06 - Mau humor na biblioteca

Antes

O lugar onde acabavam de entrar era cheio de livros até o topo, que se estendia tanto a ponto de dar dores no pescoço de quem se atrevesse a seguir o trajeto de obras literárias com o olhar. As prateleiras eram douradas e havia uma grande sala com assentos que Aiyra não sabia ao certo, mas pareciam-lhe muito confortáveis. Três ou quatro anciãos estavam na sala naquele momento e olharam para ela com estranheza quando entrou. Os jovens desprezaram há tanto tempo aquele lugar que os Sábios Prudentos passaram a gostar do fato de a biblioteca não ser frequentada por eles. Não os entenda mal, eles não repudiavam totalmente. Quero dizer, alguns sim. Mas isso é uma outra história.

Acontece que, diziam os boatos que Pogdê, quando completara duas décadas, há mais ou menos um século, entrara na biblioteca depois de exagerar na bebida fermentada que era servida na praia, após a Festa das Abelhas. Dizem que ele ficara tão alterado que havia tirado toda a sua roupa bem ali, no meio do salão, na frente de alguns anciãos. O escândalo não foi pouco. Os pobres sábios ficaram aterrorizados. Aquela era a última coisa que queriam ver naquele dia, ou em qualquer dia para falar a verdade. Seu irmão mais novo fora o único que, vendo aquela cena, cobriu sua nudez e o levou para casa. Os outros dois mais velhos apenas riam e zombavam, estavam um tanto alterados eles mesmos. A ironia desta história toda é que Pogdê preparava-se para tornar-se ele mesmo um ancião, assim que completasse seu século de vida. O mundo de fato dava voltas.

Apesar de estar ciente de que, desde aquele incidente, os mais novos não eram tão bem-vindos ali - principalmente em dia de Festa das Abelhas - Ayira tentou evitar os olhares mal encarados dos Sábios Prudentos ali presentes.

Enquanto ela tentava agir com naturalidade e contava os segundos para sair dali o mais rápido possível, senhor Rerovius consultava no armário das listas onde estava o livro que queria mostrar. Aquele armário nada mais era que uma salinha invisível, que ficava dentro de um armário, onde era preciso apenas dizer o nome do livro para que o abaetê ali presente respondesse onde o livro se encontrava. Aiyra torcia para que o abaetê estivesse de bom humor naquele dia.

Os abaetês costumavam ser mal-humorados e rabugentos. Talvez fosse o excesso de trabalho que tinham quando os prudentos não deixavam os livros no lugar correto. Então, precisavam usar suas asinhas para colocar de volta os exemplares onde pertenciam. Era uma espécie de pássaro pequeno e gorducho, com mãos humanas e pés um pouco maiores que o normal para auxiliarem no trabalho. Apesar do tamanho, tinham muita força e conseguiam carregar grandes exemplares de uma vez só. Costumavam sair apenas para fazerem o seu trabalho, todavia, durante o episódio de Pogdê, aquele abaetê não conseguiu deixar de dar uma espiada, o que o fizera arrpender-se imediatemente. Toda vez que precisava deixar o armário para colocar um livro de volta no meio do dia, ficava estressado e receoso se iria encontrar um outro show de horrores acontecendo. Naquele dia, precisou sair no mínimo umas três vezes, o que o deixara extremamente rabugento.

- Por que me perturbas, senhor Rerovius? - perguntou Yubá, sem nem ao menos levantar os olhos do livro que estava lendo.

- Gostaria de encontrar um livro, meu querido Yubá. - respondeu. Nunca deixava-se abater pelo mal-humor alheio, sempre soube contorná-lo muito bem desde pequeno quando precisava lidar com as constantes brigas de seus pais.

- Título e autor, por favor. - os óculos daquele abaetê pendiam enormes e não se mexiam um centímetro sequer.

- Na verdade, gostaria que me ajudasses com o vasto conhecimento de abaetê, que sei que tu tens, a encontrar um exemplar sobre o povo de fora da vila. - solicitou, com o sorriso terno que nunca deixava seu rosto.

O abaetê Yubá remexeu todas as suas penas douradas quando ouviu o que o sábio ancião tinha a dizer.

- Seção T, coluna A, prateleira vinte. - respondeu, franzindo as peninhas que formavam suas sobrancelhas.

- A número vinte é muito alta, como irei alcançar se não tenho asas? Uma prateleira contém muitos livros, como irei saber qual é o certo? - os dedos do ancião estavam entrelaçados e repousavam na direção de seu estômago.

- A Festa das Abelhas está para acontecer. - o abaetê levantou finalmente seus olhos do exemplar que lia e encarou o sábio. - Se o senhor vier depois prometo estar num melhor humor para auxiliá-lo.

- Prateleira vinte será então. - disse senhor Rerovius, virando-se para sair dali.

Yubá suspirou e balançou a cabeça para os lados lentamente. Logo a seguir, voltou-se para a sua leitura.

O sábio prudento encontrou Ayira no meio do caminho e levou-a até a seção T, coluna A. Quando chegou, lá estava o abaetê, pendurado na prateleira vinte, procurando pelo livro solicitado. Rerovius não conteu o breve sorriso que deu ao encontrar Yubá ali antes mesmo que ele chegasse. Sabia que o melhor argumento seria contar com a ideia de que ele poderia bagunçar a biblioteca ao procurar pelo que queria. Abaetês não suportam bagunça.

Ayira olhava admirada para a criatura que estava ali. Nunca havia visto um abaetê em toda a sua vida, salvo por ilustrações que seus avós a mostravam desde pequena nos livros que usaram para educá-la. Agora, estaria por conta própria na hora de buscar conhecimento e saber disto a assustava um pouco. A biblioteca era tão grande que temia nunca saber por onde começar.

Yubá voltava-se para perto de senhor Rerovius, mas seus olhos estavam fixos em Ayira. Suas asas batiam devagar e com força para diminuir sua velocidade na aterrissagem e o vento que elas provocavam fazia o cabelo de Aiyra e as sobrancelhas do sábio balançarem.

- Não me disse que se tratava de uma jovem. - disse o abaetê quando finalmente chegou ao chão. De fato a prateleira vinte era muito alta. - É muita audácia de sua parte trazê-la aqui em pleno dia de Festa das Abelhas.

- Tenho plena certeza de que Ayira saberá se comportar. - assegurou e pegou das mãos do abaetê o exemplar que tanto procurava.

Ele se aproximou e começou a cheirar a menina muito de perto.

- Senhor, não estou embriagada, se é o que pensa. - ela piscava seus olhos rapidamente e sua respiração estava mais ligeira, também seus batimentos cardíacos.

- Que seja! Apenas não baguncem a biblioteca. - suas asas começaram a bater. - Voltarei para a minha sala. Adeus.

- Até, meu querido Yubá. Fostes muito gentil por ajudar-nos. - Rerovius falava mas o abaetê já estava longe dali.

- Ele sempre age desta maneira? - perguntou ela, um tanto indignada.

- Abaetês podem ser bem rabugentos, creio não ter sido nada pessoal. - ofereceu o braço para ela. - Te importas de me acompanhar novamente?

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