ஜ|Capítulo 03|ஜ


Miranda chegou ao Atol. Antes de caminhar até Flávio, que estava deitado na areia observando as estrelas, olhou à sua volta. Viu ao longe a cabana de madeira do IBAMA sobre pequenas colunas de sustentação, rodeada por tela de proteção contra insetos e, um pouco à frente, uma estação de painéis solares.

Na outra ponta da ilha, viu as ruínas de uma casa e um farol. Essas eram as únicas construções que havia na Ilha do Farol. Ao chegar mais perto, Flávio notou sua presença. Ela sentou e deitou ao seu lado, permaneceu em silêncio até que o ouviu iniciar a conversa.

— Estou feliz em te ver de novo. — Ele virou o seu rosto para Miranda.

— Eu também. — Ela virou o seu rosto para Flávio.

— Irracionalmente feliz... — Iluminou o olhar com um sorriso leve.

— A situação é bem irracional... — Prendeu os lábios.

— Vir aqui e saber que tem alguém, não sei... não sei explicar. — Franziu a testa. — Eu tenho muitas pessoas na minha vida, mas eu acho que você me acalma. Estou ficando viciado nisso aqui.

— Isso é bem louco, mas eu te compreendo. — Sorriu. — Estou vivendo a mesma doideira.

Flávio segurou a mão de Miranda, trouxe aos seus lábios e beijou. A maneira de sentir naquele plano gerava apenas uma sensação intensa, assim, aquele beijo que parecia despretensioso, mas não era, a trouxe uma conexão afetiva que jamais sentiu.

O movimento da mão de Flávio com carinho e delicadeza, ainda que apenas na performance de um toque, afagou diretamente sua alma. Duas energias, representando a si mesmas em suas formas corpóreas, em suas estruturas carnais, onde tudo é mais profundo e explode causando um grande impacto.

Os sentidos do corpo despertavam, embora o contato não pudesse ser experimentado. A espiritualidade se provava palpável e tão real quanto o físico. Aquele toque, ultrapassou um gesto simbólico de afeto, abrindo as portas de para um desejo vivo.

— Obrigado por vir... — agradeceu num sussurro rouco.

Ela soltou a mão dele e pigarreou. Flávio fingiu tossir e liberou uma gargalhada contagiante. Miranda balançou o rosto negativamente sem acreditar em como estavam se comportando. O momento era tão surreal que os levou a encarar a situação de uma maneira descontraída.

— Desculpa pela intensidade, parece que não tenho domínio das coisas por aqui, é tudo muito potente. — Passou a língua no lábio inferior e em seguida o prendeu nos dentes.

— Tudo bem. — Sorriu e virou o rosto para o céu, depois olhou novamente para Flávio que a olhava. — Que foi?

— Você é linda... — Miranda soltou a mesma risada que surge em seu ouvido durante o dia. — O som da sua risada me deixa tão feliz, é viciante te ver se acender com um riso tão alegre.

A médica pigarreou novamente, observando que ele diminuía a distância entre os dois. Seu sorriso foi se desmanchando ao abrir espaço para a maior onda de calor que percorreu seu corpo. Ela sentou disfarçando antes que Flávio alcançasse seu rosto, e arrumou os cabelos para assistir ao sol.

No céu, a lua sumia com a claridade do Astro Rei chegando. O guarda sentou ao seu lado e assistiu no horizonte as nuances de amarelo despontarem. A luz clareava as águas cristalinas do Atol que estavam escuras a pouco. Se deixaram ser tocados pelo calor frio do sol naquele horário, até ele se exibir por completo.

— Está na minha hora — avisou quando estava prestes a despertar.

— Te espero nos meus sonhos...

Miranda acordou num pulo. O olhar marcante de Flávio ainda era uma imagem nítida em sua memória. Abriu a boca e ficou por alguns segundos com um ar de espanto no rosto. Para ela, a noite passada foi um grande e delicioso devaneio.

Pegou na mesa de cabeceira o diário de capa aveludada, que tinha o nome "sonhos" escrito em letras douradas, e anotou tudo que lembrava da noite passada com um brilho saudoso no olhar. Jogou o lençol para o lado, descobrindo as pernas e foi se preparar para o seu dia de trabalho.

O apartamento que mantinha servia mais como dormitório. Durante o dia, usava o curto tempo que tinha para ir à casa onde cresceu. Ainda que não vivesse mais na residência dos pais, sempre que entrava pela grande porta de jatobá, sentia o gosto de lar.

Apesar do frisson que era ter casa própria, quando morava com Renato e até mesmo agora, não ocorria o mesmo. O que julgava ser estranho, não se sentir em casa onde residia.

Diariamente almoçava com os pais. O cheiro úmido de limpeza e comida que vinham da cozinha era o mesmo de sempre, o inconfundível barulho da máquina de lavar na área de serviço estava sempre lá, assim como, a cerâmica antiga do banheiro que nunca foi substituída; tudo isso reforçava essa percepção de pertencer àquele lugar.

Atravessou a sala seguindo a voz do seu pai resmungando no quintal. Sua mãe e Val reviravam os olhos para Iuri. Ele se queixava das crianças da casa de trás que quando jogavam bola, sempre caia em cima do seu canteiro de hortaliças, machucando as plantas.

— São só crianças, Iuri. — Alma falou com sua voz delicada, a qual Miranda herdou.

— Crianças precisam de limite, Alma. Sua filha não cresceu jogando bola no quintal das pessoas, já não somos jovens. E se uma bola dessa bater na cabeça de alguém aqui? Nos todos aqui, usamos o quintal, pode acontecer.

— Como vai controlar sua pressão se está sempre irritado, pai? — questionou Miranda surgindo na porta da cozinha.

— Como não tem hora certa, começamos sem você, Miranda — justificou Val, a governanta da casa, sobre já terem iniciado o almoço sem a presença da médica.

— Eu entendo. Não precisa se preocupar, meu amor. — Beijou a cabeça de Val, que tinha cabelos tão loiros que beirava o branco.

A governanta, que estava na família desde que Miranda nasceu, foi sua babá até que fosse uma criança independente. Nesse período, o casal Amorim criou um laço forte com a funcionária, assim como Val, que nunca se interessou em casar e ter filhos, ou mesmo morar com os parentes.

Devido ao vínculo criado nos doze anos de convivência, foi nomeada governanta da casa quando já não existia espaço para os serviços de babá. Na época, Alma não precisava de alguém como governanta, pois conseguia administrar bem a casa, ainda que trabalhasse exaustivamente no consultório. Apesar disso, ficou aliviada em delegar essa função e manter Val por perto.

Hoje, o casal estava em seus setenta anos e a governanta era mais necessária que nunca. Mesmo que Miranda seja uma filha presente, ela estava ali como um membro valioso daquele lar, sendo considerada alguém da família.

Alma e Val possuem temperamentos muito parecidos e sempre que estão juntas, as pessoas perguntam se são irmãs. A semelhança não é muita, Val é albina, tendo incríveis olhos azuis. Alma não tem a pele tão clara e há muito tempo, desistiu de tingir os cabelos, sob os protestos de Iuri. O que realmente as tornam tão semelhantes é o sorriso amoroso, o mesmo que Miranda espalha pelo mundo.

— Às vezes penso que Val deveria ser seu pai, já que eu recebo a reclamação e ela ganha o beijo. Sem contar que não desgruda da Alma um só minuto.

— É impressão minha ou o senhor até está reclamando menos hoje? — ironizou em tom de brincadeira. — Tem que ter dois bons pares de ouvidos mesmo para ouvir suas queixas o dia inteiro — falou se divertindo antes de dar um beijo na cabeça branca de seu velho pai.

Miranda não perdia a oportunidade de estar na companhia dos três por nada e por ninguém. As bobagens do seu pai e as conversas sobre bordado de Val e sua mãe, eram tudo o que ela precisava para sua vida ficar melhor.

Almoçou assistindo-os em silêncio. Após alguns minutos, Iuri levantou da mesa e disse estar na hora de assistir ao jornal. Em outras palavras, significava que iria dormir na cadeira de balanço, enquanto a televisão falava sozinha no volume máximo.

Miranda pegou a faca e brincou com um grão de arroz solitário no prato. Val e Alma sorriram olhando uma para outra, observaram o olhar perdido e alegre dela, ao tempo que fatiava o grão em quatro pedaços, antes de ser chamada de volta à conversa.

— Parece que Renato foi substituído. — Val brincou.

— Pelo brilho no olhar... é muito especial — reforçou Alma.

— O que as duas estão falando? Renato não precisa ser substituído, faz tempo que ele não mora no meu coração. — Pôs a mão no peito e sorriu. — Somos só amigos e nem tem como deixar de ser, conhecemos as mesmas pessoas — explicou, afundando o pescoço entre os ombros.

— Tá bom..., mas quem é o sortudo? — quis saber Alma.

— Não tem nenhum sortudo, meu amor — disse apertando as bochechas da mãe e saindo para levar os pratos até a pia. Voltou para recolher o resto da louça suja e saber do que seria o principal em seu almoço. — Alguma sobremesa?

— Doce de caju — respondeu Val.

— Isso é um sinal divino, significa que algo maravilhoso vai acontecer — falou empolgada.

— Você sempre diz isso, Miranda! — Risonha, Alma lembrou.

— E não é verdade? Vou pegar a metade de um caju e saborear divinamente... — Sorriu.

— Só a metade? — espantou-se Val.

— Claro! Preciso enganar a balança, já não sou uma mocinha. — Apontou os suaves pés de galinha no canto dos olhos.

— Olha só, Val! Que mentirosa! Tem mais jeito de menina agora do que quando era uma criança. — Olhou apaixonada para a filha.

— Dou total razão à sua mãe. — Olhou de forma carinhosa para Miranda.

— Vocês são duas babonas, isso sim! — respondeu, engolindo a última mordida do caju.

Deixou o pires e a colher sobre a pia, pegou a bolsa na cadeira, se despediu com um abraço rápido nas duas e saiu apressada para o próximo plantão.

O horário de almoço da médica sempre era corrido. Ir de um hospital a outro demorava muito e Miranda não era uma motorista das mais velozes, o que não ajudava a ganhar tempo no trânsito. Alma e Val olharam uma para a outra quando ela saiu da cozinha, sorriram satisfeitas por ver que ela estava um pouco mais animada.

No último ano, andava cabisbaixa e triste pelo ocorrido com a paciente que foi a óbito em suas mãos, na sala de cirurgia. Val e Alma sentiam muito o peso do desânimo da médica por não se perdoar de ter cedido à pressão do diretor e ter ido trabalhar, além de no laudo médico ocultar a lesão da bebê.

— Você também percebeu que ela está mais animadinha? — perguntou Alma.

— Sim. É um alívio para o meu coração. Ela não se perdoar dessa forma estava acabando comigo.

— Comigo também. — Suspirou fundo. — A situação que ela estava no dia... muito nervosa. Foi um alvoroço. Esse diretor é um calhorda! Gente da pior espécie! Forçar alguém a trabalhar em algo tão delicado sabendo que a mãe está na sala de cirurgia com uma fratura na bacia... — O rosto de Alma se misturava entre indignação e desprezo. — Condenou minha filha, uma mãe e um anjo — Os olhos transbordaram em lágrimas, passou a mão na pele enrugada pelos seus setenta e três anos e enxugou na manga do vestido listrado.

— Tem coisas que só o tempo cura, minha amiga.

No Atol, Zezinho se balançava na rede, ouvindo o rangido do punho roçando no gancho que a segurava. Também ouvia as ondas quebrarem no mar com o vento forte, e as aves marinhas da espécie dos Atobás que cercavam a cabana, interagindo umas com as outras. Flávio passou por ele e sentou no chão gasto de madeira.

O homem ergueu o boné que cobria o seu rosto e o encaixou na cabeça, olhando curioso para o colega. Pensou durante algum tempo, fazendo Flávio vez e outra o olhar incomodado, até que impaciente, moveu a cabeça duas vezes para cima indagando o que ele tanto olhava. Com seu jeito encabulado e sua voz grave, Zezinho trovejou de supetão, questionando o amigo.

— Rapaz... — coçou a cabeça por cima do boné. — Você estava num converseiro medonho ontem enquanto dormia, quase que não me deixava pregar o olho com tanta zuada — observou com a voz se arrastando.

— Eu? Foi mesmo? — falou surpreso.

— E não é o que estou dizendo?! — interpelou zangado, enquanto Flávio sorriu.

— O que eu dizia?

— Você estava conversando com uma mulher, pelo jeito. — Franziu a sobrancelha.

— Será que sonhei com Antônia e não lembro?

— Não sei se era ela, mas você falou uns negócios de chá. Que queria lembrar, encontrar... sua voz estava muito embuluada, não deu para entender muita coisa.

— Hummm — emitiu curioso.

— No começo foi uma gritaria, não sei como não acordou todo mundo. Você dizia: tem alguém aí? — Cruzou os braços e continuou preocupado. — Isso é estranho, dormir perturbado assim não é normal. Dizem que é um espírito zombeteiro.

— Que conversa mais sem futuro, Zezinho.

— Bom... Eu falei porque me preocupo. Agora, até que você anda acordando satisfeito para ser espírito — observou.

— Não tem nada melhor para fazer do que ficar acompanhando meu sono? Virei novela, por acaso?

— Deixe de ignorância, eu cheguei a pensar que fosse o espírito do faroleiro pedindo água para a mulher e o filho, sabe que ele já me apareceu perto do farol. Com uma morte tão trágica igual a deles, essa família não vai descansar a alma nunca, precisa de muita ajuda para encontrar o caminho. Eu já disse que me preocupo com essas coisas. E se for algo do mal e fazer você ficar mal? Não pensa nisso? — Arregalou os olhos para Flávio.

— Lá vem você com essa conversa de novo do espírito do faroleiro e do que não existe. Deixa isso pra lá, conversa mais sem pé, nem cabeça — irritou-se.

— Vocês não acreditam, mas não foi só uma vez que ele me apareceu pedindo água para mulher e o menino. Aquele farol é mal-assombrado, igual a ilha do cemitério.

Tony chegou na pequena varanda e após três tapas na barriga, expeliu três gases barulhentos, fazendo Flávio e Zezinho correrem dali. Tony gargalhou da traquinagem, sabendo que todos se revoltam com sua disposição para flatulência em público.

— Zezinho estava conversando tanta merda de faroleiro, que me deixou inspirado — gritou da cabana para os colegas. 

ஜ|RECADINHO DA AUTORA|ஜ

Mais um pedacinho de Te Espero Nos Meus Sonhos para vocês.

A uma está voando na Amazônia e não me canso de agradecer por tanto carinho.

Já tem alguém shippando Miranda e Flávio por aí? 

Até quarta meus amores!! ✿◕‿◕✿

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