07 - O dia seguinte a mais profunda vergonha

Agora

Aiyra sorriu, boba.

- Você é bonito. - se arrependeu imediatamente de ter dito isto, mas a aquela altura já tinha aceitado que não estava em pleno controle de seus atos.

Ele olhou para Zyskla, que deu de ombros.

- A gente se identificou, o que eu poderia fazer?

- Na verdade, ela não parece estar no seu melhor estado.

- Claro que está, você tinha que ver como ela estava travada antes.

- Acho que agora está solta demais.

Aiyra riu. Seus olhos estavam confusos, ela não entendia do que eles estavam falando exatamente. Badika então a pegou levemente pelos ombros e a guiou para um banco de madeira. Ela se assustou novamente com o toque repentino, mas não teve forças para protestar mais uma vez. Na verdade, apesar do susto, ela gostava quando ele chegava perto dela. Ao mesmo tempo que queria empurrá-lo, sentia vontade de pedí-lo para não parar. Não entendia este paradoxo, até porque não raciocinava direito no momento.

- Tudo bem, beba isto. - ele entregou um copo para ela, que bebeu sem pensar duas vezes.

A bebida não desceu queimando como as outras de mais cedo. Era água. Ela murmurou e resmungou uma reclamação que não fazia muito sentido. Badika suspirou, Zyskla caiu na gargalhada.

- Eu sei que foi muito divertido, mas chega por hoje, está bem? Já anoiteceu, nós precisamos descansar.

- Descansar? - ela perguntou, confusa e enjoada.

- E então, Zyskla, descansar? - Badika

- Mas é claro!

- E onde você pretende fazer isto? Já conversou com ele? - perguntou, com um tom de voz cada vez mais baixo. - Ele sabe que você trouxe uma desconhecida?

- Ela não é uma desconhecida. Nós nos identificamos, já não falei?

- Deixe de ser desequilibrada! - ele chegava perto dela de uma maneira que beirava o agressivo - Você sabe que isto não é o suficiente!

- Ah, não seja tão chato!

- O quê você acha que ele vai pensar disto?

- Com ele eu me entendo, você sabe como.

- Eu prefiro não saber, na verdade. -

- Badika, você está sendo exagerado. O que há demais em ela ficar aqui?

- Não sei, talvez porque provavelmente ela já tenha uma casa e pessoas procurando por ela.

- Está tudo bem, ela não mora aqui. Eu a encontrei perdida na Floresta do Encanto e ela sequer conhecia a cidade.

- Eu só quero que fique bem claro que não queremos o nosso nome envolvido em confusão pela cidade. Isso só dificulta o nosso trabalho, você sabe.

- Eu sei, eu sei. Mas não precisa se preocupar, está tudo sob controle, eu prometo.

- Assim espero.

- Então isto é um sim.

- Se 'sim' significar 'não me importune mais', então sim.

Ela pulou no pescoço dele e deu um abraço apertado. Aiyra apenas assistia aquilo, mas não entendia absolutamente nada do que eles estavam falando. Sabia, é claro, que ter um teto para dormir dependia de Zyskla convencer o rapaz bonito, mas o que dizia respeito ao trabalho deles era uma incógnita para ela.

Pensava consigo mesma, como era tão natural para Zyskla não só aceitar um contato tão íntimo como iniciá-lo. Ela fazia tudo parecer tão mais fácil. Queria ter a coragem que ela tinha, e a espontaneidade que ela exalava. Se tivesse um pouco mais de discrição talvez poderia ser considerada uma prudenta perfeita, pensou.

Enquanto estava perdida em seus devaneios, Badika se sentara ao seu lado e Zyskla a sua frente. Os dois conversavam e o clima agora parecia bem menos pesado que segundos atrás. Era como se ele nunca tivesse se oposto a ideia de ela estar dormindo ali. Quando olhou para o lado, percebeu como os ombros dele eram largos e desejou encostar a cabeça ali. Parecia tão confortável, aconchegante e convidativo que não pensou duas vezes. Repousou sua cabeça ali e fechou os olhos. Suas pálpebras já estavam pesadas há horas. Conversava cada vez menos. Então decidiu se entregar ao sono ali mesmo.

- Acho que alguém encontrou um travesseiro. - disse Badika, olhando para ela com um sorriso no rosto.

- Eu quero só ver como você vai conseguir sair daí. - disse Zyskla.

Os dois riram.

- Na verdade será bem fácil. Do jeito que ela está nem mesmo Esme a acorda.

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O ar aprecia molhado quando acordou. Era como se pequenas gotas de águas dançassem pelo ambiente, deixando ele mais úmido e gelado. A ponta de seu nariz, inclusive, parecia dura e tão gelada como um metal. A última coisa que queria era se levantar. Apesar de estar frio, se sentia aconchegada onde estava. O silêncio e o próprio cansaço que ainda sentia a faziam querer permanecer ali para sempre. Sem falar na sua cabeça. Esta latejava tanto que por um momento jurou estar sendo vítima de marteladas de alguém. O gosto na sua boca estava azedo e o breve enjoo que sentiu no dia anterior voltou com tudo. De repente, se viu obrigada a levantar, pois imaginou que se engasgaria ali mesmo com seu próprio vômito.

Abriu os olhos e se mexeu um pouco. Estava coberta e deitada num lugar diferente de onde dormira. Onde dormira? Se lembrou de um ombro largo, de alguém muito bonito e de como estava sugestiva na noite anterior. Sentiu uma profunda vergonha. Planejou evitar o rapaz para sempre mas já era tarde demais. Ele estava acordado e bem na sua frente.

- Olá. Você dormiu bastante. Quer ajuda para levantar? Deve estar morrendo de dor de cabeça.

Já sentiu em algum momento da sua vida uma vergonha tão grande que desejou desaparecer? Pois bem, leitor, era desta forma que Aiyra se sentia naquela hora.

- Sim, obrigada. - Ela falava quase num sussurro e fez uma careta.

- Ah não, aqui não.

Então a pegou no colo e a levou para o lado de fora rapidamente. Ela não sabia o que achar desta atitude. Gostou de ser pega no colo, mas talvez a forma bruta como ele agia a pegava de surpresa e a deixava um tanto desnorteada não de uma forma boa.

Quando chegou longe o suficiente, deixou ela no chão, de pé e disse:

- Agora sim, Aiyra, pode vomitar aí.

- Como sabe meu nome?

- Zyskla me contou ontem a noite.

- Ah, sim. Bom, eu não quero... - sentiu a conta do dia anterior vir com tudo de seu estômago até a boca.

Tapou os lábios com a mão e saiu correndo para não sujar Badika. Quando chegou numa distância segura, despejou tudo o que precisava e mais um pouco no chão. Assim que acabou, sentiu um enorme alívio e quis se deitar um pouco. O rapaz a olhava de longe com um sorriso de satisfação no rosto.

- O que você disse? - caçoou quando ela voltou - Que não queria o quê?

Ela riu, um tanto embarassada. Ele a levou para dentro, entregou para ela comida e deu de beber. A todo momento ele a observava, Aiyra achou um tanto invasivo mas não reclamou. Gostava de ter atenção.

- E então?

- Sim?

- Está se sentindo melhor agora?

- Claro, muito obrigada.

- Qualquer coisa por você. - respondeu. - Me chamo, Badika, à propósito. Badika Dami. É um prazer conhecê-la.

Ela estranhou imediatamente. Eles acabaram de se conhecer, como ele poderia jurar lealdade para uma menina desconhecida?

- Você é quieta. Isto é intrigante, parece que me provoca.

- Me perdoe, não foi a intenção.

- Eu sei. - disse rindo - É este fator que a faz intrigante.

Ela não soube como responder.

- Mas me conte. - continuou - Como veio parar aqui?

- Você sabe, Zyskla me trouxe.

- Sim, sim. Mas o que você e ela aprontaram ontem? - ele se inclinou para frente. Parecia realmente curioso.

Os olhos determinados de Badika deixaram bem claro que ela não escaparia de lhe dizer aquilo que ele quisesse saber.

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