ஜ|Capítulo 02|ஜ


Após Miranda vestir um conjunto moletom vermelho com listras pretas nas laterais da roupa, deitou na cama exausta. Assim que fechou os olhos e adormeceu, ouviu alguém gritando como se estivesse conectado a ela.

— Oi! — A voz de Flávio ecoava pela Ilha do Farol. — Tem alguém aí?

Ao ver uma figura no horizonte, correu em sua direção. Desejava que fosse ela, precisava ser ela. Foi chegando perto até ficar a alguns centímetros daquele sorriso encantador, respirou aliviado e sorriu de volta.

— Você estava me chamando? — perguntou com um tom de voz de quem enxergava a situação como divertida e incomum.

— Eu queria te encontrar de novo.

— Por quê? — Quis saber.

— Me senti bem o dia inteiro, mesmo sem lembrar de você. Preciso ter controle sobre isso.

— Estou surpresa por te encontrar de novo — confessou. — Freud diz que os sonhos são a realização de um desejo inconsciente. Você voltar nessa dimensão sem dominar a viagem astral mostra o quanto deve querer isso, e também que é bastante obstinado — observou impressionada.

Ele sabia que era exatamente assim, alguém obstinado.

— Você me levaria a outro lugar agora? — perguntou, mudando o assunto

— Não sei se isso funciona em dupla, e acredito que, pelo menos, você precisaria lembrar de mim acordado para sairmos por aí.

— Como lembro de você acordado?

— É provável que o chá de ayahuasca te faça lembrar.

— Só isso? Um chá?

— Não é só isso. Também não é possível preparar e beber sozinho — alertou. — Faz parte de um ritual que pode ser do Santo Daime ou Xamânico, onde um padrinho irá administrar o chá para você tomar em segurança.

— Você já fez?

— Sim.

— Do que precisava lembrar?

— Não é para memória. — Miranda sorriu. — É para compreender toda a sua vida, expandir sua consciência, enxergar seu próprio eu, vejo como uma terapia espiritual. Para algumas pessoas não é um processo fácil se olhar realmente no espelho, porque você acessa tudo o que viveu, pode até acontecer de ter recordações de vidas passadas. Mas aviso, encontrar respostas não mudam sua realidade.

— Quando eu voltar para a cidade você poderia me encontrar e me dizer para tomar.

— Foi divertido imaginar como isso seria. — Arqueou as sobrancelhas e comprimiu os lábios numa expressão de incredulidade. — Oi! Nós nos conhecemos durante o seu sonho e te trago uma mensagem, tome chá de ayahuasca para lembrar de mim.

— Lembrei de você hoje. — Olhou sério para Miranda. — Não sabia que era você, mas eu ouvi o som da sua risada diversas vezes.

— Da minha risada? — perguntou curiosa.

O sol começou a nascer. Ele não olhou os raios surgirem no horizonte e colorir o céu, ficou perdido na luz dourada que iluminava Miranda e acendia os olhos castanhos que carregavam muita tristeza. Ela olhou a aliança reluzindo no dedo dele e desviou o olhar, Flávio baixou o rosto por um momento e voltou a observar a mulher. Precisava registrar cada detalhe, não sabia quando a encontraria novamente.

— Não voltarei aqui.

— Preciso que volte.

— Não sei onde isso vai dar, e algo me diz que não é certo.

— Não queria falar sobre isso aqui, parece um bom lugar para fugir da realidade, e quando eu falar, o desgaste emocional que sinto virá para cá também — explicou antes de revelar. — Perdi minha esposa e não sei como conviver com o luto, de alguma forma, acredito que este plano pode me ajudar.

— Sinto muito... — murmurou.

— Não é sua culpa, mas agradeço.

— Não tem como separar, pelo contrário, todas as suas memórias virão à tona aqui. Mas o principal que tem que saber é que a vida tem que ser vivida no mundo real.

— O som da sua risada é tão alegre, mas seus olhos não conseguem esconder a tristeza que carrega. Vem pra cá exatamente para fugir, dá para perceber.

— Está certo em parte, mas ficar aqui não mudou o que aconteceu. Também não quer dizer que seja certo e que deva se espelhar no meu erro. Faz terapia ou procura alguém que realmente vai te mostrar os benefícios disso aqui.

— Eu fiquei bem hoje, então deu certo. — O sorriso singelo de Flávio brilhava tanto quanto seus olhos, Miranda sorriu também.

— Melhor que álcool, não é?

— É... — concordou. — Você vem amanhã?

— Sim. — Sorriu envergonhada diante da ansiedade dele em encontrar ela novamente.

Miranda se afastou e sumiu.

Flávio despertou preocupado por não entender ao certo o motivo para estar leve. Remexeu a cabeça no travesseiro e deixou os olhos parados no lastro da cama de cima. À medida que vasculhava a memória em busca de lembrar o que sonhou, esfregava a testa com as pontas dos dedos.

Jorge sentou na cama de cima, fazendo o beliche balançar. Alinhou o corpo e saltou para o chão. Falou "bom dia!" para o colega de um jeito monótono, depois saiu estranhando que ele ainda estava na cama.

O guarda ergueu a mão em frente ao rosto e olhou para a aliança, girou ela em seu dedo durante o tempo em que pensava. Ao sentar no colchão, tirou o anel que simbolizava seu compromisso de casamento e colocou na corrente de ouro que usava.

Enquanto se vestia para o trabalho, Miranda lembrava do encontro da noite anterior com Flávio, dele falar que queria lembrar dela e da ideia de se verem novamente. Se perguntou se isso fosse possível, qual seria o lugar que ele gostaria de ir. Um restaurante aconchegante, um barzinho, um lugar para dançarem... que tipo de música prefere ouvir, se os seus gostos seriam parecidos, se era vegano, já que aparenta ser bem naturalista.

Apesar de apreensiva, a ideia de se envolver com alguém era animadora, pois há algum tempo se sentia sozinha. Mesmo sabendo o alívio que foi separar, pois o relacionamento trazia cada vez mais desentendimentos, em alguns momentos se perguntava se não foi impulsiva em pedir o divórcio, pois o silêncio da casa às vezes incomodava mais que a convivência conflituosa.

Ser solteira aos 36 anos não era agradável para uma alma romântica. Morar só, não ter com quem dividir os problemas e o pior: só apareciam pretendentes sem a menor disposição para algo que fosse além de uma noite.

O telefone tocou sobre a cama e a médica sorriu ao ver o nome da amiga no identificador de chamadas.

— Estou diante de um milagre? — brincou Miranda ao atender.

— Amiga... — Geórgia falou com a voz doce. — As crianças me enlouquecem e consomem todo o meu tempo — justificou.

— Sabe que estou brincando, não é? Aliás, bom dia!

— Bom dia! — respondeu com animação. — Então, como foi na delegacia? Tem certeza que não seria melhor ter ido acompanhada de um advogado?

— Foi como imaginei. Contei a verdade e assinei minha declaração. Porque precisaria de um advogado? — A amiga respirou pesado com a pergunta.

— Como o delegado te tratou? — ignorou o questionamento de Miranda.

— Normal. Fiquei nervosa, pois não tem como não ficar. Ele fez as perguntas e respondi.

— Você acha que será processada? — perguntou apreensiva.

— Sinceramente, não sei — confessou num tom de voz desanimado.

— Como está se sentindo?

— Aliviada por finalmente ter chegado às autoridades.

— O hospital te procurou?

— Sim. Eles querem burlar a investigação.

— Você não tem medo de contrariar essa gente? Porque, sei lá, né... — falou sem encontrar as palavras.

— Acredito que eles não seriam capazes de tanto, pelo menos espero que não.

— Mesmo assim, não me confio.

— Eles respondem a tantos processos. Se fossem matar quem é contrário a eles, o gasto seria maior. Assassinar alguém não deve ser barato — refletiu.

— Devo estar assistindo muitos filmes. — Riu de si mesma.

— É bem provável — concordou sorrindo. — Nem preciso te recomendar para não comentar com ninguém, não é?

— Deixo claro que é contra a minha vontade, mas não precisa me recomendar. Seu segredo está bem guardado comigo. Só que...

— Eu sei. — Miranda interrompeu. — A cidade é pequena e logo irá se espalhar entre os conhecidos.

— Isso mesmo. — Georgia confirmou.

— Por enquanto, prefiro assim — assegurou.

— É que Renato...

— Não sou mais casada com Renato — lembrou interrompendo Georgia. — Somos amigos, mas não quero o envolvimento dele nos meus assuntos. Sabe disso — esclareceu. — Também não será ele o advogado, caso chegue a um processo.

— Nem brinca com isso.

— Uma pessoa morreu, Geórgia.

— Amiga, não vamos falar disso agora. Temos pontos de vista diferentes e está muito cedo para um debate.

— Traduzido: você me ama e morre de medo que eu seja presa.

— Ué, você não tem medo?

— Claro que sim, mas prefiro deixar tudo esclarecido.

— Seu senso de moral acaba comigo.

— Você e todos à minha volta. É uma pena que não entendam o quanto isso me sufoca.

— É que você não tem culpa! — protestou aumentando o tom de voz.

— Então, não precisa ter medo — disse calma.

— Inacreditável... — bufou do outro lado da linha.

— Preciso ir.

— Certo, mas vê se esquece um pouco essa história e tenta se divertir. Combinado?

— Combinado — concordou. — Beijo!

— Beijo!

Desde que deixou de ser casada, não encontrava as amigas com tanta frequência. Digamos que o ambiente ficou familiar demais para ela. Ir ao aniversário de dois anos de uma criança sem ser mãe ou não ter um marido era um calvário. Além de precisar dividir a mesa com algum casal mostrando toda plenitude do casamento, era bombardeada com as mesmas perguntas: "casa quando? Tem volta com o ex? Não sente falta de um homem em casa? Quando vem um amiguinho para nosso filho?"

A verdade é que a situação no casamento estava insustentável com as queixas do marido sobre os sogros. Renato implicava constantemente por eles tomarem muito do tempo que ela tinha disponível, o que era uma desculpa para acobertar seu comportamento infiel. O real motivo da separação foi as inúmeras traições que ela descobria e deixava rachaduras no casamento. Miranda também não conseguiu mais engolir a mesma justificativa, onde ele questionava sua ausência, numa tentativa reprovável de amenizar a própria falha de caráter.

Renato era um advogado talentoso e sempre conseguia reverter a situação ao seu favor, colocava a culpa por tudo o que acontecia na relação com a médica. A gota d'água, foi quando surpreendeu ele na cama em que dormiam juntos, em plena atividade sexual com a vizinha, algo que não desejaria a ninguém. Costumam dizer que o que os olhos não veem o coração não sente. Não é que não sentia o peso da traição, mas flagrar ele com outra na própria cama, foi imperdoável.

Mesmo depois de tudo e da grande confusão que foi a separação, mantiveram a amizade que tinham antes de serem um casal. Apesar de Renato insistir em manter o casamento, não houve acordo. No entanto, ele continuou mantendo Miranda por perto na esperança de que ela cansasse de ficar só, enquanto este dia não chegava, ocasionalmente se encontravam para beber um vinho.

Naquela manhã, Miranda não queria pensar em Renato, nem nos encontros fracassados ou nas festas infantis infernais. Queria pensar em Flávio. Ele parecia um lindo horizonte com uma estrada de tijolos amarelos para um lugar mágico. O único "porém", era que a situação inusitada que os envolviam não dava margem para que algo mais acontecesse.

Pensou ser até ridículo acreditar que poderiam de fato se encontrar pessoalmente, além de não existir a certeza de que se veriam outra vez. A noite passada foi uma grande surpresa, assim como Flávio dizer que a procurava. Por um momento supôs que ele fosse do tipo do Renato quando percebeu a aliança e, apesar de não desejar a morte de ninguém, ficou feliz em descobrir que era viúvo, que não estava em busca de uma aventura fora do casamento.

Um sorriso bobo iluminou o seu rosto, e acabou sacudindo a cabeça negativamente por estar seguindo essa linha de pensamento. Uma história de maluco, foi como definiu o que aconteceu com ela e Flávio. Certamente iria ao Atol, a curiosidade de saber aonde essa história daria é mais forte do que o bom-senso.

O celular vibrou.

Renato: Bom dia!

Vinho hoje?

Dizia as mensagens que recebeu no aparelho enviadas pelo ex-marido. Sabendo o quanto o encontro iria render e sua intenção era ir para a cama cedo, recusou sem pensar duas vezes. O que seria uma grande novidade para o advogado. Tinha um encontro mais interessante e certamente não o trocaria por Renato.

Miranda: Bom dia!

Durmo cedo hoje.

Renato: Não vai me encontrar para dormir cedo?

Mentira!

Vai sair com quem?

Miranda: Não vou sair, apenas ando cansada.

Renato: Mais um motivo para me ver.

Massagem.

Vinho.

Eu.

Sua noite será incrível!

Miranda: Passo.

Agradeço a oferta.

Renato: Sério?

O vinho foi bem caro.

Última chance.

Na verdade, estou implorando.

Miranda: Indo trabalhar.

Depois nos falamos!

Beijos!!

A médica sorriu com o desespero do ex-marido, por fim desligou o aparelho e foi assumir o plantão no pronto-socorro contando as horas para voltar a dormir.


ஜ|RECADO DA AUTORA|ஜ

Preciso confessar algo antes de qualquer coisa.

Quando postei o capitulo da semana passado percebi que teve leituras pouquíssimas. Fiquei pensando que não tinha gostado da história, sumiu todo mundo. Acontece que não aguentaram e correram para baixar o livro completo na Amazon e estão maratonando e a obra já consumiu 1k de leituras!! 

Eu fico muito feliz com isso viu, vocês nem imaginam!! Obrigadaaaaaaaaaa

Quem estiver por lá, deixa a avaliação no site para ajudar a autora.

Também me sigam pelo Intagram deamatreautora, amo encontrar vocês lá. Hoje a  SolangeJunior sol  fez um stories lindoooo. Amei Sol, obrigada!!

Estou com medo de perguntar o que acharam e soltarem spoiler kkkkkkkkkk

Até quarta da próxima semana! Beijoooooossss ✿◕‿◕✿

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