17 - A tempestade de areia

Agora

Aiyra desistiu de tentar entender as estações fora da Vila. À princípio, pensara que elas mudavam de forma aleatória. Agora, no entanto, suspeitava de que tivesse alguma coisa a ver com o fato de estarem sempre se locomovendo. Haviam passado o inverno em Konutu e ela desejou que fosse ao contrário, pois a primavera em Kaajhir era extremamente quente.

Aquele lugar só tinha areia, pensava ela, nenhum verde para refrescar e aliviar a queimação que o sol escaldante provocava em sua pele. Não era à toa que a pele das pessoas naquele país era extremamente bronzeada, assim como a dos irmãos Gatif. A sensação era seca como levar uma resposta atravessada na frente de outras pessoas. Como passar horas no sol sem poder beber água.

Claro que, como qualquer outro lugar, Kaajhir tinha a sua beleza. Ela só queria ter chegado ali no inverno. Apesar de as cores estarem presentes nas roupas dos habitantes, seus tecidos não eram tão viscosos quanto os Konutu, mas neles haviam muito mais estampas, o que os tornava muito diferentes e diversos.

As casas eram de pedra e assumiam a cor quase vermelha da areia que predominava no chão. Muitas montanhas de igual tom os rodeavam. Elas eram gigantescas, estavam por todos os lados e pareciam de difícil acesso. Além das casas, havia uma construção que se assemelhava a um palácio de pedra. Ela nunca havia visto um, mas se existisse, era assim que seria.

- Que animais são estes? - perguntou Aiyra, de dentro da pequena carruagem.

- Camelos, nunca viu? - Respondeu Badika.

Junto com eles estavam Zyskla Fagten e Gisar Gatif, apertados e suados. Gisar havia se aproximado muito de Aiyra na estação anterior, a que passaram em Konutu. O país no qual entravam era de onde ele tinha vindo e prometeu para a mais nova amiga que seria o melhor dos guias turísticos. As suas duas companhias de sempre não gostaram muito da ideia. Era um lugar quente, numa estação quente e dividiam um lugar que já era apertado. Zyskla só queria chegar em algum lago para poder mergulhar e retirar o suor da viagem. Badika pensava nos animais e como deveriam estar cansados. Gisar, apesar de ser um homem muito grande e por isso uma enorme inconveniência, era o único que aparentemente não se importava.

Aiyra também estava incomodada com algumas coisas aqui e ali, mas se distraia com a paisagem e se consolava com o fato de já terem chegado a Kaajhir.

- Aquele é o Palácio de pedra onde mora a família real. - Gisar apontou para o grande monumento que era aquele lugar.

- Minha nossa! Deve ser mais difícil não se perder naquele espaço enorme que governar este país. - disse Aiyra.

Gisar riu.

- O rei não fica aí, apenas a família dele. - explicou.

- Por que separar o rei de sua família?

- É da nossa cultura e tradição mais sagrada que o rei more na província mais pobre. Ele necessita ver e sentir com os próprios olhos o que seu povo precisa, mas não pode dividir este fardo com a família. É algo que precisa carregar sozinho.

- Isto me lembra os Sábios Prudentos da Vila. Precisavam passar muito tempo longe de seus familiares para se dedicarem à sabedoria.

Silêncio por alguns segundos.

- É a primeira vez que você fala da Vila. - apontou Zyskla - Como era lá? Salvo a parte da fogueira, eu não entendi nada.

- Não há muito o que entender. - disse Aiyra, com um sorriso. - É muito natural quando você nasce lá, quando você vive lá.

- Então vocês não recebem pessoas de outros lugares? - indagou Badika - Por que Jasným foi aceita lá então?

- Não, não. Todos podem ficar na Vila. Acontece que ultimamente é mais difícil que alguém escolha ficar ali. Nunca havia visto isto acontecer, só ouvia histórias. Então Jasným escolheu isto. Ela foi a primeira que presenciei.

- Não me espanta que as pessoas não queiram mais viver presas num lugar tão ultrapassado. - comentou Zyskla em tom de ironia.

- Não me interessei em ficar naquele lugar, mas aprendi a respeitar as pessoas. - interviu Gisar -  Portanto, Zyskla, não fale assim. É uma falta de respeito e pode ofender Aiyra sem que você perceba.

- Tudo bem, Gisar. Na verdade falta a ela informação. - Então se virou para Zyskla - As pessoas não ficam presas, não sair é uma escolha.

A loira deu de ombros.

- Tanto faz, se não for física, é aqui. - e apontou para a cabeça com o dedo indicador.

- Entendo seu ponto de vista, mas não acha que a forma que levamos a vida com o Circo de Xalen nos coloca na mesma situação que estes habitantes da Vila? - perguntou Badika, sem tirar os olhos da janela.

- Sim, é o que eu estava pensando. - concordou Gisar, o cuspidor de fogo.

- Ah por favor! - interrompeu Zyskla - Olhem para nós! Nossos números, figurinos, tudo o que fazemos. Levamos show e espetáculo! Se não existíssemos estas pobres pessoas teriam apenas pão e tédio.

O vento começou a soprar muito forte em Kaajhir, bem por onde passavam. Ele chegou furioso, jogando muita areia do chão para o alto. Todos dentro das carruagens tiveram de se apressar para fechar as janelas. Os animais ficaram agitados e a viagem precisou ser interrompida por alguns minutos, pelo menos até que pudessem enxergar o caminho.

Dentro da carruagem, estava escuro agora que as janelas estavam fechadas. Assim que se aquietaram, Gisar concluiu o que ia dizer antes de ser interrompido.

- Uma linda prisão continua sendo uma prisão.

Ninguém falou mais nada pelo resto da viagem.

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Quando conseguiram erguer as lonas, com muito esforço por conta do vento, Pefrus a informou que durante esta estação treinaria malabarismo e equilibrismo. Assim que conheceu quem a ajudaria, sentiu saudades de Tásia e Tansie, as irmãs doçura. Seu trabalho ficara muito mais complicado com pessoas que pareciam não querer ajudá-la. Achou que, por ter perdido alguns centímetros de seu corpo no inverno de Konutu tudo agora seria mais fácil. Estava terrivelmente errada.

Precisou passar noites em claro treinado sozinha para que pudesse entender e ter mais consciência de seu próprio corpo, só assim conseguiria acelerar seu aprendizado que não estava lento, estava parado.

Desde que fora embora de vez da Vila, Aiyra ia aos poucos esquecendo-se de Nevere. Quando fizeram a primeira viagem, Pefrus havia dito que ela e o grupo dela iriam para outro lugar. Assim que viajaram, portanto, ela deixou de procurar saber da amiga. Talvez fosse muito por comodidade. Ou poderia ser medo do que fosse encontrar. Ainda assim, vez ou outra sua antiga melhor amiga voltava no meio da noite para assombrar-lhe os sonhos.

Passou-se várias semanas. Olhou para os céus e agradeceu a Kreinto depois de muito tempo. A primavera se retirava para dar lugar ao verão. Estavam indo embora.

Kaajhir seria marcado por muito suor literal e metafórico. Mesmo assim, fora bom conhecer um lugar onde o rei era bondoso e justo.

Aparentemente.

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