no alto-falante voltou a causar alvoroço dentro dela.

- Número 7, Normani Kordei.

Normani apareceu um segundo depois. A moça antes deslumbrada manteve o olhar decidido no rosto, sem nenhum tipo de expressão. Porém Camila tinha certeza que por dentro ela estava surtando. Era o seu sonho. De longe Mila viu que Dinah era pessoa que mais aplaudia perfilada com as lideres de torcida. Seu peito se esquentou em satisfação pelo casal.

- Número 10, Alycia Evans-Morgado.

Mike e Sophie deram o mesmo pulo animado. Batendo palmas excitadíssimas de alegria. Alycia saiu do túnel com o sorriso brilhante no rosto, que por coincidência foi a primeira coisa que o telão do estádio focou.

O estádio mergulhou na mesma onda de ansiedade e Camila sabia porquê. Só faltava uma única jogadora pra ascender ao campo.

A voz do locutor sumiu, provavelmente de maneira proposital, mas quando ele voltou a surgiu, o estádio respondeu com gritos mais altos e mais fortes.

- Lauren, Lauren, Lauren! - Os torcedores rugiam antes mesmo de ele anunciar.

Mila correu os olhos pelo gramado, querendo ser ela a primeira pessoa a bater os olhos em Lauren.

- Número 27... - A torcida mais uma vez rugiu enquanto o locutor do estádio deixava uma lacuna de ansiedade pairar. - Lauren Jauregui!

Quando a jogadora deu o primeiro passo em direção ao grama. Ocorreu um tipo de reação imediata que circulou por cada torcedor do time. Todos pareciam hipnotizados o bastante para apenas reproduzir aplausos e gritos de adoração. Mila sabia que pra os colegas de escola que viam Lauren treinar todos os dias aquilo era uma cena comum. Mas aos habitantes fanáticos por futebol aquele era seu momento de gloria.

Não deixava de ser irônico, em um esporte dominado por homens, uma garota ser adorada daquela maneira. Um ponto fora da curva, como Martas, Alex Morgans e Cristianes pelo mundo.

Lauren acenou para a torcida por breves momentos, se curvando em reverência como forma de agradecer a todo aquele apoio. Depois de quase um minuto de aplausos. Lauren se juntou com suas companheiras parando ao lado da prima todas perfiladas na mesma postura com o queixo erguido e as mãos para trás esperando a foto do time.

Do outro lado do campo, as leoas invadiram o campo, sendo recebidos com vaias pelos torcedores rivais. Elas rugiram quando pousaram no campo se perfilando, lado a lado e quando estavam todas no mesmo lugar, ergueram as mãos como se auto-coroassem naquele momento. Camila podia jurar que era uma provocação as lobas.

Lorena Trump, sua melhor jogadora, caminhou pelo campo como se mastigasse as vaias. Ela encarou intencionalmente o time do lado oposto, os olhos parando em Lauren que não demonstrou nenhum tipo de reação.

A torcida das lobas não teve o mesmo tipo de paciência com aquela afronta. E Mila podia ver que os cânticos da torcida se tornaram rapidamente ofensas quando Jeon Jungkook, o garoto coreano, começou a liderar a resposta aquela provocação.

- Elas se odeiam. - Mike sussurrou pra Camila. - Lauren e Lorena.

- Ela não me parece ser uma pessoa muito agradável. - Definitivamente Camila não gostou nenhum pingo daquela garota.

- E não é, Lauren e ela jogaram juntas durante seis meses no Miami Pride, mas Lorena foi expulsa do time depois de tentar boicotar Lauren. - O rapazinho explicou olhando torto pra ela. - Ela é prima, da prima, da prima do presidente Trump. E de alguma forma herdou o sobrenome, isso faz com que ela pense que é algum tipo de celebridade.

- Foda-se ela! - Mila exalou ganhando um sorriso de aprovação de Mike.

Os amigos viram na parte de baixo o diretor Simon correndo como um frango, subindo e descendo as arquibancadas tentando controlar os alunos.

- Não! Nada de ofensas pessoas. Diversão meninos... Diversão! Senhor Jungkook, eu exijo que pare com isso agora!

Lá em baixo as lobas preparavam algo muito especial para as leoas. Camila notou Tyrone Rodgers caminhando pelo gramado entregando um microfone nas mãos de Lauren dando um aperto em seus ombros.

Jauregui deu um passo a frente, se destacando das demais. As leoas imediatamente pararam as provocações atentas.

- Você vai gostar disso! - Mile murmurou. E Camila teve se controlar pra não perguntar o que ele se referia. Ela estava pronta pra a surpresa.

Lauren levou o microfone até próximo dos seus lábios e então sua voz foi à única coisa que se fez presente nos estádio.

- Alcateia? - Lauren berrou.

Imediatamente todas as onze jogadoras do time ergueram as mãos levando até os lábios em força de concha. Ouve um segundo pra que o estádio entendesse exatamente o que estava acontecendo.

Aquela era a antiga saudação do time a sua torcida.

- Alcatéia? - Ficou claro que Lauren não se referia mais ao seu time e sim a sua torcida. Ela repetiu, e cada torcedor do estádio repetiu o movimento das jogarias. Lauren sorriu satisfeita com a resposta aos seus chamados. - UIVEM!

Ordenou em um só grito, e toda criança, adulto, homem ou mulher dentro do estádio respondeu aquele chamado repetindo uivos. Como a matilha respondendo ao seu alfa. Durante um minuto seguido era a única coisa que se ouvia.

Mila corria os observando atônita o que ocorria ali. Ela não podia acreditar, era surreal, era estranho... era algo inacreditavelmente incrível.

As leoas pareciam altamente assustadas com aquela demonstração de apoio e grandeza do time. Quando as jogadoras foram até a beira do campo se fecharam em um círculo acertando suas últimas estratégias. Lucy aproveitou-se de Lauren distraída tomando goles de água pra lhe dar um beijo ardente que foi rapidamente capturado por todas as câmeras em volta do campo.

Mike rapidamente desviou os olhos para Camila que estava com uma expressão semelhante à de quem colocou muita pimenta no seu taco, ela franziu as sobrancelhas e seus olhos caíram brevemente e ela murmurou que ia ao banheiro. Mas o que Camila não notou, foi à cara que Lauren fez pela atitude da namorada.

Ela odiava aquele tipo de demonstração de afeto diante das câmeras.

- O que foi isso? - Millie, sempre atenta, notou a cara de Camila e comentou com o rapaz. Ela tinha chegado minutos depois de Lauren clamar os uivos da alcateia com Will.

- Eu sinceramente não sei. - Mike confessou. - Quer dizer, eu sei, mas não é algo para comentar agora.

Ele notou os gêmeos provocando Camila quando ela sumiu com uma desculpa, Mike sabia que eles tinham percebido. Poderiam ser de grande ajuda ao seu plano. Ele precisava pensar quando estivesse em casa. O reinado de Lucy estava com dias contados se dependesse dele.

Por hora, sua atenção era do jogo que estava a ponto de começar.

A saída de bola pertencia às lobas e Lauren tocou a bola nos pés de Normani quando o apito soou. O time foi saudado por aplausos e gritos de apoio. As jogadoras se alinharam, cada uma em sua posição, trocando bola com certa tranquilidade. A cada toque curto que Lauren dava na bola ela era recebida com gritos e ovações do estádio.

Mike notou a maneira que Lorena Trump se movia em campo fazendo uma marcação em cima de Lauren, acompanhando sua irmã como uma sombra. Foi em um desses lances que meio campo acertou um pontapé nas pernas de Lauren. O o juiz prontamente sinalizou a falta, mostrando o cartão amarelo para a jogadora que partiu pra cima de Lauren, causando uma pequena confusão em torno do campo.

Lauren puxou Normani e Alycia, arrastando as duas mais exaltadas para fora da confusão. Ela cochichou no ouvido de Normani alguma coisa e a jogadora que tinha uma estatura física avantajada, andou lentamente em direção a área, atraindo a marcação. Normani era grande, forte, ágil e boa em jogadas pelo alto.

O treinador das leoas provavelmente já esperava algo assim, porque rapidamente todas as jogadoras se adiantaram fechando todos os espaços. O que ele não esperava era a leitura de jogo perfeita de Lauren. Quando o apito soou, ela deu dois passos curtos para trás, e deu um pequeno toque para Alycia, que enganou toda marcação. A sua prima devolveu a bola para Lauren com um passe perfeito pelo alto. Lauren matou a bola na sua cocha e usou sua velocidade para passar rapidamente por dois marcadores. A atacante passou o pé sobre a bola, esperando o marcador, quando Lorena se aproximou pronta para roubar a bola. Habilidosamente Lauren apenas cortou a bola para o lado e em uma velocidade absurda, deu mais dois passos curtos em direção a linha de fundo cruzou a bola com maestria um segundo antes de se perder na linha de fundo.

Normani que tinha visto a sua capitã repetir aquela jogada mil vezes no treinamento avançou correndo rapidamente entre as jogadoras. A bola caiu diretamente na sua cabeça, e ela só precisou mirar pra baixo. Gol.

Mike tinha certeza de que perderia o senso de audição, com todos os gritos excitados. A torcida ergueu-se em gritos de alegria e Michael se viu abraçando pessoas estranhas, tendo seu rosto beijado por várias pessoas e Millie. A menina lhe deu um abraço apertado e um beijo que por ser desajeitado tocou rapidamente numa região próxima dos seus lábios. Eles ruborizaram e se afastaram como se tivessem acabado de levar um choque.

Camila assistiu do telão posicionado na saída das cabines o gol de Normani. Ela não se conteve e soltou um grito exasperado vendo a jogadora fazer um coraçãozinho com as mãos na direção de Dinah Jane. O problema é que enquanto o relógio passava, o tempo em campo diminuía e o time adversário ficava cada vez mais violento.

O segundo tempo foi ainda mais duro que o primeiro. Logo nos primeiros minutos, Alycia foi vítima de um golpe pesada de uma das jogadoras do time rival que causou a queda dela pra frente. A loira ficou alguns minutos recebendo atendimento do lado do campo e o time obrigado a jogar com uma a menos. Foi a primeira vez que ela viu Lauren perder a cabeça em campo.

Ela não sabia se queria voltar à arquibancada pra ver o jogo. Foi habitada por uma melancolia quando viu Lauren beijando o beijo de Lucy. Não só por ciúmes, não dava mais pra fingir que ela queria estar no lugar da Colombiana. Estava desesperada e pessoas desesperadas tomam atitudes desesperadas, ainda mais quando tudo parece propício.

De costas para um dos vários bares dentro do estádio, Mila não viu a aproximação de Brooke.

- Achei que você não viesse. - Ela disse parando do lado de Camila. Surpresa a cubana tentou dar seu melhor sorriso.

- Eu também achei que não. - Respondeu sinceramente.

- Posso sentar aqui? - Brooke perguntou um pouco tímida. Dando um gole na sua cerveja.

- Sim.

Elas ficaram com os olhos fixos no jogo. E Camila teve mais certeza que tudo que diziam sobre Lauren não era nem perto do que ela fazia em campo. A jogadora parecia mais rápida, mais ágil e melhor preparada que qualquer uma. Ela cortava as linhas da defesa com passes, dribles e chutes certeiros e o placar só não estava maior, graças aos milagres que a goleira do outro lado fazia de maneira cirúrgica.

Nos acréscimos do jogo, o time das leoas parecia a ponto de cair em campo de exaustão, enquanto Alycia, Lauren e Normani, trocavam passes perfeitos na intermediaria. Lauren recebeu a bola da sua prima e correu em direção ao gol, a zagueira do outro time tentou intervir, mas Lauren passou o pé sobre a bola e com um drible curto deixou ela no chão. A torcida toda em volta de Camila, inclusive ela, ficou de pé. A jogadora invadiu a área, e quando a goleira abriu os braços tentando adivinhar onde ela chutaria. Lauren mais uma vez tirou um coelho da cartola dando um simples toquinho por cima.

Mila observou sem acreditar, quando a jogadora foi cercada por suas companheiras de time, sumindo no meio delas. Todas caindo em um abraço coletivo de alegria. De pé e aplaudindo a torcida saudava sua nova estrela. Parecia que a previsão de Dinah estava certa, a tão sonhada taça tinha um poderoso postulante.

- Ela é realmente incrível. - Brooke comentou, em meio à euforia em volta das duas. - Parece que dessa vez vai.

- É... bem, eu preciso ir. - Mila lembrou-se que tinha prometido ficar de olho em Mike para Lauren.

- Espere um segundo- - Brooke tocou seu braço com urgência. - Sobre ontem, eu sinto muito. De verdade.

-Não precisa sentir nada, eu entendo.

- Não Camila, você ainda não entende. - Realmente ela não entendia. - Eu fiquei com ciúmes de você, ciúmes irracionais, mas ciúmes. Você é especial demais pra mim.

- Você também é pra mim.

- Eu sei que esse não é o momento mais oportuno, mas quando será? Eu não consigo mais dormir sem pensar em você, não consigo mais levar minha vida normal sem tentar te incluir em tudo. Talvez seja cedo, mas eu só consigo pensar em como a vida está sempre te colocando em meu caminho, no meio desse estádio cheio de pessoas eu fui guiada até você.

Mila pensou de maneira malcriada que na verdade o beijo de Lucy em Lauren tinha levado ela até ali. Mas isso eram só detalhes, ela podia notar claramente quando alguém estava se declarando pra ela. A questão era o que ela ia fazer.

Mila recuou sem saber o que responder aquelas palavras. Ela segura as mãos da cubana.

- Brooke eu-

- Por favor, Camila. - A loira interrompeu. - Meu deixe namorar você. Deixe-me fazer você ver que o que sinto é a coisa mais bonita que já nutri por alguém...

Mila sente um toque nas suas costas. Como ela não se mexe, Brooke se aproxima delicadamente Em seguida, se inclina e lhe beija. Primeiro de leve. Depois, lhe abraçando.

Tudo na vida é uma questão de perspectiva. Em uma fotografia, é a perspectiva da felicidade que nos faz rir de um momento gravado que geralmente é montado e cheio de "qual o melhor sorriso pra essa foto". É essa mesma perspectiva que nos faz chorar em filmes quando nosso subconsciente tem noção de que tudo aquilo é mentira.

Na perspectiva das câmeras do estádio, capturar beijos aleatórios aqui e ali, ajudaria a audiência a se sentir bem e acolhida respeitando todas as formas de amor. Então, a cerveja bebida pela metade, a multidão rugindo em volta de duas garotas que na perspectiva parecem apaixonadas, é tudo que eles precisam para enviar ao estádio. O problema da perspectiva é que ela depende da verdade e a verdade pode ser manipulada, dependendo dos olhos que a enxergam.

Era tudo uma questão de perspectiva.

A câmera foca em outro casal pelo estádio e providencialmente é quando Camila se afasta deixando seu instinto entra em ação, e não é o instinto que Brooke está esperando. Mila interrompe o beijo, e solta seu corpo.

- Eu preciso pensar.

Ela foge. Não quer pensar em nada.

Uma coisa que Camila não sabia... Lauren tinha visto tudo sob os olhos da TV no vestiário.

Uma coisa que ela ia ficar sabendo... O ciúme não tem compromisso com a racionalidade.

Uma coisa que ela não notou, aquele era o último dia de agosto. Faltavam onze meses.

Vcs depois desse pedido da Brooke

Normani 7, Lauren 27= 7/27 isso lembra a vocês alguma coisa?

Esse capítulo foi um dos mais difíceis que já fiz. Primeiro porque eu queria tentar me aproximar ao máximo da sensação que é estar em um estádio torcendo pra o seu time. Principalmente sob a visão da Camila que n é uma fanática, vi muitos vídeos de entrada de times, mas o que eu mais gostei foi dos jogadores de rugby da neozelandesa que ecoam cantos de guerra pra "assustar" seus oponentes. Espero que vocês tenham gostado de verdade, porque eu me senti tocada quando li depois e enquanto revisava, sentindo vontade de estar lá...

Nos estádios do EUA pode vender cerveja... Não estranhem esse fato.

E o pedido de Brooke a Camila, o que será q ela vai fazer? Tá mais que claro que o relacionamento de Lauren e Lucy também não vai durar muito, mas esse pedido pode virar a mesa? E o plano de Mike?

Próximo capítulo vocês terão uma parte dessas respostas...

Ahhh Camila e Lauren mais uma vez me matando de orgulho. As duas adeririam à campanha #elenão.

Esse é um papo que queria ter com vocês, não pra mudar o voto de ninguém, mas pra q vocês sejam conscientes. Em especial porque a ídola de muitos de nós, teve que ir embora do seu país por causa de um poder absolutista que limita a vida de todos até hoje na ilha de Cuba. Nenhum ditador antes de tomar o poder diz que é ditador, eles usam artimanhas, dizem ser Messias e prezam pelo bem da família e dos bons costumes. Mas dar o poder a alguém que nos inferioriza pode ditar a nossa vida nos próximos quatro anos ou mais. Sejam inteligentes, o futuro somos nós...

Eu só volto depois da eleição, espero com boas notícias.

Até mais galera!

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