08 - Piada de muito mau gosto

Agora

Ela contou o que havia acontecido no dia anterior para Badika, que fez poucas perguntas. Estava mais focado em ouvir. Ele alternava seu olhar entre sua boca e seus olhos e isto a fazia se sentir um tanto invadida. Ele tinha uma enorme determinação e era tão seguro de si que a assustava um pouco. O único homem com quem estava acostumada a conversar, fora os de sua família, era Guinu. E este tinha sua inseguranças, era reservado e sempre esperava por ela para tomar certas atitudes pois respeitava a tradição. Isto a deixava com raiva e frustrada muitas vezes. Queria que ele demonstrasse um pouco de desejo e urgência em tê-la. Afinal, vez ou outra, por agir assim sozinha, ela parecia uma grande desesperada.

Badika era diferente. Tinha tudo aquilo que ela queria que Guinu tivesse, mas era uma coragem e atitude tão pura e crua que beirava o selvagem. Ainda que ele fosse apenas com palavras, ela se sentia sendo rodeada, mastigada e degustada até o momento em que ele estivesse afim de a engolir.

- Vocês realmente se divertiram ontem. Tiveram um dia muito melhor que o meu.

- Quando chegamos aqui, disse que estava distraído com muitas ocupações. O que estava fazendo?

- Então você se lembra disso.

- De algumas coisas, na verdade. Esta é uma delas.

- Bom, eu passei o dia escovando o pelo dos animais. Na verdade, até que foi produtivo, eles precisavam disto e eu de adiantar o meu trabalho. Uma pena foi você ter chegado quando eu estava cheirando a cachorro molhado.

- Cachorro molhado?

- Sim, cheirando mal, sabe?

- Eu não me lembro disto. Na minha  cabeça você cheirava normal.

- Então deve ser por este motivo que encostou sua cabeça no meu ombro ontem a noite.

- Ah, é... sobre isso, me desculpa. Fiz algumas coisas das quais me arrependo.

- Tudo bem, a bebida faz estas coisas. Mas, me responda. - ele passou a mão pelos cabelos dela - Você realmente se arrepende?

- Ãh, eu... Acho que não?

- Isto foi uma resposta ou uma pergunta? Me responda com sinceridade. Se arrepende?

- Não. - disse, firme.

Ele apenas sorriu e se afastou em seguida.

- Eu tenho um amigo que gostaria de te apresentar. - pegou a mão dela. - Posso?

Estranho, ela pensou. Pois era a primeira vez que ele pedia permissão para algo. Ela se levantou e foi com ele.

O lugar onde estavam era uma tenda de tamanho mediano. Havia muito feno espalhado pelo local. Não fosse a lona, poderia muito bem ser chamado de celeiro. Alguns cachorros dormiam por ali. Passou pelo lugar onde havia dormido, um amontoado alto de feno com alguma lençóis em cima e um tecido grosso sob o qual estava coberta. Lembrou-se de sua casa, de seu conforto. Parecia tão distante. Até aquele momento, não havia entendido como havia aceitado e pior, gostado de dormir em tal condição com algo tão melhor em casa.

- Este é Bruto. - disse, parando de frente para um enorme e imponente cavalo preto.

- Bruto?

- Sim, gosto de nomear os meus animais com adjetivos. Não é nada como Zyskla com Esme, mas é a forma que mais me agrada.

- Tudo bem. Por que ele se chama assim? Suponho, então, que seja muito bravo.

- Com toda a certeza. - o animal abaixou a cabeça e Badika começou a acariciar-lhe o focinho. - É de longe o meu preferido.

- Por quê?

- Para quem estava o tempo todo calada você tem feito muitas perguntas.

- Me perdoe, não quis incomodar.

- Pare com isto! Não precisa pedir perdão toda vez que alguém disser algo do tipo. Tome suas atitudes e aceite as consequências delas.

Neste momento, era como se ele tivesse a autoridade de um sábio ancião sobre ela. Era muito estranho ver uma pessoa claramente inexperiente sobre a vida corrigi-la assim. Mas engoliu seco, e aceitou.

- Você as vezes parece que me provoca, isso me deixa tão... - ele olhou intensamente para ela e passou a mão por toda a extensão de seu cabelo até as pontas. Então, como que saindo de um devaneio, balançou a cabeça e continuou: - Bom, Bruto é meu favorito porque fui eu quem o trouxe. Ele vivia comigo na minha terra natal. Quando eu era um bebê, ele era um bebê. Nós crescemos juntos e ele me livrou de muitas enrascadas. Hoje, temos praticamente a mesma idade, mas como é um cavalo, ele já está velho. É difícil pensar que enquanto eu estou apenas começando a viver de verdade, Bruto já está perto da morte. Nós nos desenvolvemos juntos, me parece injusto que ele não possa me acompanhar.

- Como você sabe que a morte dele se aproxima?

- Cavalos vivem de vinte e cinco a trinta anos. Provavelmente, quando eu estiver no meu auge, ele estará se preparando para partir. Soa como uma grande injustiça, não? Quem quer que seja aquele que instaurou isso, só poderia estar pensando numa piada de muito mal gosto.

Badika parecia tão vulnerável naquele momento. Aiyra não queria vê-lo daquele jeito. Não sabia o motivo, mas sentia uma necessidade de cuidar dele, de ajudar ele em qualquer que fosse a situação. Ela se aproximou, e tocou em seu ombro. Ele não pôde disfarçar o espanto. Ainda assim, menteve-se firme o suficiente para a ficar encarando. Ele sorria e aquilo tudo parecia um jogo, um desafio para checar até onde ela seria capaz de ir. Ele pousou sua própria mão sobre a dela, e movimentou apenas o dedo indicador pelo braço estendido para tocar seu ombro. Aiyra estava congelada, não conseguia se mexer tamanha a surpresa frente ao nível de atrevimento dele.

- Se quiserem que eu saia, é só falar. - disse Zyskla, se aproximando com o cabelo úmido.

Aiyra estava tão constrangida que suas bochechas queimavam. Sentia que havia sido pega em flagrante cometendo a pior das atrocidades e não adiantaria nem ao menos tentar se justificar. Se afastou rapidamente do rapaz. Este, por sua vez, olhou para a recém-chegada e perguntou:

- Banho quente logo pela manhã?

- Sim. - respondeu com um sorriso.

- Então vejo que você realmente se entendeu com ele.

- Eu não disse? Não há com que se preocupar. Aiyra pode ficar, ele só quer vê-la.

- Quem quer me ver?

- Alguém muito importante. Acho que você vai gostar dele.

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