Capítulo 4 - Primeiro Beijo

Marjorie entrou em casa e sentiu o cheiro maravilhoso de uma daquelas comidas excepcionais que Ceci fazia. Foi direto pra cozinha.

- Meu Deus! Estou morreeeeendo de fome! Andar abre o apetite.

- Onde você estava? Quando eu acordei, você já não estava mais em casa.

- Fui dar uma volta pela cidade. Saber o que acontece por aqui.

Marjorie encheu um copo de água.

- Água é tudo. – levantou o copo – Saúde!

- Conte as novidades de Rio das Almas.

Marjorie sentou à mesa da cozinha.

- Vamos ao relatório: pelo visto a cidade virou um centro gastronômico da melhor qualidade, mas isso a gente já sabia. O que eu não tinha noção era como tudo aqui é bem promissor. Fui tomar café na Pedacinho do Céu. O garçom ,Gérson, muito solicito e charmoso, bateu um papo comigo entre um cliente e outro. Descobri que daqui a três dias vai ter a festa de Santo Antônio, que por sinal é padroeiro da cidade.

- Eu lembro. Eu lembro. A festa de Santo Antônio é um espetáculo. Movimenta a cidade de várias formas: economia, religião, turismo. Vem gente de vários lugares do estado. E até de outras regiões do país.

- Ceci, é a nossa chance de desencalhar. Podemos fazer como aquele filme em que a Fernanda Torres põe o santo de cabeça pra baixo pra conseguir um casamento.

Risos.

- Ela põe o santo de castigo! A Marvada Carne!

- Que filme velho, hein.

- Foi você quem lembrou o filme, Marjorie.

- Foi o Pietro, lembra? Aquele namorado que fez cinema. Ele que me apresentava essas preciosidades.

- Eu lembro que em dia de Santo Antônio a cidade parava. Era uma das datas em que mais vendíamos, junto com o Natal.

- Só que tem mais coisa, querida Ceci.

Marjorie se aproximou, chegou perto do ouvido de Ceci.

- Daqui a um mês mais ou menos vai ser a Noite do Tango Argentino.

- Noite do Tango Argentino?

- É foi o que eu falei. Parece que é também uma tradição da cidade agora, esta noite do tango. E é promovida pelo seu amigo, Afonso Magario.

- Não brinca! – Ceci estava surpresa. Sentia uma ebulição de emoções dentro dela.

- Ceci, nós vamos à festa de Santo Antônio e ao Tango Argentino.

- Com certeza! Vai lavar as mãos que eu vou botar a mesa.

- É pra já.

Ceci pensou no passado novamente.

Acho que consegui enterrar as mágoas no funda da minha alma de vez.


Passado...


Estênio

Entrei na Pedacinho do Céu com Vanessa a tiracolo.

Eu gostava muito da Pedacinho do Céu. Ainda mais que tinha Cecília. Aquele era o melhor lugar do mundo.

Forcei a barra pra irmos ali comer algo, antes de qualquer farra. Às sextas-feiras, as noites eram longas e não tinham hora pra acabar. Eu entrei lá com Vanessa pra ver qual ia ser a reação de Cecília. E não podia ter sido melhor.

Eu estava com Vanessa agarrada a mim. Sentamos dentro do café. Cecília vinha carregando uma bandeja toda sorridente. Quando nos viu, a mão tremeu. A bandeja com suco e bolinho foi direto pro chão. Ela se desculpou, sem jeito e saiu correndo lá pra dentro toda envergonhada.

Confesso que fiquei empolgado com o nervosismo dela.

Foi golpe baixo usar a Vanessa pra ter certeza que Cecília me correspondia. Mas eu precisava dessa certeza pra continuar o que eu tinha planejado.

Depois de passar mais de três semanas incentivando-a pelo toque, pelo flerte, aquela coisa mal acabada que a gente levava depois da aula pra casa e ficava na nossa mente em todos os momentos enquanto estávamos longe um do outro, eu não podia mais esperar. Arrisquei, porque é de mim arriscar.

Uma funcionária limpou tudo, depois veio nos atender.

- Olá, já escolheram?

Eu respondi:

- Sim. Eu quero que quem atenda a gente seja a Ceci.

A menina fez cara de quem não entendeu.

- Eu quero a Ceci, por favor.

A menina saiu com cara de poucos amigos.

- Que é isso, Estênio? Insistiu pra vir aqui por conta da garçonete? – Vanessa inquiriu-me indignada.

- Sim.

- Me convidou por que queria provocar a garota?

Eu não respondi. Estava na minha cara que era isso mesmo.

Vanessa tinha a decepção estampada no rosto, pensando, provavelmente, que eu era um bom filho da puta.

Eu estava sendo um no fim das contas.

Ela levantou-se sem falar nada, virou as costas e saiu.

Ceci veio vacilante. Não olhou diretamente para mim, nem sorriu como estava fazendo quando chegamos.

- O que deseja?


Ceci

Como eu estava nervosa com ele ali, me olhando fixamente.

Meu corpo reagia à presença dele de uma forma que eu não podia controlar.

Eu perguntei de forma seca, sem olhar para ele:

- O que deseja?

- Você. – ele disse.

Nossos olhares se encontraram.

Meu coração disparou. Minha respiração se descontrolou. Ele devia estar brincando comigo. Semanas e semanas praticando tango com ele e nada de aproximação, nem um tchau na saída. E agora isso.

A raiva tomou conta de mim. Eu virei as costas pra sair e, de repente, senti uma mão pegar meu braço e sair me rebocando para o corredor que levava aos banheiros.

Seu corpo prendeu o meu à parede. Ele segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou.

Foi intenso, doloroso, necessitado.

Perdi a cabeça.

Minhas mãos voaram em seus cabelos, enquanto eu dava o beijo mais selvagem da minha pouca experiência. Eu sentia meus seios colados em seu peito. O corpo todo dele estava tenso, duro. Eu sentia a excitação dele e a minha comandarem nossas atitudes. Não importava que alguém aparecesse ali e nos pegasse no flagra. Aliás, nada importava além de nós dois.

Que gosto delicioso.

Nossas bocas se separaram devagar. Eu ainda fiquei de olhos fechados, tentando me recuperar. Quando os abri, Estênio estava tão próximo que eu sentia sua respiração em minha testa. Ele aproximou a boca do meu ouvido e sussurrou:

- Dispensa sua carona porque, hoje, quem vai te levar pra casa sou eu.

Ele se virou e saiu, me deixando úmida e sem ar.

Estênio

Se tudo desse certo nos exames, faltaria um pouco mais de um ano e meio pra eu ir embora. No início, a ideia de morar nos Estados Unidos me animou muito. Eu estava tendo uma oportunidade que muita gente por aí gostaria de ter. Só que as coisas mudaram e eu, realmente, não queria sair do Brasil. Eu não queria sair nem de Rio das Almas!

Essa noite daria o tom da minha relação com Cecília. Eu saí do café sem que ela desse uma palavra sequer. Ali, eu ditei as regras e não dei a ela a possibilidade de reagir. A forma como ela correspondeu ao meu beijo, me deu segurança o suficiente para agir do jeito que eu queria no calor do momento. Só que agora, ela já deveria ter esfriado a cabeça e, talvez, tenha me achado um abusado, tenha percebido que tudo foi um engano. Sei lá. Eu estava inseguro. Esta era a mais pura verdade.

Cheguei cedo ao estúdio. Troquei de roupa e esperei. Esperei 10, 20 minutos, meia hora, uma hora, uma noite inteira...


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A Marvada Carne é um filme de 1985, dirigido por André Klotzel . Ganhou onze prêmios no Festival de Gramado, no mesmo ano em que foi lançado, incluindo Melhor Filme pelo Júri Oficial e pelo Júri Popular.


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Será que agora o romance desses dois vai esquentar?


Oi, meus lindos.

Estão gostando?

Tomara que sim.

Curtam e comentem.

Bjs.

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