03 - Que a curiosidade não nos mate
Agora
O caminho até a cidade era relativamente longe mas Esme não parecia se cansar nunca. Entre a pele do animal e as pernas das meninas estava um grande tecido rosa com alguns detalhes em dourado, e na ponta dele tinha grandes franjas douradas que quase chegavam até o chão. Estava bem quente e o sol tocava pelando suas nucas. Apesar disto, o fato de estarem se movimentando, ainda que lentamente dava um certo alívio e a roupa que Aiyra usava era bem mais fresca. Havia uma fenda nos lados do vestido que as permitiam montar no elefante. Não sabia como iriam descer, mas sentia que Zyskla já estava acostumada com isto e saberia exatamente o que fazer.
No chão, estava um caminho marcado por terra no qual elas seguiam. Dos lados, grama e alguns arbustos. De longe era possível avistar alguns lugares diferentes para Aiyra, algumas construções ali pela esquerda, umas casas diferentes, fumaça saindo de chaminés. E pela direita havia apenas verde. À frente era possível ter alguns vislumbres do que era a cidade. Zyskla cantou algumas canções no caminho. Sua voz era doce e singela quase como se pudesse mudar o clima e deixar tudo gelado. Estava cansada e não prestava muita atenção, mas Aiyra sentiu que uma delas em específico grudara em sua mente. Eis o que ela cantava:
Eu e você não importa a idade
Liberdade, liberdade
Vagamos pela cidade
Liberdade, liberdade
Em busca pela verdade
Liberdade, liberdade
Que a curiosidade não nos mate
Liberdade, liberdade
A melodia desta tinha um tom de melancolia. Diferente das outras que eram apenas alegres e agradáveis de se ouvir. Agradeceu por estar claro, pois se já fosse noite, sentiria medo.
Um calafrio passou pelo seu corpo, que tremeu por inteiro. Zyskla percebeu e olhou para atrás. Ela estava sorrindo, mas havia algo no sorriso dela que não tinha um pingo de felicidade. Na verdade, havia um certo desespero naquele sorriso conturbado.
A próxima hora que se passou foi marcada pelo silêncio. Aiyra sentiu que dormia de vez em quando, então quando estava prestes a cair para o lado, despertava.
- Chegamos. - disse Zyskla, cutucando a outra com o cotovelo pois pensava que ela ainda cochilava sentada.
Não dormia, mas estava numa espécie de limbo entre adormecida e desperta.
A moça de vermelho sinalizou algo para Esme, que se abaixou um pouco, diminuindo bastante a distância entre elas e o chão. Então ela deslizou para o lado e desceu. A outra ficou um tanto confusa em como iria fazer aquilo.
- Vamos, Esme está esperando!
Ela não queria ficar em cima da elefante para sempre, então apenas tentou imitar o que acabara de ver. Não foi tão perfeito, desceu cambaleando, mas enfim desceu e estava com seus pés em terra firme. Era boa a sensação de poder controlar seus passos novamente.
Quando viu onde Zyskla havia amarrado a corda que era para segurar o elefante ali, Aiyra se assustou.
- Acho que essa madeira não vai aguentar se ela tentar sair.
- Ah, não! Ela não vai sair, isto aqui - apontou para a corda - é meramente simbólico.
- Como assim?
- Simples! Está tudo aqui. - disse, apontando para a cabeça. - Ela foi treinada para pensar que está presa. Fique tranquila, Esme é uma boa garota. - Ela olhou para o animal - Vai se comportar.
- Tudo bem então. Onde você pretende me levar?
- Pensei que não estava prestando atenção em nada que eu disse na viagem.
- Me lembro de uma coisa ou outra.
- Muito bem então, me siga. - pegou uma pequena bolsa que estava num dos compartimentos ligados ao elefante. - Você precisa se animar um pouco.
O lugar onde estavam era diferente de tudo o que Aiyra tinha visto. A começar pelas inúmeras construções de madeira. As árvores na Vila eram sinônimo de proteção e provisão, nunca cogitariam derrubá-las para levantar esse número de casas. O uso delas era restrito para quando fosse extremamente necessário, como na grande biblioteca.
Além das casas, haviam muitas pessoas com vestimentas muito diferentes das suas. Pensou que com uma roupa emprestada conseguiria se enturmar, quando na verdade estava chamando mais atenção do que se estivesse com as peças que saíra da Vila. Ela e Zyskla se destacavam. Constatou naquele momento que realmente ela era de outro país.
Inclusive, o elefante como meio de transporte não era algo normal. Esme chamava bastante atenção, mas ninguém ousava perguntar ou tirar satisfações.
Conforme elas andavam na rua, percebeu Zyskla acenando para alguns homens desconhecidos. Um deles pareceu gostar delas e as convidou para segui-lo. Havia algo no olhar daqueles homens que era diferente, uma inclinação na postura que mostrava certa altivez. Enquanto as mulheres que via, em sua grande maioria estavam acompanhadas, e andavam um tanto cabisbaixas, como se não tivessem orgulho de quem elas eram. Imediatamente, sentiu uma pressão enorme por estar ali e, principalmente, por chamar a atenção.
Aquele que as chamara entrou num lugar que se chamava Bar da Dourada. Aiyra perguntou o porquê e Zyskla disse que eles provavelmente são especialistas em cerveja. Também não sabia o que era isto, mas não quis perguntar. Teve medo de estar sendo inconveniente demais.
A partir do primeiro momento em que pisou ali, ela desejou ir embora. Haviam apenas homens que falavam embolado e riam alto. Os olhares deles para elas quando entraram também não foram dos mais amigáveis. Eram como personificações de lobos e elas as presas. Além de não entender nada, não sentia à vontade ou desejada naquele lugar. Era como se tudo o que estivesse ali estivesse a expulsando, até mesmo o que não tinha vida.
- Vamos embora.
Desde o primeiro momento em que conhecera Zyskla, Aiyra havia se comportado como uma boa menina obediente e se deixado levar a fazer coisas desconhecidas que a deixavam com medo. Contudo, naquele momento, sentiu toda a sua força e verdadeira personalidade voltar à tona e se posicionou. Nunca havia sido tão firme desde que saíra da Vila. Apesar de ter visto determinação em seus olhos, a outra não se abalou.
- Ah, não seja tão chata. Ele vai pagar para nós duas. Você não pode recusar, deve estar morrendo de sede.
Então ela assentiu e se calou. Tão rapidamente veio a força e determinação, tão logo ela foi embora. Evaporou pelo simples desejo de saciar sua sede e suprir sua necessidade momentânea.
Assim que chegaram perto do balcão, o homem entregou um copo cheio de uma bebida dourada para cada uma. Aiyra deu o primeiro gole. Apesar de amargo, satisfazia sua sede, e estava tão gelado que era difícil recusar a sensação de frescor em meio ao calor que fazia. Então ela deu outro gole e assim foi até terminar o copo.
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