Capítulo Três
- Moça, posso me sentar aqui? - perguntou uma senhora de idade, apontando para o banco à minha frente. Assenti, voltando a prestar atenção na paisagem lá fora. - Esse frio de Seul acaba comigo - sorriu, cruzando os braços.
Sorri apenas por educação, concordando com a mulher. Juro que às vezes não aguento escutar a voz de ninguém. Já me acostumei a ser sozinha, e nem tento socializar. Nunca fui de socializar muito.
- Deixa eu te perguntar algo. Conhece aquela moça de cabelo castanho claro? Ela usa óculos redondos e sempre está com um sobretudo e roupas formais - encarei-a, franzindo o cenho. - Conhece?
- Por quê?
- É a minha filha. Ela me deixou sozinha há algum tempo, procurei por ela desde então, mas nunca a encontrei.
- Qual é o nome dela? - perguntei apenas para ter certeza de que era parente da Jennie mesmo.
- Kim Jennie. O nome dela é Kim Jennie. Fui eu que a batizei assim - sorriu, orgulhosa.
- Hum, nome bonito, mas eu não a conheço, senhora. Não posso te ajudar - respondi, fria.
- Oh, ok! Obrigada, de qualquer forma. Minha estação, com licença! - sorriu, levantando-se e indo até a porta após escutar o anúncio que ecoou pelo metrô.
Suspirei, pensando sobre o que havia acontecido, e encarei a senhora saindo do metrô rapidamente assim que as portas se abriram. Quem era ela? Mãe da Jennie? Ela não parecia nada com a Jennie. Será que ela é adotada? Isso está muito estranho.
Olhei para o meu relógio no pulso e vi que já passava da meia-noite. Observei as portas, aguardando a Kim chegar, mas nada dela. De repente, quando a porta estava quase fechando, ela entrou correndo, atrasada. Acabei sorrindo discretamente ao vê-la toda desajeitada, procurando um lugar para sentar. Assim que seus olhos focaram em mim, murchei meu sorriso e voltei ao meu semblante neutro de sempre.
- Boa noite, Manobal! - desejou, aproximando-se de mim. - Me sinto sozinha, você é a única pessoa que eu conheço - reclamou, sentando-se à minha frente, cruzando as pernas e os braços.
- Isso é ruim?
- Não, claro que não. Pelo menos eu conheço uma pessoa - sorriu levemente, sem mostrar os dentes. - Ah, tenho algo pra você - mexeu em sua bolsa, pegando um objeto retangular e um pouco grande. - Segura a sua bolsa, eu vou te ajudar a mexer nele - mandou, colocando minha bolsa no meu colo e sentando-se ao meu lado.
- O que é isso? - perguntei, quando ela me entregou o objeto.
- Um celular. Nele tem tudo: internet ilimitada, aplicativos, redes sociais, e o mais importante: K-pop - contou nos dedos. - Liga ele. É no botão que está na lateral.
Ao ligar o aparelho, deparei-me com um relógio no meio da tela, marcando o horário. Meia-noite e meia. Não demorou muito para Jennie começar a me explicar como usar, e logo fui pegando o jeito e conseguindo mexer nele sozinha.
- Agora, deixa eu te mostrar o clipe de um boy group global. Eles revolucionaram a história do K-pop internacionalmente - pegou o celular, colocando o vídeo que queria, mas antes de dar play, tirou um fone da bolsa para usarmos no aparelho. - Aqui, segura!
O clipe era bem feito, de ótima qualidade, e a música também era muito boa. O nome da música era "Fake Love" do BTS. Já escutei esse nome pelo metrô, mas nunca soube que se tratava de um grupo de K-pop famoso internacionalmente e nacionalmente.
Pausei no momento em que apareceu um rapaz muito familiar. Acabei arregalando os olhos e entreabrindo um pouco a boca. Era o homem que me deu a maldição, aquele filho da puta que me impediu de sair desse metrô.
- O que foi? Ficou chocada com a beleza dele? Seu nome é Jeon Jungkook, mais conhecido como Jungkook, JK, Kookie ou Golden Maknae - contou nos dedos, mas não consegui encará-la, já que estava surpresa em saber que ele era de um grupo muito famoso. - Lisa?
- Ele é normal? Não é um demônio ou sei lá? - olhei para ela, franzindo o cenho.
- Não! Ele é um ser humano muito fofo e carismático, ok? Não fale isso dele de novo.
Engoli seco, olhando para o celular de novo e desligando-o em seguida, processando o que havia descoberto agora pouco. Esse desgraçado... Por que fez isso comigo?
Cerrei meus punhos com força.
- Você tá bem? Parece preocupada e bem estressada. Se continuar forçando sua mão, suas unhas vão rasgar sua pele.
Olhei para ela, relaxando minhas mãos e sentindo meu coração aquecer com seu olhar tão marcante. Eu deveria contar a verdade para ela? Será que ela ficaria com medo?
- Aconteceu alguma coisa? Por que está me olhando assim?
- Uma mulher veio te procurar hoje - disfarcei, olhando para frente, mas ficando nervosa com seu olhar sob mim ainda.
- Que mulher?
- Ela dizia ser sua mãe, mas era muito diferente de você, então não acreditei no papo dela.
- Que bom, porque minha mãe morreu quando eu tinha dez anos. Aquela mulher certamente era alguma das putas do meu pai. Aquele desgraçado quer me matar, só pode.
- Quem é o seu pai?
- Lee Kim Yeongsu. Na verdade, não o considero pai. Ele já me fez sofrer muito. Típico relacionamento abusivo entre pai e filha, onde o pai obriga a filha a tirar dez e quer mandar nela como se ela fosse uma fantoche. Ele achava que minha vida era a vida dele. Por isso não tenho amigos, já que segundo ele, amigos iriam me distrair dos estudos.
- E por que ele tá te procurando?
- Eu fugi de casa pra fazer faculdade de moda. Ele queria que eu fizesse medicina, mas eu não. Cansei de ser manipulada por ele.
- Fez bem. E se ele vier aqui, pode deixar que eu cuido dele. Dele ou dela. Não sei quem vai vir. Mas, de qualquer forma, tome cuidado, normalmente esse tipo de pessoa é nazista ou fascista, e se você não é como ele, é morte na certa.
- Ei, para de me assustar. Vou ter que dormir na sua casa agora, estou com medo - empurrou de leve meu ombro. - Muito obrigada por me lembrar disso, Lalisa Manobal! - fez beicinho.
Se ela soubesse que não tenho casa, seria um choque enorme para ela.
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